sábado, 28 de fevereiro de 2004

kafka no choupal












hoje, quando passeava pelas margens do mondego, ouvi alguém que tossia de um modo familiar. um casal, sentado num tronco do choupal, fez-me pensar que tinha encontrado, enfim, o que todos procuravam. ela, vi eu bem, era a menina jesenka e, quando passei em redor, ouvi pela segunda vez aquele tossir. virei as costas e não precisei de ver para confirmar. kafka namorava no choupal, em coimbra (a) capital / do amor em portugal / ainda.

no quiero que tengas una forma, que seas precisamente lo que viene detrás de tu mano












"te amo por cejas, por cabello, te dabato en corredores blanquísimos donde se juegan las fuentes de la luz,
te discuto a cada nombre, te arranco con delicadeza de cicatriz
voy poniéndote en el pelo cenizas de relámapago y cintas que dormían en la lluvia
no quiero que tengas una forma, que seas precisamente lo que viene detrás de tu mano,
porque el agua, considera el agua, y los leones cuando se disuelven en el azúcar de la fébula,
y los gestos, esa arquitectura de la nada,
encendiendo sus lámparas a mitad del encuentro.
todo mañana es la pizarra donde te invento y te dibujo.
pronto a borrarte, así no eres, ni tampoco con ese pelo lacio, esa sonrisa.
busco tu suma, el borde de la copa donde le vino es también la luna y el espejo,
busco esa línea que hace temblar a un hombre en una
galería de museo.

además te quiero, y hace tiempo y frío."

julio cortazar

em todas as ruas te encontro
em todas as ruas te perco









em todas as ruas te encontro
em todas as ruas te perco
conheço tão bem o teu corpo
sonhei tanto a tua figura
que é de olhos fechados que eu ando
a limitar a tua altura
e bebo a água e sorvo o ar
que te atravessou a cintura
tanto tão perto tão real
que o meu corpo se transfigura
e toca o seu próprio elemento
num corpo que já não é seu
num rio que desapareceu
onde um braço teu me procura

em todas as ruas te encontro
em todas as ruas te perco

mário cesariny

sexta-feira, 27 de fevereiro de 2004

querida, o sal por favor... e já agora o beijo












e as palavras, o teu olhar, as tuas mãos, as cores que ainda não vi, as montanhas como as vês, a praia ou a beira-praia, tão distante, a neve ou o frio da neve. contigo.

quinta-feira, 26 de fevereiro de 2004

nós quimeras












''Eles iam, obscuros, através da noite solitária, através da sombra e através das moradas vazias e do vão reino de Dite: tal é o caminho nos bosques, quando a lua é incerta, sob uma luz maligna, quando Júpiter mergulhou o céu na sombra e a sombria noite arrebatou às coisas sua cor.
No próprio vestíbulo, à entrada das gargantas do Orco, o Luto e os Remorsos vingadores puseram seus leitos; lá habitam as pálidas Doenças, e a triste Velhice, e o Temor, e a Fome, má conselheira, e a espantosa Pobreza, formas terríveis de se ver, e a Morte, e o Sofrimento; depois, o Sono, irmão da Morte, e as Alegrias perversas do espírito, e, no vestíbulo fronteiro, a Guerra mortífera, e os férreos tálamos das Eumênides, e a Discórdia insensata, com sua cabeleira de víboras atada com fitas sangrentas.
No meio, um olmeiro opaco, enorme, estende seus ramos e seus galhos seculares, morada, diz-se, que frequentam comumente os Sonhos vãos, fixados sob todas as suas folhas. Além disso, mil fantasmas monstruosos de animais selvagens e variados aí se encontram: os Centauros, que têm seus estábulos nas portas, e as Cilas biformes, e Briareu hecatonquiro, e o monstro de Lema, assobiando horrivelmente, e a Quimera armada de chamas, e as Górgonas, e as Harpias, e a forma da Sombra de tríplice corpo.''

da Eneida de Virgílio


partimos assim
à procura em nós
de todos esses genes
em nós o código
em nós o luto
em nós os remorsos
em nós as doenças
a velhice o temor e a fome
a pobreza a morte o sofrimento
o sono a alegria e a guerra
a discórdia e o sonho

nós quimeras
obscuras
solitárias

quarta-feira, 25 de fevereiro de 2004

porto ainda












oporto, jozef dekkers.

ainda tinha o quadro daquele porto por acabar. ainda sangravam as mãos das arestas do granito. quase não tinha tempo para te dizer. mesmo assim foi o tempo do abraço. de te olhar fundo nos olhos e repetir gritando para que não ouvisses:

haja o que houver
esperarei por ti

diario de bordo dia 232 41º8'13"N 8º36'8"0












devia ter anunciado ao largo a chegada ao porto. faltava assim a bandeira QF&M no cais. recebi mais tarde o radiotelegrama. dobra assim a vontade de uma volta de outra volta. procurei primeiro o fantástico northfolk e depois a ribeira, a foz, o majestático e a noite gótica. esperavam terra mais adentro paulo castro seixas e dois comandantes ilustres: josé carretas e júlio couto. falaram-me dessas ilhas quase continentais. guardei abraços e larguei promessas de cartas breves: a este porto voltarei.

sexta-feira, 20 de fevereiro de 2004

silence is possible












Silence is possible, and after dark
it almost happens: silence, like a glove,
the perfect fit you always hoped to find.


john burnside

começo a preparação de uma nova viagem. vou à procura da escócia da sofisticação, da pluralidade e da excitação de que fala donny o'rourke. leio as primeiras letras de poetas escoceses recentes. li que eles preparam, de algum modo, uma redescoberta da escócia em confidência. não imagino o que seja. tenho alguns meses ainda para preparar o desembarque em glasgow.

quinta-feira, 19 de fevereiro de 2004

somniu












cara menina sarah,
recebi hoje uma carta que há seis anos me enviou. já não moro naquela casa. não sei quem cuida dela. pedia-me, pelo que vejo, uma entrevista. não imagino o que pretendesse. já disse tudo aos jornalistas. nunca escrevem o que lhes digo. sou eu que lhe peço hoje um favor. não me deixam sair desta casa onde estou. sei que vai parecer-lhe estranho mas, mesmo assim, peço. temo contar-lhe um sonho de que não sei o final. não se desiluda por isso. preciso que faça por mim uma viagem. quero que visite três locais em dias e horas precisos. que use apenas comboios. os que eu lhe disser. não tenha medo. peço-lhe depois que os seus olhos sejam os meus. que me diga o que viu. que descreva o que sentiu. se são ainda esses sítios o que foram para mim. se ainda existem, se é que existiram. esta é a minha proposta. se ainda estiver interessada na sua entrevista, responderei às perguntas ao longo da viagem. não acredito sinceramente que aceite, embora a sua caligrafia me levasse a crer que sim. receba a expressão do meu agradecimento pela sua atenção e acredite que a consideração que me merece seja a maior.
xavier maria.

por não saber o teu nome chamo-te luís












senti-me sozinho quando cheguei à casa grande. quis correr a outras casas para encher de risos as molduras vazias. parei sempre nos primeiros degraus sem saber se era isso que eles queriam. passaram os anos. foi quando saí dessa casa que te encontrei. e foi assim todos os dias ao fim da tarde. trocava contigo o que pedias. um dia disse-te que já não precisava de mais nada em troca. queria dar-te o que precisasses. ficava horas a pensar que gostava que lesses outras histórias. que soubesses que há outro mundo. comprei em duplicado um livro da sofia. um para a mafalda e o outro para ti. andei depois com ele no carro até lhe perder o sítio. deixei de te ver durante uns meses. quando te encontrei de novo, pareceste-me mais alegre que nunca. fiquei contente por te ver assim. assim livre e bem. quando te imaginava numa dessas instituições de que o luis fala, preocupava-me. ainda bem que não te agarraram. hoje ainda tenho saudades tuas. queria amparar-te para que não caísses afinal nos braços que te tirariam a liberdade. acho que não precisas de nada disso. não precisas do meu colo. continuo sem saber como te chamas. por não saber o teu nome chamo-te luís. não importa. apenas ficava mais tranquilo que soubesses o meu. e chamasses quando quisesses.

quarta-feira, 18 de fevereiro de 2004

the road not taken












paisagem montanhosa, hercules seghers, 1625.
galeria dos uffizi, florença


Two roads diverged in a yellow wood,
And sorry I could not travel both
And be one traveler, long I stood
And looked down one as far as I could
To where it bent in the undergrowth;
Then took the other, as just as fair,
And having perhaps the better claim,
Because it was grassy and wanted wear;
Though as for that, the passing there
Had worn them really about the same,
And both that morning equally lay
In leaves no step had trodden black.
Oh, I kept the first for another day!
Yet knowing how way leads to way,
I doubted if I should ever come back.
I shall be telling this with a sigh
Somewhere ages and ages hence:
Two roads diverged in a wood, and I-
I took the one less traveled by,
And that has made all the difference.

Mountain Interval, 1916.
Robert Frost.

terça-feira, 17 de fevereiro de 2004

por outro lado












solitude standing, peter van den akker.

olho para a página contrária quando admiras a imagem. recorto as palavras desiguais. nesse museu, que decerto não aprecio, interessa-me a tua pergunta. e só a tua pergunta. não acredito nas cores que dizes serem poemas de luz. não acredito mais nas inebriantes sessões à procura dos campos mórficos, dos chakras ou da cartografia ayurvédica. há caminhos menos percorridos que não me interessam agora. quero fazer caminhadas e subir montanhas. todas as caminhadas. todas as montanhas. por outras cores. por outro lado.

domingo, 15 de fevereiro de 2004

Cent mille milliards de poèmes













Le cheval Parthénon s'énerve sur sa frise
pour déplaire au profane aussi bien qu'aux idiots
le Turc de ce temps-là pataugeait dans sa crise
il n'avait droit qu'à une et le jour des Rameaux
On était bien surpris par cette plaine grise
qui se plaît à flouer de pauvres provinciaux
un audacieux baron empoche toute accise
lorsqu'on voyait au loin flamber les arbrisseaux
Du Gange au Malabar le lord anglais zozotte
on comptait les esprits acérés à la hotte
le chemin vicinal se nourrit de crottin
Frère je te comprends si parfois tu débloques
les Indes ont assez sans ça de pendeloques
si l'Europe le veut l'Europe ou son destin.

raymond queneau
poema interactivo construido com um conjunto reduzido de versos alexandrinos.
obter mais aqui.

sábado, 14 de fevereiro de 2004

miss ya my valentine












flowers in the wind, pauline werkmeister, 1995.

sexta-feira, 13 de fevereiro de 2004

magnum escaldante













hoje vimos nascer o sol com lorca e luis rosales. enquanto se misturavam vinho e poemas, gerda taro e robert capa fotografavam. repetimos toda a noite: nunca fomos a granada. cartier-bresson apareceu para dizer que o bob também fotografava mulheres bonitas, homens famosos e grandes festas. sairam os três das imagens e adormeceram os das palavras declamando: nós nunca fomos a granada.

quarta-feira, 11 de fevereiro de 2004

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"Castello Banfi Brunello di Montalcino 1997" ranked #3 on Wine Spectator's "Top 100 Wines of the Year".
Wine Spectator - December 31, 2002/January 15, 2003.


para quem procura outros monumentos italianos em roma, permito-me sugerir fortemente um jantar no palazzo capranica na piazza do mesmo nome, entre o panteão e o montecitorio. aconselha-se marcação. ambiente muito acolhedor, música excelente e variada, extraordinário serviço, soberba enoteca e cozinha requintada. não se pense que tudo isto pode ser muito caro. para uma pequena extravagância (também possível) sugere-se o acompanhamento com o néctar supracitado. se puderem escolher quem vos serve procurem um rapaz baixo e delicado que possa ser descrito como o serapica das 'memórias de um anão gnóstico' de david madsen. depois escrevam-me.

giuseppe modica











lo sguardo circolare: agrigento, giuseppe modica, 1998.
mostra antologica de 1989 a 2003, complesso del vittoriano, roma.
até 20 de fevereiro.


giuseppe modica vê espelhos nas janelas. em cada quadro um olhar para o interior. dizem que ele pinta a luz da luz. compararam as suas obras a vermeer, antonello ou piero della francesca. de uns a luz, de outros a luminosidade. em breve, vou aqui deixar mais algumas janelas. esta é dedicada à insensatez, pelo lugar de silêncio, pela celebração do sol, pelas minimais, pelo 'into the light', pelo claro-escuro, pela explicação da luz e do deserto.

tutta l'opera del caravaggio: una mostra impossibile













amore vincitore

no castel de sant'angelo a ragazza da bilheteira tem o cuidado de avisar: atenção porque a exposição é digital. mesmo assim os visitantes parecem decepcionados quando não encontram as verdadeiras telas do mestre. talvez habituados à sucessiva realização de tarefas impossíveis perguntam-se a si mesmos: porque não fizeram o impossível? andré malraux explica no seu livro 'o museu imaginário' porque não se podem montar certas exposições, mesmo com os empréstimos de colecções de museus e privados. para quem não pode ir a roma até 15 de fevereiro, e porque a exposição é digital, aqui fica o magnífico site oficial.

domingo, 8 de fevereiro de 2004

ruinas










os kurdos sao o maior o povo do mundo sem terra. 30 milhoes.

hoje, ao lado do monumento a vittorio emanuel II um grupo de kurdos competia com as ruinas romanas para ter a atencao dos turistas. em silencio, apenas exibindo nas t-shirts a revolta de nao poder pisa a sua terra.

oh! santa cecilia!












sala santa cecilia, parco de la musica, roma.

chung teve a honra de inaugurar a sala. sente-se por isso em casa. desta vez recebeu mischa maisky e soube receber bem. deixou depois o convidado brindar roma com tres encores. no ultimo, mischa despachou uma suite para violocelo de bach. literalmente. o publico nao pediu mais. chung serviu no final, como sobremesa a sinfonia numero 40 de mozart. alguns apressados deixaram a sala nos momentos seguintes. demorei mais um pouco. comovi-me. eu que me comovi da ultima vez (como a cristina) quando o carlos mena interpretou no ano passado o stabat mater na festa da musica em lisboa. despedi-me da sala com um ate ja...

sexta-feira, 6 de fevereiro de 2004

dolce vita












piazza navona, silvio mencarelli.

o museo do vaticano tem horario mais restrito, agora funciona para beatos madrugadores. como nao devem ter mudado as coleccoes nao devo perder muito. o palazzo venezia apresenta uma exposicao muito interessante com retratos de grupo que incluem pinturas e fotografias. estas ultimas sao fantasticas. o retrato de grupo como afirmacao de partilha social, cultural e politica. o macro tem quatro exposicoes sofriveis. vale nicola de maria com pinturas dedicadas. o la republica comecou esta semana uma serie de publicacoes antologicas da poesia italiana. para ja, dante e petrarca. varios teatros na vizinhanca apresentam svevo. sempre na moda. o melhor do dia de hoje foram dois livros que trouxe. moderato cantabile da marguerite duras e a vida alcatifada da sarah adamopoulos. fim do dia com jantar no dolce vita da piazza navona. ainda dizem que o trabalho dignifica o homem...

terça-feira, 3 de fevereiro de 2004

roma, febbraio 2004












veduta di piazza del popolo, óleo sobre tela, gaspar van wittel, roma 1718.

amanhã regresso a roma. vários motivos de interesse: mischa maisky vai tocar tchaikovsky com a orquestra da academia santa cecilia dirigida por myung-whun chung; o palazzo venezia expõe retratos de grupo (de van dyck a chirico); toulouse lautrec está no complesso del vittoriano, e ainda, arte moderna na mezzoniana do terminal ferroviario (fascista) e no museo de arte contemporânea de roma (macro). além disso, todas as piazzas e todos os palazzos para umas férias que me salvem o mês.

explicação da noite












todas as noites espero uma visita diferente. umas vezes consigo ver-lhe a cara, outras apenas a sua voz me é perceptível. outras noites, uma assinatura, a cores ou a preto e branco. algumas noites tenho por companhia um silêncio que sobrou de uma conversa. há noites em que tu chegas. noites em que anuncias uma carta tua pela manhã. ao fim da noite páro no exacto fotograma em que espreito uma janela.