terça-feira, 20 de dezembro de 2005

movimentos no escuro - josé miguel silva


Um ser humano é um combinado de egoísmo,
sofrimento e necessidade. Não comove ninguém.
Uma pedra não comove ninguém. A beleza
é um acidente banal e pressupõe a morte;
muitas vezes se rodeia de sandice, e se nos fala,
chega a ser assustador. A inteligência, refrescante
como um duche, sabe bem, no Estio; mas agora,
que é Inverno toda a vida, que lugar atribuir
à inteligência? O de criada de servir nos aposentos
da ganância. Não comove, é evidente, ninguém.
A bondade, sim, comove. Mas é tão débil
e tão rara que ninguém a ouve. Não é fácil,
assim, encontrar algo que possamos amar. Eu
tenho procurado, eu juro que não sei o que fazer:
tudo me parece, até a música, produto de uma falha.
Vou por essas ruas ao acaso e não acerto a conhecer
quem me convença que bem outra poderia ser
a vida. Tudo se mostra sob espelhos deformantes,
tudo arde numa estranha aceitação. Francamente,
não consigo perceber. E gostava tanto, mas tanto,
que alguém me demonstrasse que não tenho razão.
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morangos silvestres - ingmar bergman (1957)
movimentos no escuro, josé miguel silva.
relógio d'água, novembro 2005.

este livro de poemas de josé miguel silva, fala sobre o escuro, quase sempre de cinema. a excepção é uma noite que motiva um poema com o título "bayern de munique 1 x f. c. porto 2 - artur jorge (1987)". em 2005 o melhor veio no fim.

domingo, 18 de dezembro de 2005

ao sol com eliot



que está fazer o fim de novembro
com o alvoroço da primavera(?)

east coker
quatro quartetos, t. s. eliot.

quarta-feira, 14 de dezembro de 2005

is that all there is? then let's keep dancing...



caminharam pela west 51st street de braço dado, numa noite branca de dezembro. entraram no clube e ela sussurrou palavras ternas e roucas em alemão. quando dançavam, ele cometeu o erro fatal do desfasamento num meio tom de uma qualquer música brasileira. ela vingou-se um tempo depois e usou o humor no momento em que ele suspirava. a voz dela continuou em falsetes inesperados. ele sentou-se ao piano e não mais se levantou. quando a noite terminou e ela dançava sozinha na sala, ele perguntou "porque não me levas a sério?". ela olhou-o nos olhos e já não viu o brilho dos passeios em manhattan. respondeu apenas: "is that all there is? then let's keep dancing...".


a despropósito do espectáculo de vera mantero (voz) e nuno vieira de almeida (piano) no pequeno auditório do centro cultural vila flôr em guimarães. sexta-feira, dia 16 pelas 22 horas.

sexta-feira, 2 de dezembro de 2005

outra folha ainda


é no outono que verdadeiramente me morres como as árvores. guardo-te então dentro dos livros como se tentasse esconder um estação inteira no meio das folhas para esquecer.