quinta-feira, 19 de novembro de 2015

por não estarem mais distraídos

Rodney Smith, Blurry woman with hands clasped, Galena, Illinois 1997.

"Havia a levíssima embriaguez de andarem juntos, a alegria como quando se sente a garganta um pouco seca e se vê que por admiração se estava de boca entreaberta: eles respiravam de antemão o ar que estava à frente, e ter esta sede era a própria água deles.
Andavam por ruas e ruas falando e rindo, falavam e riam para dar matéria peso à levíssima embriaguez que era a alegria da sede deles.
Por causa de carros e pessoas, às vezes eles se tocavam, e ao toque - a sede é a graça, mas as águas são uma beleza de escuras - e ao toque brilhava o brilho da água deles, a boca ficando um pouco mais seca de admiração.
Como eles admiravam estarem juntos!
Até que tudo se transformou em não. Tudo se transformou em não quando eles quiseram essa mesma alegria deles. Então a grande dança dos erros. O cerimonial das palavras desacertadas. Ele procurava e não via, ela não via que ele não vira, ela que, estava ali, no entanto. No entanto ele que estava ali. Tudo errou, e havia a grande poeira das ruas, e quanto mais erravam, mais com aspereza queriam, sem um sorriso. Tudo só porque tinham prestado atenção, só porque não estavam bastante distraídos. Só porque, de súbito exigentes e duros, quiseram ter o que já tinham. Tudo porque quiseram dar um nome; porque quiseram ser, eles que eram. Foram então aprender que, não se estando distraído, o telefone não toca, e é preciso sair de casa para que a carta chegue, e quando o telefone finalmente toca, o deserto da espera já cortou os fios. Tudo, tudo por não estarem mais distraídos."


Por não estarem mais distraídos, conto, Clarice Lispector.

domingo, 18 de outubro de 2015

cd

Carla Diakov, Abril 2015.

queria sondar o excêntrico intocável através do sangue da fulaninha
queria procriar e queria trucidar com a pressa do passo
lembra?
andávamos
sem a nós nos encontrar

ai meu amor que não chega
ai a melancolia no fundo do prato, anjo

aquieta essa boca
amanhã alguém morre no samba

Carla Diakov
Amanhã Alguém Morre no Samba, Douda Correria, 2015.

terça-feira, 4 de agosto de 2015

cantar

Herberto Helder. Paris, 1958.
Lourdes Castro. Todos os livros, 
Curadoria: Paulo Pires do Vale. 
Museu Gulbenkian 2015.

quarta-feira, 29 de julho de 2015

exílio

'Blackbird' (Celaeno), Michael Davidson, 2013.

Um dia de primavera no fim do mundo.
No fim do mundo, de novo o dia passa.
O melro chora, como se fossem as suas lágrimas
Que molham os ramos cimeiros das árvores.

Chuva Na Primavera E Outros Poemas, Li Shang-Yin
Assírio & Alvim, 2001.

terça-feira, 14 de julho de 2015

devagar, ausente


Tentas, de longe, dizer que estás aqui.
Com peso triste caminha na rua o Outono.
O meu coração debruça-se à janela
a ver pessoas e carros, e as folhas caíndo.

Mastigo esta solidão
como quando era pequeno e jantava
diante dos pais zangados:
devagar, ausente.

Fernando Assis Pacheco

segunda-feira, 13 de julho de 2015

Ítaca

Ítaca, oil and acrylic on canvas, 50x60 cm, Katsutomi Horiki, 2001-2006.

Quando abalares, de ida para Ítaca,
Faz votos por que seja longa a viagem,
Cheia de aventuras, cheia de experiências.
E quanto aos Lestrigões, quanto aos Ciclopes,
O irado Poséidon, não os temas,
Disso não verás nunca no caminho,
Se o teu pensar guardares alto, e uma nobre
Emoção tocar tua mente e corpo.
E nem os Lestrigões, nem os Ciclopes,
Nem o fero Poséidon hás­‑de ver,
Se dentro d'alma não os transportares,
Se não tos puser a alma à tua frente.

Faz votos por que seja longa a viagem.
As manhãs de verão que sejam muitas
Em que o prazer te invada e a alegria
Ao entrares em portos nunca vistos;
Hás­‑de parar nas lojas dos fenícios
Para mercar os mais belos artigos:
Ébano, corais, âmbar, madrepérolas,
E sensuais perfumes de todas as sortes,
E quanto houver de aromas deleitosos;
Vai a muitas cidades do Egipto
Aprender e aprender com os doutores.

Ítaca guarda sempre em tua mente.
Hás­‑de lá chegar, é o teu destino.
Mas a viagem, não a apresses nunca.
Melhor será que muitos anos dure
E que já velho aportes à tua ilha
Rico do que ganhaste no caminho
Não esperando de Ítaca riquezas.

Ítaca te deu essa bela viagem.
Sem ela não te punhas a caminho.
Não tem, porém, mais nada que te dar.

E se a fores achar pobre, não te enganou.
Tão sábio te tornaste, tão experiente,
Que percebes enfim que significam Ítacas.

Konstantínos Kaváfis

quinta-feira, 9 de julho de 2015

Ítaca

Marcella Tambuscio

Quando as luzes da noite se reflectirem imóveis nas águas verdes de Brindisi
Deixarás o cais confuso onde se agitam palavras passos remos e guindastes
A alegria estará em ti acesa como um fruto
Irás à proa entre os negrumes da noite
Sem nenhum vento sem nenhuma brisa só um sussurrar de búzio no silêncio

Mas pelo súbito balanço pressentirás os cabos
Quando o barco rolar na escuridão fechada
Estarás perdida no interior da noite no respirar do mar
Porque esta é a vigília de um segundo nascimento

O sol rente ao mar te acordará no intenso azul
Subirás devagar como os ressuscitados
Terás recuperado o teu selo a tua sabedoria inicial
Emergirás confirmada e reunida
Espantada e jovem como as estátuas arcaicas
Com os gestos enrolados ainda nas dobras do teu manto

Sophia de Mello Breyner Andresen
in Geografia, 1967.

terça-feira, 30 de junho de 2015

Heteroscedasticidade


Stefanus Rademeyer. Point Line Field, 2010.

quarta-feira, 24 de junho de 2015

II

Wind. Lauren Semivan. 2012
.
há apenas uma cortina de vento onde as palavras
nunca se moldaram

Maria Sousa, Mulher Ilustrada, Coimbra: «Do Lado Esquerdo», Janeiro de 2013.

quinta-feira, 18 de junho de 2015

Memória de Amor IV (Directas)


Não tínhamos nenhuma pressa. 
A paixão defendia-nos do tempo.
Voltávamos, eternos, para casa.

António Barahona, Pássaro-Lyra
Lisboa: Averno, 2015.

segunda-feira, 8 de junho de 2015

É belo de mais para morrer*

Catarina Domingues, Preto no Branco #3.

O que é belo de mais para morrer, não morre. Sobre ele, ela, isso, a morte não tem poder. E quando chega, só lhe reforça o sentido e o fulgor. O que é belo de mais para morrer conhece a morte, e sabe que ela não pode atingi-lo. A beleza é um antídoto para a morte. Traz em si mesma o seu destino, que é a escolha da sua verdade.

João Barrento, Como um hiato na respiração - Diário do Dia Seguinte, Lisboa: Averno, 2015

*Maria Gabriela Llansol, Caderno 1.62, p.62.

domingo, 31 de maio de 2015

Fico Aguardando Telegramas


fico aguardando telegramas, os azuis 
recados. 
os poderes da manhã já pouco duram. 
à superfície o som move na boca 

um pouco sopro. 
não julgues que me importam as roldanas 
do tempo no teu corpo 

são certos os abismos de cartão 
e falsa a neve que nos cobre os passos. 
de graça a terra nos dispõe na foto 
e a idade inventa nomes que a dissipem 

descobre-me impacientes os recados 
o envelope da urgência o intervalo 



António Franco Alexandre, in A pequena face, 1983.

quinta-feira, 21 de maio de 2015

Outra Coisa

Untitled, Mario Cesariny, 2004.

Apresentar-te aos deuses e deixar-te
entre sombra de pedra e golpe de asa
exaltar-te perder-te desconfiar-te
seguir-te de helicóptero até casa

dizer-te que te amo amo amo
que por ti passo raias e fronteiras
que não me chamo mário que me chamo
uma coisa que tens nas algibeiras

lançar a bomba onde vens no retrato
de dez anos de anjinho nacional
e nove de colégio terceiro acto

pôr-te na posição sexual
tirar-te todo o bem e todo o mal
esquecer-me de ti como do gato

in Poemas de Londres (1971), Mario Cesariny.

sexta-feira, 8 de maio de 2015

A Memória é um Silêncio que Espera

Ana Hatherly, o mar que se quebra (1998).
Centro de Arte Moderna, Fundação Calouste Gulbenkian.

O património do silêncio. Os livros acumulam-se pela casa. Cobrem as paredes, enchem as prateleiras dos armários. Aguardam-nos calados com suas páginas apertadas onde o pó e a humidade se infiltram. Disciplinados, exibem apenas o seu dorso curvo coberto de pele, ou então magro, estreito, de papel. A memória é um silêncio que espera, uma provação da paciência. 

Tisanas, Ana Hatherly

sábado, 2 de maio de 2015

esta espécie de coração

Ekaterina Panikanova

Ler, reflectir, relacionar conceitos, contemplar a obra, o outro e a nós mesmos... Os livros estão para nós como a cidade, as multidões e o mundo estão para o flâneur. Dão-nos novos fôlegos, entusiasmo, vida. Mas como defendemos que os livros sejam verdadeiramente livres, queremos partilhar com os outros "esta espécie de coração".

Manuel António Pina

sexta-feira, 17 de abril de 2015

terça-feira, 14 de abril de 2015

I carry your heart with me

Sarah Moon for Lanvin, Winter 2008. Issue #5.

I carry your heart with me(i carry it in
my heart)i am never without it(anywhere
i go you go,my dear; and whatever is done
by only me is your doing,my darling)
i fear
no fate(for you are my fate,my sweet)i want
no world(for beautiful you are my world,my true)
and it's you are whatever a moon has always meant
and whatever a sun will always sing is you

here is the deepest secret nobody knows
(here is the root of the root and the bud of the bud
and the sky of the sky of a tree called life;which grows
higher than the soul can hope or mind can hide)
and this is the wonder that's keeping the stars apart

i carry your heart(i carry it in my heart)

I carry your heart with me, e. e. cummings, 1952.

terça-feira, 7 de abril de 2015

Leitura

The Dead Tree Gives No Shelter, Betra Fraval.

Quando por fim as árvores 
se tornam luminosas; e ardem 
por dentro pressentindo; 
folha a folha; as chamas 
ávidas de frio: 
nimbos e cúmulos coroam 
a tarde, o horizonte, 
com a sua auréola incandescente 
de gás sobre os rebanhos. 

Assim se movem 
as nuvens comovidas 
no anoitecer 
dos grandes textos clássicos. 

Perdem mais densidade; 
ascendem na pálida aleluia 
de que fulgor ainda? 
e são agora 
cumes de colinas rarefeitas 
policopiando à pressa 
a demora das outras 
feita de peso e sombra. 

Carlos de Oliveira, Pastoral, 1977.