quinta-feira, 30 de setembro de 2004

sad sad sisters












as duas tardes de outono
desamparadas de dias de setembro

o livro aberto e estas páginas
o monólogo e o silêncio

(não me avisaste para ter cuidado
com o kaddish e com o kertész)

todas as capas sem quadros de hopper
as horas vazias sempre e só elas aos pares

todas as razões tristes
e as emoções que nos inclinam


(sisters, acrílico sobre tela, nevin hirik, 2000)

terça-feira, 28 de setembro de 2004

sympathy














"the heart is the seat of a faculty, sympathy, that allows us to share at times the being of another. sympathy has everything to do with the subject and little to do with the object, the "another", as we see at once when we think of the object not as a bat ("can I share the being of a bat?") but as another human being. there are people who have the capacity to imagine themselves as someone else, there are people who have no such capacity (when the lack is extreme, we call them psycopaths), and there are people who have the capacity but choose not to exercise it."

(p79)

domingo, 26 de setembro de 2004

o matrix da minha rua












entre o sapateiro e a retrosaria, tenho a certeza, está uma senhora de muita idade à janela que diz adeus às pessoas tristes. vão dizer-te que não, as lojas estão lado a lado. apenas tens de passar muito muito muito devagar. e ter atenção, é essencial. eu sei que hoje não precisas, mas um dia já sabes. muito muito muito devagar, não esqueças, e verás a senhora. depois, o teu dia vai ser diferente.

quinta-feira, 23 de setembro de 2004

dos gigantes e dos anões












nos tempos em que lia as aventuras de gulliver preferia-o na terra dos gigantes. a imagem do herói atado pelos liliputianos era enternecedora para as meninas. contudo, os gigantes eram mais fortes, chegavam mais depressa e viam mundos mais distantes. depois a vida pregou-me uma partida e fascinei-me pela minha fábrica de micromáquinas. ou seja, apesar de preferir conscientemente o contrário, continuo a não saber porquê, como rosa montero, mas os anões acabam sempre por aparecer nas minhas histórias.

quarta-feira, 22 de setembro de 2004












chega a meio da noite o anúncio do outono: nas janelas que ontem sorriam chove copiosamente e o miúdo finta sozinho num quarto escuro o ladrão das brincadeiras de amanhã. escrevo num papagaio que ninguém nos roubará a alegria de sonhar e solto-o do meu terraço.

ouve bem benjamin, este papagaio não se assusta com as tempestades!

domingo, 19 de setembro de 2004

vem ver como o mundo se reinventou enquanto tu dormias












ao meio da noite ela escreve no escuro sobre as grades em que se transformou o ar que respiramos, ele acena do outro lado do estúdio e atravessa a noite com a música e a voz como só a magia da rádio o faz. eu saio do último turno da fábrica e dou a volta a paris guiado por um flâneur.

amanhã só pode ser um dia diferente.

os dias de little venice












sinceramente, eu queria avisar que ainda estava vivo mas, como aconteceu ao wakefield de hawthorne, o tempo foi passando. vivi durante uns tempos numa barcaça em little venice que me fez recordar a holanda. fui bem tratado pela sophia e pelo seu marido nathan. passava os dias em leituras gozando uma atmosfera de cuidado para que nada me interrompesse. algumas noites saía para uma ou outra festa nas barcaças vizinhas. chegámos a visitar em camden town um grupo de amigos que pararam no tempo e sairam do mundo. dessa vez, ainda pensei não voltar ao canal mas não me agradava assim tanto ficar nos anos setenta. como dizem por aí, quem se recorda desses anos é porque não os viveu.

um dia repeti para mim as palavras de wakefield (ora eu não sou tolo!) e voltei.

tomei o caminho do regent's canal até primrose hill e sentei-me nos degraus do 23 da fitzroy road. passados uns minutos toquei a campainha. atendeu-me um mulher aparentando uns quarenta anos, muito alta e de longos cabelos ruivos que me reconheceu de imediato como estrangeiro e, tomando-me como turista, apressou-se a dizer que não havia nada exposto nem eram permitidas visitas. sosseguei-a dizendo que não procurava sylvia plath ou w.b. yeats e que apenas gostava de ver o rosto de alguém que habitasse aquelas salas. surpreendida pelo argumento inesperado, fechou-me a porta na cara. regressei então a casa, confiante que ninguém saberia pelo meu rosto onde morei nestes últimos tempos.

sábado, 18 de setembro de 2004

luc tuymans












o atellier é talvez um sexto andar com vista sobre antuérpia. luc tuymans demora-se à janela tentando encontrar justificação para o facto de uma cidade tão pequena ter tanta importância. como se não acreditasse nos seus argumentos, confirma enquanto comenta. afasta-se depois e prepara uma paleta enorme para pintar um retrato de mickey mouse. toda a sala está preenchida com retratos e figuras humanas.

não acaba os corpos nem as conversas do holocausto. talvez porque voltaram sempre, em todas as refeições, na casa dos pais. continuarão sempre.

ao contrário de picasso, acha que interessa perceber o modo como se constrói a obra. tem no seu olhar a incerteza da coreografia da pintura e procura como falta fazer.

foi esse esgar que guardei. muitas vezes me esqueço dos caminhos por ter o olhar preso no horizonte.

luc tuymans
tate modern, londres,
até 26 de setembro.

quinta-feira, 16 de setembro de 2004

um chá na willow tea room de buchanan street












aqui os corpos cansados não vão para casa.
partilha-se um chá antes das cinco (o pedido deve ser feito antes das quatro e meia).
o chá será o feminino do fim da tarde. a agenda do dia foi preenchida no masculino. uns pubs algures os escondem mas os salões de chá sáo locais de exibição no feminino. os sacos das compras como santo e senha.

a obra de charles rennie mackintosh é feminina. margaret macdonald, a senhora mackintosh, quase fica para trás. mas é ela a geisha de charles. são dela os desenhos com as simetrias. é dela a dualidade da obra de mackintosh. foi por ela, porventura, que tentaram classificar como art nouveaux a obra do marido. a glasgow school of art, a house for an art lover e as willow tea rooms fazem hoje, passado um século, justiça à memória do artista-arquitecto. talvez amanhã, ao fim da tarde, se faça justiça a margaret.

quarta-feira, 15 de setembro de 2004

fui visitar gustav metzger e estou de volta












olho constantemente para trás. mesmo quando venho a esta janela procuro a paisagem de todas as outras janelas por onde espreitei. tento saber o que guardei do que vi. algumas vezes (talvez em fotografias) encontro detalhes que então são importantes mas que naqueles momentos não vi ou simplesmente esqueci. outras vezes, descubro que continuo a lembrar insignificâncias que carrego como lixo. de algum modo, devem ser importantes e por isso aqui estão agora comigo. mesmo quando por qualquer partida estranha elas parecem desaparecer. vejo-as como gustav metzger vê o seu lixo. deve ser destruido ou destruir-se mas o seu lugar agora é aqui.

regresso












um dia
(que seja amanhã)
cruzaremos o peito
num abraço tão forte
como o papel-bíblia
com o anúncio da tua partida.

um dia
(que seja amanhã)
vais mostrar na tua mão
o esporo diáfano
que semeará as palavras
neste silêncio

um dia
(que seja amanhã)
vai ser para sempre
o teu olhar
meu como nunca o vi