quarta-feira, 28 de janeiro de 2004

à espera do relato







um dia em que se começa a sorrir enquanto se ouve a celebração da paz do rão kyao com a orquestra chinesa de macau. a ponte da amizade ao fundo. a simplicidade e a eficiência. o mote para o dia. para amanhã, no mesmo local à noite, turandot de puccini. quem não folga ouve o relato.

terça-feira, 27 de janeiro de 2004

quod scripsi scripsi















deixei o livro
aberto no terraço

vou esperar o resto
do inverno e da dor

volto para ler
a tua palavra escrita
fim

segunda-feira, 26 de janeiro de 2004

Explicação do silêncio*








Há palavras que se trazem ao peito
como ecos de coisa nenhuma
- é delas que o silêncio nasce.


continuamos a olhar daqui o teu lugar
não nos preparou o teu aviso
como a sede não desaparece
no anúncio do deserto

*para a rute.

a cultura da pide













depois da história que contei aqui do censor da ditadura que se deliciava a ler e guardava livros proibidos, o abrupto dá conta de uma outra sobre os pides alfarrabistas contada por josé carlos santos. mais outra história a somar àquela dos pides filatelistas contada antes pelo jpp.

sexta-feira, 23 de janeiro de 2004

diário de bordo dia 204 40º13'N 8º24'W












peço pela manhã que inscrevamos neste dia a marca indelével do que temos de melhor. da noite, esse enorme túnel escuro que nos fez arrear as velas, pouco mais temos que manchas de café. é agora tempo de procurar o norte e soltar amarras.

tempo e silêncio














agostinho da silva escreveu num texto introdutório à colectânea da segunda série de 'conversas à quinta-feira' de luis machado (asa, 1993): 'o que uma vez foi sempre será, porquanto inscrito naquela eternidade feita do tempo que não acaba nunca. é bem possível que o futuro já nele também esteja. só que o não alcançam os nossos olhos'. assim tudo parece eterno, poderá afastar-se apenas a vontade e refugiar-se num silêncio para sempre marcada no tempo.

quarta-feira, 21 de janeiro de 2004

da vontade e do desejo












queria perceber onde se guardam as vontades, onde morrem os desejos que ontem nos faziam dar a vida por eles. em circunstâncias várias assim acontece. no campo criativo, profissional, emocional, etc. porquê e como? queria saber o preciso instante em que se perdem e para onde vão exactamente. lembro-me de perguntar aos do mal quanto duraria o blogar. recordo o que pensei quando desapareceram os reflexos de azul electrico da forma que nos tinha habituado. seguiram-se outros. alguns fazem pausas. longas, longas demais. o que fazer então para compreeender (aceitar?) as ausencias da rute e do hugo e tantas outras? vão dizer-me que é a vida. ou a morte. naturais. quem disseca então essas vontades?

terça-feira, 20 de janeiro de 2004

simposium













kary mullis, o prémio nobel surfista, escreve uma carta pedindo desculpa por não poder estar num simposium na baviera em março. ao seu jeito, lembra que simposium significa 'beber em grupo' e pede que ninguém se esqueça disso quando passam 20 anos da sua invenção. mullis recebeu o nobel por ter desenvolvido uma técnica que permite multiplicar o ADN (a PCR - polymerase chain reaction). em terras bávaras não vai ser difícil contrariar o cientista que escreveu a sua história num livro chamado 'dancing naked in the mind field'. o irreverente premiado escreve com humor e paixão sobre variadíssimos temas: do método científico à parapsicologia, das aranhas venenosas ao vírus da SIDA, do aquecimento global à astrologia, do caso OJ Simpson ao modo como se pode acender uma lampada com o pensamento. o surfista total deixa ainda uma lista de livros recomendados:

The Astrology File, Gunter Sachs
Boltzmann's Atom, David Lindley
The Botany of Desire, Michael Pollan
Ceremonial Chemistry, Thomas Szasz
Challenges, Serge Lang
Dark Life, Michael Ray Taylor
The Elegant Universe, Brian Greene
Enders Game, Orson Scott Card
Excuse Me Sir, Would you Like to Buy a Kilo of Isopropyl Bromide? Max G. Gergel
A Fish Caught in Time: The Search for the Coelacanth, Samantha Weinberg
Guns, Germs and Steel, Jared Diamond
Hyperion, Dan Simmons
The Island of the Colorblind, Oliver Sacks
The Natural Mind, Dr. Andrew Weil
The Nothing That Is: A Natural History of Zero, Robert Kaplan
The Orchid Thief, Susan Orlean
Riddley Walker, Russell Hoban
A Tour of the Calculus, David Berlinski
Zero, Charles Seife

segunda-feira, 19 de janeiro de 2004

costumbres












no es para quedarnos en casa que hacemos una casa
no es para quedarnos en el amor que amamos
y no morimos para morir
tenemos sed y
paciencias de animal

juan gelman

verdade e memória







no ano que passou, gelman escreveu no página 12 o que pensava do diário argentino. guardei algumas frases:

La Nación y Página/12 son, a mi juicio, los diarios mejor escritos del país, pero hablan desde lugares muy distintos. El primero responde a los intereses fundamentalistas de la globalización, el último a los intereses de quienes la padecen. Ambos atienden a verdades contrarias y ninguno de los dos es objetivo. Claro que la verdad del poderoso no es la verdad del despojado. Me alegra infinitamente entonces que nuestro diario no sea objetivo: una sociedad que reproduce la pobreza y la miseria agranda el rostro más descarnado de la realidad.

La verdad del marginado no es la verdad del marginador.

(...) sin memoria, el presente se convierte en un simple pasar muerto sin cambio posible, sin renacer posible, sin futuro posible. La memoria individual es algo más que recuerdo: es conciencia de las propias raíces, conciencia de sí mismo. No otra cosa ocurre con la memoria cívica: una sociedad que se olvida está condenada a la ignorancia de sí misma, a repetir errores, a vivir el presente como pasado vuelto a suceder.

(...) la memoria ciudadana está fragmentada en millones de pedazos y cada fragmento palpita todavía. Es como un secreto compartido divididamente que Página/12 ayuda a hablar, a juntarse, a pasar de conciencia opaca a conciencia libre en claridad.

Los atenienses del siglo V antes de Cristo obligaban a sus ciudadanos a jurar que olvidarían los males de una dictadura. No hay ley de punto final ni ley de obediencia debida que lo obtenga en Argentina. Y menos mientras exista Página/12. Ese registro de los tiempos, ese lujo, que dijera Fito Páez.

je t'aime moi non plus












É de Blow up que logo nos lembramos, desse filme de Antonioni, desse filme-sonho, com actrizes de sonho. Depois vemo-la como 'a' musa de Serge Gainsbourg, amante e intérprete dessa canção que escandalizou a França pelo seu erotismo e que em Portugal era clandestina nos bailes das gerações de 60 e 70: Je t’aime moi non plus. Depois ela continuou no cinema, gravou discos, nos anos 80 fez teatro na Catedral de Nanterre com Patrice Chéreau. Continuou no espectáculo, na canção - mais próxima ou mais distante de Serge - no cinema, militante, rebelde, com aquela energia sensual que só a ela pertence. Em 2002 encontrou o violinista de origem argelina Djamel Benyelles. Com ele e com os seus músicos criou um espectáculo festivo e contagiante, com o seu vestido vermelho.

23 e 24 de Janeiro, 21:30
Grande Auditório, Culturgest.

Voz: Jane Birkin
Violino: Djamel Benyelles
Piano: Fred Maggi
Alaúde: Amel Riahi el Mansouri
Percussão: Aziz Boularoug

o planeta do costume












mudei hoje de café. não aprendi nada de novo. é estranho entrar para tomar o pequeno almoço e saber que não vou encontrar os bloggers que eu gosto. aqui ninguém sabe a hora do meu último post. amanhã volto ao planeta do costume.

domingo, 18 de janeiro de 2004

a kudarc












espero até ser tarde. escrevo quando é tarde. não me afrontam as esperas. foi quando esperava que conheci o köves de kertész. era tarde quando ditei para a minha agenda um poema que nunca vou escrever. não sei escrever a minha respiração. como vou pôr em palavras o ar que não tenho quando percorro esse húngaro danado?

sexta-feira, 16 de janeiro de 2004

água é ave












as palavras de fiama como memorandum para os criticos num manuscrito a meio de uma relâmpago de 2001. o léxico dela dos anos sessenta. água é ave. e foi assim por aí fora. o substantivo e a substantiva poesia. depois todas as outras num mar que nunca acaba. a relâmpago elevou-a depois de nava, ramos rosa e belo. antes de sophia.

el lunfardo












vista daqui, buenos aires parece muda. silenciosa. silenciada. os satelites não detectam armando pontier, osvaldo pugliese, anibal troilo, julio de caro, horacio salgán, mariano mores, astor piazzolla e muitos outros. aquela livraria-botequim que tem as paredes forradas com as palavras de homero manzi, alfredo le pera, celedonio flores, homero expósito e horacio ferrer está agora cerrada. no palais de glace, pareceu-me ver caetano veloso entoadando o caballero de fina estampa. percorro as ruas tentando saber o que é el lunfardo , essa lingua e filosofia próprias abraçadas num tango.

sábado, 10 de janeiro de 2004

bilder












as imagens significam tudo a principio. são sólidas. espaçosas.
mas os sonhos coagulam, fazem-se forma e desencanto (...)


as imagens
anjos do desespero, heiner muller.
relógio d'água, 1997.


dos textos saltaram palavras que perdeste nessas paisagens agora desertas. cansados tombam os castanheiros no intervalo da figuração de mais um inverno. as tuas lágrimas diluem as cores que foram de céu, caminho e ribeiro. e permaneces assim, muda e triste, sem saberes que outro cenário te espera mais à frente, depois mais um sonho e além outra estação. esperam-te os poetas e os pintores e, pairando sobre a tua cabeça, os anjos vão dar-te pergolesi como nunca ouviste. basta-te que dês um passo e abras bem os olhos.

quinta-feira, 8 de janeiro de 2004

a última noite no bigodes












uma noite de despedida igual a tantas outras. várias pessoas que deixavam dili e festejavam no bigodes não sei bem o quê. ninguém sabe. lucélia santos acabava a rodagem do seu primeiro filme e estava visivelmente abatida. arrastou-se a conversa pela noite fora. naquele tempo os olhos do mundo estavam postos em dili. vieira de mello estava lá e fazia a diferença. lucélia contava estórias dele em segunda mão: bangladesh, sudão, chipre, moçambique e peru. tamara, enviada pelo página 12 dava conta da descoberta de timor em buenos aires. no outro dia, havia outro mundo à espera. alguém ia ouvir novas estórias de timor. para trás ficaram os olhos da menina que espreitava a esperança de que aquela não fosse a última noite.

quarta-feira, 7 de janeiro de 2004

reinventar o mundo












na próxima semana (12 a 16 de janeiro), sartre e beauvoir mostram-se em coimbra. as palavras e os actores numa luta corpo a corpo para reinventar o mundo e a própria vida como diz o cam que dirigiu o texto à volta da verdade e da mentira numa peça de teatro (aventuras extraordinárias do principe e do castor). vai ser uma semana de eventos que incluem teatro, documentários, música e tertúlia.

terça-feira, 6 de janeiro de 2004

la loca de la casa












vagueio pela sala da embaixada francesa nas indias. nesta recepção não grito o amor a anne-marie stretter. danço um tango à beira ganges com vera mantero ao som das palavras de rosa montero. e permaneço assim parado nessa película de paixão que me separa da loucura. tenho vestido o fato emprestado do vice-consul em lahore ainda húmido da monção. ela encostando o seu peito seco ao meu. as nossas mãos percorrem as cabeças procurando no cabelo os restos de calcutá. por conta da imaginação ou, como diz rosa: da louca da casa.

segunda-feira, 5 de janeiro de 2004

yellow: as ferozes transparências
















look at the stars; look how they shine for you
and everything you do
yeah, they were all yellow

[yellow, coldplay]



atiramos pedrinhas sem outro intuito
além de nos embrulharmos nas ferozes transparências
de que falava o poeta nava

dois rios












o corpo dividido em duas partes
fechadas
à chave uma na outra, avanço
num duplo coração como se fosse
ao mesmo tempo num só barco por dois rios.

[dois rios
o céu sob as entranhas, luís miguel nava
limiar, 1989]


não querer mais das tardes
que o diáfano beijo, como
se fora uma qualquer sinapse
que sonolenta e triste
me recorda um mar que nunca fomos

o fascí­nio











- porque me odeias tanto?
- porque um dia te quis demais!

[do filme 'o fascínio', josé fonseca e costa 2003]

klep












- em que pensas no tempo todo?
- no desejo.
- sob que forma?
- depende.
- de quem?
- de ti.

sábado, 3 de janeiro de 2004

se beber não leia













comprei a revista os meus livros (dez2003/jan2004) porque há talvez um ano que não a leio e tinha curiosidade em saber como vai. continua lamentavelmente a deixar muito a desejar. como dizia o outro, o projecto é um bom projecto mas não havia necessidade. dispensava-se perfeitamente quase tudo, a começar pelo editorial e a acabar no estafadí­ssimo professor marcelo. porém, o mais ridículo é a forma como tereza coelho, a directora, responde às cartas dos seus leitores. estou enganado ou ela bebe de manhã cedo que é a hora a que os filhos a deixam escrever?

diário de bordo dia 184 40º13'N 8º24'W


















tempo de traçar a derrota
a linha do rumo verdadeiro
assinalar com duas setas
a previsão dos perigos
o desvio das áreas proibidas
marcar um rumo de governo
contando com as correntes
dessas marés sempre diferentes
esperar o abatimento
porque há vento forte a vante de través

não é pop art é a arte do povo














a dona da casa nasceu na antiga união soviética. tornou-se marchant. foi coleccionando quadros. tem a casa cheia de quadros. literalmente. existem quadros por baixo da cama e nas gavetas da cómoda dos quartos dos hóspedes. diz ela que os pintores lhe agradeciam os negócios com quadros que ela não achava bem vender. ao segundo casamento mudou-se para itália. lá ficou até vir para portugal. trouxe uma empregada italiana de quem não se separa. um amigo, habituado a tantos quadros na casa, entrou na sua cozinha e gritou. ela correu a ver o que se passava. ele só estava estupefacto por ver a cozinha completamente pintada à mão como se tratasse de uma enorme tela. resposta dela: "não ligues, a minha empregada quando está zangada só relaxa pintando e vinga-se na cozinha".

era a censura porra!













soube de um censor da ditadura que se deliciava a ler tudo o que censurava e depois, não sei bem como, guardava na cave de sua casa os textos proibidos. comentário a um amigo chegado: "eu tinha de censurar pá, mas aquilo era bom porra!".
assim está hoje uma cave de lisboa cheia de coisas boas porra!

quinta-feira, 1 de janeiro de 2004

long island sound















I see it as it looked one afternoon
In August,-by a fresh soft breeze o'erblown.
The swiftness of the tide, the light thereon,
A far-off sail, white as a crescent moon.
The shining waters with pale currents strewn,
The quiet fishing-smacks, the Eastern cove,
The semi-circle of its dark, green grove.
The luminous grasses, and the merry sun
In the grave sky; the sparkle far and wide,
Laughter of unseen children, cheerful chirp
Of crickets, and low lisp of rippling tide,
Light summer clouds fantastical as sleep
Changing unnoted while I gazed thereon.
All these fair sounds and sights I made my own.


Emma Lazarus

quarta-feira, 31 de dezembro de 2003

miss ya











quando abrires os olhos estamos no molhe de chelsea com o rio hudson aos pés.
vais depois correr até ao fundo do jardim botânico de brooklyn para gravares um beijo salgado numa pedra.

sábado, 27 de dezembro de 2003

maresia















não sei porque te deixo a ti e a esse porto. não sei sequer que marés me trazem hoje e sempre aos teus braços para depois me deixarem ancorado nas vazantes.

sapiens










aquele sábio sentado no cimo da montanha,
o tal que contempla com serenidade o mundo,
tem aquele olhar pintado por leonardo.

segunda-feira, 22 de dezembro de 2003

diário de bordo dia 172 40º13'N 8º24'W














hoje não temos vento.
passo o tempo a inspeccionar as obras vivas.
absorto com uma defensa a bombordo,
procuro saber onde ela me pode levar.
troco o dia de exercícios do sextante
pelas cartas dos outros.

prodromo all'arte maestra













explico-te
o que é um eclipse:


em 1670 francesco lana terzi desenhou um balão
e a distancia de umas centenas de ducados
separou o jesuita do seu sonho

o eclipse segundo eucanaã












Explico-te
o que é um eclipse:

dois navios, maralto,
miram-se no rosto

um do outro, de um modo que
já não sabem, ao certo, o que são:

se dois homens,
se duas mulheres,

se dois sóis ou duas conchas
que se abrissem

para tecer com a saliva
uma da outra

a árvore rara do instante,
que não vive mais que

o tempo estreito de um laço
perfeito entre dois

touros ou duas flores,
entre dois lugares

retornados ao um.


desassombro, eucanaã ferraz.
quasi 2001.

não é que não pense no fim do mês











houve um primeiro natal em que sobraram as perguntas e faltaram as palavras. vieram agora. só agora. não são minhas meu amor, são de um amigo. para ti mafalda com um abraço ao cam.

Não é que não pense no fim do mês
até já pus o íman no contador
angustia-me tanta energia invisível
penso no fim do mês e da vida
e não sei o que me dói mais
os olhos abertos da minha filha
esperam por saber como perguntar
o teu pai filha ainda espera respostas
ou como construir as perguntas certas
esvai-se a casa e eu com ela
preocupado com as respostas
com as sobras das perguntas
enredo as palavras e embalo-as.


poetas sem qualidades, carlos alberto machado.
averno 2002.

sexta-feira, 19 de dezembro de 2003

esquadria
















a sua atenção
as cores
sim as cores
o escuro
chegar antes
o estar de cada coisa
os meninos
as janelas
as suas minhas janelas
acordar da alegria do cansaço

depois ter você

All I Really Need To Know I Learned In Kindergarten

















All I really need to know I learned in kindergarten.
ALL I REALLY NEED TO KNOW about how to live and what to do
and how to be I learned in kindergarten. Wisdom was not
at the top of the graduate-school mountain, but there in the
sandpile at Sunday School. These are the things I learned:

Share everything.
Play fair.
Don't hit people.
Put things back where you found them.
Clean up your own mess.
Don't take things that aren't yours.
Say you're sorry when you hurt somebody.
Wash your hands before you eat.
Flush.
Warm cookies and cold milk are good for you.
Live a balanced life - learn some and think some
and draw and paint and sing and dance and play
and work every day some.
Take a nap every afternoon.
When you go out into the world, watch out for traffic,
hold hands, and stick together.
Be aware of wonder.
Remember the little seed in the styrofoam cup:
The roots go down and the plant goes up and nobody
really knows how or why, but we are all like that.
Goldfish and hamsters and white mice and even
the little seed in the Styrofoam cup - they all die.
So do we.
And then remember the Dick-and-Jane books
and the first word you learned - the biggest
word of all - LOOK.

Everything you need to know is in there somewhere.
The Golden Rule and love and basic sanitation.
Ecology and politics and equality and sane living.
Take any of those items and extrapolate it into
sophisticated adult terms and apply it to your
family life or your work or your government or
your world and it holds true and clear and firm.
Think what a better world it would be if
all - the whole world - had cookies and milk about
three o'clock every afternoon and then lay down with
our blankies for a nap. Or if all governments
had a basic policy to always put thing back where
they found them and to clean up their own mess.
And it is still true, no matter how old you
are - when you go out into the world, it is best
to hold hands and stick together.

Robert Fulghum, All I Really Need To Know I Learned In Kindergarten, Villard Books: New York, 1990, p 6-7.

quarta-feira, 17 de dezembro de 2003

epervier de ta faiblesse, domine


uma vontade repentina de arrumações levou-me os livros de cabeceira entendidos como demasiada vizinhança de papel para um sono saudável. sobraram drummond de andrade e henri michaux. ontem quis adormecer embalado pelas páginas de uma antologia de henri michaux (relógio d'água). a insonia veio com a desordem da lembrança de uma peça de milan stibilj sobre as palavras de michaux. 'epervier de ta faiblesse, domine' coincide com o momento mais exaltado do texto. tive saudades da outra excitação, aquela das histórias marítimas extraordinárias que me embalavam em noites entrecortadas por emilio salgari e mark twain.

terça-feira, 16 de dezembro de 2003

geminidas














pensei ser um momento mágico.
o fogo de artifício que anunciava o teu regresso. não vieste afinal.
a chuva de meteoros com origem aparente em gémeos resultou apenas da passagem do cometa 3200 phaeton pelo sol. o cortejo dessas areias de um milimetro que inundou as últimas noites é afinal uma banalidade astronómica que só enebria tontos como eu.

segunda-feira, 15 de dezembro de 2003

CAPTAIN'S LOG DAY 34 - 30º 46' N, 40º 14' W






Favourable winds from off the quarter this morning. Mr. Allen spread a full press of sail and upon heaving the log we discovered she was making eight knots two fathom. The people seem happy to be cracking on, but I judged it prudent to strike royals. We are bound for the far side of the world - and there is no profit in losing a yard in order to keep a fool's pace with no dockyard under our lee for ever and ever.

O Lutador (I)
















Lutar com palavras
é a luta mais vã.
Entanto lutamos
mal rompe a manhã.
São muitas, eu pouco.
Algumas, tão fortes
como o javali.
Não me julgo louco.
Se o fosse, teria
poder de encantá-las.
Mas lúcido e frio,
apareço e tento
apanhar algumas
para meu sustento
num dia de vida.
Deixam-se enlaçar,
tontas à carícia
e súbito fogem
e não há ameaça
e nem há sevícia
que as traga de novo
ao centro da praça.


poesia contemplada, de Carlos Drummond de Andrade

domingo, 7 de dezembro de 2003

master and commander













é guerra o que sinto à minha volta todos os dias. lembro o guerreiro que julgo ser e penso que tal como jack aubrey (russell crowe) no úlitmo filme de peter weir, luto contra mim próprio. a audácia, a determinação e a inteligência necessárias esgotam-me a cada momento. como no filme, divido-me entre a postura do médico stephen maturin (paul bettany) e a do comandante. sempre presentes a luta, no seu sentido mais amplo, e a procura de outros mundos.

o mundo de horácio













esta semana não tive a oportunidade de ver a peça horácio de heiner muller em coimbra. o nome horácio está espalhado pela cidade. curiosamente, surgiu outro horácio (pina prata, o vice presidente da câmara) anunciando algo que me parece digno de um texto de teatro: a instalação de uma extensão da biblioteca municipal no mercado d. pedro v para chamar mais gente ao mercado. eu julgava que a capital nacional da cultura tinha atraído pouco novo público para a cultura. vi vários espectáculos na companhia de uma multidão de 20 pessoas. agora sei porquê. este horácio anda a desviar pessoas para os mercados e, quem sabe, para as feiras, lavadouros, fontanários e outras grandes superfícies.

sábado, 6 de dezembro de 2003

nosce te ipsum



não sei porque vens. na tua extravagância patética fazes desfilar bulgakov, marivaux e pinter num cenário de exageros. não te apercebes sequer das cadeiras vazias. das portas fechadas aos risos que não são teus e que ecoam de arlequins e mestres. devias olhar moliére com atenção. há em certos homens uma dimensão que não podes captar nunca. não o tentes sequer. reconhece apenas que existe um mundo absolutamente impenetrável na mente de cada um. deixa espaço para o espanto. troca a arrogância das tuas certezas pelo que quiseres mas livra-te delas. a dimensão que verdadeiramente procuras está para além de tudo isso.

quinta-feira, 4 de dezembro de 2003

maresia

















não são os ventos que levam lá em baixo as areias em cornucópias bailando ao som das ondas. não são sequer as gotas desse mar nunca quieto que esperamos agora nos corpos em desassossego. mudas são por este tempo as rodelas de vinil abandonadas em cima do baú a que faltam os maillots de verões distantes. do amor apenas a tua respiração húmida assobiando na concha em que te ouço.

quarta-feira, 3 de dezembro de 2003

o leitor ideal de ...












Equador de Miguel Sousa Tavares é Vasco Pulido Valente
Harry Potter e a Ordem da Fénix de JK Rowling é Amália Rodrigues
os leitores ideais de A Alquimia do Amor de Nicholas Sparks são Paulo Portas e Durão Barroso
Ao Encontro de Espinosa de António Damásio é António Guterres
O Inimigo sem Rosto - Fraude e Corrupção em Portugal de Maria José Morgado é Fátima Felgueiras
Boa Tarde às Coisas Aqui em Baixo de António Lobo Antunes ainda não tem leitor ideal
Vagabundos de Nós de Daniel Sampaio é Pedro Strecht
A Guerra em Directo de Carlos Fino é George W Bush
Na Corda Bamba de Joanne Harris é Ferro Rodrigues
Por Dentro das Guerras de Mário de Carvalho e Luís Costa é José Rodrigues dos Santos

terça-feira, 2 de dezembro de 2003

propostas para definir o leitor ideal











o leitor ideal é o escritor no instante anterior à escrita.
o leitor ideal não reconstroi um texto: recria-o.
o leitor ideal tem uma capacidade ilimitada de esquecimento.
o leitor ideal não se interessa pelos escritos de michel houllebecq.
o leitor ideal sabe aquilo que o escritor só intui.
o leitor ideal subverte o texto.
o leitor ideal não se fia na palavra do escritor.
o leitor ideal procede por acumulação: cada vez que lê um texto, agrega um nova capa de memória ao conto.
todo o leitor ideal é um leitor associativo. lê como se todos os livros fossem a obra de um único escritor, prolífico e intemporal.
ao fechar um livro, o leitor ideal sente que, se não o tivesse lido, o mundo seria mais pobre.
o leitor ideal é como joseph joubert que arrancava dos livros da sua biblioteca as páginas que não gostava.
o leitor ideal tem um sentido de humor perverso.
o leitor ideal lê como se toda a literatura fosse anónima.
o leitor ideal usa com prazer o dicionário.
o leitor ideal julga o livro pela sua capa.
paolo e francesca não eram leitores ideais, já que confessaram a dante que, depois do primeiro beijo, não leram mais.
o leitor ideal tinha dado o beijo e continuava a ler. um amor não exclui o outro.
o leitor ideal partilha a ética de dom quixote, o desejo de madame bovary, o espírito aventureiro de ulisses, a desfaçatez de zazie, enquanto dura a narração.
o leitor ideal é politeísta.
robinson não é um leitor ideal. lê a biblia para encontrar respostas. o leitor ideal lê para encontrar perguntas.
todo o livro, bom ou mau, tem o seu leitor ideal.
para o leitor ideal, todos os livros são, em certa medida, a sua autobiografia.
o leitor ideal tem uma nacionalidade precisa.
às vezes um livro deve esperar vários séculos para encontrar o seu leitor ideal. blake precisou de 150 anos para encontrar northrop frye.
pinochet, ao proibir dom quixote por temer que o livro pudesse ler-se como uma defesa da desobediência civil, foi o seu leitor ideal.
'há três classes de leitores: a primeira, aqueles que gostam de um livro sem o julgarem; a terceira, aqueles que o julgam sem gostarem dele; a outra, entre as duas, os que julgam apesar de gostarem ou gostam apesar de julgarem. estes últimos dão nova vida a uma obra de arte, e não são muitos' disse goethe numa carta a johann friedrich rochlitz.
os leitores que se suicidaram depois de lerem werther não eram leitores ideais e apenas meros sentimentais.
o leitor ideal deseja chegar ao fim do livro e, ao mesmo tempo, que ele não acabe.
o leitor ideal é (ou parece ser) mais inteligente que o escritor. e por isso não o diminui.
as boas intenções não fazem leitores ideais.
o marquês de sade: 'só escrevo para quem pode entender-me, e estes leram-me sem correrem perigo'.
o marquês de sade enganou-se: o leitor ideal corre sempre perigo.
o escritor nunca é o seu próprio leitor ideal.
a literatura depende, não de leitores ideais, mas de leitores suficientemente bons.

alberto manguel
excertos da crónica 'a pie de página'
babelia (el pais),
29.11.2003

segunda-feira, 1 de dezembro de 2003

excessivo é ser jovem












penso em coimbra e é este o rumor que me chega: um amanhecer de pássaros, o coaxar das rãs pela noite fora. entre uma coisa e outra, os noticiários da bbc, os quartetos de beethoven, a comovida e tão desenganada arte de oliveira martins, e as discussões intermináveis, só possíveis quando a juventude é excessiva, e não nos cabe nas mãos um tal ardor. era a ferocidade brutinha, a nossa guerra pessoal, este demónio da negação instalado no corpo, e tudo servia de pretexto: um verso de ungaretti, a cor de um seixo, um desenho de matisse. havia também as lições de matemática (com poemas de neruda e de maiakovski à mistura) com o joaquim namorado, três por semana.

eugénio de andrade
memórias da alegria, antologia de verso e prosa sobre coimbra
2ª edição, revista e aumentada, novembro de 1996, campo das letras.

red ribbon









no teu lugar
o silêncio de um laço vermelho

desse momento
a memória eterna
do cuidado das entregas

para sempre
o amor
para lá dos cd4

poezine








poezine é um encontro de revistas portuguesas contemporâneas de poesia: aquilo, bumerangue, diVersos, hífen, inimigo rumor, oficina de poesia, palavra em mutação, plágio, relâmpago e poesia visual.
no último sábado proporcionou-se um colóquio e uma mesa-redonda.
a grua em frente ao museu dos transportes urbanos de coimbra parecia dar o mote da poesia em construção.
perguntava joão da costa domingos quantas destas irão permanecer como referência ao lado de orpheu e outras. para algumas não interessa a resposta. o conflito é a palavra-chave e a razão de existência para muitas. todas diferentes nas origens, nos meios, na localização geográfica, na periodicidade, na atenção dada à imagem e nos poetas que apresentam. entre poetas de referência e emergentes quase todas se orgulham de uns e outros.

destaque para alguns projectos singulares:
a relâmpago, surgida de uma vontade testamentária de luis miguel nava confiada a gastão cruz;
a inimigo rumor extensão da revista brasileira de carlito azevedo que desde o nº 11 contempla redacção portuguesa com coordenação de osvaldo manuel silvestre e poesia lusa, recusando veementemente o conceito de poesia luso-brasileira;
a oficina de poesia, resultado do laboratório de graça capinha e do curso livre de poética e escrita criativa na faculdade de letras da universidade de coimbra;
a diVersos, fruto do encontro no estrangeiro de manuel resende, carlos leite, jorge vilhena mesquita e josé carlos marques que se apresenta como a única revista de poesia e tradução trazendo poetas de outro modo inacessíveis aos leitores portugueses como, por exemplo, os gregos modernos (mikhális katsarós, demóstenes agrafiótis, kariotókis ou nikos engonópoulos).
a bumerangue, de joão salgado de almeida, uma excelente revista vinda da cidade-berço que no último nº 4 (o quinto está quase quase a sair) apresentou um cuidado extraordinário na selecção e apresentação de trabalhos com destaque para os japoneses hisaki matsuura e junko takahashi e ainda, para o ucraniano evgueni daienine;
e por último, a plágio de antónio gil, césar zembla, hélio t e joão garcia, projecto viseense irreverente que tem como lema 'tous est nouveau rien de nouveau" e que gerou a maior curiosidade neste encontro.

poezine: encontro de revistas de poesia
29 de novembro a 6 de dezembro de 2003
organização: coimbra capital nacional da cultura 2003
museu dos transportes
coordenação (parabéns!): manuel portela e elisabete carvalho.