segunda-feira, 29 de março de 2004

a casa












guardo as roupas numa mala pequena. arrumo os livros devagar e começo a despedir-me dos restos de música das paredes e das noites em que chamei manhãs que não vieram. não sei como vou levar as sombras onde guardei as receitas dos dias felizes.

'uma compogixão imobilijada na noxa frente'












no comboio descendente perdemos a luz a seguir a alfarelos. mais à frente, o comandante e a sua tripulação atendem ao nosso pedido metafísico e recuamos. mudamos de linha. herman melville tem assim tempo de acabar de contar a sua história antes de chegar à catedral de calatrava. ainda me pareceu ouvir um resmungar vindo da outra linha: 'preferia não o fajer'.

audience












eu queria escrever com sumo de limão quando tinha uma mão cheia de palavras. depois queria um código que só tu decifrasses. agora que coloco na praça pública a arquitectura de néon, onde estás tu que não te sinto?

quarta-feira, 24 de março de 2004

o multipleto de monterey












invejei o jantar de cambridge com snow, turing, haldane, schrödinger e wittgenstein. mas aquele era a ficção de john l. casti em 'o quinteto de cambridge - um trabalho de especulação científica'. aí se falava do dominio das máquinas e da inteligência artificial. agora invejo um jantar de verdade: o jantar dos bilionários em monterey. a nova 'máfia' representada por pessoas associadas à ted, amazon.com, wired, google, new york times, cbs news, mit, ebay, discover, msnbc, wall street journal, nerve, vanity fair, e por aí fora. juntar à mesma mesa alan guth, lenny susskind, paul steinhardt, seth lloyd, steve strogatz, mike csikszentmihalyi, nancy etcoff, marty seligman ou dan gilbert, parece uma mistura explosiva. durante umas horas monterey foi a capital do mundo. de um certo mundo. talvez de um mundo imaginado. por isso invejo os presentes.

jemima stehli e as pernas gordas


o dia parecia correr bem. rever a sofia. encontrar finalmente a insensatez. o café santa cruz no meio de um sábado de semana inglesa. a presença ainda mística de andré bonirre. depois, a visita ao centro de artes visuais. o luís que chega e chama a atenção para o 'strip' de jemima stehli: o convite a homens escritores e críticos para (se) fotografarem com a artista. perfeito. tudo a correr bem até ao momento em que num claustro o luís tira do bolso um recorte de revista (seria a la redoute?) e mostra a rapariga das pernas gordas. depois não recuperei. em vão a doçura do ponto negro que nos ilumina. em vão o extraordinário avatar que nos enviaram para tudo destruir e criar uma vida nova. em vão a serenidade e a sábia postura do castor. ainda tentei fugir para o navio de espelhos que a alexandra aconselhava. em vão. não sei se vou recuperar. se fosse agora eu a sentar-me à frente de jemima não disparava nunca. nenhuma fotografia depois.

terça-feira, 23 de março de 2004

silent speech












- quem me dera saber quem és tu e o que queres dizer
- quem me dera dizer o que queres saber. e tu quem és?

segunda-feira, 22 de março de 2004

crepuscular












as ruas desertas na manhã de domingo. a subida do mercado da ribeira ao bairro alto. os poetas lá longe na praia. não sei se os viste. quase ao principe real procuro as memorias do subterrâneo sem sucesso. dentro de outras páginas um envelope:

para ti...

uma oferta do dia mundial da poesia...
venha cantar-lhe os parabéns...
dia 20 de março
às 0:00
livraria ler devagar

no interior um poema de camilo pessanha:

Há no ambiente um murmúrio de queixume,
De desejos de amor, d'ais comprimidos...
Uma ternura esparsa de balidos,
Sente-se esmorecer como um perfume.

As madressilvas murcham nos silvados
E o aroma que exalam pelo espaço,
Tem delíquios de gozo e de cansaço,
Nervosos, femininos, delicados.

Sentem-se espasmos, agonias d'ave,
Inapreensíveis, mínimas, serenas...
- Tenho entre as mãos as tuas mãos pequenas,
O meu olhar no teu olhar suave.

As tuas mãos tão brancas d'anemia...
Os teus olhos tão meigos de tristeza...
- É este enlanguescer da natureza,
Este vago sofrer do fim do dia.

sexta-feira, 19 de março de 2004

ballet gulbenkian












«Quando abordo os intérpretes das minhas peças, falo-lhes sempre do sentido, ou melhor, dos sentidos que o movimento possui e do prazer como ponto de partida para chegar ao mistério que envolve o momento de dançar. A nossa relação com o prazer só pode ser de índole íntima e pessoal. É pelo prazer que a realidade, sempre multiforme e sempre por desentranhar, se torna acessível e habitável. Se não fosse pelo prazer, a vida seria profundamente aborrecida. Ou talvez directamente impossível de viver. A sua fogosidade é o sintoma da sua importância. E diria ainda que o prazer é um dos antídotos mais eficazes que a humanidade descobriu, contra o medo. Nos tempos que correm, quando os marcadores do medo, dispostos a salvar-nos sempre e a qualquer momento dos perigos do mundo, se esforçam por estender o seu discurso sinistro, o prazer apresenta-se-nos como uma arma de resistência estética de primeira ordem».

As palavras são de Juan Carlos Garcia, o coreógrafo, eu não as diria mas sempre quero ver a coreografia que é o que me interessa.

Hoje no Grande Auditório da Fundação Calouste Gulbenkian, 21:00:

BALLET GULBENKIAN
PAULO RIBEIRO (direcção artística)

Paradise Practice
Coreografia: Stijn Celis

Monólogos do Oriente (*)
Coreografia: Rui Horta

O céu pode esperar(*)
Coreografia: Juan Carlos Garcia

(*) Estreia Mundial

Peter McCarey












continuo a preparação da visita à escócia. encontro um poeta nascido em paisley, criado em glasgow e habitante depois de oxford, paris, bradford, leningrado, venafro e geneva. passou pela áfrica sub-sahariana, sul da índia e sudoeste asiático. hoje vive em geneva. publicou 'the devil in the driving mirror' e 'tantris'. compôs um silabario com 2000 pequenos textos estranhos que apresentou aleatoriamente num ecrã e depois publicou em cd-rom (2001) e em livro na punastic press (2002). é uma nova voz da poesia escocesa. e vale a pena ler.

o poema que se segue é dedicado ao blog do mesmo nome, obviamente.

sous les pavés - la plage












the urban sunlight comes in the window
staggering up to its knees in sand
banknotes blowing out of its seams
like scarious leaves and carious buildings
shaking dust from my shoes but it cloys,
it clogs for I'm paid to be here

frontiers, harbours, roads, currencies,
crowd control and corpse disposal.

money is busy buying itself up
using what there is for collateral.

light is said to be sculpting itself
with its only sense
of touch.

Peter McCarey

quarta-feira, 17 de março de 2004

biennale of sydney 2004 - I feel, therefore I am


"In Descartes' Error (1995) the neurologist António Damásio analyses several neurological case studies to show that emotion is crucial to human intelligence. In another book, The Feeling of What Happens (1999) he discusses the importance of emotion and feeling in the construction of the self. In Looking for Spinoza (2003) António Damásio elaborates his ideas further.

On Reason and Emotion has at its core an exploration of perception and its borders. There are several complex threads intertwining throughout the exhibition: the balance and connection between human consciousness and physicality; the architecture of the built environment as a parallel anatomy, and conversely that the body is my house (Lygia Clark); and the politics and poetics of human relationships, where communication is a mutual exchange rather than a passing on of information, and thus serves to connect ideas and people rather than become a platform for individual expression.
Rather than the restrictions of the traditional cogito (I think, therefore I am), I am interested in art that creates a bridge between poles - the supposed north/south/mind/body splits. Now one can say that I feel, therefore I am. The project invites the audience to participate in an aesthetic experience using not only their sight, but also all the senses provoking active participation and inciting the emotions. The audience will be challenged to think and feel."

Isabel Carlos, 2003
Curadora da Biennale of Sydney 2004

tear drop experience












não sei o que fazer das lágrimas. precipitar uma lágrima pode não ser o máximo que se diz. tu e a tua lágrima são para mim um par espantoso. a estes pares nada se diz, responde-se em espanto. eu torno em silêncio as lágrimas dos outros. a sofia tem razão: 'o silêncio nunca é o mínimo que dizemos'.

segunda-feira, 15 de março de 2004

steam












não te encontrar mas saber no espelho a tua presença, a tua voz e as tuas mensagens desenhadas na condensação que somos.

sábado, 13 de março de 2004

sei












sei que não regressas desses dias feitos manhãs. sei que me disseste adeus por não acreditares no tempo. eu e o agostinho ainda estamos aqui. voltamos aqui para que os homens não sejam educados. espero daqui a pouco as coordenadas dos poetas. seguimos mar fora com os homens que houver. ninguém depois.

terça-feira, 9 de março de 2004

palavras que












sei a janela no teu caderno
tenho os meus olhos no verso
de cada página mínima
em que abandonas
segura e firme
a âncora do meu dia seguinte

landing












"do alto vos falo, onde
acrescento azul de muitas cores
ao outro azul que os vossos olhos vêem."

pedro tamen

inclino a cabeça na última curva sobre o bugio antes de tocar lisboa de volta. a menina rottmayer coloca cuidadosamente o seu livro em cima dos meus jornais e espreita com interesse o meu. pergunto-me o que poderemos comentar das nossas leituras. que lhe interessará do meu 'the dying animal' de philip roth? o que quero saber do seu 'generation golf' de florian illies? esboçamos um sorriso. o lugar que nos separa guarda agora as letras e a ambiguidade. a bordo do almeida garrett como aqui.

segunda-feira, 8 de março de 2004

hot jazz klub












na sexta-feira à noite fui ao clube de jazz de um bairro operário de munique. os atentos construtores de automóveis de confiança e as meninas das unidades de produção farmacêutica reunem-se numa cave de uma antiga fábrica cervejeira. os sons da banda hot klub com inspiração em nova orleães uniram soul, funk, hip hop e rocksteady numa brass band de outra geração. diziam os cartazes que eles regressam de milli vanilli, sting, ervyn charles ou fats domino. ao provocador vocalista só respondiam as meninas que tomaram as pastilhas da alegria com desconto para funcionários. pelos vistos os rapazes continuaram nas tintas.

domingo, 7 de março de 2004

as escadas da utopia












explico-te o meu credo: acordo todos os dias pensando que vou subir um degrau da escada da utopia. passo por outros lugares, outros momentos e outras pessoas. no final de cada dia, durmo melhor se te souber mais perto.

sábado, 6 de março de 2004

livrinhos de um mundo imaginado: mocidade de joseph conrad












jantei com o velho marinheiro marlow que me contou viagens que parecem determinadas para ilustrar a vida e ficam como símbolo da existência. a gente luta, trabalha, sua, quase rebenta, às vezes rebenta mesmo para realizar qualquer coisa... e não consegue. não é que nos caiba a culpa. simplesmente não é possível fazer nada de nada, grande ou pequena coisa... nadinha deste mundo... nem mesmo casar com uma solteirona ou levar a banguecoque a miséria de umas 600 toneladas de carvão. a popa dourada a gritar acima das ondas que tornavam mais escuras as palavras pintadas no costado: judea, londres, andar ou morrer.
"compramos um livro de conrad e o que retemos não é aquela onda gigantesca que partiu tabiques e arrastou marinheiros; não é aquele pôr do sol ou aquele incêndio em pleno mar; é antes a grandeza que o homem revela a enfrentar a onda, em ser corajoso, bom, fiel, num universo indiferente e perigoso."
o barco e a juventude a arder. passa daí a garrafa!

mocidade: uma narrativa
joseph conrad
76 páginas.
assirio & alvim, 2003.

sexta-feira, 5 de março de 2004

deslizar no sonho*












- anda, vamos falar de coisas bonitas.
- começa tu.
- deixa-me ver coisas boas: amor, amizade, as sensações e as intuições, sonhos, desejos, viagens, a música, as palavras e as conversas, os aromas e os sabores,o mar e o vento na pele. escolhe uma....ou sugere outra.
- o mar e o vento na pele, sentir o amor nas palavras
- esvoaçar o sentir e mergulhar no amor com a pele das palavras
- as nossas palavras.
- a partilha das palavras que são nossas
- partilharmo-nos para além das palavras.
- partilhar o olhar das palavras
- adoro falar com os olhos.
- adoras olhar com os dedos
- tenho sempre palavras nas minhas mãos.
- o desejo dos dedos nas palavras das mãos que se perdem no escutar do olhar.
- agora estou perdido no teu pensamento. o amor é assim.
- o amor é encontrar o pensamento do outro.
- eu serei eu e o meu pensamento no teu.
- tu serás eu se entras neste pensamento que é meu.

* depois disse a paula "as palavras batem contra os muros do corpo. esperem um pouco, eu regresso."

dream team












- porque vens devagar?
- porque nao quero chegar tarde para ver o por do sol.
- e se fossem musica os teus passos, nao o verias melhor?
- se respirasses assim ao meu ouvido seria o nascer do sol que procurava.
- porque tardas?
- espero o teu amanhecer.

quinta-feira, 4 de março de 2004

freising-weihenstephan












por aqui os livrinhos em volta, os intervalos para conversas curtas e a cidade grande mais longe. chegam noticias da azafama que nao perturbam. por agora interessa-me conrad, blanchot, roth e auster. e que a neve se mantenha la fora. o resto pode esperar. por estes tempos bavaros vale a distancia de tudo.

sábado, 28 de fevereiro de 2004

kafka no choupal












hoje, quando passeava pelas margens do mondego, ouvi alguém que tossia de um modo familiar. um casal, sentado num tronco do choupal, fez-me pensar que tinha encontrado, enfim, o que todos procuravam. ela, vi eu bem, era a menina jesenka e, quando passei em redor, ouvi pela segunda vez aquele tossir. virei as costas e não precisei de ver para confirmar. kafka namorava no choupal, em coimbra (a) capital / do amor em portugal / ainda.

no quiero que tengas una forma, que seas precisamente lo que viene detrás de tu mano












"te amo por cejas, por cabello, te dabato en corredores blanquísimos donde se juegan las fuentes de la luz,
te discuto a cada nombre, te arranco con delicadeza de cicatriz
voy poniéndote en el pelo cenizas de relámapago y cintas que dormían en la lluvia
no quiero que tengas una forma, que seas precisamente lo que viene detrás de tu mano,
porque el agua, considera el agua, y los leones cuando se disuelven en el azúcar de la fébula,
y los gestos, esa arquitectura de la nada,
encendiendo sus lámparas a mitad del encuentro.
todo mañana es la pizarra donde te invento y te dibujo.
pronto a borrarte, así no eres, ni tampoco con ese pelo lacio, esa sonrisa.
busco tu suma, el borde de la copa donde le vino es también la luna y el espejo,
busco esa línea que hace temblar a un hombre en una
galería de museo.

además te quiero, y hace tiempo y frío."

julio cortazar

em todas as ruas te encontro
em todas as ruas te perco









em todas as ruas te encontro
em todas as ruas te perco
conheço tão bem o teu corpo
sonhei tanto a tua figura
que é de olhos fechados que eu ando
a limitar a tua altura
e bebo a água e sorvo o ar
que te atravessou a cintura
tanto tão perto tão real
que o meu corpo se transfigura
e toca o seu próprio elemento
num corpo que já não é seu
num rio que desapareceu
onde um braço teu me procura

em todas as ruas te encontro
em todas as ruas te perco

mário cesariny

sexta-feira, 27 de fevereiro de 2004

querida, o sal por favor... e já agora o beijo












e as palavras, o teu olhar, as tuas mãos, as cores que ainda não vi, as montanhas como as vês, a praia ou a beira-praia, tão distante, a neve ou o frio da neve. contigo.

quinta-feira, 26 de fevereiro de 2004

nós quimeras












''Eles iam, obscuros, através da noite solitária, através da sombra e através das moradas vazias e do vão reino de Dite: tal é o caminho nos bosques, quando a lua é incerta, sob uma luz maligna, quando Júpiter mergulhou o céu na sombra e a sombria noite arrebatou às coisas sua cor.
No próprio vestíbulo, à entrada das gargantas do Orco, o Luto e os Remorsos vingadores puseram seus leitos; lá habitam as pálidas Doenças, e a triste Velhice, e o Temor, e a Fome, má conselheira, e a espantosa Pobreza, formas terríveis de se ver, e a Morte, e o Sofrimento; depois, o Sono, irmão da Morte, e as Alegrias perversas do espírito, e, no vestíbulo fronteiro, a Guerra mortífera, e os férreos tálamos das Eumênides, e a Discórdia insensata, com sua cabeleira de víboras atada com fitas sangrentas.
No meio, um olmeiro opaco, enorme, estende seus ramos e seus galhos seculares, morada, diz-se, que frequentam comumente os Sonhos vãos, fixados sob todas as suas folhas. Além disso, mil fantasmas monstruosos de animais selvagens e variados aí se encontram: os Centauros, que têm seus estábulos nas portas, e as Cilas biformes, e Briareu hecatonquiro, e o monstro de Lema, assobiando horrivelmente, e a Quimera armada de chamas, e as Górgonas, e as Harpias, e a forma da Sombra de tríplice corpo.''

da Eneida de Virgílio


partimos assim
à procura em nós
de todos esses genes
em nós o código
em nós o luto
em nós os remorsos
em nós as doenças
a velhice o temor e a fome
a pobreza a morte o sofrimento
o sono a alegria e a guerra
a discórdia e o sonho

nós quimeras
obscuras
solitárias

quarta-feira, 25 de fevereiro de 2004

porto ainda












oporto, jozef dekkers.

ainda tinha o quadro daquele porto por acabar. ainda sangravam as mãos das arestas do granito. quase não tinha tempo para te dizer. mesmo assim foi o tempo do abraço. de te olhar fundo nos olhos e repetir gritando para que não ouvisses:

haja o que houver
esperarei por ti

diario de bordo dia 232 41º8'13"N 8º36'8"0












devia ter anunciado ao largo a chegada ao porto. faltava assim a bandeira QF&M no cais. recebi mais tarde o radiotelegrama. dobra assim a vontade de uma volta de outra volta. procurei primeiro o fantástico northfolk e depois a ribeira, a foz, o majestático e a noite gótica. esperavam terra mais adentro paulo castro seixas e dois comandantes ilustres: josé carretas e júlio couto. falaram-me dessas ilhas quase continentais. guardei abraços e larguei promessas de cartas breves: a este porto voltarei.

sexta-feira, 20 de fevereiro de 2004

silence is possible












Silence is possible, and after dark
it almost happens: silence, like a glove,
the perfect fit you always hoped to find.


john burnside

começo a preparação de uma nova viagem. vou à procura da escócia da sofisticação, da pluralidade e da excitação de que fala donny o'rourke. leio as primeiras letras de poetas escoceses recentes. li que eles preparam, de algum modo, uma redescoberta da escócia em confidência. não imagino o que seja. tenho alguns meses ainda para preparar o desembarque em glasgow.

quinta-feira, 19 de fevereiro de 2004

somniu












cara menina sarah,
recebi hoje uma carta que há seis anos me enviou. já não moro naquela casa. não sei quem cuida dela. pedia-me, pelo que vejo, uma entrevista. não imagino o que pretendesse. já disse tudo aos jornalistas. nunca escrevem o que lhes digo. sou eu que lhe peço hoje um favor. não me deixam sair desta casa onde estou. sei que vai parecer-lhe estranho mas, mesmo assim, peço. temo contar-lhe um sonho de que não sei o final. não se desiluda por isso. preciso que faça por mim uma viagem. quero que visite três locais em dias e horas precisos. que use apenas comboios. os que eu lhe disser. não tenha medo. peço-lhe depois que os seus olhos sejam os meus. que me diga o que viu. que descreva o que sentiu. se são ainda esses sítios o que foram para mim. se ainda existem, se é que existiram. esta é a minha proposta. se ainda estiver interessada na sua entrevista, responderei às perguntas ao longo da viagem. não acredito sinceramente que aceite, embora a sua caligrafia me levasse a crer que sim. receba a expressão do meu agradecimento pela sua atenção e acredite que a consideração que me merece seja a maior.
xavier maria.

por não saber o teu nome chamo-te luís












senti-me sozinho quando cheguei à casa grande. quis correr a outras casas para encher de risos as molduras vazias. parei sempre nos primeiros degraus sem saber se era isso que eles queriam. passaram os anos. foi quando saí dessa casa que te encontrei. e foi assim todos os dias ao fim da tarde. trocava contigo o que pedias. um dia disse-te que já não precisava de mais nada em troca. queria dar-te o que precisasses. ficava horas a pensar que gostava que lesses outras histórias. que soubesses que há outro mundo. comprei em duplicado um livro da sofia. um para a mafalda e o outro para ti. andei depois com ele no carro até lhe perder o sítio. deixei de te ver durante uns meses. quando te encontrei de novo, pareceste-me mais alegre que nunca. fiquei contente por te ver assim. assim livre e bem. quando te imaginava numa dessas instituições de que o luis fala, preocupava-me. ainda bem que não te agarraram. hoje ainda tenho saudades tuas. queria amparar-te para que não caísses afinal nos braços que te tirariam a liberdade. acho que não precisas de nada disso. não precisas do meu colo. continuo sem saber como te chamas. por não saber o teu nome chamo-te luís. não importa. apenas ficava mais tranquilo que soubesses o meu. e chamasses quando quisesses.

quarta-feira, 18 de fevereiro de 2004

the road not taken












paisagem montanhosa, hercules seghers, 1625.
galeria dos uffizi, florença


Two roads diverged in a yellow wood,
And sorry I could not travel both
And be one traveler, long I stood
And looked down one as far as I could
To where it bent in the undergrowth;
Then took the other, as just as fair,
And having perhaps the better claim,
Because it was grassy and wanted wear;
Though as for that, the passing there
Had worn them really about the same,
And both that morning equally lay
In leaves no step had trodden black.
Oh, I kept the first for another day!
Yet knowing how way leads to way,
I doubted if I should ever come back.
I shall be telling this with a sigh
Somewhere ages and ages hence:
Two roads diverged in a wood, and I-
I took the one less traveled by,
And that has made all the difference.

Mountain Interval, 1916.
Robert Frost.

terça-feira, 17 de fevereiro de 2004

por outro lado












solitude standing, peter van den akker.

olho para a página contrária quando admiras a imagem. recorto as palavras desiguais. nesse museu, que decerto não aprecio, interessa-me a tua pergunta. e só a tua pergunta. não acredito nas cores que dizes serem poemas de luz. não acredito mais nas inebriantes sessões à procura dos campos mórficos, dos chakras ou da cartografia ayurvédica. há caminhos menos percorridos que não me interessam agora. quero fazer caminhadas e subir montanhas. todas as caminhadas. todas as montanhas. por outras cores. por outro lado.

domingo, 15 de fevereiro de 2004

Cent mille milliards de poèmes













Le cheval Parthénon s'énerve sur sa frise
pour déplaire au profane aussi bien qu'aux idiots
le Turc de ce temps-là pataugeait dans sa crise
il n'avait droit qu'à une et le jour des Rameaux
On était bien surpris par cette plaine grise
qui se plaît à flouer de pauvres provinciaux
un audacieux baron empoche toute accise
lorsqu'on voyait au loin flamber les arbrisseaux
Du Gange au Malabar le lord anglais zozotte
on comptait les esprits acérés à la hotte
le chemin vicinal se nourrit de crottin
Frère je te comprends si parfois tu débloques
les Indes ont assez sans ça de pendeloques
si l'Europe le veut l'Europe ou son destin.

raymond queneau
poema interactivo construido com um conjunto reduzido de versos alexandrinos.
obter mais aqui.

sábado, 14 de fevereiro de 2004

miss ya my valentine












flowers in the wind, pauline werkmeister, 1995.

sexta-feira, 13 de fevereiro de 2004

magnum escaldante













hoje vimos nascer o sol com lorca e luis rosales. enquanto se misturavam vinho e poemas, gerda taro e robert capa fotografavam. repetimos toda a noite: nunca fomos a granada. cartier-bresson apareceu para dizer que o bob também fotografava mulheres bonitas, homens famosos e grandes festas. sairam os três das imagens e adormeceram os das palavras declamando: nós nunca fomos a granada.

quarta-feira, 11 de fevereiro de 2004

[publicidade]



"Castello Banfi Brunello di Montalcino 1997" ranked #3 on Wine Spectator's "Top 100 Wines of the Year".
Wine Spectator - December 31, 2002/January 15, 2003.


para quem procura outros monumentos italianos em roma, permito-me sugerir fortemente um jantar no palazzo capranica na piazza do mesmo nome, entre o panteão e o montecitorio. aconselha-se marcação. ambiente muito acolhedor, música excelente e variada, extraordinário serviço, soberba enoteca e cozinha requintada. não se pense que tudo isto pode ser muito caro. para uma pequena extravagância (também possível) sugere-se o acompanhamento com o néctar supracitado. se puderem escolher quem vos serve procurem um rapaz baixo e delicado que possa ser descrito como o serapica das 'memórias de um anão gnóstico' de david madsen. depois escrevam-me.

giuseppe modica











lo sguardo circolare: agrigento, giuseppe modica, 1998.
mostra antologica de 1989 a 2003, complesso del vittoriano, roma.
até 20 de fevereiro.


giuseppe modica vê espelhos nas janelas. em cada quadro um olhar para o interior. dizem que ele pinta a luz da luz. compararam as suas obras a vermeer, antonello ou piero della francesca. de uns a luz, de outros a luminosidade. em breve, vou aqui deixar mais algumas janelas. esta é dedicada à insensatez, pelo lugar de silêncio, pela celebração do sol, pelas minimais, pelo 'into the light', pelo claro-escuro, pela explicação da luz e do deserto.

tutta l'opera del caravaggio: una mostra impossibile













amore vincitore

no castel de sant'angelo a ragazza da bilheteira tem o cuidado de avisar: atenção porque a exposição é digital. mesmo assim os visitantes parecem decepcionados quando não encontram as verdadeiras telas do mestre. talvez habituados à sucessiva realização de tarefas impossíveis perguntam-se a si mesmos: porque não fizeram o impossível? andré malraux explica no seu livro 'o museu imaginário' porque não se podem montar certas exposições, mesmo com os empréstimos de colecções de museus e privados. para quem não pode ir a roma até 15 de fevereiro, e porque a exposição é digital, aqui fica o magnífico site oficial.

domingo, 8 de fevereiro de 2004

ruinas










os kurdos sao o maior o povo do mundo sem terra. 30 milhoes.

hoje, ao lado do monumento a vittorio emanuel II um grupo de kurdos competia com as ruinas romanas para ter a atencao dos turistas. em silencio, apenas exibindo nas t-shirts a revolta de nao poder pisa a sua terra.

oh! santa cecilia!












sala santa cecilia, parco de la musica, roma.

chung teve a honra de inaugurar a sala. sente-se por isso em casa. desta vez recebeu mischa maisky e soube receber bem. deixou depois o convidado brindar roma com tres encores. no ultimo, mischa despachou uma suite para violocelo de bach. literalmente. o publico nao pediu mais. chung serviu no final, como sobremesa a sinfonia numero 40 de mozart. alguns apressados deixaram a sala nos momentos seguintes. demorei mais um pouco. comovi-me. eu que me comovi da ultima vez (como a cristina) quando o carlos mena interpretou no ano passado o stabat mater na festa da musica em lisboa. despedi-me da sala com um ate ja...

sexta-feira, 6 de fevereiro de 2004

dolce vita












piazza navona, silvio mencarelli.

o museo do vaticano tem horario mais restrito, agora funciona para beatos madrugadores. como nao devem ter mudado as coleccoes nao devo perder muito. o palazzo venezia apresenta uma exposicao muito interessante com retratos de grupo que incluem pinturas e fotografias. estas ultimas sao fantasticas. o retrato de grupo como afirmacao de partilha social, cultural e politica. o macro tem quatro exposicoes sofriveis. vale nicola de maria com pinturas dedicadas. o la republica comecou esta semana uma serie de publicacoes antologicas da poesia italiana. para ja, dante e petrarca. varios teatros na vizinhanca apresentam svevo. sempre na moda. o melhor do dia de hoje foram dois livros que trouxe. moderato cantabile da marguerite duras e a vida alcatifada da sarah adamopoulos. fim do dia com jantar no dolce vita da piazza navona. ainda dizem que o trabalho dignifica o homem...

terça-feira, 3 de fevereiro de 2004

roma, febbraio 2004












veduta di piazza del popolo, óleo sobre tela, gaspar van wittel, roma 1718.

amanhã regresso a roma. vários motivos de interesse: mischa maisky vai tocar tchaikovsky com a orquestra da academia santa cecilia dirigida por myung-whun chung; o palazzo venezia expõe retratos de grupo (de van dyck a chirico); toulouse lautrec está no complesso del vittoriano, e ainda, arte moderna na mezzoniana do terminal ferroviario (fascista) e no museo de arte contemporânea de roma (macro). além disso, todas as piazzas e todos os palazzos para umas férias que me salvem o mês.

explicação da noite












todas as noites espero uma visita diferente. umas vezes consigo ver-lhe a cara, outras apenas a sua voz me é perceptível. outras noites, uma assinatura, a cores ou a preto e branco. algumas noites tenho por companhia um silêncio que sobrou de uma conversa. há noites em que tu chegas. noites em que anuncias uma carta tua pela manhã. ao fim da noite páro no exacto fotograma em que espreito uma janela.

sábado, 31 de janeiro de 2004

a longa viagem para oriente












Com vida ainda nos olhos
vigio os navios de luz [as estrelas?], distantes e amarrados,
no porto celeste.
Tal como na infância olho-os agora.
São eternos,
seus faróis tremem na escuridão. São o feliz engano
do mundo que não foi.
E ali, disseram-me e eu nunca acreditei,
habita Deus.

a última costa, francisco brines.
trad. josé bento
assírio & alvim, 1997.

componho o capote molhado e desço para a barcaça. a luz temerosa da tocha é a mais pequena estrela desta noite. os remos na água marcam o ritmo da marcha para o cárcere. aquele vulto enorme que me espera na outra margem sabe ao que vou. espero no oriente o silêncio. enfim, o silêncio.

sexta-feira, 30 de janeiro de 2004

víctor manuel gómez traba










Vente comigo ó meu leito
e seremos amantes de inverno
probaremos de todos os viños
que ós infames lles sexan veleno
mataremos de fame ós beatos
e ós obscenos de amor mentireiro
comeremos pastel e chourizo
bailaremos borrachos no enterro

Vente comigo ó meu leito
e faremos mil cousas que anhelo
gozaremos de rudos poemas
que se formen no ardor do desexo

e arderás de paixón como nunca
bicarémonos xuntos sen medo
quedaremos famentos se cadra
e senón durmiremos no ceo

queimarei a cizaña no monte
plantarei o teu trigo na terra
espantemos ó vil corvo negro
famento que espera.

moncho bouzas tobio








A severidade do teu aceno deixou-me
obra viva encallado na praia
e hoxe dixeron-me afirmando que son irreconciliábeis
a arte e o obxectivo máis imediato de incidir
no que acontecendo conforma o noso entorno
Estou convencido sobre a inexisténcia do absurdo
cando se vive cada momento coa intensidade
de saber que segundo será o ulterior
segundo o que cadaquén faga ou mellor
o que da reflexión se traduza en acción
na bancada mais á proa

E non penses que todo é sinxelo
porque hoxe lin dun autor norteamericano
como nos chamaba a contemplar o mar na rompente
e falei cunha esquerdista galega que renegaba da pátria
e ubicaba o importante na mente nas mentes
porque non podíamos ser tan parvos como os dilixentes
nipóns, si, este povo que le o capital disque para subverté-lo

Pero a min dixeron-me a subida do partido comunista tamén
se produce nas illas desde a caída do muro
polo que a fasquia eurocéntrica dalguns debates
pode significar vento do leste a sotavento.

nós: batallón literario da costa da morte














Nin tan ghrandes nin tan feros coma os lobos de Vimianço, a xente do Batallón Literario da Costa da Morte ten a força e o xenio do temporal na Semana Santa...
Foi naquel tempo, Sábado de Groria, cando se xuntaron ordinariamente en asemblea. Falouse, construíuse, o vento saltou e mudaron as tornas. A directiva renovouse; estes son os vocais: Miro Villar, Mónica Góñez, Tomás Lijó, Modesto Fraga, María Lado e Rafa Villar. Sendo da tripulación tócalles a eles larga-los aparellos. Na presidencia, vello lobo de mar, está Alexandre Nerium (Manolo); Xavier Rodrigues, lobo menos vello de terra adentro e moito peito, vai se-lo secretario. Patrón e segundo de abordo asumen leva-lo barco a porto se os das bandas bogan ben e en terra, chegando para xantar, hai quen bote unha man na descarga.
Empezando agora a terceira marea, invitámoste a ti, afeito ou non ás ondas, a participar da escrita visible na Costa da Morte; ó cabo, os caixóns poden arder e ti telo, telo, non mo queres dar e despois de vello pódelo salar. Contacta con calquera e vén connosco na singradura de cada día atravesando os camiños para chegar a pubs e salas, como mares, para chegar á xente e ás tabernas. Despois de todo e por se falamos de máis, poñédelle a culpa ó vento.

quinta-feira, 29 de janeiro de 2004

de campos para caeiro












Quem me dera que eu fosse os rios que correm
E que as lavadeiras estivessem à minha beira...

Alberto Caeiro

uma destas noites vamos ouvir pessoa onde param os eléctricos. vamos saber dessa insónia feita de alberto caeiro e álvaro de campos. de todos os heterónimos, caeiro é ainda para mim o mais fascinante. acho que se aproxima mais do meu imaginário do sábio sentado no cimo da montanha. por tudo o que é complexo parecer simples em caeiro. o contraste com álvaro de campos faz-me pensar que talvez eu venha de campos e quero ir para caeiro. ou se calhar tudo isto é um disparate. gosto que, agora que passo mais tempo com os novos como tu dizes, me leves nessa viagem a pessoa. quero ir contigo.