terça-feira, 31 de janeiro de 2006

periférica: célia doran


The girl who was swallowed by her own shadow
Célia Doran 2005, Oil on canvas 150 x 100 cms.

na próxima e última periférica (edição nº14, inverno de 2006):

a pintora portuguesa que em julho me mostrou este quadro "in progress" e que enviou dos mary ann gardens um beijo para as oliveiras em portugal.

segunda-feira, 23 de janeiro de 2006

o medo


o medo
do destino que diminui
o que é pequeno

o medo do que se desconhece
em alguém
de que se conhece tanto

o medo de partir,
de ousar
ou de mostrar
outro caminho

ontem
o medo.

o medo
de ontem.

quinta-feira, 12 de janeiro de 2006

the burden of her memories


the burden of memories, ray caesar.

penso-me como mudança, em cada momento renasço e com facilidade apago todo o céu e desenho outras estrelas. esquecer tudo o que ouvi, vi ou pensei ajuda-me a olhar no instante seguinte cada situação como desconhecida. treinei durante anos o entusiasmo das descobertas. ela, a rapariga da janela que discreta me espreita, guarda na memória todos os meus gestos e discursos. como eu gosto dela assim contemplativa e como detesto o peso do passado com que ela me castiga.

sábado, 7 de janeiro de 2006

haja o que houver (um sublinhado)


"the past beats inside me like a second heart".

the sea, john banville.
picador, 2005.

quarta-feira, 4 de janeiro de 2006

haja o que houver (adenda)



"a ruminante paciência que há na espera"

a um deus surdo
variações em sousa, fernando assis pacheco.
angelus novus - cotovia, 2004.

era este verso que ontem não consegui citar de memória.

terça-feira, 3 de janeiro de 2006

haja o que houver



passaram por mim os amanheceres perdidos e as tardes tristes e durante anos eu chorava quando ouvia os versos de "haja o que houver" na voz de teresa salgueiro. a comoção das esperas eternas, a poesia de um cais que não se larga. coreografei mesmo a sinfonia sensorial que acompanhava a frase em que eu dizia "olha para mim, esperei por ti". repeti depois a fórmula a múltiplas situações: cada vez que acenava um adeus, escrevia uma mensagem mais ou menos instantânea ou pensava no amor adiado. veio depois o tempo em que ouvia em loop catatónico os mesmos versos até saturar o último receptor nervoso. ensinou-me a lígia, há uns anos na terapia comportamental, que vem nesse momento a serenidade absoluta e a sensação de que nada se passou afinal. "vem serenidade, és minha" eram os versos que eu repetia na auto-medicação em ambulatório. passei depois a evitar os madredeus, como fizera antes para os eagle, o peter frampton ou mozart. tudo pertence ao passado e não se pode viver, voltar ou esperar o avesso do tempo. "haja o que houver".

segunda-feira, 2 de janeiro de 2006

la muerte y los sombreros



nada se compara à escrita sobre o amor e a morte. rosa montero demonstrou-o este fim de semana no el país semanal (la muerte y los sombreros). a ler.


foto: fuzilamentos de comunistas em llerena.

começar de novo


a rute do lugar da incerteza e de um pássaro no lugar do coração está de volta com nenhuma palavra nos salva.
escolheu versos de casimiro de brito, o prémio europa de poesia 2005, num modo de dizer:

dizê-lo porém não sei de outro modo que não seja
cantar, cantar e arranhar
a velha cicatriz


o livro das quedas, casimiro de brito.
roma editora, 2005.