sexta-feira, 31 de outubro de 2003

eyes wide shut









ouvi ontem o anúncio da tempestade
e bastou-me sabê-la

hoje basta-me o aroma da terra
a água que corre
e a lama nas mãos

ouvir o bicharoco
(é agora o meu tigre de pi)

ele
embalado pelas águas
circunspecto

eu
atento
no silêncio e na vigí­lia

mais logo
vou percorrer as paredes
em busca do musgo
que nos alimenta

quinta-feira, 30 de outubro de 2003

reflexos da eternidade


acaba a pressa de correr
pelo cerco do tempo infinito

foto: reflections of eternity, emanuel dimitri volakis, 1999.

do sul ao sul



despeço-me hoje da luz
entro no tunel
olho para trás uma última vez
esqueço o flash que me faz perder o sul
o sul como partida e o sul como abraço de chegada

foto: tunnel, ruslan bustamante, 2001.

Esperando os bárbaros











"O que esperamos na àgora reunidos?
E' que os bárbaros chegam hoje.
Por que tanta apatia no senado?
Os senadores não legislam mais?
E' que os bárbaros chegam hoje.
Que leis hão de fazer os senadores?
Os bárbaros que chegam as farão.
Por que o imperador se ergueu tão cedo
e de coroa solene se assentou
em seu trono, à porta magna da cidade?
E' que os bárbaros chegam hoje.
O nosso imperador conta saudar
o chefe deles. Tem pronto para dar-lhe
um pergaminho no qual estão escritos
muitos nomes e títulos.
Por que hoje os dois cônsules e os pretores
usam togas de púrpura, bordadas,
e pulseiras com grandes ametistas
e anéis com tais brilhantes e esmeraldas?
Por que hoje empunham bastões tão preciosos
de ouro e prata finamente cravejados?
E' que os bárbaros chegam hoje,
tais coisas os deslumbram.
Por que não vêm os dignos oradores
derramar o seu verbo como sempre?
E' que os bárbaros chegam hoje
e os aborrecem arengas, eloquências.
Por que subitamente esta inquietude?
(Que seriedade nas fisionomias!)
Por que tão rápido as ruas se esvaziam
e todos voltam para casa preocupados?
Porque é já noite, os bárbaros não vem
e gente recém-chegada das fronteiras
diz que não ha mais bárbaros.
Sem bárbaros o que será de nós?

Ah! eles eram uma solução."

Konstandinos Kavafis, trad. José Paulo Paes.

quarta-feira, 29 de outubro de 2003

recado para o hugo

vá lá, coloca um endereço de mail no extravaganza ou aceita comentários, ou tudo ao mesmo tempo...

a poesia está morta, viva a poesia!

fantástica a iniciativa a poesia vai acabar da cristina fernandes e colaboradores. parabéns.

e que tal continuar agora com a poesia escrita pelos bloggers (inédita incluida)?

faltam 105 dias







para o publico oferecer a 'senilidade' de italo svevo ( 10/02/2004).
curioso o facto de svevo usar aquele ti­tulo para significar a incapacidade de emilio brentani se livrar do vício de amar uma mulher!

a poesia vai acabar

a_poesia_vai_acabar_bg.jpg

A POESIA VAI

A poesia vai acabar, os poetas
vão ser colocados em lugares mais úteis.
Por exemplo, observadores de pássaros
(enquanto os pássaros não acabarem).
Esta certeza tive-a hoje ao
entrar numa repartição pública.
Um senhor míope atendia devagar
ao balcão; eu perguntei:
"Que fez algum poeta por este senhor?"
E a pergunta afligiu-me tanto
por dentro e por fora da cabeça que
tive que voltar a ler
toda a poesia desde o princípio do mundo.
Uma pergunta numa cabeça.
- Como uma coroa de espinhos:
estão todos a ver onde o autor quer chegar? -

manuel antónio pina

fotografias da capa e separadores: mário filipe pires
paginação e concepção: cristina fernandes
1ª edição electrónica (pdf): outubro de 2003

terça-feira, 28 de outubro de 2003

a submersão da atlântida


hundertwasser deixa-me mais uma mensagem enigmática:
'estou submerso na atlântida, procura-me a oriente'
o que quer que eu faça agora? largo tudo e apanho o comboio.
espero longas horas sentado ao lado do seu painel de azulejos da estação do oriente.
olho os paineis em redor: europa, ásia, áfrica, américa e austrália.
estão de algum modo a submergir? será essa a mensagem?

para um lugar no céu...

aqui deixo o meu contributo para o dicionário de O mal:

alexia - s.f. incapacidade patológica de ler devida a lesão do hemisfério cerebral dominante (o esquerdo para os que usam a mão direita e o direito para os canhotos).
não consigo ler o paulo coelho e isso não me preocupa. é apenas uma fraqueza semântica no meu hemisfério esquerdo que não é assim tão dominante.

pausa para café









páro para me lembrar dos aromas de café que trago na memória.

lembro:
a luz e os lugares
a humidade e o calor

o montanha e a briosa
a brasileira e o arcádia
o nicola e a central
o santa cruz e a palmeira
o jardim da manga e o sereia
o avenida e o ritz

a minha curta e o teu descafeinado
a minha dupla e o teu carioca
o meu abatanado
e a tua serenidade

o teu passeio pelas horas
e a minha corrida taquicárdica

um corpo tem as palavras exactas e não se diz












para as palavras do carlos alberto machado
com o corpo de arila siegert

'Uma vontade de chorar quando o corpo se excede.
A morada torna-se habitável.
Perto do júbilo.

A chuva desagrega a cidade.
É preciso olhar de novo.
Passado o engano, abrigo-me no escuro.

Ao guardião, no seu elemento, entrego as palavras.
Todas as palavras.
Próximas do limite.
Falamos sobre limites.
Sobre elementos.
Sobre repetições.
Amanhã, o guardião cumprirá, renovando, o seu elemento.
Partirei em busca de outras águas.

E a eterna dúvida será a nossa comum perturbação.
E agora, na noite, pode esboçar-se o risco infinito da morte.
À superfície das águas.
Um corpo tem as palavras exactas.
E não se diz.

Fundo.
Uma lágrima abre fundo um sulco.
Por vezes invisí­vel.
Por vezes descoberto tarde de mais.'

segunda-feira, 27 de outubro de 2003

I don't know, I don't know...


















each man must realize
that it can all disappear very
quickly:
the cat,
the woman,
the job,
the front tire,
the bed,
the walls,
the room;
all our necessities
including love,
rest on foundations of sand -
and any given cause,
no matter how unrelated:
the death of a boy in Hong Kong
or a blizzard in Omaha ...
can serve as your undoing.
all your chinaware crashing to the
kitchen floor, your girl will enter
and you'll be standing,
drunk,
in the center of it and she'll ask:
my god, what's the matter?
and you'll answer: I don't know,
I don't know ...

string, charles bukowsky

domingo, 26 de outubro de 2003

só hoje achei as palavras



Terror de te amar num sítio tão frágil como o mundo
Mal de te amar neste lugar de imperfeição
Onde tudo nos quebra e emudece
Onde tudo nos mente e nos separa.

Sophia de Mello Breyner Andresen

também só hoje compreendi porque ela me disse
ela que tem um blog limpinho
a diva dos blogs

sim, eu li o meu svevo!

'citas os clássicos de cor e não sabes ler uma notícia num jornal'

pai de zeno, as confissões de zeno.

sábado, 25 de outubro de 2003

ainda que fosse por efémeros instantes
















queria desvairar o meu dia com o teu brilho
ainda que fosse agora que quase durmo
queria que soubesses que aqui onde quase chegas
sinto ainda o teu perfume, o teu olhar,
a tua magia feita manhã e dia e assombro
e tudo isso com a força que me perseguiu
na espera, no furor e no desalento das horas deste dia em que não vieste

sobraram ainda recados que não ouviste quando te disse adeus
e beijos nesses recados
e abracei-te
não sentiste?

sexta-feira, 24 de outubro de 2003

puro é o nojo




Perfeito é não quebrar
A imaginária linha
Exacta é a recusa
E puro é o nojo

sophia de mello breyner andresen


foto amy melious
children at ocean - no.607

trieste e italo svevo por zeno










'Confessions of Zeno é o culminar de um projecto iniciado há vários anos pelo encenador William Kentridge e pela autora Jane Taylor, em torno do romance de Italo Svevo, A Consciência de Zeno. É uma ópera singular, onde se misturam o cinema vivo nascido das manipulações da Handspring Puppet Company, a composição musical de Kevin Volans, tocada ao vivo pelo Sontonga Quartet, e a interpretação teatral. Nas ruas de Trieste, que não deixam de nos lembrar, segundo William Kentridge, a Joanesburgo dos anos 80, Zeno, figura emblemática de uma geração que aceita os limites da consciência do eu, deambula e evoca os grandes momentos de indecisão que marcaram a sua vida e originaram as tensões não resolvidas com o pai, a mulher e a amante. Distanciando a adaptação do original, apenas os dois capítulos 'História do meu casamento' e 'A esposa e a amante' são aqui tratados, William Kentridge deixa a luz do romance projectar no interior da mente de Zeno sombras fantasmagóricas onde o prazer erótico desafia a hipocrisia burguesa.'

grande auditório da culturgest, 23 a 25 de Outubro, 21:30.

viagem ao teu mundo imaginado









procuro hoje nos sete lugares
as duas sombras
e a pedra que esqueceste
para que tome uma parte do teu passado


foto Michael P. Berman
Crossings: Images of the Desert
Stone and Shadow, 2001

quinta-feira, 23 de outubro de 2003

classificados do mundo imaginado












'O meu nome é Maria;
tem mar o meu nome;
deve ser por isso que gosto tanto do mar,
deve ser por isso que aprendi a escrever o meu nome na areia da praia:
o mar...ia e na volta trazia a Maria!
Talvez por isso os meus olhos sejam verdes
e os meus cabelos tenham ondas;
a minha pele seja dourada
e a minha voz seja doce.
É com ela que chamo pelos gatos
que vivem nas hortênsias do meu prédio
e foi com eles que aprendi a posar para as fotografias.

Tenho 8 anos,
muitos amigos,
muitas conchas e búzios em caixinhas,
flores secas na secretária
e frescas na varanda,
retalhos de papel colorido pelo chão,
dos quadros que crio quando chego da escola
e por todo o lado, os papeis onde escrevo histórias que invento
e que depois represento para quem me quer ver...

O meu nome é Maria,
tenho 8 anos
e quero ser uma actriz.'


(e a tia eugénia vai ajudar a maria ...)

quarta-feira, 22 de outubro de 2003

a gerência pede desculpa

nem sei como explicar...
encontro referências ao quartzo, feldspato & mica por todo o lado.
só hoje entrei. atrasado. ofegante. quando saí­ ofegava ainda.
aos atrasados como eu: não percam tempo a pedir um atestado médico a um amigo. vão depressa.

projectos para um mundo imaginado



escrever um livro em co-autoria com a mafalda.
ela dá o mote aos 3 anos e continuamos até aos 7.
nessa altura, ela escreve o prefácio como exercício de composição.
deve mencionar o que recorda das sessões de escrita ao longo dos anos.
partilhamos também a ilustração.
pode até haver som fornecido devidamente num CD que acompanha o livro e disponível na internet.

a mafalda obriga-se a escolher um co-autor para um próximo volume. gostava que fosse o seu filho mas pode ser apenas um bom amigo. eu faço o mesmo.
já escolhi o diogo. repito o mesmo esquema. com idênticas obrigações para o diogo.
quero desafiar também o meu pai...

kusturica público


amanhã o público coloca ao dispor o dvd underground de emir kusturica.

na delirante alegoria sobre a situação da jugoslávia a partir da 2a. guerra, dois amigos seguem rumos diferentes. um assume o papel do opressor e pratica a hipocrisia, a manipulação de informações e o abuso de poder. O outro, oprimido, é escondido num subterrâneo, perde o contato com o mundo e, sem saber que a guerra acabou, torna-se parte de uma massa facilmente ludibriável. um alerta sobre os cidadãos sem pátria.

é o meu filme favorito. durante anos elegi apocalypse now de coppola. depois, conheci kusturica e rendi-me. ele faz os filmes que gostava de ter feito. o ambiente alucinado sempre presente. nos meus dez filmes preferidos ainda incluo outro kusturica: gato preto gato branco.
persegui durante algum tempo o dvd underground, sem êxito. para amanhã a reserva já está feita. já cá canta!


underground (1995)
com miki manojlovic, slavko stimac, lazar ristovski, mirjana jokovic.
argumento de emir kusturica e dusan kovacevic.
fotografia de vilko filac.
realização de emir kusturica.

Still











These few lines I'll devote
To a marvelous girl covered up with my coat
Pull it up to your chin
I'll hold you until the day will begin

Still
Lying in the shadows this new flame will cast

Upon everything we carry from the past
You were made of every love and each regret
Up until the day we met

There are no words that I'm afraid to hear
Unless they are "Goodbye, my dear"

Still
I was moving very fast
But in one place
Now you speak my name and set my pulse to race
Sometimes words may tumble out but can't eclipse
The feeling when you press your fingers to my lips

I want to kiss you in a rush
And whisper things to make you blush
And you say, "Darling, hush
Hush
Still, still"

Elvis Costello

terça-feira, 21 de outubro de 2003

elegia












Stop all the clocks, cut off the telephone,
Prevent the dog from barking with a juicy bone,
Silence the pianos and with muffled drum
Bring out the coffin, let the mourners come.

Let aeroplanes circle moaning overhead
Scribbling on the sky the message He is Dead.
Put crepe bows round the white necks of the public doves,
Let the traffic policemen wear black cotton gloves.

He was my North, my South, my East and West,
My working week and my Sunday rest,
My noon, my midnight, my talk, my song;
I thought that love would last forever: I was wrong.

The stars are not wanted now; put out every one,
Pack up the moon and dismantle the sun,
Pour away the ocean and sweep up the woods;
For nothing now can ever come to any good.

Funeral blues, W. H. Auden

parabéns georg










nasceu em 21 de outubro de 1912 em budapest.
saiu pela direita baixa em 1997 enquanto o mundo se preocupava mais com a sua princesa do povo.
evoco-o hoje antes de adormecer ouvindo a missa em si menor de bach bwv 232.
felicity lott, anne sofie von otter, hans peter blochwitz, william shimell, gwynne howell,
coro sinfónico de chicago, orquestra sinfónica de chicago
direcção: sir georg solti
decca 1991

prova de contacto






Não há como negar o meu instinto voyeurista, gosto de esplanadas de cafés, de observar gestos, recortar retratos de pessoas sentadas nas mesas. Faço enquadramentos de mãos pousadas, pernas cruzadas, fios de fumo. Espreito retalhos de conversas, palavras soltas.
Na mesa em frente um homem bebe um café, visto outra pele, sou eu quem levanta a chávena até aos lábios, olho por esses olhos. Vejo-me sentada numa mesa. O homem que bebe o café fixa a mulher na mesa em frente.


quadro de kiki lima (mon na quexada) para uma prova de contacto da rita.

segunda-feira, 20 de outubro de 2003

Fletcher McGee

Abri a minha prenda com ansiedade.
Obrigado Luís.















She took my strength by minutes,
She took my life by hours,
She drained me like a fevered moon
That saps the spinning world.
The days went by like shadows,
The minutes wheeled like stars.
She took the pity from my heart,
And made it into smiles.
She was a hunk of sculptor's clay,
My secret thoughts were fingers:
They flew behind her pensive brow
And lined it deep with pain.
They set the lips, and sagged the cheeks,
And drooped the eye with sorrow.
My soul had entered in the clay,
Fighting like seven devils.
It was not mine, it was not hers;
She held it, but its struggles
Modeled a face she hated,
And a face I feared to see.
I beat the windows, shook the bolts.
I hid me in a corner--
And then she died and haunted me,
And hunted me for life.

Edgar Lee Masters, Spoon River Anthology

Cicatriz

Pessoa dizia que queria ter ali consigo
vivos
os seus mortos queridos
com a idade
que tivessem que ter

A mulherzinha centenária a quem perguntaram
no dia dos seus anos qual o presente
que mais lhe agradaria receber
disse que era ter
a Mãe a seu lado nesse dia

Quem ama não faz contas

Teresa Rita Lopes

domingo, 19 de outubro de 2003

I got too much life running thru my veins to go to waste







I just wanna feel
Real love fill the home that I live in
I got too much life
Running thru my veins
To go to waste


feel, robbie williams

até já (21h), no pavilhão atlântico.

ao encontro de konstandinos kavafis
















quando acordar, rumo ao sul à procura das máscaras desse grego que escreveu sobre a beleza das atracções perversas.

nestlé pago 3.0





a exposição genes e alimentação que visitei no primeiro andar do convento de s. francisco (coimbra) mostra como se prepara informação de um modo apelativo. apetece recomendar a pais, alunos, professores e população em geral.
por outro lado, não me lembro de ter visto a palavra 'biodiversidade' mas recordo bem as frases insultuosas (retrógrados, irracionais, etc) destinadas aos que ainda têm duvidas em consumir alimentos transgénicos.
será que o patrocínio da nestlé explica tudo?

entrada paga: 3 €

s. francisco grátis 6.0


sentidos grátis 6.0
artes plásticas, fotografia, instalações, performances, teatro, poesia, dança, música, videoarte, multimédia, B.D., arquitectura, novo circo, graffiti, design gráfico e design de moda. convento de s. francisco. hoje (19 de outubro) último dia!

entrada: grátis

sábado, 18 de outubro de 2003

a (outra) morte de danton



vou demorar a recuperar da noite no tagv.

da conferência/performance comentada aqui pelo luis da natureza do mal, apetece-me acrescentar as cores: o contraste do verde-alface de danton com o bordeaux de robespierre, tutelados ambos pelo negro dos moderadores-tradutores.
a ingenuidade e superficialidade de danton contra o profundíssimo robespierre ('não se pode deixar uma revolução a meio').

no final a ambiguidade: fazia eu o papel de diderot enquanto o luís simulava jean-jacques rousseau?

quinta-feira, 16 de outubro de 2003

põe as tuas meias no estendal




o teu primeiro par de meias

é para os arrepios de outubro

o terceiro

ensinou-te a jogar a macaca

o sexto

pode ser igual ao do menino de pijama

os outros inventas tu



foto de gina glover

concordo com khatami

o nobel de shirin ebadi é muito menos importante que os das ciências ou literatura. prefiro que sophia receba o prémio da literatura a ter um nobel por haver uma razão como timor ou presos políticos em portugal.

i've got you under my skin










o senhor cole albert porter escreveu, o filme 'born to dance' de roy del ruth deu-a ao mundo em 1936 e a menina ella fitzgerald interpretou superiormente o que considero ser um dos melhores poemas do século XX. lembraram-mo na homenagem red, hot and blue. na altura, bono colava o texto à sida. agora recordo-o no rescaldo da solidariedade blog contra a leucemia. inquieta-me o 'you never can win'.


I've got you under my skin.
I've got you deep in the heart of me.
So deep in my heart that you're really a part of me.
I've got you under my skin.
I'd tried so not to give in.
I said to myself: this affair never will go so well.
But why should I try to resist when, baby, I know so well
I've got you under my skin?

I'd sacrifice anything come what might
For the sake of havin' you near
In spite of a warnin' voice that comes in the night
And repeats, repeats in my ear:
Don't you know, little fool, you never can win?
Use your mentality, wake up to reality.
But each time that I do just the thought of you
Makes me stop before I begin
'Cause I've got you under my skin.

I would sacrifice anything come what might
For the sake of havin' you near
In spite of the warning voice that comes in the night
And repeats - how it yells in my ear:
Don't you know, little fool, you never can win?
Why not use your mentality - step up, wake up to reality?
But each time I do just the thought of you
Makes me stop just before I begin
'Cause I've got you under my skin.
Yes, I've got you under my skin.

para que conste: sou um libertário de esquerda!

political compass
Economic Left/Right: -5.62
Libertarian/Authoritarian: -6.00

vizinho de gandhi, nelson mandela e do dalai lama.
a uma distância confortável de bush, hitler, thatcher, berlusconi, friedman e stalin.
nenhuma surpresa (para mim).

quarta-feira, 15 de outubro de 2003



lembrar a distância de um clique.
não acredito que ainda haja alguém dos blogs que não conheça o site e a causa.
vão lá, leiam e pensem. depois, com tempo e em consciência, decidam mas, leiam e pensem.
se tiverem um blog adiram ao desafio.

ainda a teleparvoíce

acredito que a resposta à questão da mediocridade nacional só pode ser a militância activa e permanente. todos os dias. nem basta ir à missa ao domingo, por assim dizer. devemos ainda filtrar a informação que chega. existe um país que está fechado a construir todos os dias o que não aparece nos (tele)jornais. procuro esses mais difíceis de encontrar e tento dar conta disso. todos os dias.

a verdadeira questão nacional

a propósito de um mail de jorge camões, o aviz usa o termo 'demissão' a propósito da mediocridade nacional. não podia concordar mais. a demissão parece colectiva.
assino por baixo e acrescento em p.s. o poema de maiakovski mais uma vez.

terça-feira, 14 de outubro de 2003

pedido aos utilizadores distraídos

não percam tempo por aqui. corram a ler o post que eu gostava de ter escrito.
e já agora não percam estoutro.
parabéns alexandre.

traduzido de kleist













à procura do diálogo de kleist com toussaint louverture escrito por fabienne pasquet (la deuxième mort de toussaint louverture), encontro 'traduzido de kleist':

Dizem que no outro mundo o sol é mais brilhante
E brilha sobre campos mais floridos
Mas os olhos que vêem essas maravilhas
São olhos apodrecidos.

Sophia de Mello Breyner Andresen

segunda-feira, 13 de outubro de 2003




























marcel aymé, 1902-1967.

podia ser mais um re:

um mundo imaginado por marcel aymé, lido e relido várias vezes.
o humor e o jogo de inteligência do conto moderno: le passe-muraille e la carte.
na gallimard desde 1943.

vladimir maiakóvski

















Na primeira noite
Eles aproximam-se
E colhem uma Flor
Do nosso jardim
E não dizemos nada.

Na segunda noite,
Já não se escondem:
Pisam as flores
Matam o nosso cão,
E não dizemos nada.

Até que um dia
O mais frágil deles
Entra sozinho na nossa casa,
Rouba-nos a lua e,
Conhecendo o nosso medo,
Arranca-nos a voz da garganta
E porque não dissemos nada,
Já não podemos dizer nada.

choveu hoje quando vieste



















choveu hoje quando vieste
onde esperava as tuas palavras fechadas
onde julgava as tuas mãos quietas
onde abria avenidas deixando o páteo nas costas
choveram as palavras, as mãos e não me lembrei do teu sorriso

o páteo
sempre o páteo
em que me esperas

choveu hoje porque vieste

domingo, 12 de outubro de 2003

vera mantero



a morte de danton
tagv, coimbra - 16 e 17 de outubro de 2003
texto de georg büchner
encenação de paulo castro
com vera mantero, jo stone, joão samões e paulo castro

peut-être elle pourrait danser d'abord et penser ensuite
théâtre de la bastille, paris - 20 et 21 novembre 2003

sábado, 11 de outubro de 2003

re:

the dreams i dream instead

encontrei o miúdo que sonhava com leonardo numa janela de hotel de viena. pareceu-me fitar o movimento do meu cigarro nas mãos nervosas. quatro horas da manhã e a eterna interrogação: vive ainda o atrevimento? sentes ainda o corpo a balançar para a frente quando pressentes o vale imenso e o nevoeiro no rosto? onde, no dia de hoje, encontraste a página que te fez levantar hirto de espanto? onde procuraste o traço com a cor que te corta a frase? e aquele olhar no vazio que tantas vezes emprestaste ao calvin?
continuo a olhar o miúdo nos olhos e a responder a todas as perguntas. temo, mais do que nunca, o dia em que vou desviar o olhar.

quarta-feira, 8 de outubro de 2003

i married myself









I married myself
I'm very happy together
Long, long walks on the beach, lovely times
I married myself, I'm very happy together
Candlelight dinners home, lovely times

This time it's gonna last, this time it's gonna last
Forever, forever, forever

Lil' Beethoven, Sparks.

bienal de sydney 2004











o meu mundo imaginado nasceu tambem dos olhos da isabel carlos quando ainda frequentávamos o liceu.
soube pelo expresso que vai ser a curadora da bienal de sydney 2004.
quando me pergunto se ainda vale a pena imaginar mundos, é de pessoas como ela que me lembro.
quem poderia imaginar susan sontag e antónio damásio rodopiando numa ideia de sul?