domingo, 31 de julho de 2005

a formosa pintura do mundo












primeiros dias de férias.
primeiro plano: a formosa pintura do mundo, frederico lourenço (cotovia, 2005).

quinta-feira, 28 de julho de 2005

quarta-feira, 27 de julho de 2005

n.y.c. - beira alta












olho e vejo,
em cima da secretária, uma maçã
não sei se é o modo como olho para ela,
assimétrica e real,
mas parece-me em tudo igual
às que pousavam na mesa das professoras
primárias, as meninas de vestido de chita

no outro dia vi tribeca
depois uma avenida com número
hoje volto a ver pomares
beira alta beira alta

digo-te se perguntares
passo este verão em viagem
à volta de uma maçã

beijar oliveiras












olive branch, bird's nest - jo self 2002.
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na semana passada visitei a juno doran em deptford. encontrei-lhe o olhar sobre o país distante que já tinha visto nas palavras de maria de sousa, agostinho da silva e jorge de sena. a ela a distância aumenta a ternura poética. despediu-se com um pedido para "beijar as oliveiras em portugal". sorri e dei mais atenção às oliveiras. este fim de semana, quando atravessava o alentejo, cumpri o pedido. na próxima visita levo-lhe o pires cabral.

quarta-feira, 20 de julho de 2005

ondaatje diz












descobri michael ondaatje numa loja de livros a duas libras, assim mesmo, em greenwich. não me lembro do nome, se tinha, mas não fica a mais de vinte metros do que sobra do cutty sark em doca seca. não caberia, decerto, nas livrarias do mal. o que importa é trazer os livros para a rua e procurar a trafalgar tavern de lord nelson ao lado do real colégio naval ou subir o parque em direcção ao observatório e escolher um tronco forte para descobrir que a poesia de ondaatje salva um dia. ninguém mais sabe, para lá do paciente inglês, onde fica o humor e a inteligência de ondaatje. quase como um segredo página a página. se tiverem sorte podem ouvir uma outra no smoking band sem kusturica em equilibrio na fina linha do meridiano que atravessa uma tarde de domingo inesquecível.

the cinnamon peeler


















If I were a cinnamon peeler
I would ride your bed
and leave the yellow bark dust
on your pillow.

Your breasts and shoulders would reek
you could never walk through markets
without the profession of my fingers
floating over you. The blind would
stumble certain of whom they approached
though you might bathe
under the rain gutters, monsoon.

Here on the upper thigh
at this smooth pasture
neighbour to your hair
or the crease
that cuts your back. This ankle.
You will be known among strangers
as the cinnamon peeler's wife.

I could hardly glance at you
before marriage
never touch you
- your keen nosed mother, your rough brothers.
I buried my hands
in saffron, disguised them
over smoking tar,
helped the honey gatherers...

When we swam once
I touched you in the water
and our bodies remained free,
you could hold me and be blind of smell.
You climbed the bank and said

this is how you touch other women
the grass cutter's wife, the lime burner's daughter.
And you searched your arms
for the missing perfume

and knew

what good is it
to be the lime burner's daughter
left with no trace
as if not spoken to in the act of love
as if wounded without the pleasure of a scar.

You touched
your belly to my hands
in the dry air and said
I am the cinnamon
peeler's wife. Smell me.

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The Cinnamon Peller, Collected Poems
Michael Ondaatje
Picador, 1989.

um e o mesmo dia













pintura de stephen finer,
cortesia da art space gallery de londres


um dia
vão querer saber
da história do meu corpo
e vai faltar aquela minha outra mão
que ficou no pátio
da rua da sofia.

terça-feira, 12 de julho de 2005

praia (privada)












o cesariny deve ter
na recolha de pascoaes
um aforismo para isto
que somos agora.

segunda-feira, 11 de julho de 2005

David Cruz e Andreia Barão


















Na (excelente) companhia de Boris Vian, Georges Brassens e Serge Gainsbourg, Léo Ferré, Renaud, entre outros.

Hoje no TAGV, 22h.

terça-feira, 5 de julho de 2005

sud-express 8:35
















se vieres, vem num filme de godard. abraça-me com a alegria do olhar de capra, o magnum. sussurra-me um segredo que eu não ouça com o barulho do vapor na estação, mas imagine as palavras pelo teu perfume. que eu te imagine como queira. e vem de comboio. não me digas de onde que vou pensar umas vezes em montparnasse e noutras em baiona ou biarritz e, mais que tudo, não pares de chegar.

segunda-feira, 4 de julho de 2005

o meu começo












a madrugada desponta e mais um dia
se prepara para o calor e o silêncio. no mar o vento da madrugada
encrespa-se e desliza. eu estou aqui
ou ali, ou algures. no meu começo.
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east coker, quatro quartetos - t. s. eliot.