terça-feira, 4 de maio de 2004

feitoria mágica












senhor feitor,
trago-lhe notícia
da magia
do dia-a-dia
por esta feitoria,
do crescente transformar do pensar em experimentar,
deste quotidiano passar
de seu reino de sonhar
a seus palácios de concreto,
como à ciência compete
criar
criando,
fazer
fazendo,
construir
constuindo,
amar
amando,
no mais ousado plantar de gerúndios
plas ilhas da cidade,
por homens e mulheres com asas,
transformando-a assim
em lugar não só de estar, mas de ser,
não mais só de desejar, mas de ter,
feitoria
da enebriante magia
de podermos ser
humanos sendo,
fazer fazendo,
amar amando,
aprender aprendendo,
responder perguntando,
como à ciência compete.

a hora e a circunstância, maria de sousa.
(poemas com cadenzas de agostinho da silva)
gradiva, 1988.

segunda-feira, 3 de maio de 2004

sete












sete são as casas em que contámos as labaredas. sete vezes ardemos nas páginas de sete poetas sete. sete são as voltas e os dias em que te procuro sem tempo. sete são os mares que nos levaram e nos trouxeram. sete são as praias se tu quiseres...

cam*















quando desapareceu o último porto de abrigo
refugiei-me no lugar comum da tristeza
a fechar feridas antigas a perdoar traições
talvez um dia possa tentar tudo de novo
com o despudor de todos os recomeços.

in a realidade inclinada, carlos alberto machado.
averno, 2003.

*não foi abril porque faltaram as tuas palavras,
maio não começa sem ti.

56














aquilo que era indispensável
já não é --
preferível a chuva
por detrás do espelho
dentro do poema.

giánnis ritsos, 1978.

domingo, 2 de maio de 2004

morremos dela












(...) só é seguro que a pergunta, a procura, o poema reincidente, cristalizam numa grande massa translúcida, um bloco de quartzo. talvez seja tranquilizador quando olhado defronte, ali, no chão, do tamanho da casa: parece nascer ininterruptamente. a luz vem de dentro, funda e aguda luz terrestre. excretou-se de nós, a massa cristalina, fundimo-nos nela, carne da nossa carne, casa da nossa casa. e na hora do apocalipse biográfico, quando as águas envolverem a história, a vida, a obra da obra, veremos tudo: morremos daquilo, levados para o abismo pelo irrevocável peso extraído, um peso maior que os trabalhos e os dias. e quem sabe se não veremos então, através do cristal regular, limpidamente, a enfim aplacada confusão do mundo? isto é uma pergunta, agora. alimentamo-nos dela, também nos alimentamos dela. aquilo que fazemos, oh sim, é isso que nos faz e desfaz, a vida que fazemos, a nossa vida em pergunta telepática. morremos dela.

herberto helder: entrevista.
inimigo rumor (nº11), 2º semestre 2001.

ainda













ainda as tuas mãos, ainda o teu carinho, ainda as palavras, ainda o mesmo de sempre. duas vezes, como sempre.

sexta-feira, 30 de abril de 2004

o lugar das palavras












subiremos, sacerdotisa, as escadas do teu templo.

convento












vi da janela da minha fábrica a chegada dos homens sérios ao convento. recordei as tuas palavras antigas, para sempre na memória do anfiteatro. desta vez eram homens e os homens não choram e tu, provavelmente, não estavas lá.

o síndrome de stendhal


















do Gr. syndromé, concurso. s. f., tontura, pânico, paranóia ou loucura causada pelo facto de ver certas obras artísticas ou objectos históricos ou ainda por tentar ver várias relíquias num curto espaço de tempo. na toscânia chamam síndrome de stendhal pelo facto do escritor do século XIX ter escrito acerca da desorientação de certos turistas quando se viram pela primeira vez à frente das obras do renascimento italiano. de facto, em 1817, o jovem marie-henri beyle (stendhal), visitou florença e rapidamente se sentiu fascinado com a riqueza artística e histórica da cidade. cento e sessenta anos depois, a dra graziella magherini, chefe de psiquiatria do hospital de santa maria nuova em florença, confirma o estado de loucura moderada de alguns turistas que pode durar vários dias. idênticas observações são relatadas em jerusalém, onde o peso da cidade santa resulta na vertigem, tontura ou amnésia temporária.

quase todos nos sentimos esmagados de quando em quando. apenas diferimos nos estímulos.

terça-feira, 27 de abril de 2004

se um dia no teu caminho












li poemas do antigo egipto. sinto-me ridiculo depois de ler textos dos séculos X a XVI a.C. percorro o diário de cesare pavese de 1935 a 1950. sinto-me com sorte por não ter uma tina na minha vida. se um dia no teu caminho encontrares poemas meus, não acredites neles. eu vou bem e a literatura é por definição um lugar triste. o resto sim, é a vida, por mais que ela se esconda dos livros malditos a que não resistimos.

domingo, 25 de abril de 2004

testamento














disse: creio na poesia, no amor e na morte,
e por isso mesmo creio na imortalidade. escrevo um verso,
escrevo o mundo; existo; existe o mundo.
da ponta do meu dedo mínimo corre um rio.
o céu é sete vezes azul. esta pureza
é de novo a primeira verdade, a minha última vontade.

giánnis ritsos: antologia.
fora do texto, 1993.

abril












diz-me o jornal que é abril. olho lá para fora e ainda não é abril. sei que parece abril. há pouco, quando ouvia a oratória paulus de mendelssohn no ccb, parecia abril na fila da frente. lado a lado, o director geral de uma multinacional e um reformado da lisnave. mas ainda não é abril, ainda falta abril.

quinta-feira, 22 de abril de 2004

R












aceno ao longe quando a vejo dançar na praia. absorta no ritual em frente a um mar de palavras, parece surpreendida. durante algum tempo, uma qualquer lua que não conheço desgovernou as marés e secaram as palavras. voltam agora. como sempre, como dantes, diria o camané. gosto daquele lugar e da assinatura na areia que a sua dança oferece à praia.

quarta-feira, 21 de abril de 2004

quíron









saber da dor e não poder aproveitar esse conhecimento para proveito próprio. ser imortal e doar a imortalidade para parar o sofrimento. cumprir sem justiça a pena dos seus por a eles pertencer. refiro quíron, o filho de apolo e artemisia, rei dos centauros e curador sábio. como se não bastasse ser filho de uma nuvem, ser educado por apolo e artemísia.

segunda-feira, 19 de abril de 2004

noites brancas




da fábrica onde trabalho vejo algumas janelas de um edifício esverdeado onde poderá estar andré bonirre. há duas semanas que penso em procurá-lo para, a propósito de qualquer coisa que me ocorra como boa razão, espreitar o castor garimpeiro. a questão é que são já várias as noites que passo em branco procurando a página 36 de um livro de dostoievski. procurei várias edições e não tenho a certeza de ter encontrado aquela que o castor referiu. tenho de tirar isto a limpo antes de ficar com olheiras empedernidas.

margens da melancolia












um destes dias fugi perigosamente para a beira do rio. nas margens da melancolia tenho momentos em que te traio e te fujo como nunca o faço. como naquele dia em que falei com uma pessoa estranha, só podia ser uma pessoa estranha, e falámos de banalidades como a idade ou as casas. tenho tanto medo dessas fugas. nesses momentos falta-me a literatura portátil e faço disparates. sinto que aceitava qualquer proposta que me prometesse um canto sossegado e os clássicos gregos para ler em paz. e é tão perigoso tudo isso...

o amor mais bonito












ela dele presa e ele dela cativo. a quinta do pombal num bosque de loureiros, agora com golf e spa, aqui tão perto. o diogo lopes pacheco a quem só faltava um amor. e tu poeta maior que nesse verão de 73 nos destes tantas alegrias das margens da consolação. fazes-nos falta.

sexta-feira, 16 de abril de 2004

arqueologia












descubro na minha memória os momentos em que esperavas num quarto cheio de folhas amarrotadas com planos de filmes por realizar.
agora, outro brilho, o dos teus olhos, deve estar espalhado pelo universo em forma de ruído microondas, arrefecendo e ficando mais longe, ao contrário do que acreditam os astrofísicos...

rituelen












foi uma desatenção que nos levou pelo canal maior e assim nos fez passar ao lado de utrech. quando retomámos os canais mais estreitos, e mais interessantes, encontrámos um casal interessantíssimo. ele lia rituelen de nooteboom, decerto a primeira edição de 1980, e ela qual personagem de vermeer distraía o jardim e o canal. os seus suspiros não afectavam a leitura dele. o silêncio dele não perturbava a festa dela.

fashion weekend
















- onde vamos celebrar o trigésimo aniversário?
- não sei bem o que me apetece...
- talvez paris?
- não, é muito cartier bresson.
- como assim?
- vá lá, evolui.

quinta-feira, 15 de abril de 2004

caminhos do cinema português


Agostinho da Silva - Um Pensamento Vivo de João Rodrigo Mattos,
Preto e Branco de José Carlos de Oliveira,
A Favor da Claridade de Teresa Villaverde,
O Fascínio de José Fonseca e Costa,
A Passagem da Noite de Luís Filipe Rocha,
Daqui P’rá Alegria de Jeanne Waltz,
Um Filme Falado de Manoel de Oliveira,
Nós de Cláudia Tomaz,
Vai e Vem de João César Monteiro,
I’ll See You in my Dreams de Miguel Angél Vivas,
Os Imortais de António-Pedro Vasconcelos,
Ana Hatherly - A Mão Inteligente de Luís Alves de Matos

e muitos outros no tagv, 17 a 24 de abril.

avatares do diabo (do mal o menos)











que o pedro mexia não ligue ao mal no seu dicionário do diabo ainda vá, agora que não inclua arundhati roy, condoleeza rice e halle berry no seu painel é indecente.

projecções









recuso uma teoria que afirma que nas nossas críticas apontamos o nosso lado mais escuro nas outras pessoas. como explicar que o desprezo pela estupidez, pela boçalidade ou pela nacional "chica-espertice" pode ter origem no melhor que temos e não no seu contrário?

terça-feira, 13 de abril de 2004

testamento












quando eu me for embora, meu amor
quero que digas:
"bom dia, bom dia meu amor!"

quero que fiques só numa sala e digas:
"vem ver como o mundo se reinventou"

que não vás à janela dizer adeus,
apenas sussurres no escuro:
"enquanto tu domias...

enquanto tu dormias..."

alter anima












depois de ti. depois da praia. depois de anima mundi de maria do rosário pedreira. outro sim.

segunda-feira, 12 de abril de 2004

mistério da fé












sei como se faz uma casa mas não sei como se lê um livro nem como se partilha. sei que nesta páscoa não pensaste no capelão de louis neuville. sei que camus não faz parte desta época. e a minha era a tua casa quando nos lembraste. eu sei que sim.

quarta-feira, 7 de abril de 2004

calíope












quero que me leves, calíope. que não me deixes escrever. que possa apenas ver no teu rosto a serenidade de marmaro, a luz de kouramades ou as cores de gastouri. quero saber pelos teus olhos das palavras dos outros. e que as possa guardar ao lado dos teus beijos.

do sonhar












"andarão os homens e não se mexerão; falarão com quem não está presente; ouvirão quem não fala."

leonardo da vinci, códice atlântico, p362.
biblioteca ambrosiana, milão.

terça-feira, 6 de abril de 2004

bom dia












o primeiro pensamento ao acordar é a mais transparente das visões do que realmente é importante. depois, a prosa delirante, o silêncio ou a contemplação do mundo não são mais reais e verdadeiros que aquele instante onde os sonhos que ainda tomam contam de nós nos dizem segredos. os dias perfeitos vão por aqui.

visto de perto










tu corres a meu lado
na direcção contrária.
qual de nós irá chegar
primeiro à solidão.

o sino de areia, josé miguel silva.
gilgamesh, 1999.

quarta-feira, 31 de março de 2004

nooteboom para sena













passo a minha mao pela tua cabeça
recurvamente, atentamente, e só com dedos brandos,
olhando-a como passa e vendo onde passou.

quero tanto saber o que tu pensas.

(apreender, jorge de sena)

(...)
e a cabeça, tão longe por cima dele,
apenas ainda reconhecível
como a máscara de caos e origem,
desvia-se das linhas,

diz no seu respirar
a cadência do pensar
e fecha o poema
com um suspiro.

(small-bang, cees nooteboom)

terça-feira, 30 de março de 2004

operária 2













hoje cometi uma loucura
na hora combinada faltou-me o transistor
faltou-me a cabine no penedo
desesperei
foi assim que saí da frente das máquinas
e assaltei o sistema de som da fábrica.
todos ouviram a alexandra e os polacos
e passearam pelo campo di fiori
e riram

o senhor josé perguntou se era a missa
e eu respondi
não senhor josé, podia ser mas não é
e ele disse
outro fim do mundo não haverá

e agora não sei o que foi verdade
talvez górecki

sabor a ti












durante uns anos a minha cozinha foi uma sala estranha. transformada primeiro em biblioteca das insónias e confessionário da melancolia, foi por fim uma divisão descuidada da casa. voltei ontem para preparar uma massa chinesa e, na primeira hesitação sobre a escolha das especiarias, resolvi voltar de vez: a selecção das receitas, as compras apuradas, as lojas do gourmet ou as mercearias finas. aceitam-se sugestões.

segunda-feira, 29 de março de 2004

a comuna de pitões das júnias











na quarta-feira (31) pelas 18:30 o autor de 'eis o amor a fome e a morte' (cotovia, 1999) vai estar no café teatro do tagv a convite de antónio augusto barros. a escola da noite faz leituras do autor de teatro, romance e poesia.

a casa












guardo as roupas numa mala pequena. arrumo os livros devagar e começo a despedir-me dos restos de música das paredes e das noites em que chamei manhãs que não vieram. não sei como vou levar as sombras onde guardei as receitas dos dias felizes.

'uma compogixão imobilijada na noxa frente'












no comboio descendente perdemos a luz a seguir a alfarelos. mais à frente, o comandante e a sua tripulação atendem ao nosso pedido metafísico e recuamos. mudamos de linha. herman melville tem assim tempo de acabar de contar a sua história antes de chegar à catedral de calatrava. ainda me pareceu ouvir um resmungar vindo da outra linha: 'preferia não o fajer'.

audience












eu queria escrever com sumo de limão quando tinha uma mão cheia de palavras. depois queria um código que só tu decifrasses. agora que coloco na praça pública a arquitectura de néon, onde estás tu que não te sinto?

quarta-feira, 24 de março de 2004

o multipleto de monterey












invejei o jantar de cambridge com snow, turing, haldane, schrödinger e wittgenstein. mas aquele era a ficção de john l. casti em 'o quinteto de cambridge - um trabalho de especulação científica'. aí se falava do dominio das máquinas e da inteligência artificial. agora invejo um jantar de verdade: o jantar dos bilionários em monterey. a nova 'máfia' representada por pessoas associadas à ted, amazon.com, wired, google, new york times, cbs news, mit, ebay, discover, msnbc, wall street journal, nerve, vanity fair, e por aí fora. juntar à mesma mesa alan guth, lenny susskind, paul steinhardt, seth lloyd, steve strogatz, mike csikszentmihalyi, nancy etcoff, marty seligman ou dan gilbert, parece uma mistura explosiva. durante umas horas monterey foi a capital do mundo. de um certo mundo. talvez de um mundo imaginado. por isso invejo os presentes.

jemima stehli e as pernas gordas


o dia parecia correr bem. rever a sofia. encontrar finalmente a insensatez. o café santa cruz no meio de um sábado de semana inglesa. a presença ainda mística de andré bonirre. depois, a visita ao centro de artes visuais. o luís que chega e chama a atenção para o 'strip' de jemima stehli: o convite a homens escritores e críticos para (se) fotografarem com a artista. perfeito. tudo a correr bem até ao momento em que num claustro o luís tira do bolso um recorte de revista (seria a la redoute?) e mostra a rapariga das pernas gordas. depois não recuperei. em vão a doçura do ponto negro que nos ilumina. em vão o extraordinário avatar que nos enviaram para tudo destruir e criar uma vida nova. em vão a serenidade e a sábia postura do castor. ainda tentei fugir para o navio de espelhos que a alexandra aconselhava. em vão. não sei se vou recuperar. se fosse agora eu a sentar-me à frente de jemima não disparava nunca. nenhuma fotografia depois.