sexta-feira, 30 de abril de 2004

o lugar das palavras












subiremos, sacerdotisa, as escadas do teu templo.

convento












vi da janela da minha fábrica a chegada dos homens sérios ao convento. recordei as tuas palavras antigas, para sempre na memória do anfiteatro. desta vez eram homens e os homens não choram e tu, provavelmente, não estavas lá.

o síndrome de stendhal


















do Gr. syndromé, concurso. s. f., tontura, pânico, paranóia ou loucura causada pelo facto de ver certas obras artísticas ou objectos históricos ou ainda por tentar ver várias relíquias num curto espaço de tempo. na toscânia chamam síndrome de stendhal pelo facto do escritor do século XIX ter escrito acerca da desorientação de certos turistas quando se viram pela primeira vez à frente das obras do renascimento italiano. de facto, em 1817, o jovem marie-henri beyle (stendhal), visitou florença e rapidamente se sentiu fascinado com a riqueza artística e histórica da cidade. cento e sessenta anos depois, a dra graziella magherini, chefe de psiquiatria do hospital de santa maria nuova em florença, confirma o estado de loucura moderada de alguns turistas que pode durar vários dias. idênticas observações são relatadas em jerusalém, onde o peso da cidade santa resulta na vertigem, tontura ou amnésia temporária.

quase todos nos sentimos esmagados de quando em quando. apenas diferimos nos estímulos.

terça-feira, 27 de abril de 2004

se um dia no teu caminho












li poemas do antigo egipto. sinto-me ridiculo depois de ler textos dos séculos X a XVI a.C. percorro o diário de cesare pavese de 1935 a 1950. sinto-me com sorte por não ter uma tina na minha vida. se um dia no teu caminho encontrares poemas meus, não acredites neles. eu vou bem e a literatura é por definição um lugar triste. o resto sim, é a vida, por mais que ela se esconda dos livros malditos a que não resistimos.

domingo, 25 de abril de 2004

testamento














disse: creio na poesia, no amor e na morte,
e por isso mesmo creio na imortalidade. escrevo um verso,
escrevo o mundo; existo; existe o mundo.
da ponta do meu dedo mínimo corre um rio.
o céu é sete vezes azul. esta pureza
é de novo a primeira verdade, a minha última vontade.

giánnis ritsos: antologia.
fora do texto, 1993.

abril












diz-me o jornal que é abril. olho lá para fora e ainda não é abril. sei que parece abril. há pouco, quando ouvia a oratória paulus de mendelssohn no ccb, parecia abril na fila da frente. lado a lado, o director geral de uma multinacional e um reformado da lisnave. mas ainda não é abril, ainda falta abril.

quinta-feira, 22 de abril de 2004

R












aceno ao longe quando a vejo dançar na praia. absorta no ritual em frente a um mar de palavras, parece surpreendida. durante algum tempo, uma qualquer lua que não conheço desgovernou as marés e secaram as palavras. voltam agora. como sempre, como dantes, diria o camané. gosto daquele lugar e da assinatura na areia que a sua dança oferece à praia.

quarta-feira, 21 de abril de 2004

quíron









saber da dor e não poder aproveitar esse conhecimento para proveito próprio. ser imortal e doar a imortalidade para parar o sofrimento. cumprir sem justiça a pena dos seus por a eles pertencer. refiro quíron, o filho de apolo e artemisia, rei dos centauros e curador sábio. como se não bastasse ser filho de uma nuvem, ser educado por apolo e artemísia.

segunda-feira, 19 de abril de 2004

noites brancas




da fábrica onde trabalho vejo algumas janelas de um edifício esverdeado onde poderá estar andré bonirre. há duas semanas que penso em procurá-lo para, a propósito de qualquer coisa que me ocorra como boa razão, espreitar o castor garimpeiro. a questão é que são já várias as noites que passo em branco procurando a página 36 de um livro de dostoievski. procurei várias edições e não tenho a certeza de ter encontrado aquela que o castor referiu. tenho de tirar isto a limpo antes de ficar com olheiras empedernidas.

margens da melancolia












um destes dias fugi perigosamente para a beira do rio. nas margens da melancolia tenho momentos em que te traio e te fujo como nunca o faço. como naquele dia em que falei com uma pessoa estranha, só podia ser uma pessoa estranha, e falámos de banalidades como a idade ou as casas. tenho tanto medo dessas fugas. nesses momentos falta-me a literatura portátil e faço disparates. sinto que aceitava qualquer proposta que me prometesse um canto sossegado e os clássicos gregos para ler em paz. e é tão perigoso tudo isso...

o amor mais bonito












ela dele presa e ele dela cativo. a quinta do pombal num bosque de loureiros, agora com golf e spa, aqui tão perto. o diogo lopes pacheco a quem só faltava um amor. e tu poeta maior que nesse verão de 73 nos destes tantas alegrias das margens da consolação. fazes-nos falta.

sexta-feira, 16 de abril de 2004

arqueologia












descubro na minha memória os momentos em que esperavas num quarto cheio de folhas amarrotadas com planos de filmes por realizar.
agora, outro brilho, o dos teus olhos, deve estar espalhado pelo universo em forma de ruído microondas, arrefecendo e ficando mais longe, ao contrário do que acreditam os astrofísicos...

rituelen












foi uma desatenção que nos levou pelo canal maior e assim nos fez passar ao lado de utrech. quando retomámos os canais mais estreitos, e mais interessantes, encontrámos um casal interessantíssimo. ele lia rituelen de nooteboom, decerto a primeira edição de 1980, e ela qual personagem de vermeer distraía o jardim e o canal. os seus suspiros não afectavam a leitura dele. o silêncio dele não perturbava a festa dela.

fashion weekend
















- onde vamos celebrar o trigésimo aniversário?
- não sei bem o que me apetece...
- talvez paris?
- não, é muito cartier bresson.
- como assim?
- vá lá, evolui.

quinta-feira, 15 de abril de 2004

caminhos do cinema português


Agostinho da Silva - Um Pensamento Vivo de João Rodrigo Mattos,
Preto e Branco de José Carlos de Oliveira,
A Favor da Claridade de Teresa Villaverde,
O Fascínio de José Fonseca e Costa,
A Passagem da Noite de Luís Filipe Rocha,
Daqui P’rá Alegria de Jeanne Waltz,
Um Filme Falado de Manoel de Oliveira,
Nós de Cláudia Tomaz,
Vai e Vem de João César Monteiro,
I’ll See You in my Dreams de Miguel Angél Vivas,
Os Imortais de António-Pedro Vasconcelos,
Ana Hatherly - A Mão Inteligente de Luís Alves de Matos

e muitos outros no tagv, 17 a 24 de abril.

avatares do diabo (do mal o menos)











que o pedro mexia não ligue ao mal no seu dicionário do diabo ainda vá, agora que não inclua arundhati roy, condoleeza rice e halle berry no seu painel é indecente.

projecções









recuso uma teoria que afirma que nas nossas críticas apontamos o nosso lado mais escuro nas outras pessoas. como explicar que o desprezo pela estupidez, pela boçalidade ou pela nacional "chica-espertice" pode ter origem no melhor que temos e não no seu contrário?

terça-feira, 13 de abril de 2004

testamento












quando eu me for embora, meu amor
quero que digas:
"bom dia, bom dia meu amor!"

quero que fiques só numa sala e digas:
"vem ver como o mundo se reinventou"

que não vás à janela dizer adeus,
apenas sussurres no escuro:
"enquanto tu domias...

enquanto tu dormias..."

alter anima












depois de ti. depois da praia. depois de anima mundi de maria do rosário pedreira. outro sim.

segunda-feira, 12 de abril de 2004

mistério da fé












sei como se faz uma casa mas não sei como se lê um livro nem como se partilha. sei que nesta páscoa não pensaste no capelão de louis neuville. sei que camus não faz parte desta época. e a minha era a tua casa quando nos lembraste. eu sei que sim.

quarta-feira, 7 de abril de 2004

calíope












quero que me leves, calíope. que não me deixes escrever. que possa apenas ver no teu rosto a serenidade de marmaro, a luz de kouramades ou as cores de gastouri. quero saber pelos teus olhos das palavras dos outros. e que as possa guardar ao lado dos teus beijos.

do sonhar












"andarão os homens e não se mexerão; falarão com quem não está presente; ouvirão quem não fala."

leonardo da vinci, códice atlântico, p362.
biblioteca ambrosiana, milão.

terça-feira, 6 de abril de 2004

bom dia












o primeiro pensamento ao acordar é a mais transparente das visões do que realmente é importante. depois, a prosa delirante, o silêncio ou a contemplação do mundo não são mais reais e verdadeiros que aquele instante onde os sonhos que ainda tomam contam de nós nos dizem segredos. os dias perfeitos vão por aqui.

visto de perto










tu corres a meu lado
na direcção contrária.
qual de nós irá chegar
primeiro à solidão.

o sino de areia, josé miguel silva.
gilgamesh, 1999.

quarta-feira, 31 de março de 2004

nooteboom para sena













passo a minha mao pela tua cabeça
recurvamente, atentamente, e só com dedos brandos,
olhando-a como passa e vendo onde passou.

quero tanto saber o que tu pensas.

(apreender, jorge de sena)

(...)
e a cabeça, tão longe por cima dele,
apenas ainda reconhecível
como a máscara de caos e origem,
desvia-se das linhas,

diz no seu respirar
a cadência do pensar
e fecha o poema
com um suspiro.

(small-bang, cees nooteboom)

terça-feira, 30 de março de 2004

operária 2













hoje cometi uma loucura
na hora combinada faltou-me o transistor
faltou-me a cabine no penedo
desesperei
foi assim que saí da frente das máquinas
e assaltei o sistema de som da fábrica.
todos ouviram a alexandra e os polacos
e passearam pelo campo di fiori
e riram

o senhor josé perguntou se era a missa
e eu respondi
não senhor josé, podia ser mas não é
e ele disse
outro fim do mundo não haverá

e agora não sei o que foi verdade
talvez górecki

sabor a ti












durante uns anos a minha cozinha foi uma sala estranha. transformada primeiro em biblioteca das insónias e confessionário da melancolia, foi por fim uma divisão descuidada da casa. voltei ontem para preparar uma massa chinesa e, na primeira hesitação sobre a escolha das especiarias, resolvi voltar de vez: a selecção das receitas, as compras apuradas, as lojas do gourmet ou as mercearias finas. aceitam-se sugestões.

segunda-feira, 29 de março de 2004

a comuna de pitões das júnias











na quarta-feira (31) pelas 18:30 o autor de 'eis o amor a fome e a morte' (cotovia, 1999) vai estar no café teatro do tagv a convite de antónio augusto barros. a escola da noite faz leituras do autor de teatro, romance e poesia.

a casa












guardo as roupas numa mala pequena. arrumo os livros devagar e começo a despedir-me dos restos de música das paredes e das noites em que chamei manhãs que não vieram. não sei como vou levar as sombras onde guardei as receitas dos dias felizes.

'uma compogixão imobilijada na noxa frente'












no comboio descendente perdemos a luz a seguir a alfarelos. mais à frente, o comandante e a sua tripulação atendem ao nosso pedido metafísico e recuamos. mudamos de linha. herman melville tem assim tempo de acabar de contar a sua história antes de chegar à catedral de calatrava. ainda me pareceu ouvir um resmungar vindo da outra linha: 'preferia não o fajer'.

audience












eu queria escrever com sumo de limão quando tinha uma mão cheia de palavras. depois queria um código que só tu decifrasses. agora que coloco na praça pública a arquitectura de néon, onde estás tu que não te sinto?

quarta-feira, 24 de março de 2004

o multipleto de monterey












invejei o jantar de cambridge com snow, turing, haldane, schrödinger e wittgenstein. mas aquele era a ficção de john l. casti em 'o quinteto de cambridge - um trabalho de especulação científica'. aí se falava do dominio das máquinas e da inteligência artificial. agora invejo um jantar de verdade: o jantar dos bilionários em monterey. a nova 'máfia' representada por pessoas associadas à ted, amazon.com, wired, google, new york times, cbs news, mit, ebay, discover, msnbc, wall street journal, nerve, vanity fair, e por aí fora. juntar à mesma mesa alan guth, lenny susskind, paul steinhardt, seth lloyd, steve strogatz, mike csikszentmihalyi, nancy etcoff, marty seligman ou dan gilbert, parece uma mistura explosiva. durante umas horas monterey foi a capital do mundo. de um certo mundo. talvez de um mundo imaginado. por isso invejo os presentes.

jemima stehli e as pernas gordas


o dia parecia correr bem. rever a sofia. encontrar finalmente a insensatez. o café santa cruz no meio de um sábado de semana inglesa. a presença ainda mística de andré bonirre. depois, a visita ao centro de artes visuais. o luís que chega e chama a atenção para o 'strip' de jemima stehli: o convite a homens escritores e críticos para (se) fotografarem com a artista. perfeito. tudo a correr bem até ao momento em que num claustro o luís tira do bolso um recorte de revista (seria a la redoute?) e mostra a rapariga das pernas gordas. depois não recuperei. em vão a doçura do ponto negro que nos ilumina. em vão o extraordinário avatar que nos enviaram para tudo destruir e criar uma vida nova. em vão a serenidade e a sábia postura do castor. ainda tentei fugir para o navio de espelhos que a alexandra aconselhava. em vão. não sei se vou recuperar. se fosse agora eu a sentar-me à frente de jemima não disparava nunca. nenhuma fotografia depois.

terça-feira, 23 de março de 2004

silent speech












- quem me dera saber quem és tu e o que queres dizer
- quem me dera dizer o que queres saber. e tu quem és?

segunda-feira, 22 de março de 2004

crepuscular












as ruas desertas na manhã de domingo. a subida do mercado da ribeira ao bairro alto. os poetas lá longe na praia. não sei se os viste. quase ao principe real procuro as memorias do subterrâneo sem sucesso. dentro de outras páginas um envelope:

para ti...

uma oferta do dia mundial da poesia...
venha cantar-lhe os parabéns...
dia 20 de março
às 0:00
livraria ler devagar

no interior um poema de camilo pessanha:

Há no ambiente um murmúrio de queixume,
De desejos de amor, d'ais comprimidos...
Uma ternura esparsa de balidos,
Sente-se esmorecer como um perfume.

As madressilvas murcham nos silvados
E o aroma que exalam pelo espaço,
Tem delíquios de gozo e de cansaço,
Nervosos, femininos, delicados.

Sentem-se espasmos, agonias d'ave,
Inapreensíveis, mínimas, serenas...
- Tenho entre as mãos as tuas mãos pequenas,
O meu olhar no teu olhar suave.

As tuas mãos tão brancas d'anemia...
Os teus olhos tão meigos de tristeza...
- É este enlanguescer da natureza,
Este vago sofrer do fim do dia.

sexta-feira, 19 de março de 2004

ballet gulbenkian












«Quando abordo os intérpretes das minhas peças, falo-lhes sempre do sentido, ou melhor, dos sentidos que o movimento possui e do prazer como ponto de partida para chegar ao mistério que envolve o momento de dançar. A nossa relação com o prazer só pode ser de índole íntima e pessoal. É pelo prazer que a realidade, sempre multiforme e sempre por desentranhar, se torna acessível e habitável. Se não fosse pelo prazer, a vida seria profundamente aborrecida. Ou talvez directamente impossível de viver. A sua fogosidade é o sintoma da sua importância. E diria ainda que o prazer é um dos antídotos mais eficazes que a humanidade descobriu, contra o medo. Nos tempos que correm, quando os marcadores do medo, dispostos a salvar-nos sempre e a qualquer momento dos perigos do mundo, se esforçam por estender o seu discurso sinistro, o prazer apresenta-se-nos como uma arma de resistência estética de primeira ordem».

As palavras são de Juan Carlos Garcia, o coreógrafo, eu não as diria mas sempre quero ver a coreografia que é o que me interessa.

Hoje no Grande Auditório da Fundação Calouste Gulbenkian, 21:00:

BALLET GULBENKIAN
PAULO RIBEIRO (direcção artística)

Paradise Practice
Coreografia: Stijn Celis

Monólogos do Oriente (*)
Coreografia: Rui Horta

O céu pode esperar(*)
Coreografia: Juan Carlos Garcia

(*) Estreia Mundial

Peter McCarey












continuo a preparação da visita à escócia. encontro um poeta nascido em paisley, criado em glasgow e habitante depois de oxford, paris, bradford, leningrado, venafro e geneva. passou pela áfrica sub-sahariana, sul da índia e sudoeste asiático. hoje vive em geneva. publicou 'the devil in the driving mirror' e 'tantris'. compôs um silabario com 2000 pequenos textos estranhos que apresentou aleatoriamente num ecrã e depois publicou em cd-rom (2001) e em livro na punastic press (2002). é uma nova voz da poesia escocesa. e vale a pena ler.

o poema que se segue é dedicado ao blog do mesmo nome, obviamente.

sous les pavés - la plage












the urban sunlight comes in the window
staggering up to its knees in sand
banknotes blowing out of its seams
like scarious leaves and carious buildings
shaking dust from my shoes but it cloys,
it clogs for I'm paid to be here

frontiers, harbours, roads, currencies,
crowd control and corpse disposal.

money is busy buying itself up
using what there is for collateral.

light is said to be sculpting itself
with its only sense
of touch.

Peter McCarey

quarta-feira, 17 de março de 2004

biennale of sydney 2004 - I feel, therefore I am


"In Descartes' Error (1995) the neurologist António Damásio analyses several neurological case studies to show that emotion is crucial to human intelligence. In another book, The Feeling of What Happens (1999) he discusses the importance of emotion and feeling in the construction of the self. In Looking for Spinoza (2003) António Damásio elaborates his ideas further.

On Reason and Emotion has at its core an exploration of perception and its borders. There are several complex threads intertwining throughout the exhibition: the balance and connection between human consciousness and physicality; the architecture of the built environment as a parallel anatomy, and conversely that the body is my house (Lygia Clark); and the politics and poetics of human relationships, where communication is a mutual exchange rather than a passing on of information, and thus serves to connect ideas and people rather than become a platform for individual expression.
Rather than the restrictions of the traditional cogito (I think, therefore I am), I am interested in art that creates a bridge between poles - the supposed north/south/mind/body splits. Now one can say that I feel, therefore I am. The project invites the audience to participate in an aesthetic experience using not only their sight, but also all the senses provoking active participation and inciting the emotions. The audience will be challenged to think and feel."

Isabel Carlos, 2003
Curadora da Biennale of Sydney 2004