sexta-feira, 29 de agosto de 2003

que mundo interior é este?

enchi a noite de risos nervosos porque não vieste. como podem tantos músculos quase inúteis servir de terapia de uma alma que por vezes me parece tão frágil? tão pouco musculada... que moléculas são estas que tomam atalhos para camuflar a tua falta?
de manhã quando acordei esperei a ressaca quí­mica que afinal não veio. sinto-me clean. maravilhas das máquinas velhas que a farmacogenética persegue tropeçando.

para os mares de amanhã

A construção de um navio
requer harmonias
e razões inéditas.
Para que seu leme
perceba um destino,
exige-se a prontidão cívica
dos sonhadores.
Um convés que comporte
a salinidade sob estrelas
e um rumo que o norteie
para além da precisão da noite
Faz-se isso necessário,
para que o brilho
de sua história se concretize
E o processo de velejar
sobre os matizes,
o incorpore à ruidosa
estação do mar,
que o tange para sempre,
para além da noite
e da vertigem

Francisco Orban

quinta-feira, 28 de agosto de 2003

a mão esquerda de leonardo

ao escrever com a mão direita, leonardo da vinci expressava os resultados do estudo e da reflexão crítica; escrevendo com a mão esquerda, da direita para a esquerda, traduzia o que lhe vinha à mente espontaneamente.

agrada-me a ideia de imaginar um blog (ou dois?) escrito(s) desta maneira.

sempre tive um certo fascínio pelas mãos esquerdas. não me perguntem porquê.

quarta-feira, 27 de agosto de 2003

hum...

hoje pareceu-me ver o cientista espreguiçar-se. ainda estranhou o mundo, leu as noticias das revistas e virou-se para dentro. como parece estar longe o mundo imaginado mostrado pela june goodfield. há 20 anos as coisas pareciam diferentes. vai tentar acordar mais logo. aí, vai pintar os olhos da cor da criança curiosa e vai tentar "responder perguntando como à ciência compete".

terça-feira, 26 de agosto de 2003

read my lips

ainda acredito que o melhor está para vir. acredito nesta viagem que mal começou ainda e que tem um plano simples: vamos de mãos dadas. tenho a certeza que vais saltar para me apontares a bicicleta que passa com um passaro louco brincando na roda e assim ecoando uma gargalhada pela rua abaixo. eu vou olhar-te a vontade, a traquinice de menina, a estoria que sobrou para me contares e assim me rendo, teu.

segunda-feira, 25 de agosto de 2003

domesticado

Do alto da colina desenhada a raposa profere
o seu apprivoise-moi, mata-me o olhar, o pensamento,
mata-me por dentro, arranca de mim o respirar
de todos os azuis e o tempo anterior em que eu não soube.
Envenena os trigais com a tua ausência
e eu morrerei também se os habitares.
Seguir-te-ei no vermelho do deserto
onde as serpentes sonham e se escondem,
nas colinas amargas da cidade, no verde tardio
das marés. Não existo senão no fim do mundo,
não existo senão nesta cadência que soa pelo ar
e desce os montes e inunda com força a terra plana
até que nada exista. Não tenho coração
senão para que tu o apunhales e vires a lâmina para o sol
e digas, ei-lo, o escarlate inútil deste amor apprivoisé,
a imensa distância da paixão, o desprezo
da morte que apodrece.

Cresço de repente e sem traição.
E tudo começou pela tua ausência.


A raposa de Saint-Éxupery - Isabel Cristina Pires

terça-feira, 19 de agosto de 2003

espreito o pateo da rua da sofia

ainda sinto a tua mão,
ainda te adivinho os reflexos e as sombras,
ainda escuto as palavras que ficaram no pateo da rua da sofia
a mais bonita
pelas pessoas
pela pressa
pelos olhares que levavam chita
e talheres e cobertores
enxovais para as moças namoradeiras

e o teu olhar parado no pateo
alheio ao buliço e às horas

tenho o teu sorriso em kodachrome
e não acredito que tenha existido

e em cada dia compreendo mais uma palavra
da casa, do rio, do jardim, da praia
e tambem do pateo
apesar de serem poucas
disseste-as?

do mais fugaz olhar,
do mais distraido carinho
bebo agora o que preciso para continuar.

mais um verão que volta
mais um ano cheio de dias teus.

segunda-feira, 18 de agosto de 2003

marcel

viveu em aruba, regressou à holanda e quer voltar às antilhas. conheci-o no ultimo natal. prometida estava a aventura de uma travessia do atlântico no veleiro que reconstroi pachorrentamente. a minha condição: aprender, preparar-me e fazer essa viagem com o espirito de um peregrino. não tenho nenhuma experiencia de água depois da natação que abandonei há mais de 20 anos.

na ultima semana meteram-me um iate de 9 metros (e 10 toneladas!!!) nas mãos para dar a volta à  holanda. no primeiro dia tive a sensação que deve ter um elefante numa loja de cristais. no segundo dia o marcel veio fazer-nos uma visita. veio ensinar-me a calma. quase tudo manobras simples. pouco mais que bom senso. mas, acima de tudo calma. acho que deve ser vulgar os elefantes perderem a calma depois dos primeiros estragos. quando o marcel se despediu eu tinha aprendido a calma. ao quarto dia, o nuno teve problemas no motor do iate dele. o christian, com o seu iate-mãe pronto para rebocar, ficou com ele à  espera do apoio técnico. eu rumei a amsterdão para assegurar lugar na marina de six haven. entrei sozinho no porto de amsterdão. parecia-me surreal. como é que cheguei a esta situação? como fui capaz de enfrentar (é mais correcto dizer evitar) os cargueiros, os veleiros e os ferry-boats? com a calma que recebi do marcel. tenho a certeza que entrei no porto de amsterdão com o seu olhar, a sua atenção despreocupada e o seu bom humor. na marina de six haven manobrei com destreza (pura sorte não ter de passar cheques àquela gente toda pelos estragos!!!). à noite, quando bebiamos à chegada dos amigos exaustos com os problemas do dia, foi pelo marcel que brindei.
no resto da semana pude apreciar a viagem como se fosse um velho lobo do mar. depois, misturei o enjoo de terra com as saudades dos dias no barco.

a esta hora, o marcel deve estar a levar um cargueiro no trajecto londres - roterdão - hamburgo. espero acabar brevemente de escrever a carta em que lhe dou conta do orgulho que tenho em receber os seus ensinamentos e da ansiedade que já sinto pela próxima vez em que vamos navegar juntos.

quinta-feira, 7 de agosto de 2003

atrevo-me a dizer-te...

ainda bem que estás aí­. ainda bem que nos acrescentamos. haja o que houver...

mario, ainda ai estas mario?

da rapida passagem por madrid trouxe as tuas ultimas letras. ainda ai estas mario? e o que faco agora entre a avó flora e paul (paulo?!)? gosto de te ler as utopias. dá-me um sinal se puderes...

quarta-feira, 6 de agosto de 2003

roterdao

imagino o marinheiro querelle de rainer werner fassbinder . nao vi marinheiros. um porto convertido ao design para consumo. o dia expoe pecados que a noite esconde. chegam-me mensagens de inquietacao. tu ainda nao recuperaste o ritmo dos dias, dorme meu amor dorme. e come chocolates. nao ha no mundo mais metafisica que num chocolate.

Aruba

com os corpos quentes quem se vai lembrar de te ler a alma?

domingo, 3 de agosto de 2003

nao me apetecem os flamengos

amanha quando sair em shiphol nao quero ter rembrants nem van goghs à espera. tenho saudades do hundertwasser. apresentou-mo a martina brenden vai para uma duzia de anos. nunca visitei a casa-mãe. há um mês estava a banhos na alemanha geriatrica de baden baden. agora tenho que esperar por setembro para o ver em viena. a martina, alema democratica e refugiada nordica pela guerra, passava horas à frente do lenço do hunderwasser: a casa é o espelho do homem e da mulher. será?

quanto tempo falta para sermos outra vez?

morreram entretanto alguns demonios. respira-se melhor agora. a princesa dorme cansada de esperar pelo acordar...

do sentimento de pertença I

o luis fez-me pensar outra vez no blog. voltei. afinal, depois de cometer censura sobre escritos mais intimistas, sinto que pertenço a este espaço. visitei alguns blogs aconselhados e confirmei isso mesmo.
habituei-me ao conforto de uma familia com muita gente sentada à mesa. três gerações de volta da panela de Goethe. o conforto vinha da invisibilidade que sentia, dos silencios e palavras consentidas, do palco para estorias empolgantes ou dos retiros de dias inteiros gozados entre musicas e leituras que hoje diria shamanicas.
depois de passar tantos anos sem mais problemas de pertença, tentei convencer a mafalda da orginalidade do desalinhamento. natural, sem encenação.
na insegurança de quem guarda certezas absolutas aprendi com ela a reconhecer que afinal tenho procurado pertencer do mesmo modo. quando me indigno com a mais banal das noticias do canto de um qualquer jornal. quando ligo a televisão e sinto que nao pertenço ao que vejo. depois, de repente a comoção de ouvir o Andreas Scholl e achar que há um mundo a que pertenço pelo brilho, pela magia, pela fuga das banalidades.