sexta-feira, 27 de agosto de 2004

és como a força da ternura de um homem que inclina uma parede para que uma mulher descanse












"para que duas pessoas nunca se toquem -- ficando assim próximas do desejo e das partes internas do amor -- a pressa é hábil, lenta e hábil. sou eu que se confia ao tempo destas imagens que me são violentamente nítidas e à incisão das ideias que nunca me trocam de planos ou fazem viver fora da vida. planeio assim uma trajectória de entrada do meu núcleo no teu:
belíssimos temporais de inverno que nos infundem numa serenidade autista e uma paz tensa e enraizada que nunca vamos ter de explanar.
ser-me-á sempre possível respirar tão fundo a ponto de cair para trás, ter o dom de parar os olhos em ti e rasgá-los com uma voz que te seja indistinta.
irei contigo a todos os lugares e não pertencerei a sítio nenhum.
quero que saibas da minha necessidade universal de perder o ar pois só estancada saberei nadar pelas paredes fora. já viste as árvores geladas de inverno? impassíveis cortinas ___ e eu.
poderei dizer mais ainda?

na minha boca rebenta a espuma assimetricamente anterior a tudo isto."

dia por ama
ana calhau e eduardo prado coelho
texto editora, 2004.

quinta-feira, 26 de agosto de 2004

hummm...












o silêncio é literatura, não existe. só na ambiguidade da literatura seria possível ler/ter tanto do silêncio e brincar com o silêncio ou confundir palavras que não existem. dizer segredos como se fossem silêncio. o eco é o que sobra no silêncio e apenas existem ecos. já tudo foi dito. apenas escolhemos as paredes para construirmos os nossos silêncios. eu escolhi as minhas paredes: os nossos olhos. quero saber de que ecos se constrói o nosso silêncio.

quarta-feira, 25 de agosto de 2004

cinquenta













o luís carmelo faz hoje 50 anos e oferece no miniscente outras tantas ficcionalidades. a fotografia de rudolf koppitz, paul nadar, andré kertész, alexandre rodtchenko, bill brandt, brassai, jacques-henri lartigue e muitos outros na companhia dos textos a que nos habituou:

Um corpo é um porto de finalidades. Onde colocá-lo e como descobri-las?

obrigado e parabéns luís!

terça-feira, 24 de agosto de 2004

à mesa do café do aeroporto, digamos, com mendes de carvalho












lembrei-me neste verão de mendes de carvalho* e da sua poesia satírica, em especial do poema "sentado à mesa do café do aeroporto". também eu, sentado, percorri o mundo inteiro. fiz viagens diárias a madrid para ler no el país as preciosas crónicas de javier sampedro (goethe e as flores, crick e a consciência, os genes da coragem, etc). demorava-me mais ao sábado porque o babelia não faz férias em agosto como o mil folhas. levado por amelie nothomb, passei algumas horas no aeroporto da cosmética do inimigo e aí procurei o meu textor texel. visitei ainda a praga de kafka, s. petersburgo de dostoievski, a viena de freud, os pirinéus de walter benjamin, a lisboa de manuel de freitas, a atenas das cigarras e tantos outros lugares, sentado confortavelmente à mesa do meu aeroporto.

*mafalda, procura-me o livrinho de capa rígida laranja, please.

segunda-feira, 23 de agosto de 2004

el día siguiente


















sobre la carga de los días persistentes
en el lugar en que debía estar una sombra
en espera del antiguo roce entre los peces y la sal

desde aquí es posible escuchar
la respiración de la lluvia

(observa el movimiento de las aguas
cuáles son las sombras que originó tu paso.
cuál es ese sueño que no recuerdas.
cuál es tu tristeza. Cuáles son las formas de
tu tristeza.
tu llanto. cuáles son los colores de tu llanto).

la noche es la invención de la paciencia
y esta noche todo sucede por última vez

el viento no respeta la forma de los árboles
las raíces pierden el sentido de sus años
la música se desvía hacia la orilla del océano
y tú vuelves a ofrecer
tus cicatrices al viento

ven, el invierno conoce la duración de tu viaje
ven, esta noche es el día siguiente

deja que los dioses calmen tu dolor
sólo ellos pueden hacerlo
yo sólo miro por la ventana
y espero el final de nuestro último abrazo.


alejandro zambra
bahía inútil : (poemas 1996-1998)
santiago de chile : ediciones stratis,
1998 - 64 p.

sábado, 21 de agosto de 2004

vida digital












pouco mais tenho que a bagagem digital no fundo escuro de um servidor escondido num sítio que não conheço. possuo assim um endereço privado em condomínio fechado mas tão acessível como os telefones do matrix. aí guardo as tuas fotos, a cópia fiel das tuas cartas e as horas precisas em que nasceram as emoções. tenho ainda as coordenadas exactas em que mudaram os ventos, marquei as marés ou segui as correntes que me afastaram de ti. sei quando olhei as estrelas ou preferi os desenhos das cartas astronómicas. contudo, não me separo do frasco do teu perfume remoto sem cópia de segurança.

quarta-feira, 18 de agosto de 2004

abaixo de cão












a cidade não está vazia. estamos cá todos os invisíveis sobre quem escrevia ana paula inácio. os que vivemos nos shoppings, os que varremos as ruas e os gerontos que encolhem os ombros. apenas os cães se animam por aqui. porque será?

agosto último












sussuras nessa praia,
as palavras primeiras da última despedida
e não se esperará mais o amor
numa praia à beira chuva

terça-feira, 10 de agosto de 2004

urbi estivalia












a cidade perdeu as casas vazias
de familias vazias

as praças colaram as portas
da frente não responde ninguém

a torre foi levada em bolsas nikon
e vai voltar em setembro
com relógio digital

o mondego abusou das margens
na primeira inundação pacífica
da história da meteorologia social
e agora a outra margem acena de longe

a meia duzia que não saiu
passeia na única rua
em turnos de quatro horas
para receber algum turista perdido

sexta-feira, 6 de agosto de 2004

lou andréas-salomé















tinhas do teu lado a vida
(como disse rainer maria)
e querias ser outra deusa virgem,
completar o teu poema
unindo cinzas e terra
e devolver o amor aos filósofos

explica-me agora
(psicanalista da literatura)
o que dizem as minhas palavras
que não desvendo

quinta-feira, 5 de agosto de 2004

notte corta












partem comigo agora que os dias são maiores os contos tristes, os quadros inacabados e as cartas sem resposta. deixo para trás agora que os dias são maiores todas as palavras que só se dizem à noite. sei que é mais fácil agora que os dias são maiores iludir esse mundo onde acabam todas as viagens.

terça-feira, 3 de agosto de 2004

weltschmerzen












do alto deste dia vê-se escrito no passeio lá em baixo "anda com os pés na terra" e aqui é o céu que me suspende, me sustenta e me tem.
não fosse o homem o único animal que se engana com o futuro, que se alimenta de esperança e não tomava o divino do mesmo modo. e nós, os que saimos com holderlin todos os dias em busca de um novo caminho, umas vezes encontramos mestres e fazemos perguntas, outras vezes achamos respostas avulsas à beira de pergunta nenhuma.

segunda-feira, 2 de agosto de 2004

nada pode ser tão grave assim (versão j. k. rowling)



"a word of caution: dementors are vicious creatures. they will not distinguish between the one they hunt and the one who gets in there way. therefore i must warn each and every one of you to give them no reason to harm you. it's not in the nature of a dementor to be forgiving. but you know happiness can be found even in the darkest of times, when one only remembers to turn on the light."

dumbledore, harry potter and the prisoner of azkaban.

o(utro) mistério da estrada de sintra












na cerimónia, o padre citou dostoievski:"a beleza salvará o mundo".
pouco depois a noiva fugiu com o fotógrafo.