quinta-feira, 31 de março de 2005

céu adentro












habito por estes dias as telhas quentes do fim da tarde na cidade deserta de vontade. chamam-me os pássaros e a luz. tenho dentro de mim o peso da terra a acenar desculpas em fórmulas razoáveis, lógicas e ainda assim erradas. preparam-se já os olhos para a vertigem de amanhã.

quarta-feira, 30 de março de 2005

lux












"bem estreito é o fio da navalha! entre dois perigos me equilibro: de um lado ameaça-me a ávida boca do excesso, do outro a amargura da avareza que de si mesma se alimenta. e teimo na recusa de optar entre a orgia e a ascese, ainda que com isso me sujeite ao suplício em brasa dos desejos. não sou livre nos meus actos, por isso tudo me pode ser desculpado. mas este conhecimento não me basta. o que procuro para a vida não é uma desculpa, mas exactamente o seu contrário: é o perdão que busco. descubro, afinal, que se não levar em conta a minha liberdade, todo o consolo é enganador, mera imagem reflectida do desespero. de facto, assim que o desespero me diz -- "perde a esperança, o dia não passa de um momento de trevas entre duas noites", há uma falsa voz que me grita -- "tem confiança, a noite não é mais que um momento de trevas entre dois dias".
a humanidade, porém, não é de palavras que precisa; anseia por um consolo que ilumine. e mesmo aquele que deseje tornar-se mau -- agir como se todos os actos fossem defensáveis -- deve ter ao menos a bondade de notar quando o consegue.
é impossível saber quando cairá o crepúsculo, impossível enumerar todos os casos em que o consolo se fará necessário. a vida não é um problema que possa resolver-se dividindo a luz pela escuridão ou os dias pelas noites, mas sim uma viagem imprevisível entre lugares que não existem."

stig dagerman
a nossa necessidade de consolo é impossível de satisfazer
fenda, 1995.

terça-feira, 29 de março de 2005

hoje: um dia sem árvores












de manhã cedo a cor da paz era verde e os pássaros defendiam os ramos. vi uma raíz branca e velha numa tentativa de atropelar abril em março.

segunda-feira, 28 de março de 2005

momentos












suavemente nestas pregas irregulares
enroscado e quente como a criança da páscoa
uma respiração tão ténue, peso angélico

não posso negar que me alheio de vez em quando
mesmo nestes momentos amorosos

para campos estivais que reclamo como meus
onde posso ficar deitado e sentir-me
em paz com a minha morte
de braços e pernas esticados

não posso negar que sou fraco de vez em quando
mesmo nos meus mais fortes momentos

e a forma como gritas comigo
não sei por que ficas

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moments, mark kozelek
nights of passed over / noites de atropelo
trad. vasco gato.
quasi, 2002.

terça-feira, 22 de março de 2005

criar mundos












criar como tolkien uma terra média ou fazer como carrol um país das maravilhas, pode ser um passatempo interessante. as manas sara e teresa costa desenharam um site sobre construção de mundos, uma actividade complexa que envolve, entre outros, os domínios da literatura, ciência, antropologia, linguística, mitologia e história. além das ferramentas de ajuda, apresentam ainda as suas preferências fantásticas em termos de livros, filmes, bd e manga e anima em geral. um site a visitar para partir para uma aventura viciante.

Today Has Been OK












Friends tell me it's spring
My window show the same
Without you here the seasons pass me by
I know you were not new
That loved like me and you
All the same I miss you
Today has been ok
Today has been ok

The preacher lost his son
He's known by all in town
He found him with another son of God
Feeding on the prayer
Nevermind what God said
But love had lost its cause
And I thought today had been ok
Today has been ok
Today has been ok

Wind has burned your skin
The lovely air so thin
The salty water's underneath your feet
No one's gone in vain
Here is where you'll stay
'Cause life has been insane but
Today has been ok
Today has been ok
Today has been ok
Today has been ok
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Today has been ok, Emiliana Torrini.
Fisherman's Woman, Rough Trade, 2005.

quarta-feira, 16 de março de 2005

angelu - ággelos












hoje de manhã, a caminho da fábrica, a camioneta que seguia à minha frente sacudiu uns ramos de amendoeira à beira da estrada e choveram muitas pétalas que encheram o meu pára-brisas. senti o sinal como mathilde naquele longo domingo. soube depois que era um anjo que se despedia e não mais vivi no dia de hoje.

terça-feira, 15 de março de 2005

contemplação carinhosa de agustina












só me aconteceu uma vez, em colónia, apresentar-me luso à senhora mauff e ouvir em espanto "agustina bessa luís!". desse tempo apenas ficou a angústia do "luís".

sexta-feira, 11 de março de 2005

a noite vista daqui






















escolher um lado da noite
e chamar-lhe a nossa casa.

mefistofeles do avesso












jantei na auerbach's kellar de leipzig, a adega onde goethe escreveu o fausto. de nada valeram os pedidos a mefistofeles para me manter sempre velho, ao contrario do que fez a fausto. respondeu-me sempre com banalidades: isso sao pedidos que nao lembram ao diabo!

quarta-feira, 9 de março de 2005

einmal praha












aguardo na bahnhof zoologischer garten de berlin o comboio para leipzig. sei em que mundo estou quando vejo chegar na gleis 5 o ICE para praga e resisto a cometer uma loucura. nao vou. sinto nestes momentos que tenho a estatura da chiclete esmagada e negra. como pessoa responsavel que nao sou, contento-me com o kafka de soderberg em dvd que trago na bagagem. vou descobrir mais logo que alguem o riscou e nada mais sobra a nao ser a critica do chefe de kafka que nao conhece a sua vida dupla. na minha religiao divertida acredito que um deus que faz snowboard anda a enviar-me recados.

segunda-feira, 7 de março de 2005

este post é para te dizer e diz












eu sei que os recados não são apreciados pelos leitores desprevenidos que não gostam de códices mas este é um recado urgente:

todos os que me conhecem sabem, se eu não subo ao pessegueiro morro.

a força do invisível é o que faz com que os dias continuem a ser dias e quando subo à árvore, sinto o sangue correr-me de modo diferente, ouço correr numa calma que me deixa feliz. falo de coisas que são fáceis de entender mas difíceis de explicar mas eu também não quero explicar coisa nenhuma.

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além as estrelas são a nossa casa, abel neves.

sim meu amor, este recado é para ti.

sexta-feira, 4 de março de 2005

et quand bien même












(...)
et quand bien même
tu m'aimerais encore
je me passerai aussi bien
de ton désaccord
c'est le même dilemme
entre l'âme et le corps
comme un arrière-goût de never more Lautréamont Les Chants de Maldoror
tu n'aimes pas moi j'adore
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arabesque, jane birkin.

aqui












"confundir as ideias e nunca as disciplinar" dizia eco sobre os bons títulos. foi assim que tracei este caminho. um amigo desequilibrou-me para a frente e tropecei nas primeiras palavras mas tinha borges do meu lado: "um mundo imaginado é muito mais interessante". naquele tempo tinha visitas assíduas de hundertwasser e da minha avó. agora não sei de ninguém. fiquei fechado numa sala em silêncio. continuei a sentir as palavras de borges. vivia rodeado de eternidade e não tinha tempo para nada. agora sou o dono do tempo e do silêncio. sei exactamente o que posso fazer com cada segundo e tenho um milénio vazio pela frente.

terça-feira, 1 de março de 2005

c:\windows\home












agora que a lua diminui, vais entrar pelo terraço e atravessar as vidraças sem as abrires. sei-te a inundar de luz e risos os lençóis que sobram deste livro. hoje foste a sheherazade de sassetti nas palavras de manuel de freitas. foi lindo mas não era o axioma frágil do teu corpo.