domingo, 29 de junho de 2014

sementes

Domain XXXIV, Antony Gormley, 2003.

Este é o meu corpo. Esta é a minha mente.
Conhecem-se desde a infância e cumpriram pena juntos.

Do futuro nada sei. Apenas que vem aí.

Sementes, Segunda Voz, Vitor Nogueira, 2014.

sábado, 28 de junho de 2014

Silence

Zambezi River Sunrise 3, Carl Rittenhouse, 2011.

Today the river slinks like oil,
Hardly a current in its mud
As autumn leaves crawl on its face.

I left them in their blinding talk
To meet adopted path and sky,
And bend the grass for light and space.

Here I can hold the air with birds,
Still, solitary in their flight
Without men's calculated race.

Now only sun and water rule
Unchallenged over silent pain:
And the burst cry of a grey swan.

Lotte Kramer

quinta-feira, 26 de junho de 2014

Lírios

Lilacs and champagne, Akila Fields, Portland 2014.

Um dia deixarei para sempre o casaco no cabide da entrada
outras mãos que não as minhas haverá para o recolher
outros olhos pelos meus lhe hão-de fitar depois a ausência.
Depois, nem isso.
Há um momento em que se estende a toalha sobre a mesa dos mortos
como se tivesse sido sempre a mesa dos vivos. Esse dia virá.
Tudo então estará certo e limpo como o esquecimento.
Ou quase assim.

Dispo agora toda esta roupa e escrevo
- sem frio nem perda nem desastre -
a partir desse dia que virá, esse dia depois de mim:

lírios crescem no acaso da relva
uma leve poeira se acrescenta no ar que não respiro.

Matéria, Rosa Maria Martelo, Averno 2014.

segunda-feira, 23 de junho de 2014

Remember

s/ título, Tal Shochat, 2007.

Lembro, em primeiro plano,
tua estatura de planta
e recomeço a esculpir-te
em miolo de pão, pétala a pétala.

Remember, Maçãs de espelho, António Barahona
Língua Morta, Lisboa 2012.

sexta-feira, 20 de junho de 2014

pedro

Hans Peter Feldmann 2 Contemporary Art Exhibition Displaying 100,000 $1 bills at Guggenheim Museum
100,000 $1 bills, Hans-Peter Feldmann, Guggenheim Museum NY, 2010.

A identidade é um equívoco 
para camuflar o coração.

Identidade, in Duplo Império, Pedro Mexia, 1999.

quarta-feira, 18 de junho de 2014

Desmembramento de um semicírculo


Certo que nos dedicamos
a místicas peregrinações.
Exercitamos a respiração,
lutamos brigas orientais,
praticamos uma e sete vezes
a tradução do poema chileno.
Mas no fundo sabemos
que o que importa mesmo
é roçar a superfície negra
da pele do peito do anjo
que está vivo
que não dorme.

Matilde Campilho

segunda-feira, 16 de junho de 2014

E por vezes

Fog at sea, Fabio Keiner.

E por vezes as noites duram meses
E por vezes os meses oceanos
E por vezes os braços que apertamos
nunca mais são os mesmos. E por vezes

encontramos de nós em poucos meses
o que a noite nos fez em muitos anos
E por vezes fingimos que lembramos
E por vezes lembramos que por vezes

ao tomarmos o gosto aos oceanos
só o sarro das noites não dos meses
lá no fundo dos copos encontramos

E por vezes sorrimos ou choramos
E por vezes por vezes ah por vezes
num segundo se evolam tantos anos.

E por vezes, Matura Idade
David Mourão Ferreira, 1973.

domingo, 1 de junho de 2014

istanbul

Carmen Kass & Audrey Marnay, Hussein Chalayan, NY,1998.

Ao partir, ficam-me coisas por acabar,
ao partir.
Salvei a gazela da mão do caçador
mas continuou desmaiada, sem recuperar os sentidos.
Colhi a laranja do ramo,
Mas não consegui tirar-lhe a casca.
Reuni-me com as estrelas,
mas não as consegui contar.
Tirei a água do poço
mas não pude servi-la nos copos.
Coloquei as rosas na bandeja,
mas não pude esculpir as taças de pedra.
Não saciei os meus amores.
Ao partir, ficam-me coisas por acabar,
ao partir.

Nazim Hikmet, 1959.