quarta-feira, 29 de março de 2006

a noite ou darwin agora


nunca considerei os coleccionadores. os únicos objectos que acumulo desordenamente são livros, discos e papéis diversos. olhá-los no seu conjunto seria ter uma ideia de mim próprio que não quero nem tomo como verdadeira. eu sou essencialmente as páginas de uma noite que se dobra rendida sobre um corpo que não responde mais. já deixei para trás uma biblioteca que poderia ser uma colecção. na minha presunção, espero que esteja viva ou acorde um dia em alguém que a ressuscite. ainda hoje largo quase tudo o que se acumula para lá da memória volátil. a minha vida recente está escrita numa caderno perdido no caminho ferróviário que liga zurique a berna. fosse eu um observador atento e não voltaria a abrir as páginas dos dias passados desse registo.
olhar e esquecer, não classificar, para poder voltar como se fosse a primeira vez.

quarta-feira, 22 de março de 2006

saída da fábrica


na minha fábrica não saimos à lumiére ou à aurélio da paz dos reis. o pessoal operário não se parece em nada com o da fábrica confiança. cada vez mais saímos à kippenberger.

terça-feira, 14 de março de 2006

the day after


todos os dias seriam suportáveis se fossem como a sexta-feira passada. eu fechado num hotel de uma ilha inverosímil que teima em falar português. o jornal que em castelhano se esquece de lisboa. o televisor em branco que espera friamente que eu escolha um canal. e nada, nem as obras que preparam os edifícios para as inaugurações, nos faz lembrar a noite que começa agora.

segunda-feira, 13 de março de 2006

pele fria


" coma bem, trabalhe muito, veja-se ao espelho, para se lembrar de quem é, fale em voz alta, para não perder o hábito da palavra, e ocupe o espírito com propósitos simples. mais nada."

conselho do senegalês sow ao oficial atmosférico

sexta-feira, 10 de março de 2006

tomada de posse ou o que piñol faz de um leitor



"1 de março - 16 de março
demasiado ocupado a lutar pela vida para escrever. e tudo quanto podia ser escrito não merece ser recordado."

a pele fria, albert sánchez piñol.
teorema, janeiro 2006, pp 107.

quinta-feira, 9 de março de 2006

heisenberg ou a noite outra vez


ouvi num documentário que no início do cinema quem fazia a montagem das películas eram as mulheres. porque se tratava de um trabalho parecido com tricot. talvez o avatar encontrasse aqui uma metáfora para a vida. uma certa vida.

e tu, o que me fazes meu amor?

quarta-feira, 8 de março de 2006

je suis un piéton, rien de plus


aprecio os momentos em que sou uma vontade portátil e a liberdade me devolve a mim mesmo.

terça-feira, 7 de março de 2006

tombe la neige


abraça-me a neve que recebeu walser. erro nos passos de rilke, zweig, cossery, roth e genet. por momentos, sou um habitante de não-lugares, uma presença fugitiva, um ser aleatório. apenas escrevo os reencontros. também eu apenas queria chegar ao inverno que agora se esvai. "tu ne viendras pas ce soir".

a beethoven strasse é um bosque deserto.

quinta-feira, 2 de março de 2006

cv2














estamos instalados numa pensao da seefeld strasse.
o rapaz da recepcao nunca ouviu falar de cabaret voltaire.
pergunta-nos se temos a certeza de ser em zurique.
antes disso fizera uma careta por querermos ir a um "cabaret" a horas em que santana lopes ainda dorme.
no interior prepara-se a "shoppingnation", o "showcase radical chic".
o rapaz vladimiro ilidio aponta com rigor os locais que precisam de mais luz.
"as gambiarras das vanguardas de hoje sao os farois de nao sei que" diz ele.
obviamente assistimos ao primeiro manifesto registei eu na sebenta.
no momento em que passamos pelo cafe no primeiro andar servem-se chas e bolinhos.
ouvimos tres discursos. so entendi um (em alto alemao). os outros pareciam mais interessantes.
nao me sai da cabeca o miudo da pensao.
vai levar com o catalogo dada do centro pompidou na cabeca.

chupetas!!!