domingo, 30 de maio de 2004

helena de lisboa












isabel apresentou em 1998 uma retrospectiva de helena almeida (entrada azul) na casa da américa em madrid. este ano foi a vez do the drawing center de nova york ver os "inhabited drawings" de helena. agora, isabel prepara-se para mostrar helena almeida na art gallery de new south wales a propósito da biennale de sydney 2004. entretanto, para quem não vai à austrália, sobra uma exposição da artista no ccb até 18 de julho com o título "pés no chão, cabeça no céu".

sexta-feira, 28 de maio de 2004

reconstruir o mundo












hoje queria ler um livro que pudesse não ser um livro
sozinho numa sala que pudesse ser lado nenhum.

nadir












olhos nos olhos perguntei-lhe o que vinha depois. falou-me de sonhos e de preces. refugiou-se no seu mundo mantendo uma confortável distância de segurança. repeti a pergunta e seguiu-se o embaraço previsivel. abandonei a sala e comentei para mim:
- é aqui o nadir?

segunda-feira, 24 de maio de 2004

helena de teichio


helena nasceu em teichio, uma vila de montanha isolada na região roumeli no coração da grécia. aí aprendeu a música do vento, da chuva nos telhados, das quedas de água. aprendeu o canto dos rouxinóis e o silêncio da neve. em dias de festa, encantava-se com o eco das flautas e dos clarinetes nas montanhas vizinhas. depois a família mudou-se para atenas e helena descobriu os automóveis, a electricidade, a rádio e o cinema. por um acaso, a nova casa ficava ao lado de um cinema de ar livre e que ela via da janela do seu quarto.
no cinema (mais que isso, num cinema debaixo do céu) e no piano helena descobria aos oito anos as paixões da sua vida.

em 1967 a junta expulsou-a da grécia e helena viveu em paris até 1974. de volta a casa, helena ouviu places de jan garbarek em 1977. vinte e um anos depois o norueguês toca com helena a valsa de beekeeper para o filme de theo angelopoulos.


eleni karaindrou, music for films.
ecm,1991.

domingo, 23 de maio de 2004

hoje não estou nem para leo vast












não. hoje não escrevo nada. tenho sono. muito sono. talvez escreva amanhã sobre o dia de hoje e sobre a leitura em são martinho do porto: a máquina de joseph walser. e sobre a prateleira onde guardei este meu primeiro gonçalo m. tavares. sobre a companhia de wakefield de hawthorne e bartleby de melville. mas hoje não. hoje não escrevo. amanhã conversamos.

quinta-feira, 20 de maio de 2004

piano












há muito que perdi o interesse pela profundidade. de rodin e moore não queria mais do que o equivalente ao chiaroscuro. não me interessa essa terceira dimensão que não reune nada que verdadeiramente necessite. viveria agradavelmente nas páginas de um livro ou mesmo num quadro. sonho ainda em viver dentro de uma melodia, que dimensão terá? permanece a dúvida: em que páginas, em que tela ou em que sons?

da razão e da emoção












do outro lado do mundo isabel anda numa roda viva. a curadora da biennale de sydney 2004 prepara a abertura para 4 de junho. aparecem os primeiros anúncios. o subversivo lim tzay chuen, convidado a participar no evento, arranja uma dor de cabeça para isabel. a sua proposta: fazer um concurso com o público para preencher a artspace gallery 1. os concorrentes terão de comprar o maior número de catálogos da exposição, devem rasgar a página com o ensaio introdutório de isabel e apresentarem-se no dia 5 de junho depois das 10 horas da manhã com as páginas rasgadas. o vencedor será anunciado pelas 9 da noite e terá direito a: ocupar o referido espaço, 4000 dólares australianos e uma estadia de 4 noites num hotel de sydney. o que o vencedor fará com o dinheiro e com o espaço é com ele (vencedor). toda a gente pode concorrer.
após negociações, que se imaginam emotivas, isabel deu razão a lim. faça-se. venha um desconhecido completo para a biennale.

a outra senhora












seja para que lado fôr que me vire, lá está ela: a velha senhora. os novos castigam-se com coisas velhas. porque sim. nada viram mas sentem. eles que não sabem sequer definir com rigor a dita. não tenho dúvidas. estamos definitivamente no tempo da outra senhora.

quarta-feira, 19 de maio de 2004

um homem menos um homem














tenho perseguido um homem
de quem fujo
na próxima esquina
confundo-me com o exército vlassov.

segunda-feira, 17 de maio de 2004

mr lowercase













agora os ouvidos dos meus ouvidos acordam e
agora os olhos dos meus olhos estão abertos


verso de e.e.cummings
(now the ears of my ears awake and
now the eyes of my eyes are opened)

never ending dream













nós a lermos os livrinhos das edições 2 luas de paulinho assunção. eu a ouvir as 12 luas de garbarek no ccb (14.05.2004). todos no lux a ouvirem yen sung (15.05.2004). nosotros chorando no teatro villamarta em jerez de la frontera com a voz de chavela vargas (22.05.2004). eu a maldizer os concertos de keith jarrett no palau de la musica para o forum de barcelona 2004 (21.06.2004 e 13.07.2004).

sexta-feira, 14 de maio de 2004

nesta última tarde em que respiro*












pudesse num adeus ir o mundo todo
e dir-te-ia que foi roubada a palavra seguinte
ágrafa como a beira das nossas noites
e presa para sempre
como o poema que não ousámos sequer escrever

*verso de antónio franco alexandre

garbarek no ccb












ouvi pela primeira vez o sax tenor de jan garbarek numa républica da alta de coimbra. depois corri durante muito tempo à adelina da novalmedina em busca dos ecm importados. tornou-se um vício e a família julgava-me sem remédio.

ouvi tudo o que pude:

sart, triptycon, witchi-tai-to, dansere, dis, places, mágico, afterland, folksongs, eventyr, wayfarer, it's ok to listen to the gray voice, all those born with wings, legend of the seven dreams, i took up the runes, ragas and sagas, twelve moons, madar, officium, visible world, rites, belonging, solstice, arbour zena, my song, sol do meio dia, nude ants, personal mountains, making music, rosensfole, music for films ou caris mere.

a solo ou com keith jarrett, gismonti, jon christensen, bobo stenson, palle danielsson, ralph towner, jack dejohnette, eberhard weber, charlie haden, john abercrombie, nana vasconcelos, bill frisell, michael dipasqua, manu katché, ustad fateh ali khan, ustad nazim ali khan, zakir hussan ou agnes buen garnas.

coleccionei rodelas pretas e depois cd's. li os melhores livros ao som de garbarek. fiquei em silêncio noites inteiras ouvindo garbarek.

garbarek, daqui a pouco no ccb.

quinta-feira, 13 de maio de 2004

cirílico












não compreendo o teu olhar. compreendo o postigo no meio da rua, reconheço o lada de vários filmes mas, não compreendo o teu olhar.

a terra sobretudo











quem como nós na curva de céus vários pressentiu
(em céus de boca e ares)
que os elementos, de si, nunca se encontram diz:

a água não amaina; o fogo nas queimadas,
nas lajes do lar
não nos sacia; o ar não cria
a vibração das folhas - esta é a nudez;

na terra, sobretudo sente-se: as suas casas, as traves
que as sustêm, desfalecem.
quem as habita parado, quem como nós vivo
diz: a fome é hostil,
o homem movimenta-se impaciente,
o seu desejo ocupa a sua vida.

in vértice nº 286, fiama hasse pais brandão.

enquanto não escrevi, o que escrevi eu?












escrever é tentar saber o que escreveríamos se escrevêssemos

marguerite duras

quarta-feira, 5 de maio de 2004

f...










alizon gray, enamel on canvas.

permaneci imóvel
lendo as tuas palavras,
repetindo as histórias,
reconhecendo as cores,
os aromas e o desperdício
das manhãs em que podem acabar os sonhos.

respondi depois,
tarde como sempre...

terça-feira, 4 de maio de 2004

feitoria mágica












senhor feitor,
trago-lhe notícia
da magia
do dia-a-dia
por esta feitoria,
do crescente transformar do pensar em experimentar,
deste quotidiano passar
de seu reino de sonhar
a seus palácios de concreto,
como à ciência compete
criar
criando,
fazer
fazendo,
construir
constuindo,
amar
amando,
no mais ousado plantar de gerúndios
plas ilhas da cidade,
por homens e mulheres com asas,
transformando-a assim
em lugar não só de estar, mas de ser,
não mais só de desejar, mas de ter,
feitoria
da enebriante magia
de podermos ser
humanos sendo,
fazer fazendo,
amar amando,
aprender aprendendo,
responder perguntando,
como à ciência compete.

a hora e a circunstância, maria de sousa.
(poemas com cadenzas de agostinho da silva)
gradiva, 1988.

segunda-feira, 3 de maio de 2004

sete












sete são as casas em que contámos as labaredas. sete vezes ardemos nas páginas de sete poetas sete. sete são as voltas e os dias em que te procuro sem tempo. sete são os mares que nos levaram e nos trouxeram. sete são as praias se tu quiseres...

cam*















quando desapareceu o último porto de abrigo
refugiei-me no lugar comum da tristeza
a fechar feridas antigas a perdoar traições
talvez um dia possa tentar tudo de novo
com o despudor de todos os recomeços.

in a realidade inclinada, carlos alberto machado.
averno, 2003.

*não foi abril porque faltaram as tuas palavras,
maio não começa sem ti.

56














aquilo que era indispensável
já não é --
preferível a chuva
por detrás do espelho
dentro do poema.

giánnis ritsos, 1978.

domingo, 2 de maio de 2004

morremos dela












(...) só é seguro que a pergunta, a procura, o poema reincidente, cristalizam numa grande massa translúcida, um bloco de quartzo. talvez seja tranquilizador quando olhado defronte, ali, no chão, do tamanho da casa: parece nascer ininterruptamente. a luz vem de dentro, funda e aguda luz terrestre. excretou-se de nós, a massa cristalina, fundimo-nos nela, carne da nossa carne, casa da nossa casa. e na hora do apocalipse biográfico, quando as águas envolverem a história, a vida, a obra da obra, veremos tudo: morremos daquilo, levados para o abismo pelo irrevocável peso extraído, um peso maior que os trabalhos e os dias. e quem sabe se não veremos então, através do cristal regular, limpidamente, a enfim aplacada confusão do mundo? isto é uma pergunta, agora. alimentamo-nos dela, também nos alimentamos dela. aquilo que fazemos, oh sim, é isso que nos faz e desfaz, a vida que fazemos, a nossa vida em pergunta telepática. morremos dela.

herberto helder: entrevista.
inimigo rumor (nº11), 2º semestre 2001.

ainda













ainda as tuas mãos, ainda o teu carinho, ainda as palavras, ainda o mesmo de sempre. duas vezes, como sempre.