quinta-feira, 19 de fevereiro de 2004

por não saber o teu nome chamo-te luís












senti-me sozinho quando cheguei à casa grande. quis correr a outras casas para encher de risos as molduras vazias. parei sempre nos primeiros degraus sem saber se era isso que eles queriam. passaram os anos. foi quando saí dessa casa que te encontrei. e foi assim todos os dias ao fim da tarde. trocava contigo o que pedias. um dia disse-te que já não precisava de mais nada em troca. queria dar-te o que precisasses. ficava horas a pensar que gostava que lesses outras histórias. que soubesses que há outro mundo. comprei em duplicado um livro da sofia. um para a mafalda e o outro para ti. andei depois com ele no carro até lhe perder o sítio. deixei de te ver durante uns meses. quando te encontrei de novo, pareceste-me mais alegre que nunca. fiquei contente por te ver assim. assim livre e bem. quando te imaginava numa dessas instituições de que o luis fala, preocupava-me. ainda bem que não te agarraram. hoje ainda tenho saudades tuas. queria amparar-te para que não caísses afinal nos braços que te tirariam a liberdade. acho que não precisas de nada disso. não precisas do meu colo. continuo sem saber como te chamas. por não saber o teu nome chamo-te luís. não importa. apenas ficava mais tranquilo que soubesses o meu. e chamasses quando quisesses.

quarta-feira, 18 de fevereiro de 2004

the road not taken












paisagem montanhosa, hercules seghers, 1625.
galeria dos uffizi, florença


Two roads diverged in a yellow wood,
And sorry I could not travel both
And be one traveler, long I stood
And looked down one as far as I could
To where it bent in the undergrowth;
Then took the other, as just as fair,
And having perhaps the better claim,
Because it was grassy and wanted wear;
Though as for that, the passing there
Had worn them really about the same,
And both that morning equally lay
In leaves no step had trodden black.
Oh, I kept the first for another day!
Yet knowing how way leads to way,
I doubted if I should ever come back.
I shall be telling this with a sigh
Somewhere ages and ages hence:
Two roads diverged in a wood, and I-
I took the one less traveled by,
And that has made all the difference.

Mountain Interval, 1916.
Robert Frost.

terça-feira, 17 de fevereiro de 2004

por outro lado












solitude standing, peter van den akker.

olho para a página contrária quando admiras a imagem. recorto as palavras desiguais. nesse museu, que decerto não aprecio, interessa-me a tua pergunta. e só a tua pergunta. não acredito nas cores que dizes serem poemas de luz. não acredito mais nas inebriantes sessões à procura dos campos mórficos, dos chakras ou da cartografia ayurvédica. há caminhos menos percorridos que não me interessam agora. quero fazer caminhadas e subir montanhas. todas as caminhadas. todas as montanhas. por outras cores. por outro lado.

domingo, 15 de fevereiro de 2004

Cent mille milliards de poèmes













Le cheval Parthénon s'énerve sur sa frise
pour déplaire au profane aussi bien qu'aux idiots
le Turc de ce temps-là pataugeait dans sa crise
il n'avait droit qu'à une et le jour des Rameaux
On était bien surpris par cette plaine grise
qui se plaît à flouer de pauvres provinciaux
un audacieux baron empoche toute accise
lorsqu'on voyait au loin flamber les arbrisseaux
Du Gange au Malabar le lord anglais zozotte
on comptait les esprits acérés à la hotte
le chemin vicinal se nourrit de crottin
Frère je te comprends si parfois tu débloques
les Indes ont assez sans ça de pendeloques
si l'Europe le veut l'Europe ou son destin.

raymond queneau
poema interactivo construido com um conjunto reduzido de versos alexandrinos.
obter mais aqui.

sábado, 14 de fevereiro de 2004

miss ya my valentine












flowers in the wind, pauline werkmeister, 1995.

sexta-feira, 13 de fevereiro de 2004

magnum escaldante













hoje vimos nascer o sol com lorca e luis rosales. enquanto se misturavam vinho e poemas, gerda taro e robert capa fotografavam. repetimos toda a noite: nunca fomos a granada. cartier-bresson apareceu para dizer que o bob também fotografava mulheres bonitas, homens famosos e grandes festas. sairam os três das imagens e adormeceram os das palavras declamando: nós nunca fomos a granada.

quarta-feira, 11 de fevereiro de 2004

[publicidade]



"Castello Banfi Brunello di Montalcino 1997" ranked #3 on Wine Spectator's "Top 100 Wines of the Year".
Wine Spectator - December 31, 2002/January 15, 2003.


para quem procura outros monumentos italianos em roma, permito-me sugerir fortemente um jantar no palazzo capranica na piazza do mesmo nome, entre o panteão e o montecitorio. aconselha-se marcação. ambiente muito acolhedor, música excelente e variada, extraordinário serviço, soberba enoteca e cozinha requintada. não se pense que tudo isto pode ser muito caro. para uma pequena extravagância (também possível) sugere-se o acompanhamento com o néctar supracitado. se puderem escolher quem vos serve procurem um rapaz baixo e delicado que possa ser descrito como o serapica das 'memórias de um anão gnóstico' de david madsen. depois escrevam-me.

giuseppe modica











lo sguardo circolare: agrigento, giuseppe modica, 1998.
mostra antologica de 1989 a 2003, complesso del vittoriano, roma.
até 20 de fevereiro.


giuseppe modica vê espelhos nas janelas. em cada quadro um olhar para o interior. dizem que ele pinta a luz da luz. compararam as suas obras a vermeer, antonello ou piero della francesca. de uns a luz, de outros a luminosidade. em breve, vou aqui deixar mais algumas janelas. esta é dedicada à insensatez, pelo lugar de silêncio, pela celebração do sol, pelas minimais, pelo 'into the light', pelo claro-escuro, pela explicação da luz e do deserto.

tutta l'opera del caravaggio: una mostra impossibile













amore vincitore

no castel de sant'angelo a ragazza da bilheteira tem o cuidado de avisar: atenção porque a exposição é digital. mesmo assim os visitantes parecem decepcionados quando não encontram as verdadeiras telas do mestre. talvez habituados à sucessiva realização de tarefas impossíveis perguntam-se a si mesmos: porque não fizeram o impossível? andré malraux explica no seu livro 'o museu imaginário' porque não se podem montar certas exposições, mesmo com os empréstimos de colecções de museus e privados. para quem não pode ir a roma até 15 de fevereiro, e porque a exposição é digital, aqui fica o magnífico site oficial.

domingo, 8 de fevereiro de 2004

ruinas










os kurdos sao o maior o povo do mundo sem terra. 30 milhoes.

hoje, ao lado do monumento a vittorio emanuel II um grupo de kurdos competia com as ruinas romanas para ter a atencao dos turistas. em silencio, apenas exibindo nas t-shirts a revolta de nao poder pisa a sua terra.

oh! santa cecilia!












sala santa cecilia, parco de la musica, roma.

chung teve a honra de inaugurar a sala. sente-se por isso em casa. desta vez recebeu mischa maisky e soube receber bem. deixou depois o convidado brindar roma com tres encores. no ultimo, mischa despachou uma suite para violocelo de bach. literalmente. o publico nao pediu mais. chung serviu no final, como sobremesa a sinfonia numero 40 de mozart. alguns apressados deixaram a sala nos momentos seguintes. demorei mais um pouco. comovi-me. eu que me comovi da ultima vez (como a cristina) quando o carlos mena interpretou no ano passado o stabat mater na festa da musica em lisboa. despedi-me da sala com um ate ja...

sexta-feira, 6 de fevereiro de 2004

dolce vita












piazza navona, silvio mencarelli.

o museo do vaticano tem horario mais restrito, agora funciona para beatos madrugadores. como nao devem ter mudado as coleccoes nao devo perder muito. o palazzo venezia apresenta uma exposicao muito interessante com retratos de grupo que incluem pinturas e fotografias. estas ultimas sao fantasticas. o retrato de grupo como afirmacao de partilha social, cultural e politica. o macro tem quatro exposicoes sofriveis. vale nicola de maria com pinturas dedicadas. o la republica comecou esta semana uma serie de publicacoes antologicas da poesia italiana. para ja, dante e petrarca. varios teatros na vizinhanca apresentam svevo. sempre na moda. o melhor do dia de hoje foram dois livros que trouxe. moderato cantabile da marguerite duras e a vida alcatifada da sarah adamopoulos. fim do dia com jantar no dolce vita da piazza navona. ainda dizem que o trabalho dignifica o homem...

terça-feira, 3 de fevereiro de 2004

roma, febbraio 2004












veduta di piazza del popolo, óleo sobre tela, gaspar van wittel, roma 1718.

amanhã regresso a roma. vários motivos de interesse: mischa maisky vai tocar tchaikovsky com a orquestra da academia santa cecilia dirigida por myung-whun chung; o palazzo venezia expõe retratos de grupo (de van dyck a chirico); toulouse lautrec está no complesso del vittoriano, e ainda, arte moderna na mezzoniana do terminal ferroviario (fascista) e no museo de arte contemporânea de roma (macro). além disso, todas as piazzas e todos os palazzos para umas férias que me salvem o mês.

explicação da noite












todas as noites espero uma visita diferente. umas vezes consigo ver-lhe a cara, outras apenas a sua voz me é perceptível. outras noites, uma assinatura, a cores ou a preto e branco. algumas noites tenho por companhia um silêncio que sobrou de uma conversa. há noites em que tu chegas. noites em que anuncias uma carta tua pela manhã. ao fim da noite páro no exacto fotograma em que espreito uma janela.

sábado, 31 de janeiro de 2004

a longa viagem para oriente












Com vida ainda nos olhos
vigio os navios de luz [as estrelas?], distantes e amarrados,
no porto celeste.
Tal como na infância olho-os agora.
São eternos,
seus faróis tremem na escuridão. São o feliz engano
do mundo que não foi.
E ali, disseram-me e eu nunca acreditei,
habita Deus.

a última costa, francisco brines.
trad. josé bento
assírio & alvim, 1997.

componho o capote molhado e desço para a barcaça. a luz temerosa da tocha é a mais pequena estrela desta noite. os remos na água marcam o ritmo da marcha para o cárcere. aquele vulto enorme que me espera na outra margem sabe ao que vou. espero no oriente o silêncio. enfim, o silêncio.

sexta-feira, 30 de janeiro de 2004

víctor manuel gómez traba










Vente comigo ó meu leito
e seremos amantes de inverno
probaremos de todos os viños
que ós infames lles sexan veleno
mataremos de fame ós beatos
e ós obscenos de amor mentireiro
comeremos pastel e chourizo
bailaremos borrachos no enterro

Vente comigo ó meu leito
e faremos mil cousas que anhelo
gozaremos de rudos poemas
que se formen no ardor do desexo

e arderás de paixón como nunca
bicarémonos xuntos sen medo
quedaremos famentos se cadra
e senón durmiremos no ceo

queimarei a cizaña no monte
plantarei o teu trigo na terra
espantemos ó vil corvo negro
famento que espera.

moncho bouzas tobio








A severidade do teu aceno deixou-me
obra viva encallado na praia
e hoxe dixeron-me afirmando que son irreconciliábeis
a arte e o obxectivo máis imediato de incidir
no que acontecendo conforma o noso entorno
Estou convencido sobre a inexisténcia do absurdo
cando se vive cada momento coa intensidade
de saber que segundo será o ulterior
segundo o que cadaquén faga ou mellor
o que da reflexión se traduza en acción
na bancada mais á proa

E non penses que todo é sinxelo
porque hoxe lin dun autor norteamericano
como nos chamaba a contemplar o mar na rompente
e falei cunha esquerdista galega que renegaba da pátria
e ubicaba o importante na mente nas mentes
porque non podíamos ser tan parvos como os dilixentes
nipóns, si, este povo que le o capital disque para subverté-lo

Pero a min dixeron-me a subida do partido comunista tamén
se produce nas illas desde a caída do muro
polo que a fasquia eurocéntrica dalguns debates
pode significar vento do leste a sotavento.

nós: batallón literario da costa da morte














Nin tan ghrandes nin tan feros coma os lobos de Vimianço, a xente do Batallón Literario da Costa da Morte ten a força e o xenio do temporal na Semana Santa...
Foi naquel tempo, Sábado de Groria, cando se xuntaron ordinariamente en asemblea. Falouse, construíuse, o vento saltou e mudaron as tornas. A directiva renovouse; estes son os vocais: Miro Villar, Mónica Góñez, Tomás Lijó, Modesto Fraga, María Lado e Rafa Villar. Sendo da tripulación tócalles a eles larga-los aparellos. Na presidencia, vello lobo de mar, está Alexandre Nerium (Manolo); Xavier Rodrigues, lobo menos vello de terra adentro e moito peito, vai se-lo secretario. Patrón e segundo de abordo asumen leva-lo barco a porto se os das bandas bogan ben e en terra, chegando para xantar, hai quen bote unha man na descarga.
Empezando agora a terceira marea, invitámoste a ti, afeito ou non ás ondas, a participar da escrita visible na Costa da Morte; ó cabo, os caixóns poden arder e ti telo, telo, non mo queres dar e despois de vello pódelo salar. Contacta con calquera e vén connosco na singradura de cada día atravesando os camiños para chegar a pubs e salas, como mares, para chegar á xente e ás tabernas. Despois de todo e por se falamos de máis, poñédelle a culpa ó vento.

quinta-feira, 29 de janeiro de 2004

de campos para caeiro












Quem me dera que eu fosse os rios que correm
E que as lavadeiras estivessem à minha beira...

Alberto Caeiro

uma destas noites vamos ouvir pessoa onde param os eléctricos. vamos saber dessa insónia feita de alberto caeiro e álvaro de campos. de todos os heterónimos, caeiro é ainda para mim o mais fascinante. acho que se aproxima mais do meu imaginário do sábio sentado no cimo da montanha. por tudo o que é complexo parecer simples em caeiro. o contraste com álvaro de campos faz-me pensar que talvez eu venha de campos e quero ir para caeiro. ou se calhar tudo isto é um disparate. gosto que, agora que passo mais tempo com os novos como tu dizes, me leves nessa viagem a pessoa. quero ir contigo.

britten e elgar












não saí de casa com medo do mundo lá fora. passei o tempo com britten. benjamin britten. escreveu o war requiem para celebrar a reconstrução da catedral de coventry bombardeada durante a segunda guerra. não quis enaltecer os feitos britânicos, apenas servir de manifesto anti-guerra. usou no texto nove poemas de wilfred owen, um soldado da primeira querra abatido uma semana antes do armistício. blair devia ouvir mais britten. visitar coventry assiduamente. parece que, afinal, dá mais atenção a elgar, edward elgar, que no seu the spirit of england proclama o oposto de britten. o mundo lá fora parece uma feira em que sai elgar de um coro de megafones. assim não saio. a minha guerra é outra.

quarta-feira, 28 de janeiro de 2004

chavela vargas












no mezzo, chavela vargas a costa riquenha mais mexicana que pinta os sons de frida. agora!


En el bulevar de los sueños rotos
vive una dama de poncho rojo,
pelo de plata y carne morena.
Mestiza ardiente de lengua libre,
gata valiente de piel de tigre
con voz de rayo de luna llena.
Por el bulevar de los sueños rotos
pasan de largo los terremotos
y hay un tequila por cada duda.
Cuando Agustin se sienta al piano
Diego Rivera lapiz en mano,
dibuja a Frida Kahlo desnuda.

Se escapo de una carcel de amor,
de un delirio de alcohol,
de mil noches en vela.
Se dejo el corazon en Madrid
!quien supiera reir
como llora Chavela!

Por el bulevar de los sueños rotos
desconsolados van los devotos
de San Antonio pidiendo besos,
"Ponme la mano aqui, Macorina"
rezan tus fieles por las cantinas,
Paloma Negra de los excesos.

Por el bulevar de los sueños rotos
moja una lagrima antiguas fotos
y una cancion se burla del miedo.
Las amarguras no son amargas
cuando las canta Chavela Vargas
y las escribe un tal Jose Alfredo.

Se escapo de una carcel de amor...

Las amarguras no son amargas
cuando las canta Chavela Vargas
y las escribe un tal Jose Alfredo.

Se escapo de una carcel de amor...

Por el boulevar de los sueños rotos...


por el boulevar de los sueños rotos
letra e música de joaquín sabina

à espera do relato







um dia em que se começa a sorrir enquanto se ouve a celebração da paz do rão kyao com a orquestra chinesa de macau. a ponte da amizade ao fundo. a simplicidade e a eficiência. o mote para o dia. para amanhã, no mesmo local à noite, turandot de puccini. quem não folga ouve o relato.

terça-feira, 27 de janeiro de 2004

quod scripsi scripsi















deixei o livro
aberto no terraço

vou esperar o resto
do inverno e da dor

volto para ler
a tua palavra escrita
fim

segunda-feira, 26 de janeiro de 2004

Explicação do silêncio*








Há palavras que se trazem ao peito
como ecos de coisa nenhuma
- é delas que o silêncio nasce.


continuamos a olhar daqui o teu lugar
não nos preparou o teu aviso
como a sede não desaparece
no anúncio do deserto

*para a rute.

a cultura da pide













depois da história que contei aqui do censor da ditadura que se deliciava a ler e guardava livros proibidos, o abrupto dá conta de uma outra sobre os pides alfarrabistas contada por josé carlos santos. mais outra história a somar àquela dos pides filatelistas contada antes pelo jpp.

sexta-feira, 23 de janeiro de 2004

diário de bordo dia 204 40º13'N 8º24'W












peço pela manhã que inscrevamos neste dia a marca indelével do que temos de melhor. da noite, esse enorme túnel escuro que nos fez arrear as velas, pouco mais temos que manchas de café. é agora tempo de procurar o norte e soltar amarras.

tempo e silêncio














agostinho da silva escreveu num texto introdutório à colectânea da segunda série de 'conversas à quinta-feira' de luis machado (asa, 1993): 'o que uma vez foi sempre será, porquanto inscrito naquela eternidade feita do tempo que não acaba nunca. é bem possível que o futuro já nele também esteja. só que o não alcançam os nossos olhos'. assim tudo parece eterno, poderá afastar-se apenas a vontade e refugiar-se num silêncio para sempre marcada no tempo.

quarta-feira, 21 de janeiro de 2004

da vontade e do desejo












queria perceber onde se guardam as vontades, onde morrem os desejos que ontem nos faziam dar a vida por eles. em circunstâncias várias assim acontece. no campo criativo, profissional, emocional, etc. porquê e como? queria saber o preciso instante em que se perdem e para onde vão exactamente. lembro-me de perguntar aos do mal quanto duraria o blogar. recordo o que pensei quando desapareceram os reflexos de azul electrico da forma que nos tinha habituado. seguiram-se outros. alguns fazem pausas. longas, longas demais. o que fazer então para compreeender (aceitar?) as ausencias da rute e do hugo e tantas outras? vão dizer-me que é a vida. ou a morte. naturais. quem disseca então essas vontades?

terça-feira, 20 de janeiro de 2004

simposium













kary mullis, o prémio nobel surfista, escreve uma carta pedindo desculpa por não poder estar num simposium na baviera em março. ao seu jeito, lembra que simposium significa 'beber em grupo' e pede que ninguém se esqueça disso quando passam 20 anos da sua invenção. mullis recebeu o nobel por ter desenvolvido uma técnica que permite multiplicar o ADN (a PCR - polymerase chain reaction). em terras bávaras não vai ser difícil contrariar o cientista que escreveu a sua história num livro chamado 'dancing naked in the mind field'. o irreverente premiado escreve com humor e paixão sobre variadíssimos temas: do método científico à parapsicologia, das aranhas venenosas ao vírus da SIDA, do aquecimento global à astrologia, do caso OJ Simpson ao modo como se pode acender uma lampada com o pensamento. o surfista total deixa ainda uma lista de livros recomendados:

The Astrology File, Gunter Sachs
Boltzmann's Atom, David Lindley
The Botany of Desire, Michael Pollan
Ceremonial Chemistry, Thomas Szasz
Challenges, Serge Lang
Dark Life, Michael Ray Taylor
The Elegant Universe, Brian Greene
Enders Game, Orson Scott Card
Excuse Me Sir, Would you Like to Buy a Kilo of Isopropyl Bromide? Max G. Gergel
A Fish Caught in Time: The Search for the Coelacanth, Samantha Weinberg
Guns, Germs and Steel, Jared Diamond
Hyperion, Dan Simmons
The Island of the Colorblind, Oliver Sacks
The Natural Mind, Dr. Andrew Weil
The Nothing That Is: A Natural History of Zero, Robert Kaplan
The Orchid Thief, Susan Orlean
Riddley Walker, Russell Hoban
A Tour of the Calculus, David Berlinski
Zero, Charles Seife

segunda-feira, 19 de janeiro de 2004

costumbres












no es para quedarnos en casa que hacemos una casa
no es para quedarnos en el amor que amamos
y no morimos para morir
tenemos sed y
paciencias de animal

juan gelman

verdade e memória







no ano que passou, gelman escreveu no página 12 o que pensava do diário argentino. guardei algumas frases:

La Nación y Página/12 son, a mi juicio, los diarios mejor escritos del país, pero hablan desde lugares muy distintos. El primero responde a los intereses fundamentalistas de la globalización, el último a los intereses de quienes la padecen. Ambos atienden a verdades contrarias y ninguno de los dos es objetivo. Claro que la verdad del poderoso no es la verdad del despojado. Me alegra infinitamente entonces que nuestro diario no sea objetivo: una sociedad que reproduce la pobreza y la miseria agranda el rostro más descarnado de la realidad.

La verdad del marginado no es la verdad del marginador.

(...) sin memoria, el presente se convierte en un simple pasar muerto sin cambio posible, sin renacer posible, sin futuro posible. La memoria individual es algo más que recuerdo: es conciencia de las propias raíces, conciencia de sí mismo. No otra cosa ocurre con la memoria cívica: una sociedad que se olvida está condenada a la ignorancia de sí misma, a repetir errores, a vivir el presente como pasado vuelto a suceder.

(...) la memoria ciudadana está fragmentada en millones de pedazos y cada fragmento palpita todavía. Es como un secreto compartido divididamente que Página/12 ayuda a hablar, a juntarse, a pasar de conciencia opaca a conciencia libre en claridad.

Los atenienses del siglo V antes de Cristo obligaban a sus ciudadanos a jurar que olvidarían los males de una dictadura. No hay ley de punto final ni ley de obediencia debida que lo obtenga en Argentina. Y menos mientras exista Página/12. Ese registro de los tiempos, ese lujo, que dijera Fito Páez.

je t'aime moi non plus












É de Blow up que logo nos lembramos, desse filme de Antonioni, desse filme-sonho, com actrizes de sonho. Depois vemo-la como 'a' musa de Serge Gainsbourg, amante e intérprete dessa canção que escandalizou a França pelo seu erotismo e que em Portugal era clandestina nos bailes das gerações de 60 e 70: Je t’aime moi non plus. Depois ela continuou no cinema, gravou discos, nos anos 80 fez teatro na Catedral de Nanterre com Patrice Chéreau. Continuou no espectáculo, na canção - mais próxima ou mais distante de Serge - no cinema, militante, rebelde, com aquela energia sensual que só a ela pertence. Em 2002 encontrou o violinista de origem argelina Djamel Benyelles. Com ele e com os seus músicos criou um espectáculo festivo e contagiante, com o seu vestido vermelho.

23 e 24 de Janeiro, 21:30
Grande Auditório, Culturgest.

Voz: Jane Birkin
Violino: Djamel Benyelles
Piano: Fred Maggi
Alaúde: Amel Riahi el Mansouri
Percussão: Aziz Boularoug

o planeta do costume












mudei hoje de café. não aprendi nada de novo. é estranho entrar para tomar o pequeno almoço e saber que não vou encontrar os bloggers que eu gosto. aqui ninguém sabe a hora do meu último post. amanhã volto ao planeta do costume.

domingo, 18 de janeiro de 2004

a kudarc












espero até ser tarde. escrevo quando é tarde. não me afrontam as esperas. foi quando esperava que conheci o köves de kertész. era tarde quando ditei para a minha agenda um poema que nunca vou escrever. não sei escrever a minha respiração. como vou pôr em palavras o ar que não tenho quando percorro esse húngaro danado?

sexta-feira, 16 de janeiro de 2004

água é ave












as palavras de fiama como memorandum para os criticos num manuscrito a meio de uma relâmpago de 2001. o léxico dela dos anos sessenta. água é ave. e foi assim por aí fora. o substantivo e a substantiva poesia. depois todas as outras num mar que nunca acaba. a relâmpago elevou-a depois de nava, ramos rosa e belo. antes de sophia.

el lunfardo












vista daqui, buenos aires parece muda. silenciosa. silenciada. os satelites não detectam armando pontier, osvaldo pugliese, anibal troilo, julio de caro, horacio salgán, mariano mores, astor piazzolla e muitos outros. aquela livraria-botequim que tem as paredes forradas com as palavras de homero manzi, alfredo le pera, celedonio flores, homero expósito e horacio ferrer está agora cerrada. no palais de glace, pareceu-me ver caetano veloso entoadando o caballero de fina estampa. percorro as ruas tentando saber o que é el lunfardo , essa lingua e filosofia próprias abraçadas num tango.

sábado, 10 de janeiro de 2004

bilder












as imagens significam tudo a principio. são sólidas. espaçosas.
mas os sonhos coagulam, fazem-se forma e desencanto (...)


as imagens
anjos do desespero, heiner muller.
relógio d'água, 1997.


dos textos saltaram palavras que perdeste nessas paisagens agora desertas. cansados tombam os castanheiros no intervalo da figuração de mais um inverno. as tuas lágrimas diluem as cores que foram de céu, caminho e ribeiro. e permaneces assim, muda e triste, sem saberes que outro cenário te espera mais à frente, depois mais um sonho e além outra estação. esperam-te os poetas e os pintores e, pairando sobre a tua cabeça, os anjos vão dar-te pergolesi como nunca ouviste. basta-te que dês um passo e abras bem os olhos.

quinta-feira, 8 de janeiro de 2004

a última noite no bigodes












uma noite de despedida igual a tantas outras. várias pessoas que deixavam dili e festejavam no bigodes não sei bem o quê. ninguém sabe. lucélia santos acabava a rodagem do seu primeiro filme e estava visivelmente abatida. arrastou-se a conversa pela noite fora. naquele tempo os olhos do mundo estavam postos em dili. vieira de mello estava lá e fazia a diferença. lucélia contava estórias dele em segunda mão: bangladesh, sudão, chipre, moçambique e peru. tamara, enviada pelo página 12 dava conta da descoberta de timor em buenos aires. no outro dia, havia outro mundo à espera. alguém ia ouvir novas estórias de timor. para trás ficaram os olhos da menina que espreitava a esperança de que aquela não fosse a última noite.

quarta-feira, 7 de janeiro de 2004

reinventar o mundo












na próxima semana (12 a 16 de janeiro), sartre e beauvoir mostram-se em coimbra. as palavras e os actores numa luta corpo a corpo para reinventar o mundo e a própria vida como diz o cam que dirigiu o texto à volta da verdade e da mentira numa peça de teatro (aventuras extraordinárias do principe e do castor). vai ser uma semana de eventos que incluem teatro, documentários, música e tertúlia.

terça-feira, 6 de janeiro de 2004

la loca de la casa












vagueio pela sala da embaixada francesa nas indias. nesta recepção não grito o amor a anne-marie stretter. danço um tango à beira ganges com vera mantero ao som das palavras de rosa montero. e permaneço assim parado nessa película de paixão que me separa da loucura. tenho vestido o fato emprestado do vice-consul em lahore ainda húmido da monção. ela encostando o seu peito seco ao meu. as nossas mãos percorrem as cabeças procurando no cabelo os restos de calcutá. por conta da imaginação ou, como diz rosa: da louca da casa.

segunda-feira, 5 de janeiro de 2004

yellow: as ferozes transparências
















look at the stars; look how they shine for you
and everything you do
yeah, they were all yellow

[yellow, coldplay]



atiramos pedrinhas sem outro intuito
além de nos embrulharmos nas ferozes transparências
de que falava o poeta nava

dois rios












o corpo dividido em duas partes
fechadas
à chave uma na outra, avanço
num duplo coração como se fosse
ao mesmo tempo num só barco por dois rios.

[dois rios
o céu sob as entranhas, luís miguel nava
limiar, 1989]


não querer mais das tardes
que o diáfano beijo, como
se fora uma qualquer sinapse
que sonolenta e triste
me recorda um mar que nunca fomos

o fascí­nio











- porque me odeias tanto?
- porque um dia te quis demais!

[do filme 'o fascínio', josé fonseca e costa 2003]

klep












- em que pensas no tempo todo?
- no desejo.
- sob que forma?
- depende.
- de quem?
- de ti.

sábado, 3 de janeiro de 2004

se beber não leia













comprei a revista os meus livros (dez2003/jan2004) porque há talvez um ano que não a leio e tinha curiosidade em saber como vai. continua lamentavelmente a deixar muito a desejar. como dizia o outro, o projecto é um bom projecto mas não havia necessidade. dispensava-se perfeitamente quase tudo, a começar pelo editorial e a acabar no estafadí­ssimo professor marcelo. porém, o mais ridículo é a forma como tereza coelho, a directora, responde às cartas dos seus leitores. estou enganado ou ela bebe de manhã cedo que é a hora a que os filhos a deixam escrever?

diário de bordo dia 184 40º13'N 8º24'W


















tempo de traçar a derrota
a linha do rumo verdadeiro
assinalar com duas setas
a previsão dos perigos
o desvio das áreas proibidas
marcar um rumo de governo
contando com as correntes
dessas marés sempre diferentes
esperar o abatimento
porque há vento forte a vante de través

não é pop art é a arte do povo














a dona da casa nasceu na antiga união soviética. tornou-se marchant. foi coleccionando quadros. tem a casa cheia de quadros. literalmente. existem quadros por baixo da cama e nas gavetas da cómoda dos quartos dos hóspedes. diz ela que os pintores lhe agradeciam os negócios com quadros que ela não achava bem vender. ao segundo casamento mudou-se para itália. lá ficou até vir para portugal. trouxe uma empregada italiana de quem não se separa. um amigo, habituado a tantos quadros na casa, entrou na sua cozinha e gritou. ela correu a ver o que se passava. ele só estava estupefacto por ver a cozinha completamente pintada à mão como se tratasse de uma enorme tela. resposta dela: "não ligues, a minha empregada quando está zangada só relaxa pintando e vinga-se na cozinha".

era a censura porra!













soube de um censor da ditadura que se deliciava a ler tudo o que censurava e depois, não sei bem como, guardava na cave de sua casa os textos proibidos. comentário a um amigo chegado: "eu tinha de censurar pá, mas aquilo era bom porra!".
assim está hoje uma cave de lisboa cheia de coisas boas porra!

quinta-feira, 1 de janeiro de 2004

long island sound















I see it as it looked one afternoon
In August,-by a fresh soft breeze o'erblown.
The swiftness of the tide, the light thereon,
A far-off sail, white as a crescent moon.
The shining waters with pale currents strewn,
The quiet fishing-smacks, the Eastern cove,
The semi-circle of its dark, green grove.
The luminous grasses, and the merry sun
In the grave sky; the sparkle far and wide,
Laughter of unseen children, cheerful chirp
Of crickets, and low lisp of rippling tide,
Light summer clouds fantastical as sleep
Changing unnoted while I gazed thereon.
All these fair sounds and sights I made my own.


Emma Lazarus

quarta-feira, 31 de dezembro de 2003

miss ya











quando abrires os olhos estamos no molhe de chelsea com o rio hudson aos pés.
vais depois correr até ao fundo do jardim botânico de brooklyn para gravares um beijo salgado numa pedra.