sinceramente, eu queria avisar que ainda estava vivo mas, como aconteceu ao wakefield de hawthorne, o tempo foi passando. vivi durante uns tempos numa barcaça em little venice que me fez recordar a holanda. fui bem tratado pela sophia e pelo seu marido nathan. passava os dias em leituras gozando uma atmosfera de cuidado para que nada me interrompesse. algumas noites saía para uma ou outra festa nas barcaças vizinhas. chegámos a visitar em camden town um grupo de amigos que pararam no tempo e sairam do mundo. dessa vez, ainda pensei não voltar ao canal mas não me agradava assim tanto ficar nos anos setenta. como dizem por aí, quem se recorda desses anos é porque não os viveu.
um dia repeti para mim as palavras de wakefield (ora eu não sou tolo!) e voltei.
tomei o caminho do regent's canal até primrose hill e sentei-me nos degraus do 23 da fitzroy road. passados uns minutos toquei a campainha. atendeu-me um mulher aparentando uns quarenta anos, muito alta e de longos cabelos ruivos que me reconheceu de imediato como estrangeiro e, tomando-me como turista, apressou-se a dizer que não havia nada exposto nem eram permitidas visitas. sosseguei-a dizendo que não procurava sylvia plath ou w.b. yeats e que apenas gostava de ver o rosto de alguém que habitasse aquelas salas. surpreendida pelo argumento inesperado, fechou-me a porta na cara. regressei então a casa, confiante que ninguém saberia pelo meu rosto onde morei nestes últimos tempos.