quarta-feira, 30 de junho de 2004

lado B












ao desafio do som respondo sim. que difícil que é alinhar as músicas que sempre trouxe nos ouvidos. o equivalente a escolher 3 desejos perante a fada madrinha. obrigado pedro por acordares em mim o sentido e a paixão que partilhamos. lá estaremos do lado B, avessos ao que é fácil, do outro lado da noite e de todas as noites.

terça-feira, 29 de junho de 2004

sábado, 26 de junho de 2004

perfect world


















na nota de abertura de um livro, sian ede agradece aos jovens cientistas autores dos diários o facto de serem eloquentes, honestos e despretensiosos. daí resulta uma excelente imagem da ciência e da vida actual.
condensado assim, é o que procuro por estas paragens. neste e nos outros mundos aqui à direita.

science, not art: ten scientists' diaries,
editado por jon turney,
publicado pelo branch do reino unido da fundação calouste gulbenkian,
londres, 2003.

offshore












lá longe
por detrás das dunas
mudam-se reis e acabam amores

no mar alto
uma onda regressa
e uma terra em brasa
dá noticias do marear

sexta-feira, 25 de junho de 2004

para o mal












parabéns sofia, luís, andré bonirre e pc.

pelo bem que o vosso mal nos faz.

quinta-feira, 24 de junho de 2004

circadiano












um dia num edifício de salas com distintas leis naturais. à semelhança do cubo e do hipercubo, procuro a lógica para sair. perdido, volto a divisões que não distingo. em cada divisão deixo palavras e imagens. quando volto a elas, estão recados e silêncios para decifrar. num dia que se repete desigual.

quarta-feira, 23 de junho de 2004

abraçadosnós












festejar o santo de hoje com palavrasabraçadas. chamar a um movimentodança uma nova noite. pensar em lercontigo as páginas que nos esperavam no correio do fim da tarde. adormecer folheando os teus cabelos e guardar na memória um futurosemsaudades.

terça-feira, 22 de junho de 2004

posologia possível












salto de palavra em palavra na frase que nos separa.
tropeço nos ii, caio nos hh, descanso nos jj, gasto as últimas forças para subir os ll, quase desmaio nos uu, tomo cuidado com os vv e equilibro-me finalmente nos xx.
e tudo isso não chega. ainda sobra frase entre as nossas bocas e não nos beijamos.
escrevo a experiência e procuro saber o que aprendo.
muito pouco. quase nada mas, vou continuando a tomar o mundo em colheres pequenas.

segunda-feira, 21 de junho de 2004

a utopia de juno












juno doran acredita num mundo imaginado. reza para ver o casamento perfeito entre a tecnologia e a natureza ou, de outro modo, entre o homem-máquina e a floresta amazónica.
as utopias são assim. tudo o que desejar a mulher de zeus.
o verde percebo, mas porquê o cinzento?

domingo, 20 de junho de 2004

is it tomorrow yet?












saber como usar o tempo na arte. na vida tratamos mal o tempo em circunstâncias diversas. quando não sabemos esperar ou quando esperamos e não sabemos como dizia o poeta. viver com o tempo e sem tempo. agora que tudo é tão rápido. agora que sobra tanto tempo. anoto as vezes em que a falta de tempo não desculpa. anoto as vezes em que não demos tempo.

quinta-feira, 17 de junho de 2004

bloemschikken












somos plantados como tulipas que, de repente, arrancados como bolbos à terra, se demoram em caixas (protegidos).
tarda esse nosso outubro, tão distante, em que nos devolvemos num abraço telúrico.

quarta-feira, 16 de junho de 2004

capítulo seguinte






untitled (hand anatomy),
jean-michel basquiat, 1982.







tenho ao fundo dos braços
a memória de joseph walser
à espera ainda do afago
das margens das tuas palavras


segunda-feira, 14 de junho de 2004

blur












dizes-me meu amor: "vivemos cercados de eternidade e não temos tempo". e assim passamos ao lado de tudo guardando não mais que um efeito blur. o damásio diz que as imagens dos objectos e dos acontecimentos, e ainda as palavras ou as frases que os referem, nos ocupam quase toda a nossa memória. talvez tenha razão e, talvez avancem ainda pelos nossos sentimentos e emoções. mas não quardamos nada de muito nítido quando nos preparamos para adormecer.
a representação mais próxima desse túnel pré-narcótico encontrei-a no museu do chiado. captar a presença humana no efeito blur é a pretensão de gerhard richter.
o josé bragança de miranda sabe mais disso com certeza. sei que ele estará neste momento a usar o alemão para um programa de doutoramento.
e eu, que pouco mais sei do que das máquinas da minha fábrica, para aqui a falar de arte contemporânea...

domingo, 13 de junho de 2004

uma ilha deserta não é uma ilha deserta












o babelia de ontem publica uma crónica do argentino césar aira em volta da pergunta "que livro levaria para uma ilha deserta?". a resposta terá interesse para revelar essa metáfora que é o próprio leitor. ele sim, uma ilha deserta densamente povoada. aira mostra como qualquer fantasia de povoamento da ilha seria frustrada. não se pode levar um só livro, sob pena de detestá-lo por falta da companhia de uma estante cheia de livros. nem uma colecção de obras completas. uma biblioteca morreria por não poder crescer. não se reproduziria por falta de outras para se comparar ou namorar. a falta de livrarias ou de carteiro, deixando assinaturas e livros regularmente, mataria qualquer biblioteca de igual modo. e por fim faltaria sempre o mundo como observatório observado. faltaria o mundo para aprender e compreender e, diria eu, um mundo real para imaginar mais mundos.
afinal, a pergunta ajuda apenas a povoar, a estender essa ilha deserta até à nossa dimensão.
humana, a metáfora, como lhe chama aira.

sexta-feira, 11 de junho de 2004

do outro lado do rio












do outro lado do rio há um festival sem subsidio do icam que se rende a ettore scola e ao cinema húngaro, mostra o último andrzej wajda, o comandante de oliver stone e sonny de nicholas cage.
do outro lado do rio esteve o fruto da paixão de maarten treurniet, charlotte de ulrike von ribbeck e queijo e marmelada de branko djuric.
na praia, do outro lado do rio, esteve muita gente agitando bandeiras de todos os tipos e cores.

quinta-feira, 10 de junho de 2004

forecast












sei que um de nós percorre um labirinto que o outro nem sequer encontra. foi assim de todas as vezes. e, de todas as vezes nos encontrámos mais à frente. um de nós olha para trás para encontrar o caminho. outro de nós espera com a mesma serenidade de todas as esperas e, vamos alternando os dois personagens numa história que um nós sabe que acaba bem. por vezes, um nós desacredita e o outro mantém o sonho para que possamos acordar.

maria valupi












não conheço maria valupi e uma pesquisa no google não vale a pena. chegaram-me há uns anos alguns poemas seus num livro sem data das edições jornal do fundão. trata-se de uma antologia da poesia feminina portuguesa organizada por antónio salvado. no texto introdutório aos poemas lê-se:

maria valupi é uma poetisa original e injustiça seria não aparecer numa antologia de mulheres-poetas. há no universo poético desta autora um estranho apego à realidade concreta, à existência vivida e experimentada - apego que a coloca numa linha poética muito feminina que poderá ser determinada pelo acolhimento nem sempre sereno dos factos e pela sucessiva revelação dos mesmos factos, transformados em parcelas de um drama íntimo. (...) publicou: "dans le destin", livro de poemas em francês, 1958; "desprevenidas paisagens", 1959; "do disperso do dia", 1967; "amotinação dos poetas", 1967; "songes et témoins", poemas em francês, 1967.

dos nove poemas seus nesta antologia, já copiei "não, não me esperes". deixo agora "ponha-me deus":

ponha-me deus o mundo,
um mundo em qualquer
das mãos;
meus pés bailando sem chão
que, sujeita, não pedi,
não pedirei meu perdão.

and the winner is...













sexta-feira, 4 de junho de 2004

estes estranhos dias












chega zeus a sydney transportando a chama do olimpo.
abre isabel os olhos ao mundo.
ontem, em palavras breves, a parte de cima de uma rapariga anunciava-te isabel.
falou em antónio e ainda de helena, luísa e cecília.
todos aí do outro lado de nós que devoramos quilómetros e não chegamos.
nós afogados em vidinha e pela segunda vez no hemisfério errado.

quinta-feira, 3 de junho de 2004

não, não me esperes aí












não, não me esperes aí,
em nenhuma boca me posso demorar.

não, não me esperes aí,
nem mesmo nas sombras
das sombras da lua ou do luar
onde o meu rosto e o teu rosto
sombras são a querer singrar.

não, não murmures o meu nome
na tua boca viva,
como qualquer flor vermelha
que é logo nada amanhã.

dia claro chegará,
dia claro ou noite branda
em que te hei-de encontrar
e, então, te pedirei:

salva meus cabelos, minha fronte,
minhas mãos... e estes olhos que tanto amei.
salva a minha boca
onde havia tanta mágoa.

guarda-me como na semente se aperta
o que há-de ser algum dia,
talvez possa chegar flor,
talvez possa chegar tua.


maria valupi
desprevenidas paisagens, 1959.

quarta-feira, 2 de junho de 2004

corpus insanus












os seus movimentos denunciam-na a todo o momento. a traição do corpo é difícil de compreender. a expressão corporal não lhe permite a invisibilidade nos instantes em que os super-heróis são verdadeiramente invejáveis. talvez a fluoxetina lhe resolvesse o problema mas, ela era claramente da outra margem. as moçoilas preferem sempre o hipericão.

terça-feira, 1 de junho de 2004

if you dare












desafia-nos agora
que nos desatas no mundo
atreve-nos agora

não digas depois que não fomos
não insinues mais tarde
que era tarde

ouvimos todas as queixas
mas não deixámos de dizer
atreve-te

agora

criancices












maria de sousa comentou o livro "um mundo imaginado" de june goodfield, em que se relata a vida de uma cientista (ana brito, ou seja, a própria maria de sousa), testemunhando a experiência extraordinária de imaginar um mundo que se veio a provar real.

provavelmente, as crianças sonham mundos que não parecem reais. algures ao meio da vida perdem a vontade de os provar verdadeiros. é pena. eu tento não me esquecer disso. entretanto, hoje celebramos esse estado de graça que é ser potencialmente tudo. e só isso já é tanto.

bom dia, crianças!