sábado, 29 de novembro de 2003

sebastião uchoa leite (31.1.1935-27.11.2003)











Não me Venham com Metafísicas

o corpo e a matéria em prosa
aqui e agora
nada de primeiros motores
nada de supremos valores
isso fica para os filhos da pátria
nem francisco de assis nem santa teresinha
amai-vos uns sobre os outros
nada de temores e tremores
nem de noite escura da alma
a prosa é preferível
"sei de um estilo penetrante
como a ponta de um estilete". flaubert
é só isso

antilogia, 1979

sexta-feira, 28 de novembro de 2003

blogs de meninos maus
















ou como diriam eles, maus como nós:

ruy goiaba : pura goiaba
daniel pellizzari (da livros do mal): failbetter
césar miranda: pró tensão

do diário de bordo
















quando era miúdo, guardei para sempre na memória uma frase de valentia para enfrentar tudo o que é grande:

'é grande mas não é dois!'

hoje volto a lembrá-la noutro contexto.
a márcia maia é grande e é dois: tábua de marés (de poesia, arte e vida) e mudança de ventos (de prosa, arte e vida).

navegar é preciso...

quinta-feira, 27 de novembro de 2003

tempo!



















o tempo vencido pelo amor, a esperança e a beleza
simon vouet, 1627.
museu do prado.

elas venceram o tempo, o velho senhor alado. o tempo que destroi mundos.

o mesmo tempo que revelou a verdade sua filha (veritas filia temporis) vinda da profundidade: ela saiu de um poço, levando um espelho na mão enquanto o tempo a mostrou nua ao arrancar o véu que a cobria.

o país do ainda-não

No dia em que alguém faz anos, pensamos no passado e no futuro, despertam-se memórias, criam-se esperanças. Quando o Teatro faz anos, não é diferente, todos têm recordações e desejos a seu respeito como a Maria que conserva, dentro de si, sensações, sentimentos e saberes de tudo o que nele viu e ouviu. Se umas vezes são as imagens que desencadeiam a reminiscência das situações vividas, outras são as palavras, os sons, os gestos que a levaram a repensar os temas, a reviver emoções e prazeres vividos durante cada espectáculo. Tudo o que viu, ouviu, sentiu e aprendeu faz hoje parte de si própria, ajudou a formar a sua sensibilidade, o seu gosto, aumentou o seu conhecimento, permitiu-lhe fazer novas leituras do Mundo, desvendar mistérios e, sobretudo, renovar-lhe o desejo de ir ao Teatro e de sonhar com o ''País do ainda-não''.


contos
uma tarde alucinante, texto de joão maria andré
tagv
foi hoje de manhã (!?) e eu não pude ir porque pensam que já aprendi o básico.

universos desfeitos












sei que não tenho o tempo a meu favor.
o tempo destrói os mundos
mas, não estou ainda preparado para aceitar que a extravaganza deu lugar a universos desfeitos.

casino 1942











ivone percorreu as salas do grande casino da figueira da foz, cumprimentou rapidamente os italianos que vira ao almoço e procurou orlando sem sucesso. sabia do seu desespero espelhado nos olhos dos empregados que a reconheciam da véspera, da euforia e da embriaguez da metamorfose. sabia orlando um sonhador, um veleiro sem porto. orlando jogava e ía às corridas. ela não queria os pescadores e a vida pequena. com ele aprendera a diferença entre passear na praia e atravessar a areia para trazer peixe.

(ao mesmo tempo, leitão de barros terminava ala-arriba para, mais tarde, passear os pescadores pelas salas de cinema de veneza e trazer dessa outra beira-mar um prémio aos amores proibidos)

demasia













demasiadas as manhãs
para tão poucos dias

correspondência








recebi hoje no mail a oferta do comprimido efervescente para o síndrome de bartleby!

patético














ao longo do tempo
ganhei a capadidade de perdoar
as mentiras patéticas
de um mundo que não imaginei
como se agora preferisse
que tudo fosse o que não parece

aquamatrix













olho perplexo a passagem do aurigário
sombrio como nunca o vi
da varanda de todos os dias

verto dos lábios a insípida água-mel
resistindo ao fogo
sobrevivendo à amenidade dos dias
ludibriando a inércia

segunda-feira, 24 de novembro de 2003

blogourmet













especialmente concebido por e para bloggers e sob a gerencia do pc e da armanda (aba de heisenberg) abriu no sábado um espaço fantástico de convívio e excelente gastronomia.
a sofia d'a natureza do mal (en)cantou e surpreendeu com weil. o nuno e o sérgio (abas) tocaram piano e sax alto, respectivamente.
o luís disse ruy belo de modo a fazer corar o outro miguel cintra.
o hugo e a rita chegaram tarde porque o mustang deve apreciar-se devagar.
andré bonirre chegou com o convite numa mão e um saco de arroz na outra.
ninguém lhe acompanhou as boas maneiras.

sábado, 22 de novembro de 2003

um dia quando ...


















saber estas palavras dedicadas
e permanecer mudo de espanto

querendo no mundo mais querer
não saber
não saber quando

dos dias não saber quanto


Porque

Porque os outros se mascaram mas tu não
Porque os outros usam a virtude
Para comprar o que não tem perdão
Porque os outros têm medo mas tu não.

Porque os outros são os túmulos caiados
Onde germina calada a podridão.
Porque os outros se calam mas tu não.

Poque os outros se compram e se vendem
E os seus gestos dão sempre dividendo.
Porque os outros são hábeis mas tu não.

Porque os outros vão à sombra dos abrigos
E tu vais de mãos dadas com os perigos.
Porque os outros calculam mas tu não.


Sophia de Mello Breyner Andresen, Mar Novo (1958)

Si, si, lasciami







arcadia, andreas scholl.
cantatas.
cd e sacd.
decca, 3 novembro 2003.

Daliso:
Si, si, lasciami, ingrata,
ma pria rendimi il cor.
Sei tu selce spietata
priva di senso e ardor.


agendado para o porto capital europeia da cultura 2001, andreas scholl acabou por não fazer parte do programa oficial. continuamos à espera de um concerto em portugal.
o próximo arcadia tour ainda não visita o nosso jardim.
estreia em viena a 23 de janeiro de 2004.
seguem-se berlin, zurique, amesterdão, roterdão, utrech, londres, munique, colónia, metz, bordéus e lyon.
para quem pode!

oops...










receita para montanha russa:

eugénio de andrade - um qualquer (escolham!)

heiner muller - o anjo do desespero (relógio d'água)

ruy belo - poemas ditos por luis miguel cintra (assirio & alvim sons)

artur do cruzeiro seixas - obra poética, 2 volumes (quasi)

a ferida no pescoço (teatro), a partir do texto 'descrição de um quadro' de heiner muller.
encenação de susana vidal, teatrUBI: grupo de teatro da universidade da beira interior.
teatro académico de gil vicente, 21.11.2003.

brecht por muller













BRECHT

Em Verdade, ele viveu em tempo de Trevas.
Os Tempos ganharam em luz.
Os Tempos ganharam em trevas.
Quando a Luz diz: Eu sou as trevas,
Disse a Verdade.
Quando as Trevas dizem: eu sou
A Luz, não mentem


Poema de Heiner Muller

quinta-feira, 20 de novembro de 2003

noticías para o porto














ao enviar notícias do porto para a mafalda que está no porto (não vá ela perder o que não gostaria de perder), alinho excertos da entrevista de quintanilha ao público (local porto) do último domingo. ele, um outsider do porto, pensa e sente o porto como ela começa a pensar e a sentir. é um dos professores preferidos.

entretanto, cruzo-me com eugénio de andrade.
não resisto a lembrar aqui o que todos sabemos:

É urgente o amor.
É urgente um barco no mar.
É urgente destruir certas palavras,
ódio, solidão e crueldade,
alguns lamentos,
muitas espadas.
É urgente inventar alegria,
multiplicar os beijos, as searas,
é urgente descobrir rosas e rios
e manhãs claras.
Cai o silêncio nos ombros e a luz
impura, até doer.
É urgente o amor, é urgente
permanecer.


Urgentemente, Eugénio de Andrade.

alta de coimbra e companhia
















invejamos a volta pela alta do luís e companhia.
queremos ir também.
seria bom levar mais dois fernandos: o assis pacheco (com benito prada) e o namora (o fogo das noites escuras).
de qualquer modo, vão connosco quando vamos à alta.

quarta-feira, 19 de novembro de 2003

figueira da foz - 1942











corria o ano de 1942.
verão.
na figueira da foz pode ter acontecido o mesmo diálogo que mais tarde bogart e bergman imortalizaram no ecran.
provavelmente à mesma hora em que no estúdio burbank da warner em hollywood se rodava casablanca.

Yvonne: Where were you last night?
Rick: That's so long ago, I don't remember.
Yvonne: Will I see you tonight?
Rick: I never make plans that far ahead.


Casablanca, 1942.

bergman não foi sequer nomeada para um oscar.
em 1943, por quem os sinos dobram pareceu mais forte: .
de qualquer modo, foi jennifer jones de the song of bernadette quem dormiu com a estatueta nesse ano.

da natureza do mal













sei que são os demónios que te conduzem aqui
apesar das recomendações
sou mau como eles

apenas quero não ser o que agora sou
não ser como me vêem

vem se vieres por mal
pela natureza do teu/nosso mal

transparente
















dizes-me meu amigo
que tenha cuidado
que estou a ficar transparente

preocupa-te a minha exposição
e tens medo que não guarde
que não estime
que não proteja o que é só meu

não tenhas medo,
o que mostro é apenas uma dimensão
da escultura que também fazes
e não é este esquisso que nos revela

além disso
como sabes
o que aqui vês
é por natureza imaginado

segunda-feira, 17 de novembro de 2003

maria










cecilia
sophia
anna
maria
kalogeropoulos

mais ainda

magdalena
violeta
brunnhilde
floria
norma (ah a casta diva!)

ligeiro















chegas ligeiro
segues os passos dela
e chegas ligeiro
quando percorres o caminho dela
não a percorres a ela.

domingo, 16 de novembro de 2003

boa noite...












encontrado hoje ao deslizar no sonho:

A filosofia namora a ciência mas deita-se com a poesia.

lo fatal











cheguei a rúben dario pelas palavras de cesar vallejo. acredito que, se procurarmos com atenção, descobrimos as palavras dos poetas nos seus encontros, nas suas viagens ou nos seus contemporâneos. neste caso foi a biografia de cesar vallejo que serviu de atalho.

Dichoso el árbol, que es apenas sensitivo,
y más la piedra dura porque ésa ya no siente,
pues no hay dolor más grande que el dolor de ser vivo
ni mayor pesadumbre que la vida consciente.

Ser, y no saber nada, y ser sin rumbo cierto,
y el temor de haber sido y un futuro terror...
y el espanto seguro de estar mañana muerto,
y sufrir por la vida y por la sombra y por

lo que no conocemos y apenas sospechamos,
y la carne que tienta con sus frescos racimos,
y la tumba que aguarda con sus fúnebres ramos
y no saber adónde vamos,
ni de dónde venimos!...


Rubén Dario (Nicaragua, 1867-1916)

sexta-feira, 14 de novembro de 2003

gathering storm















gathering storm
oil on canvas
e. ablade glover.



busco ainda o que resta de todos os outonos:
os anúncios de vendavais,
os céus plúmbeos,
as chegadas e partidas dos infantes,
o tráfego de pássaros
que mentiram
nas despedidas

extermino assim
todas as memórias
dos anos de três estações.

mudar o mundo









afinal não é carl hancock rux que vai mudar o mundo.
talvez ele mude às 3 da manhã, não sei.

o espectáculo de rux é devastador.
devastador pelo respeito pelo público, pela inteligência, pelo bom gosto, pelos amigos, pelas palavras, pelos sons ou talvez por nada disto.
rux tem carisma e sente o que diz. a mistura de gospel e hip-hop resulta num transe que tem o seu auge na respiração que imprime a um parto, simbolo do encontro com o sublime (a primeira ovação da noite).
não é rux que vai mudar a vida cultural nos próximos anos. os americanos não vão dar a rux o que deram a al, aretha ou a prince. vai ser mais falado, mais ouvido, mais lido mas não vai sair de um circuito diminuto.

para mim, sobra-me ainda curiosidade.
curiosidade para ler a sua opereta pagã e ouvir o seu disco editado (rux revue, 1999) e o novo (apothecary rx com estreia mundial marcada para 15 de janeiro de 2004).

alguns gostam de poesia
















a propósito de um companheiro secreto espreitado por uma janela indiscreta:

Alguns --
quer dizer que nem todos.
Nem sequer a maior parte mas sim uma minoria.
Não contando as escolas onde se tem que,
e quanto a poetas,
dessas pessoas, em mil haverá duas.

Gostam--
mas gosta-se também de sopa de esparguete,
dos galanteios e da cor azul,
do velho cachecol,
brindar à nossa gente,
fazer festas ao cão.

De poesia--
mas que é isso a poesia?
Muitas e vacilantes respostas
já foram dadas à questão.
Por mim não sei e insisto que não sei
e esta insistência é corrimão que me salva.


Paisagem com grão de areia, Wislawa Szymborska.
Tradução de Júlio Sousa Gomes.
Relógio d'Água, 1998.

quinta-feira, 13 de novembro de 2003

tempestade













The Eye of the Storm
Oil on Canvas
by Ingrid Sthare



olhos nos olhos com a tempestade
atrevo-me a dizer olá

desconcertada
podes revolver-te agora
no abismo da tua tristeza
que o meu sorriso bastará
para enfrentarmos a luz

oh lord!












Rux himself is a Sunday-morning preacher conjuring Saturday night's fever, a
Pentecostal dadaist who works songs to spasm and collapse...Rux comes from the
tradition of African American crooners like Al and Aretha, who sandblast the
line between sexual and religious ecstasy.

(Village Voice)

um poeta, contador de histórias, um pregador e um provocador do hip-hop, Carl Hancock Rux deslumbra sempre com os seus espectáculos incendiários
(New York Times)

de tudo o que li sobre este rapaz ficou uma curiosidade enorme.
hoje vem ao tagv. não sei se devo confessar-me primeiro para comungar depois ou fechar os olhos, inspirar fundo e entrar no foyer como se estivesse numa festa do Bronx.

quarta-feira, 12 de novembro de 2003

correspondências










(...)
Regressas também tu, pastora sem rebanhos,
e sentas-te na minha pedra?
Eu reconheço-te; mas não sei que lês
além dos voos que se tecem nas quebradas.
Em vão pergunto à planura aonde bruma
hesita entre clarões e tiros sobre esparsos tectos,
e à febre oculta dos comboios rápidos
na costa que fumega.


Correspondências, Eugenio Montale
Trad. Jorge de Sena

aqui não
















não esperes encontrar aqui o que deixaste
agora é noite
chove continuamente
e da eternidade
sobrou apenas um murmúrio

terça-feira, 11 de novembro de 2003

fintas












o diogo (7 anos) tentou uma finta à  figo no treino de futebol. a bola fintou-o a ele.
resultado: entrada à  hora dos telejornais no hospital dos pequenitos. em pranto, a mamã telefona ao titio a pedir ajuda (para ela!).
o diogo aproveita para ter um mimo para aliviar as dores. a radiografia mima-o com uma bota de gesso a bem da tí­bia fracturada. reservo um lugar bem visível para um desenho a pintar nos próximos dias.
saída apoteótica com claque na recepção.
eu aplaudo também. uma hora (!!!) no meio de uma equipa fantástica: consulta, radiografia, gesso e recado para casa.
como é que eles fazem? o que é que eles fariam num hospital a sério?
espero que o novo hospital, que não há maneira de vir, tenha 365 inaugurações e na vez dos rolling stones pode vir o ba-bata-batatum!

segunda-feira, 10 de novembro de 2003

träume süsse












acredita nessa corte
que governa os teus dias desordenados
segue os dias de perto
procura os atalhos
aproxima a noite em que te despes
no mesmo fechar de olhos
pelo doce abandono
aproxima os sonhos
que cercam o teu peixe de aquário
revelados por cristais dormentes

Johann Sebastian Bach
3 Sonaten fur Viola da Gamba und Cembalo

Kim Kashkashian : viola / Keith Jarrett : cembalo
ECM

domingo, 9 de novembro de 2003

arco-í­ris













hoje chove e faz sol.
a avó falava-me em bruxas a pentearem-se.
o joão saldanha, indiano de ascendência lusa, dizia-me que nestes dias há casamentos de macacos.
a magia do sol e da chuva.
agora, quando começa a chover imagino hélia correia a escrever...
ela que depende da chuva para nos dar a magia em poesia e em prosa.

sábado, 8 de novembro de 2003

Palabras y presagios











Volver a unos versos de Cavafis, de Eliot,
como quien regresa a una casa que hace años fue nuestra.
Repetir las sílabas, iluminar los símbolos
como cerradas habitaciones, ventanas polvorientas
que ocultan un jardín perdido, árboles de la muerte.
Melancolia del regreso y miedo del vacío,
crujidos de madera, aletazos de sombras
y, de pronto, en un cuarto, perdida
como una vieja copa o un espejo empañado,
encontrar la clave de tu vida.
Palabras que te avisaron:'Un monótono día
sigue a otro igualmente monótono',
o te advertieron:'Nacer, copular, morir.
Eso es todo, eso es todo, eso es todo, eso es todo'.
Palabras que la velez y la noche me regalan,
presagios que no entendí, anunciadas derrotas.


poemas, juan luis panero
relógio d'água
julho 2003

green river - seattle













green river continuará, para mim, a ser o nome daquela que foi provavelmente a primeira banda grunge, o verdadeiro berço de jeff ament e stone gossard.
seattle continuará a ser a cidade do experience music project e dos pearl jam.
o resto vou fazer por esquecer como esqueci o bill gates.

as palavras dos outros
















não sei porque acredito na poesia
nada procuro as mais das vezes

mas sobram sempre palavras
palavras que não escrevo
por serem canções minhas
com as letras dos outros

ainda agora quando vadiava
encontrei versos imaginados
de poemas sem linguagem
por entre os gestos das magnólias
e os murmúrios das tílias
que agora canto e não são meus

quinta-feira, 6 de novembro de 2003

bambini



veneza, 6 de Setembro de 2003

o 60º festival de cinema a chegar ao fim.
a bienal de arte contemporânea a decorrer.
o anúncio da regata histórica para o dia seguinte.
a absolut com uma exposição fantástica no palazzo zenobio.

as crianças, alheias a tudo, brincam no tubo.
guardei este filme, a sua instalação/performance.
o seu desinteresse pela comemoração da entrega de chipre a veneza.
e absolut têm tempo para conhecer daqui a uns anos
talvez nos shots na faculdade.

noturno













De Occidente la luz matizada
Se borra, se borra;
En el fondo del valle se inclina
La pálido sombra.
Los insectos que pasan la bruma
se mecen y flotan,
y en su largo mareo golpean
las húmedas hojas.

Por el tronco ya sube, ya sube
La nítida tropa
De las larvas que, en ramas desnudas,
Se acuestan medrosas.

En las ramas de fusca alameda
Que ciñen las rocas,
Bengalíes se mecen dormidos,
Soñando sus trovas.
Ya descansan los rubios silvanos
Que en punas y costas,
Con sus besos las blancas mejillas
Abrazan y doran.
En el lecho mullido la inquieta
Fanciulla reposa,
y muy grave su dulce, risueño
semblante se torna.
Que así viene la noche trayendo
Sus causas ignotas;
Así envuelve con mística niebla
Las ánimas todas.
Y las cosas, los hombres domina
La parda señora,
De brumosos cabellos flotantes
Y negra corona.


José Marí­a Eguren

la danza de las horas


" Hoy que está la mañana fresca, azul y lozana; hoy, que parece un niño juguetón la mañana, y el sol parece como que quisiera subir corriendo por las nubes, en la extensión lejana, hoy quisiera reír. Hoy, que la tarde está dorada y encendida; en que cantan los campos una canción de vida bajo el cóncavo cielo que se copia en el mar, hoy, la muerte parece que estuviera dormida, hoy quisiera besar. Hoy, que la Luna tiene un color ceniciento; hoy, que me dice cosas tan ambiguas el viento, a cuyo paso eriza su cabellera el mar; hoy, que las horas tienen un sonido más lento, hoy quisiera llorar. Hoy, que la noche tiene una trágica duda en que vaga en la sombra una pregunta muda; en que se siente que algo siniestro va a venir, que se baña en el pecho la tristeza desnuda, hoy quisiera morir."

José María Eguren (Perú, 1874-1942)

apontamentos para uma tese de doutoramento sobre o matrix





smith - a liberdade, a paz, a verdade e o amor são construções humanas tão frágeis como o matrix. não existe qualquer sentido na vida. porque continuas a lutar?

neo - porque eu escolho.


quarta-feira, 5 de novembro de 2003

escassez



é lisboa nos teus olhos
é lisboa que me rouba
é lisboa
é por ela
ainda agora
é lisboa
quando tudo não parece
essa barca de estais ao transe
depois de sérgios e faustos navegantes
ou como diz o gastão
a


escassez

às vezes despedimo-nos tão cedo
que nem lágrimas há que nos suportem o
peso da voz à solidão exposta
ou
de lisboa no corpo o peso triste

às vezes é tão cedo que nos vemos
omitidos
enquanto expõe
o peso insuportável do amor

é tão cedo por vezes que lisboa
estende sobre os corpos o desgosto

com os dedos no crânio despedimo-nos


gastão cruz
transe: antologia 1960-1990.
relógio d'água, 1992.

fiquei a aquecer a tinta










fiquei a aquecer a tinta em que me afogo
e a escutar minha caverna alternativa,
noites de tacto, dias de abstracção.


antologia poética, césar vallejo
trad. josé bento
relógio d'água, 1992.

terça-feira, 4 de novembro de 2003

antigo testamento: a raínha de sabá visita salomão

Acabada a construção do templo do Senhor, Salomão construiu também para si um esplêndido palácio. O trono era de ouro e marfim e a baixela era do mais fino ouro. Os seus navios iam buscar nos países mais longíquos ouro e objetos preciosos de toda a espécie, como dentes de elefante e pavões. Em riqueza, excedeu todos os reis da terra.
De todos os países do mundo corria gente para ver Salomão e todos se honravam em lhe oferecer presentes. A rainha de Sabá, na Arábia, veio também a Jerusalém com grande comitiva para conhecer a sabedoria de Salomão. Quando o ouviu e viu toda a sua magnificência, ficou encantada e disse: "Na verdade, a tua sabedoria e a tua glória ultrapassam a fama que tinha chegado até mim. Bem-aventurados os servos que estão sempre contigo e ouvem as palavras da tua sabedoria! Bendito seja o Senhor, teu Deus, que te colocou sobre o trono de Israel". E ofereceu-lhe ricos presentes de ouro e pedras preciosas antes de voltar para o seu país.

"Rei, muito sábio, tu podes dizer:
Quem, sepultado vivo, no fundo
Da terra, longe do sol e do mundo
Morre, e no entanto, torna a viver?"







Händel - Solomon

Solomon: Andreas Scholl
Solomon's Queen: Inger Dam-Jensen
First Harlot: Alison Hagley
Second Harlot: Susan Bickley
Queen of Sheba: Susan Gritton
Zadok, the High Priest: Paul Agnew
A Levite: Peter Harvey

Gabrieli Consort & Players
Paul McCreesh
DG/Archiv (1998)

ontem ainda









sei que o mundo se reinventa enquanto eu durmo

de outro modo,
como poderia eu perdoar
o mesmo eclipse
todas as noites?

segunda-feira, 3 de novembro de 2003

encontro no escuro com quem sabe da luz

o extravaganza sabe que a luz é uma nova subjugação.
foi kavafis que lhe disse... à janela.

o luís da montanha mágica sabe que a sombra é intimidade, abismo, coração.
aprendeu num bailado de teixeira de pascoaes.

parte-se tudo o que a sofia diria no escuro.

a insensatez revela-nos que manuel de freitas tinha medo da sombra, do silêncio, adivinhando em cada passo o monstro que o (a) habitava.

a rute do lugar da incerteza pede que náo perturbe de luz a quietude dos corpos mortos.

e entretanto, a sandra escurece
num afago de terra,
numa manhã sem segredos,
num rosto sem flores.

domingo, 2 de novembro de 2003

camille claudel por nuytten













cem anos depois da criação do bronze sakountala, bruno nuytten, até então fotógrafo, realizou um filme sobre camille claudel.
isabelle adjani foi camille e gérard depardieu interpretou auguste rodin.
valeu uma nomeação para o oscar de melhor fillme estrangeiro de 1989.
a bela isabelle foi nomeada melhor actriz.
falharam os oscares, vieram os césares!

camille claudel













camille claudel nasceu em 1864 na pequena cidade de fère-en-tardenois, nos arredores de paris, sendo a segunda entre quatro irmãos de uma família burguesa.
quando criança, esculpia os seus brinquedos com a argila que tinha no quintal.
camille, irmã do poeta paul claudel, teve a vida e o trabalho irremediavelmente ligados ao génio de rodin. a contundente e trágica história de criação, amor e loucura está nas suas obras.
a frágil e enigmática mulher deslumbrou rodin pela sua precocidade e talento, porém, o desencontro artístico e amoroso com rodin, acabou por levá-la a um internamento de trinta anos num hospital psiquiátrico. o silêncio imposto às suas mãos não permitiu que delas saísse uma outra obra.
camille e o seu talento tentaram fugir de um mundo que não estava preparado para reconhecer um outro destino que não fosse o prescrito para as mulheres do seu tempo.
modelo, amante, artista e rival são sinónimos da sua rebeldia. e se tudo e todos conspiraram contra o seu ímpeto de artista e mulher, o seu esquecimento terá sido talvez a punição mais terrível e a causa do maior sofrimento.
esperou até 1943 no sanatório de avignon, tinha 79 anos.

sábado, 1 de novembro de 2003

sakountala




momento único de bailado exibido hoje no canal mezzo: sakountala.

sakountala é a lenda india de dois amantes separados na terra que se encontram no nirvana.

theophile gautier escreveu o argumento em 1858.
camille claudel criou em 1888 uma escultura ímpar com o mesmo nome.

excelente coreografia de marie-claude pietragalla, cenografia de uma qualidade rara por philippe plancoulaine, enebriante ambiente musical de pierre-alexandre mati.
interpretações consistentes de vários solistas, artistas de circo e corpo de bailarinos da companhia nacional de ballet de marselha.