sexta-feira, 29 de abril de 2005

paul auster: em memória de mim mesmo












Tão-somente ter cessado.

Como se eu pudesse começar
onde cessou a minha voz, eu mesmo
o som de uma palavra

que não consigo articular.

Tanto silêncio
para trazer à vida
nesta carne apreensiva, o ribombar
do tambor das palavras
na interioridade, tantas palavras

perdidas na amplitude do meu mundo
interior, e assim ter sabido
que apesar de mim
eu estou aqui.

Como se fosse isto o mundo.
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poemas escolhidos, quasi, 2002.

quinta-feira, 28 de abril de 2005

burka












baudelaire dizia no spleen de paris qualquer coisa como:
o pior dos males é o que é feito por estupidez.

sexta-feira, 15 de abril de 2005

renascimento











de certo modo, a mais duradoura paixão da minha vida chama-se leonardo. como acontece em grande parte das paixões, o ciúme mancha, mais tarde ou mais cedo, um sentimento que se queria imaculado. aconteceu-me depois da publicação do livro do senhor brown. recusei-me, obviamente, a ler o livro, usando primeiro a desculpa da letra pequena na versão de bolso em inglês e depois a legitimidade do meu preconceito pela ilustre companhia de não-leitores. mas hoje, na data do seu aniversário e cansado de ser estúpido, reconciliei-me com leonardo. foi a abertura do site do google que o provou: permiti-me um sorriso de ternura, genuíno. diz duchenne e damásio que uma alegria verdadeira provoca essa espontaneidade solicitando dois músculos, o grande zigomático e o orbicular palpebral inferior, sendo este usado apenas de forma involuntária. é a alma que fala e, sendo assim, não faz sentido tentar contrariar. volta leonardo, perdoa-me.

quinta-feira, 14 de abril de 2005

agenda












"Paul Auster, cujo romance mais recente, A Noite do Oráculo, foi há pouco publicado entre nós, vem a Lisboa por ocasião da saída, em nova tradução, do seu romance (de 1990) A Música do Acaso. É uma oportunidade única para ouvir falar de si e dos seus livros, de o escutar em algumas leituras, de decifrar talvez o mistério desse caderno azul de fabrico português que o escritor Sidney Orr (protagonista de A Noite do Oráculo) compra ao chinês M.R. Chang na papelaria Paper Palace de Nova Iorque... Um encontro a não perder, com um dos maiores romancistas contemporâneos."

Conversas
Culturgest, Sala 2
29 de Abril
21h30
Entrada Gratuita: levantamento de senha de acesso, 30 minutos antes do início da sessão, no limite dos lugares disponíveis.

terça-feira, 12 de abril de 2005

a letra imensa












(kafka, robert natkin, 2004)

para ela basta a letra k para ganhar a sua atenção. contei-lhe há dias a história de benjamin kantarovich, o "ratinho" tio-avô de moacyr scliar. a mim brilharam-me os olhos com as suas ideias de revolucionar a alfaiataria fazendo paletós com a manga esquerda mais curta facilitando o uso do relógio de pulso. ela apenas perguntava quando aparecia kafka na história, sem sequer prestar atenção aos detalhes do golpe de 64. no principio do ano escrevi-lhe um post em código misturando james coleman, pedro mexia e ruy belo com o seu kafka. arrisquei-o numa derradeira tentativa de ter um convite seu para jantar. ela não o leu sequer. em março desesperei em berlim por não entrar no comboio para praga. não queria ir sozinho. sabia que lhe podia dar um dia a minha primeira visita à cidade de k na sua companhia. valeria um desflorar. ela não o entenderá. ainda me guardo para ela mas não sei se serei feliz com a sua letra imensa.

segunda-feira, 11 de abril de 2005

who would you like to see on the turner prize shortlist this year?











i would like to nominate the following artist for the turner prize 2005:
juno doran
deadline for nominations: 11 may 2005

sábado, 9 de abril de 2005

parte-se-me o corpo












o corpo sussura, sim, ao princípio o corpo sussura mas no final grita.

o noise pop de são francisco de 2004, confirmado na zambujeira-do-mar/sudoeste de 2005: devendra banhart a 5 de agosto.

sexta-feira, 8 de abril de 2005

canção do dia de hoje












chegou hoje a tradução de frederico lourenço da ilíada de homero. conforme prometido, li em voz alta a introdução e os primeiros versos. a versão original era cantada para ajudar a decorar tão longa história mas perdeu-se a música há muito tempo. mesmo assim, o vizinho de cima tentou acompanhar com o saxofone o que resultou numa versão a meio caminho entre o acid-jazz e o chill-out. a vizinha do lado sorriu da sua varanda quando ouviu o primeiro verso: canta, ó deusa, a cólera de aquiles, o pelida.

noite alta, ainda ecoam no condomínio os versos da ilíada. a insónia faz-me contar significados possíveis para o facto da primeira palavra da ilíada na versão grega ser "cólera". repito a fórmula que usei nas noites brancas para os lusíadas que terminam com a palavra "inveja".

hoje não me apetece contar carneiros depois de ver a fátima lopes na sic notícias.

quarta-feira, 6 de abril de 2005

o fim da acídia












a partir de hoje este blog deixa de poder ser lido em silêncio. concordo em absoluto com santo agostinho que nas suas confissões se insurge contra ambrósio, o bispo de milão, por ler em silêncio sem mover a língua. em alexandria, pérgamo, cartago e roma não se lia assim. a tradição da leitura em voz alta que se quebrou no século IX no scriptorium monástico deve ser retomada. a leitura em silêncio propicia o sonhar acordado, o perigo de acídia, "a destruição que devasta ao meio-dia". um leitor que se fecha no silêncio é um leitor perigoso. por tudo isso, este mundo prepara-se para ser um audioblog de terceira geração. não me refiro aos ficheiros de som no arranque da página mas prometo mais detalhes para breve.

terça-feira, 5 de abril de 2005

cam












como o teatro também é mentira, fez o acaso que voltasse neste dia primeiro de abril. por engano, entrou e não prometeu voltar nem disse adeus. obviamente, não se pode pedir que volte mas este palco é diferente quando ele está.

domingo, 3 de abril de 2005

bailado, boi alado












eis o homem, caro leitor. mas os poetas são animais duma exótica espécie antediluviana, onde todos os seres vindouros e passados coexistem, misturando e confundindo as suas formas. lembram os bois alados de dario. com as patas esmagam a terra e as suas asas fendem as nuvens e vão queimar-se nas estrelas. são monstros. aterrorizam os deuses e os demónios; os demónios com as patas e os deuses com as asas. e os homens passam por eles na rua, como quem passa por outro homem... não admira; cada homem é a medida do universo. por isso, ele cabe dentro do palmo do meu vizinho sapateiro e do palmo de newton... pobre universo e pobre newton.

xxxv, o bailado,
teixeira de pascoaes, 1921.