sexta-feira, 3 de outubro de 2003

traduções III

ainda da conversa com h.
a tradução de obras literárias na bósnia é urgente. existem possibilidades de fazer tudo o que está para além mas, são precisas traduções. agustina ajudou na tradução, pagando a quem traduzisse dois livros infantis que foram oferecidos às crianças de sarajevo. ajudou ainda na reconstrução. devolveram-lhe a generosidade do gesto baptizando com o nome dela uma escola bósnia. existem ainda outras traduções de autores portugueses: sophia, lobo antunes ou uma antologia de 100 contos portugueses de fernando pinto do amaral. são precisos muitos mais. para oferecer.

e se alguém lesse estas linhas e levasse a mensagem a quem pode ajudar?
agora que existem teorias que dizem que bastam entre 5 a 6 pessoas para juntarem quaisquer dois pontos de uma rede...

quinta-feira, 2 de outubro de 2003

o outro h

logo no iní­cio do voo de regresso a lisboa tento recuperar, sem êxito, algum tempo de sono. quando atravessamos os extracto-cúmulos bávaros aparece de novo o sol e é dia outra vez. pergunta o passageiro do lado: ainda é dia em lisboa? respondo afirmativamente e explico que quando chegarmos já não será e ainda bem porque prefiro aterrar à  noite. a conversa começa no fascí­nio da noite em lisboa, passa por vinho, fado, desviamo-nos de fátima mas, tropeçamos no futebol, continuamos com literatura e assim atingimos a altitude de cruzeiro. fico a saber que h. trabalha na embaixada de portugal em sarajevo. h. é bósnio e tem uma paixão por portugal que só vi em jorge de sena ou eduardo lourenço. fala do memorável espectáculo de maria joão e mário laginha em sarajevo. vem a portugal para convencer bernardo sassetti e cristina branco a irem a sarajevo. aproveita para gozar três dias de férias que ainda não experimentou este ano. o brilho nos olhos dele não vou esquecer tão cedo. quando o pessimismo recebe prémios, os olhos de h. são malditos. a meio da conversa cumprimentamo-nos e anunciamos os nomes. distraio-me naquele momento num tique que me revolta. devia concentrar toda a minha atenção quando alguém me diz o nome, mas não consigo. é uma maldição. a minha atenção à  conversa volta quando ele menciona a palavra lipizzaner. tem uma égua lipizzaner. tenta explicar-me o fundamento genético para haver seis espécies de éguas lipizzaner e apenas uma de machos. perde-se na explicação e eu não valorizo isso. pergunta-me se gostaria de visitar lipizza. demoro-me a procurar coincidências. de repente, este h. parece-me hundertwasser enquanto jovem. quando aterramos na portela, trocamos contactos e promessas de notícias. talvez uma visita, um dia, quem sabe?

depois, partiu ao encontro da rapariga que o esperava com um vinho tinto especial que como ele tanto esperou para respirar o ar de lisboa.

traduções II

procuram-me traduções de antonella anedda. não tenho. não conheço. é uma pena. talvez um desafio para algum grupo de estudos italianos ou para o instituto de cultura italiana de lisboa.
aqui fica o pedido. se alguém conhecer, também agradeço a informação.

a nova nova zelândia

quando perguntei por hundertwasser na kunsthauswien, respodeu-me a ana, uma mulatinha simpática e muito paciente: na nova zelândia, claro! toda a gente sabe que ele lá está!
pois ana, claro que sim!
explica-me então, porque fiz esta viagem com escalas malvadas e estou aqui a perguntar por ele?

traduções I

depois de deixar aqui o 'sonho de trieste' de tahar bekri, recebo uma mensagem do autor a perguntar quem era o tradutor. como encontrei o poema nos encontros de lisboa 2000 na casa fernando pessoa, pedi ajuda à origem. reposta pronta de anick bilreiro:

a tradução do poema foi feita por egito gonçalves e foi publicado na antologia "poesia em lisboa 2000" - edição casa fernando pessoa e p.e.n. clube português. caso publiquem o poema, agradecemos que indiquem a edição.

voilá, tahar.
obrigado anick.

warum?

andei perdido pelas ruas de viena durante três dias. hundertwasser não apareceu. às horas esquecidas no café central entre brauners e a leitura dos jornais somei a perseguição dos cavalos lipizzaner. seria essa a mensagem de hundertwasser? devo voltar a trieste para encontrar o caminho para lipizza? e se for? procuro a coudelaria?
as noites mal dormidas foram ensombradas por pesadelos absurdos (como quase todos). uma noite acordei a gritar "warum? warum? warum?" e quem me olhava com um sorriso maquiavélico era haider.

domingo, 28 de setembro de 2003

os cavalos da lipizzaner

sei agora de onde sairam os cavalos...

encontro em viena

venho mais cedo para o encontro.
hundertwasser diz-me que tem um segredo para me contar e que devo vir depressa a viena. o encontro ficou marcado para segunda-feira de manha. nao resisti e vim no primeiro aviao. agora, resta-me esperar. de algum modo, pensei que o podia encontrar em stephansplatz. encontro varios cavalos expostos pela baixa de viena. pegasus de todas as cores. serao a mensagem dele? o que sera que aprontou agora?

sexta-feira, 26 de setembro de 2003

curia palace

estão a chegar os nossos cientistas-emigrantes. vão juntar-se à volta da piscina do palace.
a constança, nosso orgulho em hannover, traz-me bombons e sorrisos. estuda agora os ácidos nucleicos (rna) que interferem.
agora que não há congressos do psd, porque não uma transmissão em directo na tv, para todos verem os olhares, ouvirem o entusiasmo, pressentirem um país a migrar por um mundo sem portas?
sim, esse portas do congresso do fim de semana!
esta é a mesma geração dos outros que passam o dia à volta da piscina com directos na tv?

quinta-feira, 25 de setembro de 2003

4 poemas de marco saya

surpresa agradável no correio. recebo quatro poemas de e por marco saya. une-nos o prazer de ler antonella anedda.
partilho-os aqui.

Tra il silenzio degli ulivi

Qui, tra il silenzio degli ulivi,
l'azzurro del cielo abbraccia la valle
e un campanaccio da chissà dove
spezza la monotonia del ritmo
uguale all'incedere di quel pastore
e a un cane che da rituale abbaia
per dire che c'è e che ci siamo
anche noi nel descrivere
la saggezza della natura
così bonaria nell'umore
di una giornata serena
in attesa di quel lampo
di buio pronto a deturpare
il paesaggio nel nuovo
ordine delle cose


Cade per caso

Sanguina il dito
impronta su carta
assorbente

Assorbe la linfa
una goccia scappata

Pesa di meno
la vita (ora)

Quell'attimo mi sovrasta
sorpassa il presente

Ritorno al mio dito

L'indice
indica il rimedio

Continua e straripa
Lago (rosso di sera)
dispera di guarire

chè il futuro non vede
e un'altra goccia
cade per caso
e piove la vita...


E tutti dicono

E tutti dicono
Poi tacciono
Infine si nascondono

E tutti pretendono

Poi chiedono
con le palme tese
al crocevia dello scontato

Infine una delle tante croci
Suggella il fallimento
dell'illusione pagata con comodi ratei...

Pochi parlano con occhi aperti
Pochi ascoltano

Pochi accettano
la mediocrità
che vuole assurgere ad archetipo
di ogni tempo


Pochi salutano
l'umile albergo
dei turisti
occasionali.


Silloge

La vita...

Perchè mi ritrovo sola al buio?
La natura gioca con i cuccioli
e il gioco della caccia li segue
Io aspetto ancora un fratello
nella pancia di un'altra mi cerca

L'amore...

E' così giunto il black-out del cuore
Non vede,non sente,non parla e stop!
All'improvviso s'accorge del nuovo
La confezione intatta si apre
(data di scadenza segnala rosso)
Attraversiamo incerti le strisce

L'approssimarsi...


Se un giorno dovessi morire
ricordati che non sarò più sola
e quella foto adagiata laggiù
ti parlerà dell'intensa e breve
vacanza trascorsa qua e là tra noi

Se un giorno dovessi mancare
Madre non ti angosciare per me
hai pur dato a questa crisalide
la possibilità di far sognare
la vita a variopinta farfalla

Se infine marcassi visita
Padre (insperato) non rincorrermi
lascia che l'altro Padre mi adotti
chissà che non sia migliore di te
e non mi porti sulla retta via...

quarta-feira, 24 de setembro de 2003

último recado: abel salazar

olha mafalda, agora que partes para essa nova Kos ou Knidos, não sei bem, procura tempo para saberes o que pode o mestre fazer para ser proibido de ensinar. quando o souberes, procura as pinturas, folheia o relato da viagem a itália nessa primavera de 1934 e depois volta ao estudo da fisiologia.

procura-me

como eu te distingo
nos mapas que me desvendas
segue-me

como eu te canto
enquanto dormes
ouve-me

como eu procuro
as minhas mãos
nos sonhos
que me ensinas
olha-me

como eu escrevo
as tuas palavras
atento
vigilante
lê-me

como eu conto
os numeros primos
do tempo que me dás
vem

assim saberás
o namoro que prometi

cumpre-nos!

segunda-feira, 22 de setembro de 2003

um sol que me esconde da sombra que me revela

por aqui
vem por aqui

e assim saberás onde me encontrar
se não respondo

turismo blogal

passei o dia no oeste.
parece que só há um.
sim, esse aí: santarém e rio maior.
cozido à portuguesa ao almoço combatido com vinho da região.
digressão (empurrando bolas...) pela quinta do brinçal que ardeu este fim de semana
quando me despedia dos amigos, a grande surpresa do dia: vem ver a casa do vizinho JPP (eles não sabem que ele é abrupto).

e daí surge a ...
grande ideia para turismo blogal: venha conhecer a biblioteca mais postada em portugal. esta é a sala de onde saíram os textos mais visitados da blogo... (palavrões, não). foi neste sofá que o postador descansou ao 7º post. e por aí fora.

será que resulta? nos estados unidos resultava de certeza!

domingo, 21 de setembro de 2003

leni riefenstahl

faíza hayat pergunta na edição do público (xis) de 20.9.2003, se não se devia evitar o epiteto de "a realizadora de hitler" quando se fala de uma senhora que viveu 100 anos.

não faíza, não pode.
a explicação é dada, 10 dias antes, por helena ferro de gouveia nas páginas do mesmo jornal:
"venerada e excluída, escudando-se na (deliberada?) ignorância política, alegando que era apenas uma "artista ao serviço da sua arte", como quem vende a alma ao diabo mas quer evitar as inconveniências do contrato."

moral da história:
"Morreu uma mulher extraordinária, de um génio depurado como um diamante à procura da beleza absoluta. É difícil de aceitar um tal génio ao serviço do pior dos horrores. A estética negligenciou, como tantas vezes, a ética."

dizias-me tu:

estás onde está a tua energia, a tua vontade.
és aí!
porque te espantas quando te lembro agora que não estás?

sexta-feira, 19 de setembro de 2003

enjoy the ride

intriga-me a rapariga que a empresa de limpezas enviou agora e que me limpa o gabinete.
ao contrário das anteriores, cumprimenta-me com um sorriso rasgado, trata-me por tu, acrescenta uma frase sempre diferente à despedida e, apesar de tudo isto ser mais ou menos banal, estou intrigado.
lembro-me da história da hiena: ela ri de quê?
acho que se ri da precaridade do que faz, da minha pose pomposa quando atravesso a esfregona para sair a porta, das partidas que a vida lhe pregou e que ela acumula em celulite de desdém.
ri-se por pensar que me levo mais a sério do que devia.
que sabe ela de mim que as outras não viram?

efeito boomerang

só sabes o que sentes...

boomerang 5+
optimus

de "il picollo berto"

Um grito
de criança se ergue nas escadas. Chora
pela mulher que parte. Ali, nessa hora,
se quebra um coração pra sempre.

Após
quarenta anos passaram.
O menino
é um homem feito, quase um velho, e esperto
se fez por mal e bem. Chama-se Umberto
Saba o menino. E vai, buscando paz,
fazer visita à ama que o criou.

Que se ela de o deixar se amargurou,
não por gosto o deixara. Assim, o mundo
a ele ficou suspeito, lhe foi sempre
(ou lhe parece tal) um inimigo.

Suspenso da parede há um relógio antigo
que as horas dá num som de quase morto.
A ele o regulava noutro tempo
o balir doce; e caro lhe é conforto
agora o regulá-lo. Mais lhe apraz,
anoitecendo, acender o lume,
e ali ficar com ela até que diga:
- É tarde. Volta prá tua mãe, Umberto.

Umberto Saba, tradução de Jorge de Sena

a boca

A boca
que primeiro levou
aos meus lábios a cor da aurora
ainda
em belos pensamentos desconto o aroma.

Ó pueril boca, amada boca,
que dizias o que ousavas e tão doce
eras a beijar.

Umberto Saba, tradução de Eugénio de Andrade

quinta-feira, 18 de setembro de 2003

sonho em trieste

Eis-te de novo velho mar
pleno das minhas âncoras
Nem a vaga ausente
Nem o silêncio da luz
Dizem à gaivota
Sê amável
Com as minhas velas
Quantas rugas
Cordas oferecidas à errância
São precisas ao sol
Para ser surdo aos canhões
Aqui estão os meus mastros
Ciumentos dos descuidados pinheiros
Mais inquietos que as colinas
Por amar demasiado os sinos
Arde Sarajevo
Porque não aboliste as fronteiras
Nas veias do vento
Ulisses
Dos secretos amores
Ocultos ao horizonte
Eis-te esgotado mar
Passos pesados
Pelos cais
Nem o porto
Raptou os corsários
Nem a pedra
Salvou as neves
As recordações
Levadas pelas espumas
O sal fere as suas asas
A noite rouba-lhe os voos
Cume após cume
Tu temes as águias
As garras delas como balas
Nas névoas sonoras
Porque não imploraste as rochas
A desenvolta andorinha
Mar magoado
Para abraçar a água frívola
Nos braços da noite escarlate
E apagar todos os incêndios

Tahar Bekri, Trieste, 1996

pasión ibérica

tagv 03.09.17 22:00.
a mão esquerda de rodrigo leão em "a moira". o violino de viviana tournikova, sempre. o jeux d'amour na voz e no acordeon.
a voz de rodrigo anuncia: estamos a acabar o tour ibérica e o tagv foi a primeira sala que esgotámos. já agora, para que é que isso nos interessa.
como alguém gritou na sala: queremos a noite toda!

ps: não sei se disse, a mão esquerda de rodrigo leão em "a moira".

trieste desigual

Tal como James Joyce e a sua companheira Nora Barnacle, Jonh McCourt partiu de Dublin para Trieste e descreve os anos de esplendor criativo do autor de Ulisses naquele porto do adriático. As histórias dos anos difíceis do ponto de vista económico mas extremamente produtivos do ponto de vista criativo. Em Trieste, Joyce escreveu a maior parte de Dubliners, trabalhou Stephen Dedalus do Retrato do artista quando jovem e começou Ulisses. McCourt retrata a vida cultural de Trieste do principio do século XX.

Na hora de almoço, sou surpreendido por este livro na montra da livraria. Devoro páginas soltas que dão conta da paixão de Joyce pela ópera italiana, do surgimento das primeiras salas de cinema, da atmosfera intelectual resultante do convívio com Italo Svevo e outros. Compreendo agora o que queria dizer quando escreveu que alguém que se respeita deve sair da Irlanda.

Tudo é familiar: Miramar, o Gran Canal, a igreja de Sant'Antonio Taumaturgo, o mercado em Piazza Ponterrosso, o Teatro Verdi e o Caffé Bizantino.

John McCourt, The years of Blomm, James Joyce in Trieste 1904-1920 (Lilliput Press, 2000)

segunda-feira, 15 de setembro de 2003

de repente, não mais que de repente

procuro nas palavras as pessoas. as pessoas dos dias desiguais pregam partidas, eu sei. dou por mim a seguir o olhar de pontos que se julgam pequenos e a prender palavras que guardei. são vários os dias a esperar um sorriso. as invernias têm meia cara, também sei. continuo a abrir as janelas todos os dias. por vezes, aquele lugar onde se sentavam afectos é ocupado por sombras. nada mais me torna tão vulnerável. essas sombras que desconcertam e me fazem parar.

sábado, 13 de setembro de 2003

os meninos de hundertwasser

ontem à noite tive mais uma visita de hundertwasser. pareceu-me mais eufórico que nunca. falou das ideias desarrumadas para construir mil e uma coisas. obstinado como sempre, falou das renovações que opera, agora que é imitado em infantários. aconselhei-lhe calma, que devia sossegar agora um pouco mais. perguntou o que tenho feito. porque mantenho as telas em branco há tantos meses. porque montei um segundo cavalete se nada comecei no primeiro. porque não uso todas as cores nas palavras pouco arrojadas que escrevo. fiquei sem resposta. desculpei-me depois com a reconstrução, com o tempo que me toma espreitar agora ruas que abandonei temporariamente. que mudo incessantemente de janela. sim, as janelas. preocupo-me com as janelas. tive algumas ideias para janelas. mas agora espero. ele devia fazer o mesmo. esperar. deixar os meninos pintarem hundertwassers e esperar. ele explicou-me que é isso mesmo que o preocupa. os meninos pintam muito depressa e já pintaram quase tudo, precisava ser rápido para os meninos não pararem de pintar.
saíu a correr apressado.
ainda ouvi gritinhos e risos redobrados quando bateu com o portão do jardim.

no melhor pano não cai nada

admiro as referências sempre à mão.
procuro as dos outros para saber do que falam. relembro frequentemente textos já esquecidos. muitas palavras ficam para trás e delas só resta uma impressão que guardo como instinto.
admiro aqueles que leram muito, ouviram muito ou privaram com pessoas que trazem ideias novas ou ideias velhas revisitadas. por vezes, sou surpreendido por posts de pessoas interessantes, com muitas palavras lidas e ouvidas, que dão erros ortográficos. penso: no melhor pano cai a nódoa. de imediato, dou por mim a desvalorizar esses erros.
há dias, jantava com um professor de ribeirão preto que me perguntava se não sentia a urgência do acordo ortográfico. respondi que não, que pouco me interessam hoje esses detalhes e que as ideias, a criatividade e a riqueza das várias culturas lusófonas vai para lá disso. evoluem e assim associam mais uma dimensão às linguas: o tempo.
gosto de procurar o significado de uma palavra ou expressão pelo jogo que proporciona. faço o mesmo quando quero decifrar as mensagens que a mafalda me envia para o telemóvel. venham todas as mensagens, todos os posts, todas as palavras. procurarei nelas o significado como faço para descobrir semelhanças entre outras que conheço. que passatempo fantástico procurar palavras semelhantes em alemão e holandês.
quanto aos erros ortográficos, não mancham pano nenhum ainda que não custe nada deixar de acentuar os advérbios de modo.

a literatura no conflito de gerações

a sofia propõe o avesso do tema de um debate sobre o conflito de gerações na literatura: a literatura no conflito de gerações.
apresento o meu caso: cresci rodeado de livros que eram comentados e citados em todos os momentos. contudo, notei que havia em casa dos meus pais uma grande diferença entre os livros chamados residentes e aqueles que eu procurava como se de clandestinidade se tratasse (clandestinos também havia). assim, lia-se e comentava-se à mesa de jantar Marcel Aimée ou Dostoievski, mas não se falava de Ginsberg ou Ferlingheti. Comentava-se Mendes de Carvalho pelo prazer da sátira. e dai não se passava. se houve conflito, veio pelo que cada um de nós fez com a literatura que tinha dentro. e assim sofia, mudámos de café.

sexta-feira, 12 de setembro de 2003

tommaseo

sentada na primeira mesa à frente dos músicos, era ela que enchia a sala. eram os seus dedos que estavam naquele piano, a sua respiração que alimentava o saxofone amuado, a sua perna que ajustava a pandeireta nos pés do contrabaixo. foi ela que recebeu Getz, Davis e Scott. provavelmente nao sabe que naquela mesa se sentou Svevo, Musil, Benjamin, Kafka ou Walzer. eram tão desinteressantes naquele momento como o chá com bolos servidos nessa tarde.

silvio

e depois vamos e conquistamos o campeonato. custe o que custar. ninguém se vai rir de nós. convivemos com os poderosos e aprendemos a manha. agarra-los primeiro, espreme-los depois. damos o que for preciso. enfim, poderemos ser arrogantes e desafiaremos o mundo. podemos propor Mussolini para canonização. eles vão ficar verdes de raiva. prometo. eu nao me chame silvio!

terça-feira, 9 de setembro de 2003

caffé florian

escutou emocionada a orquestra. observou a rapariga alta e esguia que se levantou para dançar o tema de Zorba. passou em revista os fatos brancos de todos os empregados lividos. bebeu as ultimas gotas da sua taça de espumanti e aguardou que o companheiro terminasse o corriere della sera. levantou-se. beijou-o ternamente e chorou.
ela nao vai esquecer aquele fim de tarde na piazza dos seus sonhos.
ele perdeu mais um pedaço dela.

quinta-feira, 4 de setembro de 2003

Notti di pace occidentale

Per trovare la ragione di un verbo
perché ancora davvero non é tempo
e non sappiamo se accorrere o fuggire.
Fai sera come fosse dicembre
sulle casse innalzate sul cuneo del trasloco
dai forma al buio
mentre il cibo s’infiamma alla parete.
Queste sono le notti di pace occidentale
nei loro raggi vola l'angustia delle biografie
gli acini scuri dei ritratti, i cartigli dei nomi.
Ci difende di lato un'altra quiete
come un peso marino nella iuta
piegato a lungo, con disperazione.


Antonella Anedda

cais

quando abrir os olhos vou estar sentado no molhe bersagliere de costas viradas para a stazione marittima de trieste. vou ter nas mãos poemas da antonella anedda e procurar-te na paz ocidental. as velas vão distrair-me, eu sei, e não poderei distinguir a chegada da partida.

da baía de trieste à sala grande da 60ª mostra cinematográfica de veneza

trieste:
vão chegar à sala mensageiros de toda a parte que anunciam novos mundos imaginados.

veneza:
vão chegar à sala mensageiros de toda a parte que anunciam novos mundos imaginados.

quarta-feira, 3 de setembro de 2003

oração

disse-me alguém de quem gostas que eu não devia dizer-te quanto és para mim. não saberias o que fazer com tanto poder. continuo a fazê-lo em segredo todas as noites antes de adormecer. como se faz com uma oração. quando vais saber o que fazer com ela?

segunda-feira, 1 de setembro de 2003

dominó

a minha capacidade de me espantar já não é o que era. de qualquer modo, por vezes fico perplexo.
Faíza Hayat dá conta, na sua crónica "Conversas com o espelho" publicada na XIS (Público) de 30/8/2003, de lhe ter chegado às mãos, no Cairo, um texto de George Kennan, planificador estratégico dos EUA. Em 1948, eram estas as suas instruções: "Temos 50 por cento da riqueza mundial mas apenas 6,3 por cento da sua população. Nesta situação, o nosso verdadeiro trabalho no período que se avizinha é manter esta disparidade. Para conseguir isso, temos de prescindir de qualquer sentimentalismo. Temos que deixar de pensar em direitos humanos, a elevação do nível de vida e a democratização".
Para quem pensa que 50 anos é muito tempo, que muita coisa muda em 50 anos, convem não esquecer as bestas que não morrem, apenas aparecem adormecidas por uns episódios.
Curiosidade: Sérgio Vieira de Mello nasceu em 1948.
Faíza acrescenta que Vieira de Mello não morreu esmagado por uma viga, morreu atropelado por um dominó.

sexta-feira, 29 de agosto de 2003

que mundo interior é este?

enchi a noite de risos nervosos porque não vieste. como podem tantos músculos quase inúteis servir de terapia de uma alma que por vezes me parece tão frágil? tão pouco musculada... que moléculas são estas que tomam atalhos para camuflar a tua falta?
de manhã quando acordei esperei a ressaca quí­mica que afinal não veio. sinto-me clean. maravilhas das máquinas velhas que a farmacogenética persegue tropeçando.

para os mares de amanhã

A construção de um navio
requer harmonias
e razões inéditas.
Para que seu leme
perceba um destino,
exige-se a prontidão cívica
dos sonhadores.
Um convés que comporte
a salinidade sob estrelas
e um rumo que o norteie
para além da precisão da noite
Faz-se isso necessário,
para que o brilho
de sua história se concretize
E o processo de velejar
sobre os matizes,
o incorpore à ruidosa
estação do mar,
que o tange para sempre,
para além da noite
e da vertigem

Francisco Orban

quinta-feira, 28 de agosto de 2003

a mão esquerda de leonardo

ao escrever com a mão direita, leonardo da vinci expressava os resultados do estudo e da reflexão crítica; escrevendo com a mão esquerda, da direita para a esquerda, traduzia o que lhe vinha à mente espontaneamente.

agrada-me a ideia de imaginar um blog (ou dois?) escrito(s) desta maneira.

sempre tive um certo fascínio pelas mãos esquerdas. não me perguntem porquê.

quarta-feira, 27 de agosto de 2003

hum...

hoje pareceu-me ver o cientista espreguiçar-se. ainda estranhou o mundo, leu as noticias das revistas e virou-se para dentro. como parece estar longe o mundo imaginado mostrado pela june goodfield. há 20 anos as coisas pareciam diferentes. vai tentar acordar mais logo. aí, vai pintar os olhos da cor da criança curiosa e vai tentar "responder perguntando como à ciência compete".

terça-feira, 26 de agosto de 2003

read my lips

ainda acredito que o melhor está para vir. acredito nesta viagem que mal começou ainda e que tem um plano simples: vamos de mãos dadas. tenho a certeza que vais saltar para me apontares a bicicleta que passa com um passaro louco brincando na roda e assim ecoando uma gargalhada pela rua abaixo. eu vou olhar-te a vontade, a traquinice de menina, a estoria que sobrou para me contares e assim me rendo, teu.

segunda-feira, 25 de agosto de 2003

domesticado

Do alto da colina desenhada a raposa profere
o seu apprivoise-moi, mata-me o olhar, o pensamento,
mata-me por dentro, arranca de mim o respirar
de todos os azuis e o tempo anterior em que eu não soube.
Envenena os trigais com a tua ausência
e eu morrerei também se os habitares.
Seguir-te-ei no vermelho do deserto
onde as serpentes sonham e se escondem,
nas colinas amargas da cidade, no verde tardio
das marés. Não existo senão no fim do mundo,
não existo senão nesta cadência que soa pelo ar
e desce os montes e inunda com força a terra plana
até que nada exista. Não tenho coração
senão para que tu o apunhales e vires a lâmina para o sol
e digas, ei-lo, o escarlate inútil deste amor apprivoisé,
a imensa distância da paixão, o desprezo
da morte que apodrece.

Cresço de repente e sem traição.
E tudo começou pela tua ausência.


A raposa de Saint-Éxupery - Isabel Cristina Pires

terça-feira, 19 de agosto de 2003

espreito o pateo da rua da sofia

ainda sinto a tua mão,
ainda te adivinho os reflexos e as sombras,
ainda escuto as palavras que ficaram no pateo da rua da sofia
a mais bonita
pelas pessoas
pela pressa
pelos olhares que levavam chita
e talheres e cobertores
enxovais para as moças namoradeiras

e o teu olhar parado no pateo
alheio ao buliço e às horas

tenho o teu sorriso em kodachrome
e não acredito que tenha existido

e em cada dia compreendo mais uma palavra
da casa, do rio, do jardim, da praia
e tambem do pateo
apesar de serem poucas
disseste-as?

do mais fugaz olhar,
do mais distraido carinho
bebo agora o que preciso para continuar.

mais um verão que volta
mais um ano cheio de dias teus.

segunda-feira, 18 de agosto de 2003

marcel

viveu em aruba, regressou à holanda e quer voltar às antilhas. conheci-o no ultimo natal. prometida estava a aventura de uma travessia do atlântico no veleiro que reconstroi pachorrentamente. a minha condição: aprender, preparar-me e fazer essa viagem com o espirito de um peregrino. não tenho nenhuma experiencia de água depois da natação que abandonei há mais de 20 anos.

na ultima semana meteram-me um iate de 9 metros (e 10 toneladas!!!) nas mãos para dar a volta à  holanda. no primeiro dia tive a sensação que deve ter um elefante numa loja de cristais. no segundo dia o marcel veio fazer-nos uma visita. veio ensinar-me a calma. quase tudo manobras simples. pouco mais que bom senso. mas, acima de tudo calma. acho que deve ser vulgar os elefantes perderem a calma depois dos primeiros estragos. quando o marcel se despediu eu tinha aprendido a calma. ao quarto dia, o nuno teve problemas no motor do iate dele. o christian, com o seu iate-mãe pronto para rebocar, ficou com ele à  espera do apoio técnico. eu rumei a amsterdão para assegurar lugar na marina de six haven. entrei sozinho no porto de amsterdão. parecia-me surreal. como é que cheguei a esta situação? como fui capaz de enfrentar (é mais correcto dizer evitar) os cargueiros, os veleiros e os ferry-boats? com a calma que recebi do marcel. tenho a certeza que entrei no porto de amsterdão com o seu olhar, a sua atenção despreocupada e o seu bom humor. na marina de six haven manobrei com destreza (pura sorte não ter de passar cheques àquela gente toda pelos estragos!!!). à noite, quando bebiamos à chegada dos amigos exaustos com os problemas do dia, foi pelo marcel que brindei.
no resto da semana pude apreciar a viagem como se fosse um velho lobo do mar. depois, misturei o enjoo de terra com as saudades dos dias no barco.

a esta hora, o marcel deve estar a levar um cargueiro no trajecto londres - roterdão - hamburgo. espero acabar brevemente de escrever a carta em que lhe dou conta do orgulho que tenho em receber os seus ensinamentos e da ansiedade que já sinto pela próxima vez em que vamos navegar juntos.

quinta-feira, 7 de agosto de 2003

atrevo-me a dizer-te...

ainda bem que estás aí­. ainda bem que nos acrescentamos. haja o que houver...

mario, ainda ai estas mario?

da rapida passagem por madrid trouxe as tuas ultimas letras. ainda ai estas mario? e o que faco agora entre a avó flora e paul (paulo?!)? gosto de te ler as utopias. dá-me um sinal se puderes...

quarta-feira, 6 de agosto de 2003

roterdao

imagino o marinheiro querelle de rainer werner fassbinder . nao vi marinheiros. um porto convertido ao design para consumo. o dia expoe pecados que a noite esconde. chegam-me mensagens de inquietacao. tu ainda nao recuperaste o ritmo dos dias, dorme meu amor dorme. e come chocolates. nao ha no mundo mais metafisica que num chocolate.

Aruba

com os corpos quentes quem se vai lembrar de te ler a alma?

domingo, 3 de agosto de 2003

nao me apetecem os flamengos

amanha quando sair em shiphol nao quero ter rembrants nem van goghs à espera. tenho saudades do hundertwasser. apresentou-mo a martina brenden vai para uma duzia de anos. nunca visitei a casa-mãe. há um mês estava a banhos na alemanha geriatrica de baden baden. agora tenho que esperar por setembro para o ver em viena. a martina, alema democratica e refugiada nordica pela guerra, passava horas à frente do lenço do hunderwasser: a casa é o espelho do homem e da mulher. será?

quanto tempo falta para sermos outra vez?

morreram entretanto alguns demonios. respira-se melhor agora. a princesa dorme cansada de esperar pelo acordar...

do sentimento de pertença I

o luis fez-me pensar outra vez no blog. voltei. afinal, depois de cometer censura sobre escritos mais intimistas, sinto que pertenço a este espaço. visitei alguns blogs aconselhados e confirmei isso mesmo.
habituei-me ao conforto de uma familia com muita gente sentada à mesa. três gerações de volta da panela de Goethe. o conforto vinha da invisibilidade que sentia, dos silencios e palavras consentidas, do palco para estorias empolgantes ou dos retiros de dias inteiros gozados entre musicas e leituras que hoje diria shamanicas.
depois de passar tantos anos sem mais problemas de pertença, tentei convencer a mafalda da orginalidade do desalinhamento. natural, sem encenação.
na insegurança de quem guarda certezas absolutas aprendi com ela a reconhecer que afinal tenho procurado pertencer do mesmo modo. quando me indigno com a mais banal das noticias do canto de um qualquer jornal. quando ligo a televisão e sinto que nao pertenço ao que vejo. depois, de repente a comoção de ouvir o Andreas Scholl e achar que há um mundo a que pertenço pelo brilho, pela magia, pela fuga das banalidades.