terça-feira, 30 de novembro de 2004

my wild love












my wild love went ridin'
she rode all the day
she wrote to the devil
and asked him to pay
the devil was wiser
it's time to repent
he asked her to give back
the money she spent

my wild love went ridin'
she rode to the sea
she gathered together
some shells for her head
she rode and she rode on
she rode for a while
then stopped for an evenin'
and lay her head down

she rode on to christmas
she rode to the farm
she rode to japan
and we entered a town
by this time the river
had changed one degree
she asked for the people
to let her go free

my wild love is crazy
she screams like a bird
she moans like a cat
when she wants to be heard
my wild love went ridin'
she rode for an hour
she rode and she rested
and then she rode on
ride, c'mon

(jim morrisson - my wild love: waiting for the sun, 1968)

segunda-feira, 29 de novembro de 2004

zurique












ontem não te disse, meu caro amigo, mas estiveste pouco tempo em zurique. não deu sequer para te aperceberes que a cidade é de robert walser para sempre. a tua rapariga do norte, que elegeu o fado alexandrino como livro da sua vida, usou a frase que vila-matas repetiu: escrever que não se pode escrever também é escrever. deve estar em grafittis por todo o lado, enfeitada com as letras rw entrelaçadas, como só eles sabem fazer. assim, não procures em mim a educação sentimental. lê walser e faz como ele. despede-te agora, escreve outras coisas e, acima de tudo, não fiques sozinho neste natal.

ai paloma












na azáfama das compras de natal quase ninguém notou que o parque mondego se transformou no val d'ayas, a torre da universidade se ergueu sobre o monte rosa e de repente era aqui o valle d'aosta. corria o verão de 1943, rosetta apaixonou-se por augusto enquanto benito caía. o grand hotel brusson e a juventude acabavam. os jogos de ténis enchiam os dias. por aqui nem decadência, nem guerra nem desporto.

ai paloma,
rosetta loy
editora replicação, 2004.

terça-feira, 23 de novembro de 2004

vida operária












na minha fábrica não aceitam os meus relatórios porque não cumprem as normas. não é a primeira vez que acontece. dizem que não posso escrever como e. e. cummings, o texto deve ser sempre "justificado", não sabem porque não acabo as frases, as imagens que escolho não são de máquinas nem de registos delas e, além do mais, querem "estatística". na semana passada pediram-me que preparasse uma comunicação para os engenheiros. ficaram irritados porque apresentei um loop de 7 minutos e 30 segundos que ocupou exactamente a hora que me destinaram e abandonei a sala depois de carregar na tecla play. disseram-me que me deixasse de modernices que eles não eram arquitectos. eu respondi que não era moderno mas sim contemporâneo (muito contemporâneo). que a galp gostava e desfilava a voyager 3.0 para exibir loops. acrescentei que a bilbao industrial tem uma fábrica só para mostrar estes relatórios, assim em vídeo desfocado, sem personagens, sem história e com sons indecifráveis. acusam-me de não colaborar na implementação das normas iso nove mil e tal e assim nunca vamos ter a certificação. já pensei despedir-me mas gosto da minha janela na sala das máquinas. pressinto o pc pelos corredores do piso de baixo, sei que na fábrica em frente está o bonirre, o castor e a margarete. que ao lado pode estar o luís. não vejo a sofia mas acho que deve estar mais abaixo, perto do bruno, dos calceteiros, dos incertos de heisenberg, do innersmile e do ricardo. gosto de os saber por perto. todos devem estar a fazer os seus relatórios também. não sei como serão. espero que apareçam um dia para uma jornada de formação.

agora tenho de ficar por aqui. estão a chegar os inspectores.

segunda-feira, 22 de novembro de 2004

chá de tília












procura a que dobrou no peito o olhar do lobo
e pergunta-lhe o que fez daquela tarde
em que percorreu de sandálias brancas
o jardim chuvoso
brindando as copas
num baptismo de chá de tília.

diz-lhe que encontrei ainda agora
num grande livro grande de ruy belo
a página onde só se lê uma palavra
primavera

sábado, 20 de novembro de 2004

cracóvia num momento












já tomou o mal pelo bem e não sabe o que fazer para voltar ao doce engano. vê agora o outro lado das coisas: o mal, as sombras e a morte. já não acredita que a poesia pode salvar o mundo. partiu milosz e talvez tenha levado a alegria.


a propósito da entrevista de wislawa szymborska a josé comas, hoje no babelia.

quinta-feira, 18 de novembro de 2004

a poesia da memória e do desejo












foi catarina quem disse hoje de manhã, tentando acordar docemente o passado e mimando o futuro:

os genes são a memória.
o desejo é o que fazemos deles.

Música*












Não são nobres as coisas que nomeio na poesia:
permanecem sob o palato, atentas, apenas conscientes
do calor ignorante da língua.
Se escutassem, ouviam o movimento, a onda de um eco
que repete letras vermelhas, destinos, e um turbilhão de vozes
perdidas -- como sempre -- em tudo o que é escuro e vazio.
Por isso digo outra vez: árvores -- de facto -- plátanos
atraídos para a água e suportados por pedras à volta.
É isto que é difícil: Cantar suavemente o milagre
do peso na luz, da sombra
que se cruza com o tempo e se espalha sobre o odor dos prados.

Tudo é corpo onde a alma chega atrasada
mas o outono resplandece a um canto
e as palavras juntam-se com o ritmo prescrito:
amontoadas, entrecortadas, iniciadas, ao longo dos séculos.
E não é de música que falam, mas do estrondo dum relâmpago,
do granizo que golpeia contra as paredes.

*antonella anedda em tradução de ana teixeira
(recebida por e-mail)

terça-feira, 16 de novembro de 2004

ff












eu nunca fui à figueira da foz. nunca deixei, na areia ou no picadeiro, rotinas que se parecessem com as de frederico lourenço. não reconheço na minha mãe de s. julião aquilo que ele refere como "coisas da figueira" no seu amor que não acaba. de cada vez que pensaram que estive na esplanada ou na praia do relógio, eu estava em saint-tropez, saint-malo ou brighton. foi nessas praias que deixei as mãos cravadas na areia. lembro-me até de umas férias que passei com stefan zweig numa metamorfose mais embriagada ainda mas nunca fui à figueira.

sexta-feira, 12 de novembro de 2004

There’s a method in my madness*












Na Grécia, o mensageiro que chegava com a notícia, por vezes, não sobrevivia. Cheguei, assim, de repente. Estavas luminosa e disponível. Riste-te e não desferiste o golpe de punhal. Era, decerto, boa a notícia.

Aqui vai a última lista, que não quiseste ouvir:

1. There’s a double room in B., waiting for us on the xxth. Will you come?
2. How shall we contact each other from now on?
3. As nuvens negras já passaram, já só resta a dúvida metódica?
4. Ska vi knulla som hund mitt i natten?
5. Is this a new start? Shall we take it slowly?
6. Ainda bombeia mais rápido, esse músculo, quando me descobres no meio da multidão – ou nem por isso?
7. Were you really happy to see me?
8. Aviso-te que vou aparecer no teu aniversário. Preferes uma surpresa anunciada?
9. Are you positive?
10. Não tenhas medo. Só se vive uma vez.


* texto e foto recebidos por mail com pedido de publicação anónima.

o bosão de higgs












ele perguntou-lhe o que havia de concreto naquela relação.
ela disse-lhe que procurasse o bosão de higgs, a particula responsável pela materialização da energia que sentiam. contou-lhe ainda que acreditava que esse bosão existia e que era essa, afinal, a dimensão religiosa do par que formavam, espantoso talvez, porque abençoado pela partícula de deus.

segunda-feira, 8 de novembro de 2004

violentamente feliz












esperei sempre que emir kusturica voltasse ao registo de underground. violento nas críticas à comunidade internacional e ao nacional pacovismo mafioso e doce no sonho de uma terra tão rica como os seus filmes a mostram. em "a vida é um milagre" o ambiente é de guerra, de novo, e o caos, também sentimental, transforma-se num happy end como se quer de uma visão ácida mas sonhadora. a expressão de bjork foi usada há umas semanas atrás por pedro rosa mendes para classificar emir kusturica e os seus filmes. talvez se possa traduzir em três fotogramas apenas: o primeiro em que se prepara uma partida de xadrez entre o carteiro e luka, o engenheiro ferroviário; o segundo quando luka contempla o seu modelo da linha ferroviária de mokra gora à escala e o terceiro em que luka e sabaha se aproximam do amor durante a noite. em todos os momentos há bombardeamentos lá fora mas a vida continua.

os filmes e a vida de kusturica são assim como a música da sua "no smoking band".

quarta-feira, 3 de novembro de 2004

se a janela se fechasse eu diria: "voltem para casa e acendam a luz!"












obrigado ana, antónio, cristina, lídia, luís, marta, paulo e zazie, e também a vocês repórter lírico, henri michaux e bartleby (onde quer que estejam).

obrigado pelo estímulo do vosso exemplo.

segunda-feira, 1 de novembro de 2004

eram












o princípio era simples: o que tens de urgente para me dizer?
depois foi um espectáculo de sete peças de teatro no maria matos e acabou no sábado passado. era urgente que continuasse.

os textos foram soberbamente escritos por uma equipa que não é deste mundo. continuo com um problema com o pedro mexia mas isso é outra coisa.

as notas:
1. quando alguém diz algo de urgente raramente é ouvido.
2. urgência e tempo: grito e fuga.
3. o sexo é urgente o amor talvez não.
4. é urgente livrarmo-nos de algumas memórias ou adquirimos outras.
5. há pessoas que ainda levam sentimentos sobre algo que morreu ao serviço de urgência. talvez para reanimação ou para terem uma certidão de óbito.
6. há quem pense que tudo o que diz (ou escreve) é urgente. (talvez não devesse escrever isto, ainda).