segunda-feira, 31 de janeiro de 2005

tattoo












todas as noites encho de imagens tuas as almofadas para te ter nos meus sonhos. todas as noites te peço as palavras que dizem tudo e acordo sem me lembrar se as ouvi. por isso peço-te que esta noite seja diferente. escreve-as no meu corpo e eu as usarei como uma tatuagem.

quinta-feira, 27 de janeiro de 2005

A todos los judíos del mundo, mis amigos, mis hermanos












Estos poetas infernales,
Dante, Blake, Rimbaud
que hablen más bajo...
que toquen más bajo...
¡Que se callen!
Hoy
cualquier habitante de la tierra
sabe mucho más del infierno
que esos tres poetas juntos.
Ya sé que Dante toca muy bien el violín...
¡Oh, el gran virtuoso!
Pero que no pretenda ahora
con sus tercetos maravillosos
y sus endecasílabos perfectos
asustar a ese niño judío
que está ahí, desgajado de sus padres...
Y solo.
¡Solo!
aguardando su turno
en los hornos crematorios de Auschwitz.
Dante... tú bajaste a los infiernos
con Virgilio de la mano
(Virgilio, «gran cicerone»)
y aquello vuestro de la Divina Comedia
fue una aventura divertida
de música y turismo.
Esto es otra cosa... otra cosa...
¿Cómo te explicaré?
¡Si no tienes imaginación!
Tú... no tienes imaginación,
Acuérdate que en tu «Infierno»
no hay un niño siquiera...
Y ese que ves ahí...
está solo
¡Solo! Sin cicerone...
esperando que se abran las puertas de un infierno que tú, ¡pobre florentino!,
no pudiste siquiera imaginar.
Esto es otra cosa... ¿cómo te diré?
¡Mira! Éste es un lugar donde no se puede tocar el violín.
Aquí se rompen las cuerdas de todos los violines del mundo.
¿Me habéis entendido poetas infernales?
Virgilio, Dante, Blake, Rimbaud...
¡Hablad más bajo!
¡Tocad más bajo! ¡Chist!
¡¡Callaos!!
Yo también soy un gran violinista...
y he tocado en el infierno muchas veces...
Pero ahora, aquí...
rompo mi violín... y me callo.

León Felipe

terça-feira, 25 de janeiro de 2005

closer












eu conheci aquele olhar. ainda hoje ouço o seu nome tantas vezes repetido ao polícia que não acreditava no passaporte. também ele se insinuou. separava-nos o comprimento de uma carruagem do ice. eu viajava de leipzig a munique por nuremberga. era uma sexta feira e o comboio ia verdadeiramente esgotado. aquele era o olhar de quem vai anunciar uma despedida e uma verdade. por esta ordem assim. ela saíu em jena e voltou esta semana. a esse momento.

sexta-feira, 21 de janeiro de 2005












ela
traz-me no coração e na boca
mas pensa em mim como se eu existisse

quinta-feira, 20 de janeiro de 2005

MIRANDA v. ARIZONA, 384 U.S. 436 (1966)












a última vez que entrou no quarto dela notou o ar grave e sério que contrastava com o desejo dele. ao primeiro gesto do ritual de aproximação preliminar ela disse-lhe:

- tens o direito de permanecer em silêncio. o que quer que digas pode ser usado contra ti. tens o direito de evocares quem quiseres e de manteres essa pessoa no teu pensamento enquanto aqui estás. sem aconselhamento provavelmente não podes começar nada por agora. podes exercer a qualquer momento estes direitos e não responder a qualquer questão ou fazer qualquer declaração.

ele evadiu-se na primeira oportunidade.

terça-feira, 18 de janeiro de 2005

a conversa possível












- sinto que falamos linguas diferentes. não me percebes e provavelmente eu não te percebo a ti.
- queres ver o meu frigorífico?

segunda-feira, 17 de janeiro de 2005

this is not a post












eu sei que é difícil perceber alguns textos. algumas vezes faço de propósito. eu sei que recorro à ambiguidade. levo um tempo enorme para arranjar a fórmula que me parece mais conseguida na procura de todas as interpretações possíveis (e não escrevo na garagem). esta imagem é outra coisa. o que queria dizer está tudo aqui.

agenda












hoje, lá mais para a noite, emir kusturica vem a lisboa com a no smoking band para tocar "la vie est un miracle". emir apresenta assim a sua banda:

the NO SMOKING band will tell an entirely different song from that of the Yugoslav national football team, for these are soloists who are at their best when they play as a group, generating a refreshingly original kind of music that is entirely their own.

eu não vou poder estar presente porque tenho de fazer o turno da noite na fábrica mas desejo aos que lá vão (at e tantos outros) um excelente concerto.

nota importante: quando gritarem pelo rapaz digam "kusturitza". um brilharete em servo-croata que me ensinou um amigo poliglota.

domingo, 16 de janeiro de 2005

revelação















na tina da câmara obscura
a face do sábio
(até agora sentado de costas
no cimo da montanha)
surpresa e certeza
uma mulher (um espelho
de lou andreas-salomé)

sexta-feira, 14 de janeiro de 2005

jazzion: south froggies (featuring allan)














- quem me dera saber quem és e o que queres dizer.
- hoje digo-te tudo se o perguntares com um saxofone.

c. k. williams: dizem que a américa precisava de um poeta assim












The World

Splendid that I'd revel even more in the butterflies harvesting pollen
from the lavender in my father-in-law's garden in Normandy
when I bring to mind Francis Ponge's poem where he transfigures them
to levitating matches, and the flowers they dip into to unwashed cups;
it doesn't work with lavender, but still, so lovely, matches, cups,
and lovely, too, to be here in the fragrant summer sunlight reading.

Just now an essay in Le Monde, on Fragonard, his oval oil sketch
of a mother opening the bodice of her rosily blushing daughter
to demonstrate to a young artist that the girl would be suitable as a "model";
the snide quotation marks insinuate she might be other than she seems,
but to me she seems entirely enchanting, even without her top
and with the painter's cane casually lifting her skirt from her ankle.

Fragonard needs so little for his plot; the girl's disarranged underslips
a few quick swirls, the mother's compliant mouth a blur, her eyes
two dots of black, yet you can see how crucial this transaction is to her,
how accommodating she'd be in working through potential complications.
In the shadows behind, a smear of fabric spills from a drawer,
a symbol surely, though when one starts thinking symbol, what isn't?

Each sprig of lavender lifting jauntily as its sated butterfly departs,
Catherine beneath the beech tree with her father and sisters, me watching,
everything and everyone might stand for something else, be something else.
Though in truth I can't imagine what; reality has put itself so solidly before me
there's little need for mystery. . . Except for us, for how we take the world
to us, and make it more, more than we are, more even than itself.

(the world, the singing, c. k. williams,
farrar, straus and giroux, new york, 2003)

quarta-feira, 12 de janeiro de 2005

S












lettera del silenzio e dei serpenti, del loro sangue secco
al sole, della serenità sapiente, del sussurro con cui si chiede di
tacere
.

il catalogo della gioia, antonella anedda,
donzelli, 2003.

domingo, 9 de janeiro de 2005

kafka por james coleman












eu vi kafka descendo a serpa pinto de braço dado com coleman. aquele sussurrava a este: tiramos fotografias para esquecermos o que fotografamos. coleman, que não sabe guardar um segredo, encheu uma parede do museu do chiado com a luz e a voz da confidência.

kafka por pedro mexia












eu vi kafka em campo de ourique de braço dado com mexia. aquele sussurrava a este: tiramos fotografias para esquecermos o que fotografamos. mexia, que não sabe guardar um segredo, encheu uma página da sua vida oculta com o blow up: tenho fotografias que provam/ que nunca exististe.

kafka por ruy belo












eu vi kafka no monte abraão de braço dado com ruy belo. aquele sussurrava a este: tiramos fotografias para esquecermos o que fotografamos. belo, que não sabia guardar um segredo, encheu de daguerreotipos os versos do elogio de maria teresa no transporte no tempo: são retratos diferentes de quem foste um breve instante/ e nele floriste e apenas não murchaste/ por haveres ficado um pouco mais em tais fotografias.

sábado, 8 de janeiro de 2005

nada do que posso me alucina*













rendo-me numa linha
à inevitabilidade do que é natural e
não insisto:
nada do que posso me alucina*

acordo todos os dias,
apesar de tudo,
sabendo do dia anterior que
nada que eu quero me suprime*

*jura secreta, zélia duncan.

é urgente: roberto bolaño












é urgente procurar 2666 o livro póstumo de roberto bolaño (anagrama, 2004) composto por cinco novelas e um ensaio de um escritor praticamente desconhecido entre nós. a unica obra publicada em portugal é "nocturno chileno" de 2000 (gótica, 2003). cento e cinquenta páginas lidas numa febre.

quinta-feira, 6 de janeiro de 2005

um buraco na sombra












a tua pedra negra regressa à minha mão fechada
e ilumina como um sol a minha noite em claro
virás por uma palavra?


talismã, carlos alberto machado.
assírio & alvim, 2004.


a ana teixeira que amavelmente enviou traduções da poesia de antonella anedda, criou agora um "refúgio para sobrevoar o esquecimento". está a fazer uma colectânea de poetas da blogoesfera e escolheu palavras minhas ilustradas por enki bilal. obrigado ana pela estima que é mútua.

quarta-feira, 5 de janeiro de 2005

storm












(to ingrid sthare)

i am drawing words with my finger in your window
searching for the silence that drains away with the water after the storm

sábado, 1 de janeiro de 2005

o mesmo mar de amos oz












imperdoável acabar o ano e não ter dado conta de amos oz*. obrigado eduardo, pela correcção. qual de nós poderia ter escrito:

albert de noite
a sombra dela na varanda, sombra lenta,
uma sombra que me vai abandonando.
em casa não se está bem. lá fora
está escuro. à noite o quarto
é mais baixo.


e sim tens razão, estas são as palavras:

agora levanta-te e vai procurar,
levanta-te com ligeireza e calma e vai procurar o que perdeste.


*o mesmo mar, amos oz, asa, 2004.