terça-feira, 13 de abril de 2004

testamento












quando eu me for embora, meu amor
quero que digas:
"bom dia, bom dia meu amor!"

quero que fiques só numa sala e digas:
"vem ver como o mundo se reinventou"

que não vás à janela dizer adeus,
apenas sussurres no escuro:
"enquanto tu domias...

enquanto tu dormias..."

alter anima












depois de ti. depois da praia. depois de anima mundi de maria do rosário pedreira. outro sim.

segunda-feira, 12 de abril de 2004

mistério da fé












sei como se faz uma casa mas não sei como se lê um livro nem como se partilha. sei que nesta páscoa não pensaste no capelão de louis neuville. sei que camus não faz parte desta época. e a minha era a tua casa quando nos lembraste. eu sei que sim.

quarta-feira, 7 de abril de 2004

calíope












quero que me leves, calíope. que não me deixes escrever. que possa apenas ver no teu rosto a serenidade de marmaro, a luz de kouramades ou as cores de gastouri. quero saber pelos teus olhos das palavras dos outros. e que as possa guardar ao lado dos teus beijos.

do sonhar












"andarão os homens e não se mexerão; falarão com quem não está presente; ouvirão quem não fala."

leonardo da vinci, códice atlântico, p362.
biblioteca ambrosiana, milão.

terça-feira, 6 de abril de 2004

bom dia












o primeiro pensamento ao acordar é a mais transparente das visões do que realmente é importante. depois, a prosa delirante, o silêncio ou a contemplação do mundo não são mais reais e verdadeiros que aquele instante onde os sonhos que ainda tomam contam de nós nos dizem segredos. os dias perfeitos vão por aqui.

visto de perto










tu corres a meu lado
na direcção contrária.
qual de nós irá chegar
primeiro à solidão.

o sino de areia, josé miguel silva.
gilgamesh, 1999.

quarta-feira, 31 de março de 2004

nooteboom para sena













passo a minha mao pela tua cabeça
recurvamente, atentamente, e só com dedos brandos,
olhando-a como passa e vendo onde passou.

quero tanto saber o que tu pensas.

(apreender, jorge de sena)

(...)
e a cabeça, tão longe por cima dele,
apenas ainda reconhecível
como a máscara de caos e origem,
desvia-se das linhas,

diz no seu respirar
a cadência do pensar
e fecha o poema
com um suspiro.

(small-bang, cees nooteboom)

terça-feira, 30 de março de 2004

operária 2













hoje cometi uma loucura
na hora combinada faltou-me o transistor
faltou-me a cabine no penedo
desesperei
foi assim que saí da frente das máquinas
e assaltei o sistema de som da fábrica.
todos ouviram a alexandra e os polacos
e passearam pelo campo di fiori
e riram

o senhor josé perguntou se era a missa
e eu respondi
não senhor josé, podia ser mas não é
e ele disse
outro fim do mundo não haverá

e agora não sei o que foi verdade
talvez górecki

sabor a ti












durante uns anos a minha cozinha foi uma sala estranha. transformada primeiro em biblioteca das insónias e confessionário da melancolia, foi por fim uma divisão descuidada da casa. voltei ontem para preparar uma massa chinesa e, na primeira hesitação sobre a escolha das especiarias, resolvi voltar de vez: a selecção das receitas, as compras apuradas, as lojas do gourmet ou as mercearias finas. aceitam-se sugestões.

segunda-feira, 29 de março de 2004

a comuna de pitões das júnias











na quarta-feira (31) pelas 18:30 o autor de 'eis o amor a fome e a morte' (cotovia, 1999) vai estar no café teatro do tagv a convite de antónio augusto barros. a escola da noite faz leituras do autor de teatro, romance e poesia.

a casa












guardo as roupas numa mala pequena. arrumo os livros devagar e começo a despedir-me dos restos de música das paredes e das noites em que chamei manhãs que não vieram. não sei como vou levar as sombras onde guardei as receitas dos dias felizes.

'uma compogixão imobilijada na noxa frente'












no comboio descendente perdemos a luz a seguir a alfarelos. mais à frente, o comandante e a sua tripulação atendem ao nosso pedido metafísico e recuamos. mudamos de linha. herman melville tem assim tempo de acabar de contar a sua história antes de chegar à catedral de calatrava. ainda me pareceu ouvir um resmungar vindo da outra linha: 'preferia não o fajer'.

audience












eu queria escrever com sumo de limão quando tinha uma mão cheia de palavras. depois queria um código que só tu decifrasses. agora que coloco na praça pública a arquitectura de néon, onde estás tu que não te sinto?

quarta-feira, 24 de março de 2004

o multipleto de monterey












invejei o jantar de cambridge com snow, turing, haldane, schrödinger e wittgenstein. mas aquele era a ficção de john l. casti em 'o quinteto de cambridge - um trabalho de especulação científica'. aí se falava do dominio das máquinas e da inteligência artificial. agora invejo um jantar de verdade: o jantar dos bilionários em monterey. a nova 'máfia' representada por pessoas associadas à ted, amazon.com, wired, google, new york times, cbs news, mit, ebay, discover, msnbc, wall street journal, nerve, vanity fair, e por aí fora. juntar à mesma mesa alan guth, lenny susskind, paul steinhardt, seth lloyd, steve strogatz, mike csikszentmihalyi, nancy etcoff, marty seligman ou dan gilbert, parece uma mistura explosiva. durante umas horas monterey foi a capital do mundo. de um certo mundo. talvez de um mundo imaginado. por isso invejo os presentes.

jemima stehli e as pernas gordas


o dia parecia correr bem. rever a sofia. encontrar finalmente a insensatez. o café santa cruz no meio de um sábado de semana inglesa. a presença ainda mística de andré bonirre. depois, a visita ao centro de artes visuais. o luís que chega e chama a atenção para o 'strip' de jemima stehli: o convite a homens escritores e críticos para (se) fotografarem com a artista. perfeito. tudo a correr bem até ao momento em que num claustro o luís tira do bolso um recorte de revista (seria a la redoute?) e mostra a rapariga das pernas gordas. depois não recuperei. em vão a doçura do ponto negro que nos ilumina. em vão o extraordinário avatar que nos enviaram para tudo destruir e criar uma vida nova. em vão a serenidade e a sábia postura do castor. ainda tentei fugir para o navio de espelhos que a alexandra aconselhava. em vão. não sei se vou recuperar. se fosse agora eu a sentar-me à frente de jemima não disparava nunca. nenhuma fotografia depois.

terça-feira, 23 de março de 2004

silent speech












- quem me dera saber quem és tu e o que queres dizer
- quem me dera dizer o que queres saber. e tu quem és?

segunda-feira, 22 de março de 2004

crepuscular












as ruas desertas na manhã de domingo. a subida do mercado da ribeira ao bairro alto. os poetas lá longe na praia. não sei se os viste. quase ao principe real procuro as memorias do subterrâneo sem sucesso. dentro de outras páginas um envelope:

para ti...

uma oferta do dia mundial da poesia...
venha cantar-lhe os parabéns...
dia 20 de março
às 0:00
livraria ler devagar

no interior um poema de camilo pessanha:

Há no ambiente um murmúrio de queixume,
De desejos de amor, d'ais comprimidos...
Uma ternura esparsa de balidos,
Sente-se esmorecer como um perfume.

As madressilvas murcham nos silvados
E o aroma que exalam pelo espaço,
Tem delíquios de gozo e de cansaço,
Nervosos, femininos, delicados.

Sentem-se espasmos, agonias d'ave,
Inapreensíveis, mínimas, serenas...
- Tenho entre as mãos as tuas mãos pequenas,
O meu olhar no teu olhar suave.

As tuas mãos tão brancas d'anemia...
Os teus olhos tão meigos de tristeza...
- É este enlanguescer da natureza,
Este vago sofrer do fim do dia.

sexta-feira, 19 de março de 2004

ballet gulbenkian












«Quando abordo os intérpretes das minhas peças, falo-lhes sempre do sentido, ou melhor, dos sentidos que o movimento possui e do prazer como ponto de partida para chegar ao mistério que envolve o momento de dançar. A nossa relação com o prazer só pode ser de índole íntima e pessoal. É pelo prazer que a realidade, sempre multiforme e sempre por desentranhar, se torna acessível e habitável. Se não fosse pelo prazer, a vida seria profundamente aborrecida. Ou talvez directamente impossível de viver. A sua fogosidade é o sintoma da sua importância. E diria ainda que o prazer é um dos antídotos mais eficazes que a humanidade descobriu, contra o medo. Nos tempos que correm, quando os marcadores do medo, dispostos a salvar-nos sempre e a qualquer momento dos perigos do mundo, se esforçam por estender o seu discurso sinistro, o prazer apresenta-se-nos como uma arma de resistência estética de primeira ordem».

As palavras são de Juan Carlos Garcia, o coreógrafo, eu não as diria mas sempre quero ver a coreografia que é o que me interessa.

Hoje no Grande Auditório da Fundação Calouste Gulbenkian, 21:00:

BALLET GULBENKIAN
PAULO RIBEIRO (direcção artística)

Paradise Practice
Coreografia: Stijn Celis

Monólogos do Oriente (*)
Coreografia: Rui Horta

O céu pode esperar(*)
Coreografia: Juan Carlos Garcia

(*) Estreia Mundial

Peter McCarey












continuo a preparação da visita à escócia. encontro um poeta nascido em paisley, criado em glasgow e habitante depois de oxford, paris, bradford, leningrado, venafro e geneva. passou pela áfrica sub-sahariana, sul da índia e sudoeste asiático. hoje vive em geneva. publicou 'the devil in the driving mirror' e 'tantris'. compôs um silabario com 2000 pequenos textos estranhos que apresentou aleatoriamente num ecrã e depois publicou em cd-rom (2001) e em livro na punastic press (2002). é uma nova voz da poesia escocesa. e vale a pena ler.

o poema que se segue é dedicado ao blog do mesmo nome, obviamente.

sous les pavés - la plage












the urban sunlight comes in the window
staggering up to its knees in sand
banknotes blowing out of its seams
like scarious leaves and carious buildings
shaking dust from my shoes but it cloys,
it clogs for I'm paid to be here

frontiers, harbours, roads, currencies,
crowd control and corpse disposal.

money is busy buying itself up
using what there is for collateral.

light is said to be sculpting itself
with its only sense
of touch.

Peter McCarey

quarta-feira, 17 de março de 2004

biennale of sydney 2004 - I feel, therefore I am


"In Descartes' Error (1995) the neurologist António Damásio analyses several neurological case studies to show that emotion is crucial to human intelligence. In another book, The Feeling of What Happens (1999) he discusses the importance of emotion and feeling in the construction of the self. In Looking for Spinoza (2003) António Damásio elaborates his ideas further.

On Reason and Emotion has at its core an exploration of perception and its borders. There are several complex threads intertwining throughout the exhibition: the balance and connection between human consciousness and physicality; the architecture of the built environment as a parallel anatomy, and conversely that the body is my house (Lygia Clark); and the politics and poetics of human relationships, where communication is a mutual exchange rather than a passing on of information, and thus serves to connect ideas and people rather than become a platform for individual expression.
Rather than the restrictions of the traditional cogito (I think, therefore I am), I am interested in art that creates a bridge between poles - the supposed north/south/mind/body splits. Now one can say that I feel, therefore I am. The project invites the audience to participate in an aesthetic experience using not only their sight, but also all the senses provoking active participation and inciting the emotions. The audience will be challenged to think and feel."

Isabel Carlos, 2003
Curadora da Biennale of Sydney 2004

tear drop experience












não sei o que fazer das lágrimas. precipitar uma lágrima pode não ser o máximo que se diz. tu e a tua lágrima são para mim um par espantoso. a estes pares nada se diz, responde-se em espanto. eu torno em silêncio as lágrimas dos outros. a sofia tem razão: 'o silêncio nunca é o mínimo que dizemos'.

segunda-feira, 15 de março de 2004

steam












não te encontrar mas saber no espelho a tua presença, a tua voz e as tuas mensagens desenhadas na condensação que somos.

sábado, 13 de março de 2004

sei












sei que não regressas desses dias feitos manhãs. sei que me disseste adeus por não acreditares no tempo. eu e o agostinho ainda estamos aqui. voltamos aqui para que os homens não sejam educados. espero daqui a pouco as coordenadas dos poetas. seguimos mar fora com os homens que houver. ninguém depois.

terça-feira, 9 de março de 2004

palavras que












sei a janela no teu caderno
tenho os meus olhos no verso
de cada página mínima
em que abandonas
segura e firme
a âncora do meu dia seguinte

landing












"do alto vos falo, onde
acrescento azul de muitas cores
ao outro azul que os vossos olhos vêem."

pedro tamen

inclino a cabeça na última curva sobre o bugio antes de tocar lisboa de volta. a menina rottmayer coloca cuidadosamente o seu livro em cima dos meus jornais e espreita com interesse o meu. pergunto-me o que poderemos comentar das nossas leituras. que lhe interessará do meu 'the dying animal' de philip roth? o que quero saber do seu 'generation golf' de florian illies? esboçamos um sorriso. o lugar que nos separa guarda agora as letras e a ambiguidade. a bordo do almeida garrett como aqui.

segunda-feira, 8 de março de 2004

hot jazz klub












na sexta-feira à noite fui ao clube de jazz de um bairro operário de munique. os atentos construtores de automóveis de confiança e as meninas das unidades de produção farmacêutica reunem-se numa cave de uma antiga fábrica cervejeira. os sons da banda hot klub com inspiração em nova orleães uniram soul, funk, hip hop e rocksteady numa brass band de outra geração. diziam os cartazes que eles regressam de milli vanilli, sting, ervyn charles ou fats domino. ao provocador vocalista só respondiam as meninas que tomaram as pastilhas da alegria com desconto para funcionários. pelos vistos os rapazes continuaram nas tintas.

domingo, 7 de março de 2004

as escadas da utopia












explico-te o meu credo: acordo todos os dias pensando que vou subir um degrau da escada da utopia. passo por outros lugares, outros momentos e outras pessoas. no final de cada dia, durmo melhor se te souber mais perto.

sábado, 6 de março de 2004

livrinhos de um mundo imaginado: mocidade de joseph conrad












jantei com o velho marinheiro marlow que me contou viagens que parecem determinadas para ilustrar a vida e ficam como símbolo da existência. a gente luta, trabalha, sua, quase rebenta, às vezes rebenta mesmo para realizar qualquer coisa... e não consegue. não é que nos caiba a culpa. simplesmente não é possível fazer nada de nada, grande ou pequena coisa... nadinha deste mundo... nem mesmo casar com uma solteirona ou levar a banguecoque a miséria de umas 600 toneladas de carvão. a popa dourada a gritar acima das ondas que tornavam mais escuras as palavras pintadas no costado: judea, londres, andar ou morrer.
"compramos um livro de conrad e o que retemos não é aquela onda gigantesca que partiu tabiques e arrastou marinheiros; não é aquele pôr do sol ou aquele incêndio em pleno mar; é antes a grandeza que o homem revela a enfrentar a onda, em ser corajoso, bom, fiel, num universo indiferente e perigoso."
o barco e a juventude a arder. passa daí a garrafa!

mocidade: uma narrativa
joseph conrad
76 páginas.
assirio & alvim, 2003.

sexta-feira, 5 de março de 2004

deslizar no sonho*












- anda, vamos falar de coisas bonitas.
- começa tu.
- deixa-me ver coisas boas: amor, amizade, as sensações e as intuições, sonhos, desejos, viagens, a música, as palavras e as conversas, os aromas e os sabores,o mar e o vento na pele. escolhe uma....ou sugere outra.
- o mar e o vento na pele, sentir o amor nas palavras
- esvoaçar o sentir e mergulhar no amor com a pele das palavras
- as nossas palavras.
- a partilha das palavras que são nossas
- partilharmo-nos para além das palavras.
- partilhar o olhar das palavras
- adoro falar com os olhos.
- adoras olhar com os dedos
- tenho sempre palavras nas minhas mãos.
- o desejo dos dedos nas palavras das mãos que se perdem no escutar do olhar.
- agora estou perdido no teu pensamento. o amor é assim.
- o amor é encontrar o pensamento do outro.
- eu serei eu e o meu pensamento no teu.
- tu serás eu se entras neste pensamento que é meu.

* depois disse a paula "as palavras batem contra os muros do corpo. esperem um pouco, eu regresso."

dream team












- porque vens devagar?
- porque nao quero chegar tarde para ver o por do sol.
- e se fossem musica os teus passos, nao o verias melhor?
- se respirasses assim ao meu ouvido seria o nascer do sol que procurava.
- porque tardas?
- espero o teu amanhecer.

quinta-feira, 4 de março de 2004

freising-weihenstephan












por aqui os livrinhos em volta, os intervalos para conversas curtas e a cidade grande mais longe. chegam noticias da azafama que nao perturbam. por agora interessa-me conrad, blanchot, roth e auster. e que a neve se mantenha la fora. o resto pode esperar. por estes tempos bavaros vale a distancia de tudo.

sábado, 28 de fevereiro de 2004

kafka no choupal












hoje, quando passeava pelas margens do mondego, ouvi alguém que tossia de um modo familiar. um casal, sentado num tronco do choupal, fez-me pensar que tinha encontrado, enfim, o que todos procuravam. ela, vi eu bem, era a menina jesenka e, quando passei em redor, ouvi pela segunda vez aquele tossir. virei as costas e não precisei de ver para confirmar. kafka namorava no choupal, em coimbra (a) capital / do amor em portugal / ainda.

no quiero que tengas una forma, que seas precisamente lo que viene detrás de tu mano












"te amo por cejas, por cabello, te dabato en corredores blanquísimos donde se juegan las fuentes de la luz,
te discuto a cada nombre, te arranco con delicadeza de cicatriz
voy poniéndote en el pelo cenizas de relámapago y cintas que dormían en la lluvia
no quiero que tengas una forma, que seas precisamente lo que viene detrás de tu mano,
porque el agua, considera el agua, y los leones cuando se disuelven en el azúcar de la fébula,
y los gestos, esa arquitectura de la nada,
encendiendo sus lámparas a mitad del encuentro.
todo mañana es la pizarra donde te invento y te dibujo.
pronto a borrarte, así no eres, ni tampoco con ese pelo lacio, esa sonrisa.
busco tu suma, el borde de la copa donde le vino es también la luna y el espejo,
busco esa línea que hace temblar a un hombre en una
galería de museo.

además te quiero, y hace tiempo y frío."

julio cortazar

em todas as ruas te encontro
em todas as ruas te perco









em todas as ruas te encontro
em todas as ruas te perco
conheço tão bem o teu corpo
sonhei tanto a tua figura
que é de olhos fechados que eu ando
a limitar a tua altura
e bebo a água e sorvo o ar
que te atravessou a cintura
tanto tão perto tão real
que o meu corpo se transfigura
e toca o seu próprio elemento
num corpo que já não é seu
num rio que desapareceu
onde um braço teu me procura

em todas as ruas te encontro
em todas as ruas te perco

mário cesariny

sexta-feira, 27 de fevereiro de 2004

querida, o sal por favor... e já agora o beijo












e as palavras, o teu olhar, as tuas mãos, as cores que ainda não vi, as montanhas como as vês, a praia ou a beira-praia, tão distante, a neve ou o frio da neve. contigo.

quinta-feira, 26 de fevereiro de 2004

nós quimeras












''Eles iam, obscuros, através da noite solitária, através da sombra e através das moradas vazias e do vão reino de Dite: tal é o caminho nos bosques, quando a lua é incerta, sob uma luz maligna, quando Júpiter mergulhou o céu na sombra e a sombria noite arrebatou às coisas sua cor.
No próprio vestíbulo, à entrada das gargantas do Orco, o Luto e os Remorsos vingadores puseram seus leitos; lá habitam as pálidas Doenças, e a triste Velhice, e o Temor, e a Fome, má conselheira, e a espantosa Pobreza, formas terríveis de se ver, e a Morte, e o Sofrimento; depois, o Sono, irmão da Morte, e as Alegrias perversas do espírito, e, no vestíbulo fronteiro, a Guerra mortífera, e os férreos tálamos das Eumênides, e a Discórdia insensata, com sua cabeleira de víboras atada com fitas sangrentas.
No meio, um olmeiro opaco, enorme, estende seus ramos e seus galhos seculares, morada, diz-se, que frequentam comumente os Sonhos vãos, fixados sob todas as suas folhas. Além disso, mil fantasmas monstruosos de animais selvagens e variados aí se encontram: os Centauros, que têm seus estábulos nas portas, e as Cilas biformes, e Briareu hecatonquiro, e o monstro de Lema, assobiando horrivelmente, e a Quimera armada de chamas, e as Górgonas, e as Harpias, e a forma da Sombra de tríplice corpo.''

da Eneida de Virgílio


partimos assim
à procura em nós
de todos esses genes
em nós o código
em nós o luto
em nós os remorsos
em nós as doenças
a velhice o temor e a fome
a pobreza a morte o sofrimento
o sono a alegria e a guerra
a discórdia e o sonho

nós quimeras
obscuras
solitárias

quarta-feira, 25 de fevereiro de 2004

porto ainda












oporto, jozef dekkers.

ainda tinha o quadro daquele porto por acabar. ainda sangravam as mãos das arestas do granito. quase não tinha tempo para te dizer. mesmo assim foi o tempo do abraço. de te olhar fundo nos olhos e repetir gritando para que não ouvisses:

haja o que houver
esperarei por ti

diario de bordo dia 232 41º8'13"N 8º36'8"0












devia ter anunciado ao largo a chegada ao porto. faltava assim a bandeira QF&M no cais. recebi mais tarde o radiotelegrama. dobra assim a vontade de uma volta de outra volta. procurei primeiro o fantástico northfolk e depois a ribeira, a foz, o majestático e a noite gótica. esperavam terra mais adentro paulo castro seixas e dois comandantes ilustres: josé carretas e júlio couto. falaram-me dessas ilhas quase continentais. guardei abraços e larguei promessas de cartas breves: a este porto voltarei.

sexta-feira, 20 de fevereiro de 2004

silence is possible












Silence is possible, and after dark
it almost happens: silence, like a glove,
the perfect fit you always hoped to find.


john burnside

começo a preparação de uma nova viagem. vou à procura da escócia da sofisticação, da pluralidade e da excitação de que fala donny o'rourke. leio as primeiras letras de poetas escoceses recentes. li que eles preparam, de algum modo, uma redescoberta da escócia em confidência. não imagino o que seja. tenho alguns meses ainda para preparar o desembarque em glasgow.

quinta-feira, 19 de fevereiro de 2004

somniu












cara menina sarah,
recebi hoje uma carta que há seis anos me enviou. já não moro naquela casa. não sei quem cuida dela. pedia-me, pelo que vejo, uma entrevista. não imagino o que pretendesse. já disse tudo aos jornalistas. nunca escrevem o que lhes digo. sou eu que lhe peço hoje um favor. não me deixam sair desta casa onde estou. sei que vai parecer-lhe estranho mas, mesmo assim, peço. temo contar-lhe um sonho de que não sei o final. não se desiluda por isso. preciso que faça por mim uma viagem. quero que visite três locais em dias e horas precisos. que use apenas comboios. os que eu lhe disser. não tenha medo. peço-lhe depois que os seus olhos sejam os meus. que me diga o que viu. que descreva o que sentiu. se são ainda esses sítios o que foram para mim. se ainda existem, se é que existiram. esta é a minha proposta. se ainda estiver interessada na sua entrevista, responderei às perguntas ao longo da viagem. não acredito sinceramente que aceite, embora a sua caligrafia me levasse a crer que sim. receba a expressão do meu agradecimento pela sua atenção e acredite que a consideração que me merece seja a maior.
xavier maria.