terça-feira, 28 de dezembro de 2004

her heart is a christmas tree












prenda de Natal para o Paulo*

riso-de-mar

Cobres os pulsos de algas
e de espuma para que nas histórias
de meninos e de búzios
os risos se façam de mar.

Sandra Costa

a sandra criou a tradição de oferecer pelo natal poemas em troca de uma palavra que serve de mote. este ano escolhi riso-de-mar, o título de um seu poema do livro sob a luz do mar, editado em 2002 pela campo das letras. assim recebi outro poema riso-de-mar tão especial.

obrigado sandra.

domingo, 26 de dezembro de 2004

my head wanna be a christmas tree












não falo da luz, da fantasia ou do lugar dos sonhos dessa hora que para uns é noite e para outros manhã. falo dessa esperança que uma parte do mundo carrega e que não sobrevive aos últimos segundos antes da revelação das ofertas. uma estrela como desejo. sob várias formas. que dependam de mim.

quinta-feira, 23 de dezembro de 2004

ontem o mar












na noite à beira-memória-de-ti olhei o espelho gelado da geografia dos desencontros. a magia dos lugares e das mãos onde não estivemos faz desiguais as faces da lua que perseguimos. tinha poemas num livro fechado na mão cheia de areia que só podias ler por amor mineral.

segunda-feira, 20 de dezembro de 2004

escritura












julgou encontrar no silêncio
a resposta emocional inteligente
até ouvir finalmente
as palavras escritas em cracóvia

recomeçou a escrever devagar
confiante nas sagradas escrituras:
porque
digan lo que digan,
la escritura puede salvar al hombre.
hasta en lo imposible.

quinta-feira, 16 de dezembro de 2004

e se eu for um shandy?












li num livrinho* que se pode definir um shandy como um indivíduo com elevado grau de loucura cuja obra cabe facilmente numa maleta e que funciona como uma "máquina solteira" ou se comporta como tal. adicionalmente, pode ter espírito inovador, sexualidade extrema, ausência de grandes propósitos, nomadismo infatigável, tensa convivência com a figura do duplo, simpatia pela negritude e o culto da arte da insolência. ando a pensar na hipótese de eu ser um shandy. vou procurar ajuda especializada.

*história abreviada da literatura portátil, enrique vila-matas,
assírio & alvim, 1997.

recuerdo lola












na cidade de lola ainda se chega a pé a todo lado. há tempo para ir devagar e descobrir o que está muito longe das "nove casas, duas ruas" da aldeia de manuel da fonseca. as pessoas lembram o adormecer e esquecem o que sonharam. acima de tudo, nunca perguntam o que é a felicidade. também lá o céu é mais baixo e são apenas razões acústicas que me fazem apreciar de modo diferente a terra de lola.

quarta-feira, 15 de dezembro de 2004

a terra prometida












encontrei A. abrindo a caixa de correio no preciso momento em que eu o fazia. sorrimos pela coincidência de recebermos o mesmo livro: jerusalém de gonçalo m. tavares. orgulhoso da sua leitura, A. exibia o livro como quem atesta a sua fidelidade acolitando dominicalmente o padre joão. perguntei a medo se tinha lido outros livros do mesmo autor. perante a negativa, adiantei um "tenha cuidado, o homem não é certo e talvez não seja a leitura que espera para preparar a excursão dos leigos". agora que penso nisso arrependo-me mas não posso emendar. deixei contudo um pequeno bilhete pouco anónimo na caixa de correio de A.:

esta sexta-feira à noite, vai ouvir-se poesia de/com gonçalo m. tavares na livraria o navio de espelhos em aveiro.

será que vai aparecer? irei eu na excursão à terra santa?

sábado, 11 de dezembro de 2004

vinte e três e vinte e quatro de outubro de 2004












eu lembro-me da semana sem fim
das folhas rasgadas da agenda
de poemas prontos para consumo

e nunca a palavra "desfolhar" entrou
rasgando tanto os dias

dizia assim:

NÃO VOLTAREMOS a pressentir o mar
nem sequer lembraremos o turvo sal das bocas
sobre o rosto gémeo da máscara que nos esconde

louco pássaro de cinza sulcando o ar rarefeito
e a escuma luminosa dos meteoros que cegam
os frementes alicerces de cidade insone

não nos reflectiremos mais nos gestos desgastos
nem na demência da língua donde irrompe a alba
e nómadas continuaremos para lá do sangue
flutuantes no escuro sonho
os corpos incendiados um no outro
consomem-se formando insuspeitas constelações
vagarosamente
através dos séculos regressaremos
intactos ao nada essencial

al berto, o medo.

terça-feira, 7 de dezembro de 2004

turner prize 2004












o anúncio foi feito ontem pelo channel 4. à falta de cabo, a nossa enviada especial estava lá. the winner was... jeremy deller, o homem que filmou a batalha dos mineiros de orgreave, o texas de bush em memory bucket e que citou lenine (isto anda tudo ligado...). para trás ficaram ben langlands e nikki bell, que pisaram o risco ao filmarem e recriarem virtualmente a casa que bin laden ocupou no afeganistão. estes e os outros nomeados na shortlist de 2004 (kutlug ataman e yinka shonibare) podem ainda ser vistos na tate britain até 23 de dezembro.

quinta-feira, 2 de dezembro de 2004

In una stessa terra










Agora é só a chuva que abençoa o caminho
e na água agitada uma luz redentora quase nos guia.

Será curta a distância até ao fulgor.
Do forno onde se prepara a comida elevam-se
densas nuvens,
tudo pouco diferente da vida de sempre:
uma diferença no gesto que coloca os pratos para a ceia
uma luz na fenda da parede
entreaberta para terras de paz.

Fogo de cidra a orlar os campos.
Assim veremos os rostos dos ausentes
as iniciais dos nomes arrasados pelos lapíli
nenhuma dor senão o movimento das mãos
a afastar o fumo

e noite após noite: uma fissura.

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Ora è solo pioggia che benedice la strada
e nell'acqua che trema quasi una luce redenta da seguire.

Sarà una piccola distanza dal fulgore.
Dal forno dove il cibo si innalza
alle nuvole brune
tutto appena diverso dalla vita di sempre:
uno scarto nel gesto che depone i piatti per la sera
una luce nella crepa del muro
schiusa verso terre di pace.

Fuoco di cedro lungo i bordi del campo.
Così vedremo i volti degli assenti
le iniziali dei nomi travolte dai lapilli
nessun dolore ma il moto delle mani
che allontanano il fumo

e notte tra la notte: una fessura.

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Antonella Anedda, de Notti di pace occidentale, Donzelli, Roma, 1999.
Tradução de Ana Teixeira (recebida por e-mail),
baseada no original e na versão em castelhano de Emílio Coco.

quarta-feira, 1 de dezembro de 2004