domingo, 31 de maio de 2015

Fico Aguardando Telegramas


fico aguardando telegramas, os azuis 
recados. 
os poderes da manhã já pouco duram. 
à superfície o som move na boca 

um pouco sopro. 
não julgues que me importam as roldanas 
do tempo no teu corpo 

são certos os abismos de cartão 
e falsa a neve que nos cobre os passos. 
de graça a terra nos dispõe na foto 
e a idade inventa nomes que a dissipem 

descobre-me impacientes os recados 
o envelope da urgência o intervalo 



António Franco Alexandre, in A pequena face, 1983.

quinta-feira, 21 de maio de 2015

Outra Coisa

Untitled, Mario Cesariny, 2004.

Apresentar-te aos deuses e deixar-te
entre sombra de pedra e golpe de asa
exaltar-te perder-te desconfiar-te
seguir-te de helicóptero até casa

dizer-te que te amo amo amo
que por ti passo raias e fronteiras
que não me chamo mário que me chamo
uma coisa que tens nas algibeiras

lançar a bomba onde vens no retrato
de dez anos de anjinho nacional
e nove de colégio terceiro acto

pôr-te na posição sexual
tirar-te todo o bem e todo o mal
esquecer-me de ti como do gato

in Poemas de Londres (1971), Mario Cesariny.

sexta-feira, 8 de maio de 2015

A Memória é um Silêncio que Espera

Ana Hatherly, o mar que se quebra (1998).
Centro de Arte Moderna, Fundação Calouste Gulbenkian.

O património do silêncio. Os livros acumulam-se pela casa. Cobrem as paredes, enchem as prateleiras dos armários. Aguardam-nos calados com suas páginas apertadas onde o pó e a humidade se infiltram. Disciplinados, exibem apenas o seu dorso curvo coberto de pele, ou então magro, estreito, de papel. A memória é um silêncio que espera, uma provação da paciência. 

Tisanas, Ana Hatherly

sábado, 2 de maio de 2015

esta espécie de coração

Ekaterina Panikanova

Ler, reflectir, relacionar conceitos, contemplar a obra, o outro e a nós mesmos... Os livros estão para nós como a cidade, as multidões e o mundo estão para o flâneur. Dão-nos novos fôlegos, entusiasmo, vida. Mas como defendemos que os livros sejam verdadeiramente livres, queremos partilhar com os outros "esta espécie de coração".

Manuel António Pina