sexta-feira, 30 de julho de 2004

jo












jo shapcott leu rainer maria rilke, dissecou as janelas e depois as rosas, esses pequenos poemas de agradecimento do austríaco à lingua francesa. se rilke sugere que as suas rosas são uma visão masculina das mulheres, talvez as suas amantes, talvez a genitália delas, jo contrapõe a voz feminina. assim escreveu responsos a rilke, dizendo-lhe que estava errado. as rosas seriam para rilke canções, lamentos, gritos ou sussurros de mulheres. e no livro* que daí resultou apenas uma queixa da autora: falta a opinião de rilke, a sua cara de espanto.

art, not chance
nine artists' diaries
paul allen (editor)
calouste gulbenkian foundation, 2001.

*tender taxes
jo shapcott
faber and faber, 2001

les roses (x)












amie des heures où aucun être ne reste,
où tout se refuse au coeur amer;
consolatrice dont la présence atteste
tant de caresses qui flottent dans l'air,

si l'on renonce à vivre, si l'on renie
ce qui était et ce qui peut arriver,
pense-t-on jamais assez à l'insistante amie
qui à cotê de nous fait son oeuvre de fée.

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consoladora das horas em que todos se foram,
em que tudo foge do coração amargo,
a sua simples presença atesta que no ar
pairam todas as carícias.

quando perdemos o gosto de viver, ou renunciamos
à vida, ao que foi e ao que pode ainda ser,
alguma vez atentamos, como devíamos, na amiga
persistente que, a nosso lado, faz trabalhos de fada?


frutos e apontamentos
rainer maria rilke
tradução de maria gabriela llansol
relógio d'água, 1996.

quinta-feira, 29 de julho de 2004

um ano de espuma dos dias












uma enorme floresta submersa. o suave movimento das árvores é exagerado pelas páginas nelas penduradas num baile que se avista de longe. a luz é intensa aqui e estranhamente ausente ali ao lado. as palavras rasgam correntes que apenas se detectam pela difracção da luz que atravessa os caminhos. um coro de cavalos marinhos entoa canções da rive gauche. um enorme navio passa à superfície mas apenas se nota a agitação das águas que resulta da mão da sarah brincando com as ondas. e é assim que eu leio a espuma dos dias. parabéns por este, venha outro!

quarta-feira, 28 de julho de 2004

a gente furnandes












a meia duzia de metros da esplanada do café santa cruz, um homem visivelmente perturbado, visivelmente mental, perturba a ordem pública. as empregadas das lojas vizinhas vêm à porta e soltam risadas histéricas. o agente furnandes, josé furnandes, entra em acção. o homem grita-lhe a plenos pulmões a surdina de um pedido de ajuda. um desrespeito à autoridade está bem de ver. era evidente para o circo urbano em volta que bastava uma mão sobre o ombro e um pouco de atenção às súplicas do alienado. mas o agente furnandes resolve puxar do casse-tête e agredi-lo violentamente. a indignação do público de nada adiantou. chegaram prontamente os reforços da esquadra a cem a metros e conduziram o prevaricador à urgência do hospital. ainda tentaram atropelar as vaias e apupos. ainda tentaram soltar a energia que afinal não gastaram no euro 2004. ainda me pareceu ouvir uns gritos de guerra ensaiados para os holligans. o agente furnandes tem cara de quem ficou de fora do euro. não deve ter sido apurado. os reforços tinham cara de formação na academia de policía com eventuais pós-graduações em guerrilha urbana. perto deste espectáculo estavam observadores internacionais destacados para provarem umas cervejas lusas. levam uma triste fotografia digital da gente furnandes.

jim jarmusch












preto como o café e branco como os cigarros. não me interessa se jim tem amigos e os convidou para tirar proveito disso. eu tirei. não me interessa que a história não seja evidente. que o sarcasmo e a ironia possam cheirar a fumo. não me interessa se eles bebem o café com beatas dentro. não me interessa se há guião ou improviso. jarmusch faz um óptimo fim de tarde numa cidade cheia de esplanadas desinteressantes.

segunda-feira, 26 de julho de 2004

livros e gatos






















a ideia era reservar apenas uma divisão para mim. podia ser um quarto apenas mas seria o meu domínio. os livros só entrariam com visto. estariam de passagem. dormir com muitos livros em volta não faz bem à saúde, disseram-me em tempos. as restantes divisões da casa poderiam ser ocupadas com livros e gatos. contudo, livros e gatos não se dão bem com regras rígidas. invadem espaços impensáveis. não se pode gostar de surpresas e impôr uma ditadura. como proibir que o tot ou o castor durmam atrás dos livros de viagens? como decretar que larkin não possa ficar esquecido numa mala que não se usa há tanto tempo?
o poeta pina deve saber do que falo.

terça-feira, 20 de julho de 2004

hoje e sempre












acordavas cedo e colhias o melhor do campo para me brindares pela manhã. levavas-me depois pelos caminhos da tua infância e assim corriamos no tempo teu. só depois vinha a noite e o sabor dessas histórias em que tratávamos do milho e da memória.

segunda-feira, 19 de julho de 2004

amanhã












nunca foram minhas
as vésperas dos dias
em que não regressas

domingo, 18 de julho de 2004

l'aventure, la magie, la démesure et la folie












c'est toujours plus loin
toujours plus fou
toujours plus beau
c'est toujours étrange
comme un mélange de gaz et d'eau
c'est dans l'aventure et la magie mon beau
dans la démesure et la folie que tu trouveras eldorado


bernard lavilliers lido em
sarah adamopoulos, viver mata.
oficina do livro, 2001, pp94.

sexta-feira, 16 de julho de 2004

vol d'oiseaux












sempre te vi em movimento. observei-te quedo e imaginei o mundo visto desse vôo tão harmonioso. agora que finalmente encontro asas nas palavras, pareces-me imóvel num salão em silêncio. procura a menina que tem um pássaro no lugar do coração e vem daí para um pas de deux.

punto negro












sossega, as nuvens não estão fazendo nada.

quinta-feira, 15 de julho de 2004

white silk dream












sou um guerreiro no japão do século ix. chego todos os dias à aldeia, vazio de uma guerra de dois anos, e esperas-me em seda branca. recitas-me ono no komachi e é assim que subo até ti. mesmo quando não estás.

segunda-feira, 12 de julho de 2004

blog city












o vento na cara. a vertigem da velocidade. a alegria infantil da descoberta. as palavras como abismos. a noite alta e os early morning posts. escreve que eu espero. a todas as horas. qual sinal? vai devagar? não vi...

parabéns wandruska












domingo, 11 de julho de 2004

e. e. cummings por susanne abbuehl












somewhere i have never travelled, gladly beyond
any experience,your eyes have their silence:
in your most frail gesture are things which enclose me,
or which i cannot touch because they are too near

your slightest look will easily unclose me
though i have closed myself as fingers,
you open always petal by petal myself as Spring opens
(touching skilfully,mysteriously)her first rose

or if your wish be to close me, i and
my life will shut very beautifully ,suddenly,
as when the heart of this flower imagines
the snow carefully everywhere descending;
nothing which we are to perceive in this world equals
the power of your intense fragility:whose texture
compels me with the color of its countries,
rendering death and forever with each breathing

(i do not know what it is about you that closes
and opens;only something in me understands
the voice of your eyes is deeper than all roses)
nobody,not even the rain,has such small hands

e. e. cummings

april
susanne abbuehl
ecm records, 2001.

sábado, 10 de julho de 2004

poesía hoy












o jornalista/escritor/viajero manuel leguineche conta hoje no babelia uma preciosa história passada no deserto. escolheu por companhia o marinheiro de gibraltar de marguerite duras. como devia aliviar a carga, porque tinha dois mil quilómetros de deserto pela frente, decidiu ir arrancando as páginas lidas e assim espalhou duras pelas areias nesse percurso. naquele tempo leguineche era ignorante do espírito ecológico mas devoto da performance poética.

sexta-feira, 9 de julho de 2004

lhasa de sela ou o sonho de uma noite de verão












uma noite assim dá mil posts. ao fundo, uma cidade que espera a descida de uma santa. tropeçando no trânsito, outros peregrinos chegam a tempo de ver subir ao palco uma menina que não pousa os pés no chão. foi ela o little blackspot que viu nuvens batalhando, dançando ou simplesmente não fazendo nada. foi ela que explicou a viagem no colo de um pai filósofo que a sossega dizendo: não morremos aqui. foi ela que dançou, e dança ainda, com o bisavô pelas ruas de marselha. foi ela que nos cânticos se libertou e nos libertou. foi lhasa de sela que disse por uma noite: é poesia, senhores.

quinta-feira, 8 de julho de 2004

desmesuradamente












há uns dias, comentava anabela mota ribeiro um seu pensamento matinal sobre a desmesura dizendo que não a aprecia particularmente. admite, contudo, duas excepções: na arte e no amor. voltei várias vezes a esse pensamento intrigante e intrigado. na vida, sou desmesurado em momentos e terrenos que não estes. por outro lado, o amor é tantas coisas que posso achar-me desmesurado por amor a uma causa, pessoa, objecto ou ideia. da arte, principalmente da arte sem regras clássicas, quase me atrevo a dizer o mesmo. no limite, a desmesura pode ser estendida à fronteira da afirmação de estar vivo.

quarta-feira, 7 de julho de 2004

do código das cores






















perguntava o que sentias

perguntava o que sentias
e falavas em cores,

quanto gostavas de mim
e descrevias amarelos,
brilhantes ou mate,
consoante os dias
variando com as horas

nunca compreendi
a língua das tuas cores
até ao dia em que,
sem palavras,
achei vermelho
recitei verde
e pensei azul

sim,
azulo-te!

quinta-feira, 1 de julho de 2004

os jardins de tafetá












a uns tantos na cerca dos jardins juntaram-se quase todos os cortesãos às janelas deste palácio subitamente glamoroso. todos querem ver o desfile dos guerreiros. soltam-se orações, bençãos e desejos. um avatar que ainda não conhecemos ilude ou liberta o reino. enviado para matar e obrigar a renascer começou pelos jardins. apenas resistem os patriotas modernos nos jardins de tafetá.