domingo, 31 de outubro de 2004

no see, no fear (artist's self portrait): hannu a leimu, 2002.












"tell me 5 things you're most afraid of (may be an anonymous answer). please reply, this is for a small art project."
juno doran, monolog 04.10.23.

a minha resposta:

1.
desencontrar-me no tempo.
como num beijo, falhar esse momento em que tudo pode e deve acontecer. saber que tudo é uma corrida do presente e não há maneira de voltar atrás ou projectar no futuro o que fazemos agora.

2.
desencontrar-me no espaço.
não quero "estar onde não estou" mas sei que posso estar no local errado e não me aperceber disso.

3.
desencontrar-me nas palavras.
detesto erros de comunicação mas sei que posso dizer o que não quero e entender o que o não foi dito.

4.
desencontrar-me nos afectos.
dar agora o que não dei pode servir de muito pouco (funciona também com o verbo receber).

5.
desencontrar-me da vontade.
tentar voltar ao lugar em mim de onde parto para explorar o mundo e não o reconhecer ou já não funcionar e enfim, perder-me dele.

ars amandi III












tápate,
tápate las metáforas, hace
un pequeño frío de pequeño invierno,
con un pequeño radiador, pequeño
tiempo para sentirmos juntos
menos solos
que solos habitualmente, menos sabios
para decir amor mío sin remordimientos
para creer haber sido elegidos
hace tiempo
en un mercado persa anunciado por profetas

sí, cubro también mis imágenes impacientes.

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manuel vázquez montalbán
una educación sentimental, 1963.

quarta-feira, 27 de outubro de 2004

em serralves: paula rego e ana sousa dias












"outras conversas" (a dois) de ana sousa dias com paula rego: aprendemos que o génio não é explicável nem talvez conversável e pode estar-se assim no mundo.

a infantilidade da pintora continua a fascinar-me. ana fala com a avó, em tom maternalista, sobre o dia-a-dia, sobre os sentimentos primários e é assim que consegue colocar as perguntas que nenhum entrevistador faz.

serralves devia estar aberto depois destas conversas.

domingo, 24 de outubro de 2004

dou-te os meus olhos












ontem: o caminho era espelhado, não reparei nas margens e nunca duvidei de cada curva sem te ver.

hoje: quando procuro aquela silhueta, tão ao fundo, tão imóvel, não sei se será um abraço, a ternura da fusão ou o desespero solitário que tolhe cada desejo.

sexta-feira, 22 de outubro de 2004

noite azul












hoje todos os sonhos serão jill bioskop.

segunda-feira, 18 de outubro de 2004

faq's












porque é que estiveste na escócia e só escreveste sobre charles rennie makintosh?
porque não reservaste com antecedência o hotel mas encomendaste livros sobre os poetas escoceses?
porquê os novos poetas?
porquê "dream state" de daniel o'rourke?
porque lês ainda antologias?
porque preferiste precisamente peter mccarey que é o único que não vive na escócia mas sim em geneve?
porque é que o peter fez um blog que não é um blog e escondeu o que escreve de tal modo que ninguém pode ler nem sequer o silabário?
já reparaste que faq quer dizer frequently asked questions e frequently answered questions?

domingo, 17 de outubro de 2004

hoy vuelvo a la frontera*












(torno por teimosia ao outono de todas as conversas)

desenho palavras crepusculares que não acredito tenha ouvido alguma vez. a minha agenda, prima afastada e snob de moleskynes, não guarda rabiscos, antes filtra estúpida e friamente as emoções em caracteres normalizados. de tal modo que ao olhar para estas palavras assim alinhadas me parece torpe o fingimento do lcd.
pensei em tempos que apenas a escrita nos poderia salvar do silêncio. escrever e ler. precisamente nesta ordem, porque se nos atrevermos ao contrário caimos na mão dos escritores que nos couberam quantas vezes pelo acaso. ainda agora, quando seguia baudelaire e mallarmé me achei prisioneiro de corbière. e é o maldito que dita quase tudo o que vem depois. pelas páginas fora e até pelos sonhos. esta noite sonhei que estava travestido como tristan corbière numa fotografia que vi não sei onde.
e se não lermos? e se formos, agora e sempre, uma furiosa máquina de escrever, diabólica e obsessiva, que tão somente debita caracteres à procura da combinação mágica que nos devolve a paz dos primeiros passos depois da fronteira?

*la frontera, lhasa de sela, 2003.

sábado, 16 de outubro de 2004

petit mort pour rire












va vite, léger peigneur de comètes!
les herbes au vent seront tes cheveux;
de ton oeil béant jailliront les feux
follets, prisonniers dans les pauvres têtes...

les fleurs de tombeau qu'on nomme amourettes
foisonneront plein ton rire terreux...
et les myosotis, ces fleurs d'oubliettes...

ne fais pas le lourd : cercueils de poètes
pour les croque-morts sont de simples jeux,
boîtes à violon qui sonnent le creux...
ils te croiront mort - les bourgeois sont bêtes -
va vite, légers peigneur de comètes!

tristan corbière

terça-feira, 12 de outubro de 2004

rychlik rozvoje












houve um dia
(como o de hoje)
em que não pretendemos nada.

houve um dia,
(como o de hoje)
em que parámos o comboio e saímos,
procurámos água fresca e tratámos do jardim.

e foi nesse momento
(o que éramos quando foi?)
que reparámos no silêncio,
na brutal ausência dos juvenis,
nos animais que não viajam nesta carruagem,
nas histórias apressadas dos intervalos
no cenário vazio à nossa frente
na história parada sem guião
na tangente que o deserto nos faz

e não sabemos porque parámos
nem quando foi absolutamente imperioso parar.

sexta-feira, 8 de outubro de 2004

e se agora fossemos elementares









fossemos quarks e
teria sonhado sermos um hadrão.
mas o tempo passa,
aumenta a distância,
perdemos gluões e
diluimo-nos na nossa espécie.
diz-me,
acreditas na liberdade assimptótica?

terça-feira, 5 de outubro de 2004

mischa maisky na gulbenkian















este ano vi santa cecilia render-se a maisky. agora o grande auditorio da gulbenkian tem dois dias para o fazer.

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leonard bernstein: sinfonia nº 1, jeremiah;
ernst bloch: schelomo, rapsódia hebraica para violoncelo e orquestra;
max bruch: kol nidrei, para violoncelo e orquestra. op.47;
leonard bernstein: sinfonia nº 2, age of anxiety.

orquestra gulbenkian, lawrence foster (maestro),
cynthia jansen (meio-soprano),
mischa maisky (violoncelo),
nami ejiri (piano)

quinta, 7 Out 2004, 21:00
sexta, 8 Out 2004, 19:00

escada












não cedas à tentação. não escolhi esta foto para me falares do zé mário branco ou do camané. esta não é a escada da vida (a escada sem corrimão). quero que repares nos degraus e na luz. ou naquele espaço tão mais interessante onde apenas se podem ver sombras ou penumbras ou, se preferires, o anúncio dos degraus. e esta é a reflexão que te deixo para o dia de hoje e que seja um bom dia, paulo.