domingo, 28 de agosto de 2005

traduzir-se












Uma parte de mim
é todo mundo:
outra parte é ninguém:
fundo sem fundo.

uma parte de mim
é multidão:
outra parte estranheza
e solidão.

Uma parte de mim
pesa, pondera:
outra parte
delira.

Uma parte de mim
é permanente:
outra parte
se sabe de repente.

Uma parte de mim
é só vertigem:
outra parte,
linguagem.

Traduzir-se uma parte
na outra parte
- que é uma questão
de vida ou morte -
será arte?

Ferreira Gullar

sexta-feira, 26 de agosto de 2005

auto-ajuda















Self-Portrait with Smiling-Aid,
Gottfried Helnwein - 1972.

devo escrever regularmente algumas linhas
para me lembrar a mim próprio
que me faz muito bem pensar que a auto-ajuda
como sinal deste tempo
me irrita cada vez mais.

terça-feira, 23 de agosto de 2005

holidays












não vou à praia, vivo de noite, apenas sou visto num edifício que frequento cuidadosamente depois da meia-noite onde somente um e sempre o mesmo segurança esboça um cumprimento, igual a um espasmo fraco e cinzento como as paredes abandonadas à tranquilidade estival. recebo curiosas mensagens no atendedor de preocupação familiar e amiga. a mais estranha de todas recebi-a de um amigo, que sempre viveu protegido pela noite e pelas palavras. "não te estás a preparar para repetir a história do avelino arredondo?"

sexta-feira, 19 de agosto de 2005

fotoblog


mercado das especiarias, istambul - 2005.

alcaravia, caril, cardamomo, chá,
cerefólio, caril, cravoária, chá,
curcuma, caril, gengibre, chá,
noz-moscada, caril, paprica, chá,
pimenta (verde, preta ou branca),
caril, zimbro e chá!

terça-feira, 16 de agosto de 2005

intervalo para poesia












Tu es le grand soleil
qui me monte à la tête*


*accroche da lancôme para o lançamento do perfume poême em 1998.
dois versos do poema "je t'aime" de paul éluard cantado no final dos anos 60 por yves montand.

sábado, 6 de agosto de 2005

5:47












quase seis na torre de são paulo
e arde ainda tudo o que sabemos e nunca seremos
numa babel que podia ter sido aqui

quinta-feira, 4 de agosto de 2005

most wanted












do livro de herman melville, a realização de jonathan parker (2001).

quarta-feira, 3 de agosto de 2005

noite taurina












enquanto tento reunir notas para a redacção do livro de um outro mundo imaginado, polux retorce-se no sofá. cita vila-matas* que cita "o doce clima de lesbos" de elena villena:

este relato obriga a sua autora a aceitar a regra da tauromaquia, que, como se sabe, persegue um objectivo essencial: além de a obrigar a pôr-se seriamente em perigo, a não se desfazer de qualquer modo do seu adversário (o seu êxito dependerá de um bom domínio da técnica), a regra impede que o combate seja uma simples carnificina; tão exigente como a de um ritual, oferece um aspecto táctico (preparar o leitor para receber uma estocada mortal, embora sem o fatigar mais que o necessário durante o combate) e um aspecto estético, também contido muito especialmente no termo da lide: fechar o livro será para o leitor como fechar a lousa que cobrirá a sua tumba.

- não polux, a este livro não se pode aplicar a regra. é outra coisa.
ele franze o sobrolho ao ler-me os lábios.
- cansa-me essa tua mania de pensares o tempo todo em escrever coisas diferentes. escreve igual aos outros, à tua maneira, e arruma de vez esse livro.

* a assassina ilustrada, enrique vila-matas
campo das letras, 2005.

segunda-feira, 1 de agosto de 2005

noite












polux, o meu gato surdo, propõe-me que reinventemos o mundo enquanto todos dormem. eu que acreditei sempre na clarividência do silêncio não estou em condições de o contrariar. começa assim a grande noite de um mundo imaginado.