quinta-feira, 13 de novembro de 2003

oh lord!












Rux himself is a Sunday-morning preacher conjuring Saturday night's fever, a
Pentecostal dadaist who works songs to spasm and collapse...Rux comes from the
tradition of African American crooners like Al and Aretha, who sandblast the
line between sexual and religious ecstasy.

(Village Voice)

um poeta, contador de histórias, um pregador e um provocador do hip-hop, Carl Hancock Rux deslumbra sempre com os seus espectáculos incendiários
(New York Times)

de tudo o que li sobre este rapaz ficou uma curiosidade enorme.
hoje vem ao tagv. não sei se devo confessar-me primeiro para comungar depois ou fechar os olhos, inspirar fundo e entrar no foyer como se estivesse numa festa do Bronx.

quarta-feira, 12 de novembro de 2003

correspondências










(...)
Regressas também tu, pastora sem rebanhos,
e sentas-te na minha pedra?
Eu reconheço-te; mas não sei que lês
além dos voos que se tecem nas quebradas.
Em vão pergunto à planura aonde bruma
hesita entre clarões e tiros sobre esparsos tectos,
e à febre oculta dos comboios rápidos
na costa que fumega.


Correspondências, Eugenio Montale
Trad. Jorge de Sena

aqui não
















não esperes encontrar aqui o que deixaste
agora é noite
chove continuamente
e da eternidade
sobrou apenas um murmúrio

terça-feira, 11 de novembro de 2003

fintas












o diogo (7 anos) tentou uma finta à  figo no treino de futebol. a bola fintou-o a ele.
resultado: entrada à  hora dos telejornais no hospital dos pequenitos. em pranto, a mamã telefona ao titio a pedir ajuda (para ela!).
o diogo aproveita para ter um mimo para aliviar as dores. a radiografia mima-o com uma bota de gesso a bem da tí­bia fracturada. reservo um lugar bem visível para um desenho a pintar nos próximos dias.
saída apoteótica com claque na recepção.
eu aplaudo também. uma hora (!!!) no meio de uma equipa fantástica: consulta, radiografia, gesso e recado para casa.
como é que eles fazem? o que é que eles fariam num hospital a sério?
espero que o novo hospital, que não há maneira de vir, tenha 365 inaugurações e na vez dos rolling stones pode vir o ba-bata-batatum!

segunda-feira, 10 de novembro de 2003

träume süsse












acredita nessa corte
que governa os teus dias desordenados
segue os dias de perto
procura os atalhos
aproxima a noite em que te despes
no mesmo fechar de olhos
pelo doce abandono
aproxima os sonhos
que cercam o teu peixe de aquário
revelados por cristais dormentes

Johann Sebastian Bach
3 Sonaten fur Viola da Gamba und Cembalo

Kim Kashkashian : viola / Keith Jarrett : cembalo
ECM

domingo, 9 de novembro de 2003

arco-í­ris













hoje chove e faz sol.
a avó falava-me em bruxas a pentearem-se.
o joão saldanha, indiano de ascendência lusa, dizia-me que nestes dias há casamentos de macacos.
a magia do sol e da chuva.
agora, quando começa a chover imagino hélia correia a escrever...
ela que depende da chuva para nos dar a magia em poesia e em prosa.

sábado, 8 de novembro de 2003

Palabras y presagios











Volver a unos versos de Cavafis, de Eliot,
como quien regresa a una casa que hace años fue nuestra.
Repetir las sílabas, iluminar los símbolos
como cerradas habitaciones, ventanas polvorientas
que ocultan un jardín perdido, árboles de la muerte.
Melancolia del regreso y miedo del vacío,
crujidos de madera, aletazos de sombras
y, de pronto, en un cuarto, perdida
como una vieja copa o un espejo empañado,
encontrar la clave de tu vida.
Palabras que te avisaron:'Un monótono día
sigue a otro igualmente monótono',
o te advertieron:'Nacer, copular, morir.
Eso es todo, eso es todo, eso es todo, eso es todo'.
Palabras que la velez y la noche me regalan,
presagios que no entendí, anunciadas derrotas.


poemas, juan luis panero
relógio d'água
julho 2003

green river - seattle













green river continuará, para mim, a ser o nome daquela que foi provavelmente a primeira banda grunge, o verdadeiro berço de jeff ament e stone gossard.
seattle continuará a ser a cidade do experience music project e dos pearl jam.
o resto vou fazer por esquecer como esqueci o bill gates.

as palavras dos outros
















não sei porque acredito na poesia
nada procuro as mais das vezes

mas sobram sempre palavras
palavras que não escrevo
por serem canções minhas
com as letras dos outros

ainda agora quando vadiava
encontrei versos imaginados
de poemas sem linguagem
por entre os gestos das magnólias
e os murmúrios das tílias
que agora canto e não são meus

quinta-feira, 6 de novembro de 2003

bambini



veneza, 6 de Setembro de 2003

o 60º festival de cinema a chegar ao fim.
a bienal de arte contemporânea a decorrer.
o anúncio da regata histórica para o dia seguinte.
a absolut com uma exposição fantástica no palazzo zenobio.

as crianças, alheias a tudo, brincam no tubo.
guardei este filme, a sua instalação/performance.
o seu desinteresse pela comemoração da entrega de chipre a veneza.
e absolut têm tempo para conhecer daqui a uns anos
talvez nos shots na faculdade.

noturno













De Occidente la luz matizada
Se borra, se borra;
En el fondo del valle se inclina
La pálido sombra.
Los insectos que pasan la bruma
se mecen y flotan,
y en su largo mareo golpean
las húmedas hojas.

Por el tronco ya sube, ya sube
La nítida tropa
De las larvas que, en ramas desnudas,
Se acuestan medrosas.

En las ramas de fusca alameda
Que ciñen las rocas,
Bengalíes se mecen dormidos,
Soñando sus trovas.
Ya descansan los rubios silvanos
Que en punas y costas,
Con sus besos las blancas mejillas
Abrazan y doran.
En el lecho mullido la inquieta
Fanciulla reposa,
y muy grave su dulce, risueño
semblante se torna.
Que así viene la noche trayendo
Sus causas ignotas;
Así envuelve con mística niebla
Las ánimas todas.
Y las cosas, los hombres domina
La parda señora,
De brumosos cabellos flotantes
Y negra corona.


José Marí­a Eguren

la danza de las horas


" Hoy que está la mañana fresca, azul y lozana; hoy, que parece un niño juguetón la mañana, y el sol parece como que quisiera subir corriendo por las nubes, en la extensión lejana, hoy quisiera reír. Hoy, que la tarde está dorada y encendida; en que cantan los campos una canción de vida bajo el cóncavo cielo que se copia en el mar, hoy, la muerte parece que estuviera dormida, hoy quisiera besar. Hoy, que la Luna tiene un color ceniciento; hoy, que me dice cosas tan ambiguas el viento, a cuyo paso eriza su cabellera el mar; hoy, que las horas tienen un sonido más lento, hoy quisiera llorar. Hoy, que la noche tiene una trágica duda en que vaga en la sombra una pregunta muda; en que se siente que algo siniestro va a venir, que se baña en el pecho la tristeza desnuda, hoy quisiera morir."

José María Eguren (Perú, 1874-1942)

apontamentos para uma tese de doutoramento sobre o matrix





smith - a liberdade, a paz, a verdade e o amor são construções humanas tão frágeis como o matrix. não existe qualquer sentido na vida. porque continuas a lutar?

neo - porque eu escolho.


quarta-feira, 5 de novembro de 2003

escassez



é lisboa nos teus olhos
é lisboa que me rouba
é lisboa
é por ela
ainda agora
é lisboa
quando tudo não parece
essa barca de estais ao transe
depois de sérgios e faustos navegantes
ou como diz o gastão
a


escassez

às vezes despedimo-nos tão cedo
que nem lágrimas há que nos suportem o
peso da voz à solidão exposta
ou
de lisboa no corpo o peso triste

às vezes é tão cedo que nos vemos
omitidos
enquanto expõe
o peso insuportável do amor

é tão cedo por vezes que lisboa
estende sobre os corpos o desgosto

com os dedos no crânio despedimo-nos


gastão cruz
transe: antologia 1960-1990.
relógio d'água, 1992.

fiquei a aquecer a tinta










fiquei a aquecer a tinta em que me afogo
e a escutar minha caverna alternativa,
noites de tacto, dias de abstracção.


antologia poética, césar vallejo
trad. josé bento
relógio d'água, 1992.

terça-feira, 4 de novembro de 2003

antigo testamento: a raínha de sabá visita salomão

Acabada a construção do templo do Senhor, Salomão construiu também para si um esplêndido palácio. O trono era de ouro e marfim e a baixela era do mais fino ouro. Os seus navios iam buscar nos países mais longíquos ouro e objetos preciosos de toda a espécie, como dentes de elefante e pavões. Em riqueza, excedeu todos os reis da terra.
De todos os países do mundo corria gente para ver Salomão e todos se honravam em lhe oferecer presentes. A rainha de Sabá, na Arábia, veio também a Jerusalém com grande comitiva para conhecer a sabedoria de Salomão. Quando o ouviu e viu toda a sua magnificência, ficou encantada e disse: "Na verdade, a tua sabedoria e a tua glória ultrapassam a fama que tinha chegado até mim. Bem-aventurados os servos que estão sempre contigo e ouvem as palavras da tua sabedoria! Bendito seja o Senhor, teu Deus, que te colocou sobre o trono de Israel". E ofereceu-lhe ricos presentes de ouro e pedras preciosas antes de voltar para o seu país.

"Rei, muito sábio, tu podes dizer:
Quem, sepultado vivo, no fundo
Da terra, longe do sol e do mundo
Morre, e no entanto, torna a viver?"







Händel - Solomon

Solomon: Andreas Scholl
Solomon's Queen: Inger Dam-Jensen
First Harlot: Alison Hagley
Second Harlot: Susan Bickley
Queen of Sheba: Susan Gritton
Zadok, the High Priest: Paul Agnew
A Levite: Peter Harvey

Gabrieli Consort & Players
Paul McCreesh
DG/Archiv (1998)

ontem ainda









sei que o mundo se reinventa enquanto eu durmo

de outro modo,
como poderia eu perdoar
o mesmo eclipse
todas as noites?

segunda-feira, 3 de novembro de 2003

encontro no escuro com quem sabe da luz

o extravaganza sabe que a luz é uma nova subjugação.
foi kavafis que lhe disse... à janela.

o luís da montanha mágica sabe que a sombra é intimidade, abismo, coração.
aprendeu num bailado de teixeira de pascoaes.

parte-se tudo o que a sofia diria no escuro.

a insensatez revela-nos que manuel de freitas tinha medo da sombra, do silêncio, adivinhando em cada passo o monstro que o (a) habitava.

a rute do lugar da incerteza pede que náo perturbe de luz a quietude dos corpos mortos.

e entretanto, a sandra escurece
num afago de terra,
numa manhã sem segredos,
num rosto sem flores.

domingo, 2 de novembro de 2003

camille claudel por nuytten













cem anos depois da criação do bronze sakountala, bruno nuytten, até então fotógrafo, realizou um filme sobre camille claudel.
isabelle adjani foi camille e gérard depardieu interpretou auguste rodin.
valeu uma nomeação para o oscar de melhor fillme estrangeiro de 1989.
a bela isabelle foi nomeada melhor actriz.
falharam os oscares, vieram os césares!

camille claudel













camille claudel nasceu em 1864 na pequena cidade de fère-en-tardenois, nos arredores de paris, sendo a segunda entre quatro irmãos de uma família burguesa.
quando criança, esculpia os seus brinquedos com a argila que tinha no quintal.
camille, irmã do poeta paul claudel, teve a vida e o trabalho irremediavelmente ligados ao génio de rodin. a contundente e trágica história de criação, amor e loucura está nas suas obras.
a frágil e enigmática mulher deslumbrou rodin pela sua precocidade e talento, porém, o desencontro artístico e amoroso com rodin, acabou por levá-la a um internamento de trinta anos num hospital psiquiátrico. o silêncio imposto às suas mãos não permitiu que delas saísse uma outra obra.
camille e o seu talento tentaram fugir de um mundo que não estava preparado para reconhecer um outro destino que não fosse o prescrito para as mulheres do seu tempo.
modelo, amante, artista e rival são sinónimos da sua rebeldia. e se tudo e todos conspiraram contra o seu ímpeto de artista e mulher, o seu esquecimento terá sido talvez a punição mais terrível e a causa do maior sofrimento.
esperou até 1943 no sanatório de avignon, tinha 79 anos.

sábado, 1 de novembro de 2003

sakountala




momento único de bailado exibido hoje no canal mezzo: sakountala.

sakountala é a lenda india de dois amantes separados na terra que se encontram no nirvana.

theophile gautier escreveu o argumento em 1858.
camille claudel criou em 1888 uma escultura ímpar com o mesmo nome.

excelente coreografia de marie-claude pietragalla, cenografia de uma qualidade rara por philippe plancoulaine, enebriante ambiente musical de pierre-alexandre mati.
interpretações consistentes de vários solistas, artistas de circo e corpo de bailarinos da companhia nacional de ballet de marselha.


sexta-feira, 31 de outubro de 2003

eyes wide shut









ouvi ontem o anúncio da tempestade
e bastou-me sabê-la

hoje basta-me o aroma da terra
a água que corre
e a lama nas mãos

ouvir o bicharoco
(é agora o meu tigre de pi)

ele
embalado pelas águas
circunspecto

eu
atento
no silêncio e na vigí­lia

mais logo
vou percorrer as paredes
em busca do musgo
que nos alimenta

quinta-feira, 30 de outubro de 2003

reflexos da eternidade


acaba a pressa de correr
pelo cerco do tempo infinito

foto: reflections of eternity, emanuel dimitri volakis, 1999.

do sul ao sul



despeço-me hoje da luz
entro no tunel
olho para trás uma última vez
esqueço o flash que me faz perder o sul
o sul como partida e o sul como abraço de chegada

foto: tunnel, ruslan bustamante, 2001.

Esperando os bárbaros











"O que esperamos na àgora reunidos?
E' que os bárbaros chegam hoje.
Por que tanta apatia no senado?
Os senadores não legislam mais?
E' que os bárbaros chegam hoje.
Que leis hão de fazer os senadores?
Os bárbaros que chegam as farão.
Por que o imperador se ergueu tão cedo
e de coroa solene se assentou
em seu trono, à porta magna da cidade?
E' que os bárbaros chegam hoje.
O nosso imperador conta saudar
o chefe deles. Tem pronto para dar-lhe
um pergaminho no qual estão escritos
muitos nomes e títulos.
Por que hoje os dois cônsules e os pretores
usam togas de púrpura, bordadas,
e pulseiras com grandes ametistas
e anéis com tais brilhantes e esmeraldas?
Por que hoje empunham bastões tão preciosos
de ouro e prata finamente cravejados?
E' que os bárbaros chegam hoje,
tais coisas os deslumbram.
Por que não vêm os dignos oradores
derramar o seu verbo como sempre?
E' que os bárbaros chegam hoje
e os aborrecem arengas, eloquências.
Por que subitamente esta inquietude?
(Que seriedade nas fisionomias!)
Por que tão rápido as ruas se esvaziam
e todos voltam para casa preocupados?
Porque é já noite, os bárbaros não vem
e gente recém-chegada das fronteiras
diz que não ha mais bárbaros.
Sem bárbaros o que será de nós?

Ah! eles eram uma solução."

Konstandinos Kavafis, trad. José Paulo Paes.

quarta-feira, 29 de outubro de 2003

recado para o hugo

vá lá, coloca um endereço de mail no extravaganza ou aceita comentários, ou tudo ao mesmo tempo...

a poesia está morta, viva a poesia!

fantástica a iniciativa a poesia vai acabar da cristina fernandes e colaboradores. parabéns.

e que tal continuar agora com a poesia escrita pelos bloggers (inédita incluida)?

faltam 105 dias







para o publico oferecer a 'senilidade' de italo svevo ( 10/02/2004).
curioso o facto de svevo usar aquele ti­tulo para significar a incapacidade de emilio brentani se livrar do vício de amar uma mulher!

a poesia vai acabar

a_poesia_vai_acabar_bg.jpg

A POESIA VAI

A poesia vai acabar, os poetas
vão ser colocados em lugares mais úteis.
Por exemplo, observadores de pássaros
(enquanto os pássaros não acabarem).
Esta certeza tive-a hoje ao
entrar numa repartição pública.
Um senhor míope atendia devagar
ao balcão; eu perguntei:
"Que fez algum poeta por este senhor?"
E a pergunta afligiu-me tanto
por dentro e por fora da cabeça que
tive que voltar a ler
toda a poesia desde o princípio do mundo.
Uma pergunta numa cabeça.
- Como uma coroa de espinhos:
estão todos a ver onde o autor quer chegar? -

manuel antónio pina

fotografias da capa e separadores: mário filipe pires
paginação e concepção: cristina fernandes
1ª edição electrónica (pdf): outubro de 2003

terça-feira, 28 de outubro de 2003

a submersão da atlântida


hundertwasser deixa-me mais uma mensagem enigmática:
'estou submerso na atlântida, procura-me a oriente'
o que quer que eu faça agora? largo tudo e apanho o comboio.
espero longas horas sentado ao lado do seu painel de azulejos da estação do oriente.
olho os paineis em redor: europa, ásia, áfrica, américa e austrália.
estão de algum modo a submergir? será essa a mensagem?

para um lugar no céu...

aqui deixo o meu contributo para o dicionário de O mal:

alexia - s.f. incapacidade patológica de ler devida a lesão do hemisfério cerebral dominante (o esquerdo para os que usam a mão direita e o direito para os canhotos).
não consigo ler o paulo coelho e isso não me preocupa. é apenas uma fraqueza semântica no meu hemisfério esquerdo que não é assim tão dominante.

pausa para café









páro para me lembrar dos aromas de café que trago na memória.

lembro:
a luz e os lugares
a humidade e o calor

o montanha e a briosa
a brasileira e o arcádia
o nicola e a central
o santa cruz e a palmeira
o jardim da manga e o sereia
o avenida e o ritz

a minha curta e o teu descafeinado
a minha dupla e o teu carioca
o meu abatanado
e a tua serenidade

o teu passeio pelas horas
e a minha corrida taquicárdica

um corpo tem as palavras exactas e não se diz












para as palavras do carlos alberto machado
com o corpo de arila siegert

'Uma vontade de chorar quando o corpo se excede.
A morada torna-se habitável.
Perto do júbilo.

A chuva desagrega a cidade.
É preciso olhar de novo.
Passado o engano, abrigo-me no escuro.

Ao guardião, no seu elemento, entrego as palavras.
Todas as palavras.
Próximas do limite.
Falamos sobre limites.
Sobre elementos.
Sobre repetições.
Amanhã, o guardião cumprirá, renovando, o seu elemento.
Partirei em busca de outras águas.

E a eterna dúvida será a nossa comum perturbação.
E agora, na noite, pode esboçar-se o risco infinito da morte.
À superfície das águas.
Um corpo tem as palavras exactas.
E não se diz.

Fundo.
Uma lágrima abre fundo um sulco.
Por vezes invisí­vel.
Por vezes descoberto tarde de mais.'

segunda-feira, 27 de outubro de 2003

I don't know, I don't know...


















each man must realize
that it can all disappear very
quickly:
the cat,
the woman,
the job,
the front tire,
the bed,
the walls,
the room;
all our necessities
including love,
rest on foundations of sand -
and any given cause,
no matter how unrelated:
the death of a boy in Hong Kong
or a blizzard in Omaha ...
can serve as your undoing.
all your chinaware crashing to the
kitchen floor, your girl will enter
and you'll be standing,
drunk,
in the center of it and she'll ask:
my god, what's the matter?
and you'll answer: I don't know,
I don't know ...

string, charles bukowsky

domingo, 26 de outubro de 2003

só hoje achei as palavras



Terror de te amar num sítio tão frágil como o mundo
Mal de te amar neste lugar de imperfeição
Onde tudo nos quebra e emudece
Onde tudo nos mente e nos separa.

Sophia de Mello Breyner Andresen

também só hoje compreendi porque ela me disse
ela que tem um blog limpinho
a diva dos blogs

sim, eu li o meu svevo!

'citas os clássicos de cor e não sabes ler uma notícia num jornal'

pai de zeno, as confissões de zeno.

sábado, 25 de outubro de 2003

ainda que fosse por efémeros instantes
















queria desvairar o meu dia com o teu brilho
ainda que fosse agora que quase durmo
queria que soubesses que aqui onde quase chegas
sinto ainda o teu perfume, o teu olhar,
a tua magia feita manhã e dia e assombro
e tudo isso com a força que me perseguiu
na espera, no furor e no desalento das horas deste dia em que não vieste

sobraram ainda recados que não ouviste quando te disse adeus
e beijos nesses recados
e abracei-te
não sentiste?

sexta-feira, 24 de outubro de 2003

puro é o nojo




Perfeito é não quebrar
A imaginária linha
Exacta é a recusa
E puro é o nojo

sophia de mello breyner andresen


foto amy melious
children at ocean - no.607

trieste e italo svevo por zeno










'Confessions of Zeno é o culminar de um projecto iniciado há vários anos pelo encenador William Kentridge e pela autora Jane Taylor, em torno do romance de Italo Svevo, A Consciência de Zeno. É uma ópera singular, onde se misturam o cinema vivo nascido das manipulações da Handspring Puppet Company, a composição musical de Kevin Volans, tocada ao vivo pelo Sontonga Quartet, e a interpretação teatral. Nas ruas de Trieste, que não deixam de nos lembrar, segundo William Kentridge, a Joanesburgo dos anos 80, Zeno, figura emblemática de uma geração que aceita os limites da consciência do eu, deambula e evoca os grandes momentos de indecisão que marcaram a sua vida e originaram as tensões não resolvidas com o pai, a mulher e a amante. Distanciando a adaptação do original, apenas os dois capítulos 'História do meu casamento' e 'A esposa e a amante' são aqui tratados, William Kentridge deixa a luz do romance projectar no interior da mente de Zeno sombras fantasmagóricas onde o prazer erótico desafia a hipocrisia burguesa.'

grande auditório da culturgest, 23 a 25 de Outubro, 21:30.

viagem ao teu mundo imaginado









procuro hoje nos sete lugares
as duas sombras
e a pedra que esqueceste
para que tome uma parte do teu passado


foto Michael P. Berman
Crossings: Images of the Desert
Stone and Shadow, 2001

quinta-feira, 23 de outubro de 2003

classificados do mundo imaginado












'O meu nome é Maria;
tem mar o meu nome;
deve ser por isso que gosto tanto do mar,
deve ser por isso que aprendi a escrever o meu nome na areia da praia:
o mar...ia e na volta trazia a Maria!
Talvez por isso os meus olhos sejam verdes
e os meus cabelos tenham ondas;
a minha pele seja dourada
e a minha voz seja doce.
É com ela que chamo pelos gatos
que vivem nas hortênsias do meu prédio
e foi com eles que aprendi a posar para as fotografias.

Tenho 8 anos,
muitos amigos,
muitas conchas e búzios em caixinhas,
flores secas na secretária
e frescas na varanda,
retalhos de papel colorido pelo chão,
dos quadros que crio quando chego da escola
e por todo o lado, os papeis onde escrevo histórias que invento
e que depois represento para quem me quer ver...

O meu nome é Maria,
tenho 8 anos
e quero ser uma actriz.'


(e a tia eugénia vai ajudar a maria ...)

quarta-feira, 22 de outubro de 2003

a gerência pede desculpa

nem sei como explicar...
encontro referências ao quartzo, feldspato & mica por todo o lado.
só hoje entrei. atrasado. ofegante. quando saí­ ofegava ainda.
aos atrasados como eu: não percam tempo a pedir um atestado médico a um amigo. vão depressa.

projectos para um mundo imaginado



escrever um livro em co-autoria com a mafalda.
ela dá o mote aos 3 anos e continuamos até aos 7.
nessa altura, ela escreve o prefácio como exercício de composição.
deve mencionar o que recorda das sessões de escrita ao longo dos anos.
partilhamos também a ilustração.
pode até haver som fornecido devidamente num CD que acompanha o livro e disponível na internet.

a mafalda obriga-se a escolher um co-autor para um próximo volume. gostava que fosse o seu filho mas pode ser apenas um bom amigo. eu faço o mesmo.
já escolhi o diogo. repito o mesmo esquema. com idênticas obrigações para o diogo.
quero desafiar também o meu pai...

kusturica público


amanhã o público coloca ao dispor o dvd underground de emir kusturica.

na delirante alegoria sobre a situação da jugoslávia a partir da 2a. guerra, dois amigos seguem rumos diferentes. um assume o papel do opressor e pratica a hipocrisia, a manipulação de informações e o abuso de poder. O outro, oprimido, é escondido num subterrâneo, perde o contato com o mundo e, sem saber que a guerra acabou, torna-se parte de uma massa facilmente ludibriável. um alerta sobre os cidadãos sem pátria.

é o meu filme favorito. durante anos elegi apocalypse now de coppola. depois, conheci kusturica e rendi-me. ele faz os filmes que gostava de ter feito. o ambiente alucinado sempre presente. nos meus dez filmes preferidos ainda incluo outro kusturica: gato preto gato branco.
persegui durante algum tempo o dvd underground, sem êxito. para amanhã a reserva já está feita. já cá canta!


underground (1995)
com miki manojlovic, slavko stimac, lazar ristovski, mirjana jokovic.
argumento de emir kusturica e dusan kovacevic.
fotografia de vilko filac.
realização de emir kusturica.

Still











These few lines I'll devote
To a marvelous girl covered up with my coat
Pull it up to your chin
I'll hold you until the day will begin

Still
Lying in the shadows this new flame will cast

Upon everything we carry from the past
You were made of every love and each regret
Up until the day we met

There are no words that I'm afraid to hear
Unless they are "Goodbye, my dear"

Still
I was moving very fast
But in one place
Now you speak my name and set my pulse to race
Sometimes words may tumble out but can't eclipse
The feeling when you press your fingers to my lips

I want to kiss you in a rush
And whisper things to make you blush
And you say, "Darling, hush
Hush
Still, still"

Elvis Costello

terça-feira, 21 de outubro de 2003

elegia












Stop all the clocks, cut off the telephone,
Prevent the dog from barking with a juicy bone,
Silence the pianos and with muffled drum
Bring out the coffin, let the mourners come.

Let aeroplanes circle moaning overhead
Scribbling on the sky the message He is Dead.
Put crepe bows round the white necks of the public doves,
Let the traffic policemen wear black cotton gloves.

He was my North, my South, my East and West,
My working week and my Sunday rest,
My noon, my midnight, my talk, my song;
I thought that love would last forever: I was wrong.

The stars are not wanted now; put out every one,
Pack up the moon and dismantle the sun,
Pour away the ocean and sweep up the woods;
For nothing now can ever come to any good.

Funeral blues, W. H. Auden

parabéns georg










nasceu em 21 de outubro de 1912 em budapest.
saiu pela direita baixa em 1997 enquanto o mundo se preocupava mais com a sua princesa do povo.
evoco-o hoje antes de adormecer ouvindo a missa em si menor de bach bwv 232.
felicity lott, anne sofie von otter, hans peter blochwitz, william shimell, gwynne howell,
coro sinfónico de chicago, orquestra sinfónica de chicago
direcção: sir georg solti
decca 1991

prova de contacto






Não há como negar o meu instinto voyeurista, gosto de esplanadas de cafés, de observar gestos, recortar retratos de pessoas sentadas nas mesas. Faço enquadramentos de mãos pousadas, pernas cruzadas, fios de fumo. Espreito retalhos de conversas, palavras soltas.
Na mesa em frente um homem bebe um café, visto outra pele, sou eu quem levanta a chávena até aos lábios, olho por esses olhos. Vejo-me sentada numa mesa. O homem que bebe o café fixa a mulher na mesa em frente.


quadro de kiki lima (mon na quexada) para uma prova de contacto da rita.

segunda-feira, 20 de outubro de 2003

Fletcher McGee

Abri a minha prenda com ansiedade.
Obrigado Luís.















She took my strength by minutes,
She took my life by hours,
She drained me like a fevered moon
That saps the spinning world.
The days went by like shadows,
The minutes wheeled like stars.
She took the pity from my heart,
And made it into smiles.
She was a hunk of sculptor's clay,
My secret thoughts were fingers:
They flew behind her pensive brow
And lined it deep with pain.
They set the lips, and sagged the cheeks,
And drooped the eye with sorrow.
My soul had entered in the clay,
Fighting like seven devils.
It was not mine, it was not hers;
She held it, but its struggles
Modeled a face she hated,
And a face I feared to see.
I beat the windows, shook the bolts.
I hid me in a corner--
And then she died and haunted me,
And hunted me for life.

Edgar Lee Masters, Spoon River Anthology

Cicatriz

Pessoa dizia que queria ter ali consigo
vivos
os seus mortos queridos
com a idade
que tivessem que ter

A mulherzinha centenária a quem perguntaram
no dia dos seus anos qual o presente
que mais lhe agradaria receber
disse que era ter
a Mãe a seu lado nesse dia

Quem ama não faz contas

Teresa Rita Lopes