sexta-feira, 28 de maio de 2004

reconstruir o mundo












hoje queria ler um livro que pudesse não ser um livro
sozinho numa sala que pudesse ser lado nenhum.

nadir












olhos nos olhos perguntei-lhe o que vinha depois. falou-me de sonhos e de preces. refugiou-se no seu mundo mantendo uma confortável distância de segurança. repeti a pergunta e seguiu-se o embaraço previsivel. abandonei a sala e comentei para mim:
- é aqui o nadir?

segunda-feira, 24 de maio de 2004

helena de teichio


helena nasceu em teichio, uma vila de montanha isolada na região roumeli no coração da grécia. aí aprendeu a música do vento, da chuva nos telhados, das quedas de água. aprendeu o canto dos rouxinóis e o silêncio da neve. em dias de festa, encantava-se com o eco das flautas e dos clarinetes nas montanhas vizinhas. depois a família mudou-se para atenas e helena descobriu os automóveis, a electricidade, a rádio e o cinema. por um acaso, a nova casa ficava ao lado de um cinema de ar livre e que ela via da janela do seu quarto.
no cinema (mais que isso, num cinema debaixo do céu) e no piano helena descobria aos oito anos as paixões da sua vida.

em 1967 a junta expulsou-a da grécia e helena viveu em paris até 1974. de volta a casa, helena ouviu places de jan garbarek em 1977. vinte e um anos depois o norueguês toca com helena a valsa de beekeeper para o filme de theo angelopoulos.


eleni karaindrou, music for films.
ecm,1991.

domingo, 23 de maio de 2004

hoje não estou nem para leo vast












não. hoje não escrevo nada. tenho sono. muito sono. talvez escreva amanhã sobre o dia de hoje e sobre a leitura em são martinho do porto: a máquina de joseph walser. e sobre a prateleira onde guardei este meu primeiro gonçalo m. tavares. sobre a companhia de wakefield de hawthorne e bartleby de melville. mas hoje não. hoje não escrevo. amanhã conversamos.

quinta-feira, 20 de maio de 2004

piano












há muito que perdi o interesse pela profundidade. de rodin e moore não queria mais do que o equivalente ao chiaroscuro. não me interessa essa terceira dimensão que não reune nada que verdadeiramente necessite. viveria agradavelmente nas páginas de um livro ou mesmo num quadro. sonho ainda em viver dentro de uma melodia, que dimensão terá? permanece a dúvida: em que páginas, em que tela ou em que sons?

da razão e da emoção












do outro lado do mundo isabel anda numa roda viva. a curadora da biennale de sydney 2004 prepara a abertura para 4 de junho. aparecem os primeiros anúncios. o subversivo lim tzay chuen, convidado a participar no evento, arranja uma dor de cabeça para isabel. a sua proposta: fazer um concurso com o público para preencher a artspace gallery 1. os concorrentes terão de comprar o maior número de catálogos da exposição, devem rasgar a página com o ensaio introdutório de isabel e apresentarem-se no dia 5 de junho depois das 10 horas da manhã com as páginas rasgadas. o vencedor será anunciado pelas 9 da noite e terá direito a: ocupar o referido espaço, 4000 dólares australianos e uma estadia de 4 noites num hotel de sydney. o que o vencedor fará com o dinheiro e com o espaço é com ele (vencedor). toda a gente pode concorrer.
após negociações, que se imaginam emotivas, isabel deu razão a lim. faça-se. venha um desconhecido completo para a biennale.

a outra senhora












seja para que lado fôr que me vire, lá está ela: a velha senhora. os novos castigam-se com coisas velhas. porque sim. nada viram mas sentem. eles que não sabem sequer definir com rigor a dita. não tenho dúvidas. estamos definitivamente no tempo da outra senhora.

quarta-feira, 19 de maio de 2004

um homem menos um homem














tenho perseguido um homem
de quem fujo
na próxima esquina
confundo-me com o exército vlassov.

segunda-feira, 17 de maio de 2004

mr lowercase













agora os ouvidos dos meus ouvidos acordam e
agora os olhos dos meus olhos estão abertos


verso de e.e.cummings
(now the ears of my ears awake and
now the eyes of my eyes are opened)

never ending dream













nós a lermos os livrinhos das edições 2 luas de paulinho assunção. eu a ouvir as 12 luas de garbarek no ccb (14.05.2004). todos no lux a ouvirem yen sung (15.05.2004). nosotros chorando no teatro villamarta em jerez de la frontera com a voz de chavela vargas (22.05.2004). eu a maldizer os concertos de keith jarrett no palau de la musica para o forum de barcelona 2004 (21.06.2004 e 13.07.2004).

sexta-feira, 14 de maio de 2004

nesta última tarde em que respiro*












pudesse num adeus ir o mundo todo
e dir-te-ia que foi roubada a palavra seguinte
ágrafa como a beira das nossas noites
e presa para sempre
como o poema que não ousámos sequer escrever

*verso de antónio franco alexandre

garbarek no ccb












ouvi pela primeira vez o sax tenor de jan garbarek numa républica da alta de coimbra. depois corri durante muito tempo à adelina da novalmedina em busca dos ecm importados. tornou-se um vício e a família julgava-me sem remédio.

ouvi tudo o que pude:

sart, triptycon, witchi-tai-to, dansere, dis, places, mágico, afterland, folksongs, eventyr, wayfarer, it's ok to listen to the gray voice, all those born with wings, legend of the seven dreams, i took up the runes, ragas and sagas, twelve moons, madar, officium, visible world, rites, belonging, solstice, arbour zena, my song, sol do meio dia, nude ants, personal mountains, making music, rosensfole, music for films ou caris mere.

a solo ou com keith jarrett, gismonti, jon christensen, bobo stenson, palle danielsson, ralph towner, jack dejohnette, eberhard weber, charlie haden, john abercrombie, nana vasconcelos, bill frisell, michael dipasqua, manu katché, ustad fateh ali khan, ustad nazim ali khan, zakir hussan ou agnes buen garnas.

coleccionei rodelas pretas e depois cd's. li os melhores livros ao som de garbarek. fiquei em silêncio noites inteiras ouvindo garbarek.

garbarek, daqui a pouco no ccb.

quinta-feira, 13 de maio de 2004

cirílico












não compreendo o teu olhar. compreendo o postigo no meio da rua, reconheço o lada de vários filmes mas, não compreendo o teu olhar.

a terra sobretudo











quem como nós na curva de céus vários pressentiu
(em céus de boca e ares)
que os elementos, de si, nunca se encontram diz:

a água não amaina; o fogo nas queimadas,
nas lajes do lar
não nos sacia; o ar não cria
a vibração das folhas - esta é a nudez;

na terra, sobretudo sente-se: as suas casas, as traves
que as sustêm, desfalecem.
quem as habita parado, quem como nós vivo
diz: a fome é hostil,
o homem movimenta-se impaciente,
o seu desejo ocupa a sua vida.

in vértice nº 286, fiama hasse pais brandão.

enquanto não escrevi, o que escrevi eu?












escrever é tentar saber o que escreveríamos se escrevêssemos

marguerite duras

quarta-feira, 5 de maio de 2004

f...










alizon gray, enamel on canvas.

permaneci imóvel
lendo as tuas palavras,
repetindo as histórias,
reconhecendo as cores,
os aromas e o desperdício
das manhãs em que podem acabar os sonhos.

respondi depois,
tarde como sempre...

terça-feira, 4 de maio de 2004

feitoria mágica












senhor feitor,
trago-lhe notícia
da magia
do dia-a-dia
por esta feitoria,
do crescente transformar do pensar em experimentar,
deste quotidiano passar
de seu reino de sonhar
a seus palácios de concreto,
como à ciência compete
criar
criando,
fazer
fazendo,
construir
constuindo,
amar
amando,
no mais ousado plantar de gerúndios
plas ilhas da cidade,
por homens e mulheres com asas,
transformando-a assim
em lugar não só de estar, mas de ser,
não mais só de desejar, mas de ter,
feitoria
da enebriante magia
de podermos ser
humanos sendo,
fazer fazendo,
amar amando,
aprender aprendendo,
responder perguntando,
como à ciência compete.

a hora e a circunstância, maria de sousa.
(poemas com cadenzas de agostinho da silva)
gradiva, 1988.

segunda-feira, 3 de maio de 2004

sete












sete são as casas em que contámos as labaredas. sete vezes ardemos nas páginas de sete poetas sete. sete são as voltas e os dias em que te procuro sem tempo. sete são os mares que nos levaram e nos trouxeram. sete são as praias se tu quiseres...

cam*















quando desapareceu o último porto de abrigo
refugiei-me no lugar comum da tristeza
a fechar feridas antigas a perdoar traições
talvez um dia possa tentar tudo de novo
com o despudor de todos os recomeços.

in a realidade inclinada, carlos alberto machado.
averno, 2003.

*não foi abril porque faltaram as tuas palavras,
maio não começa sem ti.

56














aquilo que era indispensável
já não é --
preferível a chuva
por detrás do espelho
dentro do poema.

giánnis ritsos, 1978.

domingo, 2 de maio de 2004

morremos dela












(...) só é seguro que a pergunta, a procura, o poema reincidente, cristalizam numa grande massa translúcida, um bloco de quartzo. talvez seja tranquilizador quando olhado defronte, ali, no chão, do tamanho da casa: parece nascer ininterruptamente. a luz vem de dentro, funda e aguda luz terrestre. excretou-se de nós, a massa cristalina, fundimo-nos nela, carne da nossa carne, casa da nossa casa. e na hora do apocalipse biográfico, quando as águas envolverem a história, a vida, a obra da obra, veremos tudo: morremos daquilo, levados para o abismo pelo irrevocável peso extraído, um peso maior que os trabalhos e os dias. e quem sabe se não veremos então, através do cristal regular, limpidamente, a enfim aplacada confusão do mundo? isto é uma pergunta, agora. alimentamo-nos dela, também nos alimentamos dela. aquilo que fazemos, oh sim, é isso que nos faz e desfaz, a vida que fazemos, a nossa vida em pergunta telepática. morremos dela.

herberto helder: entrevista.
inimigo rumor (nº11), 2º semestre 2001.

ainda













ainda as tuas mãos, ainda o teu carinho, ainda as palavras, ainda o mesmo de sempre. duas vezes, como sempre.

sexta-feira, 30 de abril de 2004

o lugar das palavras












subiremos, sacerdotisa, as escadas do teu templo.

convento












vi da janela da minha fábrica a chegada dos homens sérios ao convento. recordei as tuas palavras antigas, para sempre na memória do anfiteatro. desta vez eram homens e os homens não choram e tu, provavelmente, não estavas lá.

o síndrome de stendhal


















do Gr. syndromé, concurso. s. f., tontura, pânico, paranóia ou loucura causada pelo facto de ver certas obras artísticas ou objectos históricos ou ainda por tentar ver várias relíquias num curto espaço de tempo. na toscânia chamam síndrome de stendhal pelo facto do escritor do século XIX ter escrito acerca da desorientação de certos turistas quando se viram pela primeira vez à frente das obras do renascimento italiano. de facto, em 1817, o jovem marie-henri beyle (stendhal), visitou florença e rapidamente se sentiu fascinado com a riqueza artística e histórica da cidade. cento e sessenta anos depois, a dra graziella magherini, chefe de psiquiatria do hospital de santa maria nuova em florença, confirma o estado de loucura moderada de alguns turistas que pode durar vários dias. idênticas observações são relatadas em jerusalém, onde o peso da cidade santa resulta na vertigem, tontura ou amnésia temporária.

quase todos nos sentimos esmagados de quando em quando. apenas diferimos nos estímulos.

terça-feira, 27 de abril de 2004

se um dia no teu caminho












li poemas do antigo egipto. sinto-me ridiculo depois de ler textos dos séculos X a XVI a.C. percorro o diário de cesare pavese de 1935 a 1950. sinto-me com sorte por não ter uma tina na minha vida. se um dia no teu caminho encontrares poemas meus, não acredites neles. eu vou bem e a literatura é por definição um lugar triste. o resto sim, é a vida, por mais que ela se esconda dos livros malditos a que não resistimos.

domingo, 25 de abril de 2004

testamento














disse: creio na poesia, no amor e na morte,
e por isso mesmo creio na imortalidade. escrevo um verso,
escrevo o mundo; existo; existe o mundo.
da ponta do meu dedo mínimo corre um rio.
o céu é sete vezes azul. esta pureza
é de novo a primeira verdade, a minha última vontade.

giánnis ritsos: antologia.
fora do texto, 1993.

abril












diz-me o jornal que é abril. olho lá para fora e ainda não é abril. sei que parece abril. há pouco, quando ouvia a oratória paulus de mendelssohn no ccb, parecia abril na fila da frente. lado a lado, o director geral de uma multinacional e um reformado da lisnave. mas ainda não é abril, ainda falta abril.

quinta-feira, 22 de abril de 2004

R












aceno ao longe quando a vejo dançar na praia. absorta no ritual em frente a um mar de palavras, parece surpreendida. durante algum tempo, uma qualquer lua que não conheço desgovernou as marés e secaram as palavras. voltam agora. como sempre, como dantes, diria o camané. gosto daquele lugar e da assinatura na areia que a sua dança oferece à praia.

quarta-feira, 21 de abril de 2004

quíron









saber da dor e não poder aproveitar esse conhecimento para proveito próprio. ser imortal e doar a imortalidade para parar o sofrimento. cumprir sem justiça a pena dos seus por a eles pertencer. refiro quíron, o filho de apolo e artemisia, rei dos centauros e curador sábio. como se não bastasse ser filho de uma nuvem, ser educado por apolo e artemísia.

segunda-feira, 19 de abril de 2004

noites brancas




da fábrica onde trabalho vejo algumas janelas de um edifício esverdeado onde poderá estar andré bonirre. há duas semanas que penso em procurá-lo para, a propósito de qualquer coisa que me ocorra como boa razão, espreitar o castor garimpeiro. a questão é que são já várias as noites que passo em branco procurando a página 36 de um livro de dostoievski. procurei várias edições e não tenho a certeza de ter encontrado aquela que o castor referiu. tenho de tirar isto a limpo antes de ficar com olheiras empedernidas.

margens da melancolia












um destes dias fugi perigosamente para a beira do rio. nas margens da melancolia tenho momentos em que te traio e te fujo como nunca o faço. como naquele dia em que falei com uma pessoa estranha, só podia ser uma pessoa estranha, e falámos de banalidades como a idade ou as casas. tenho tanto medo dessas fugas. nesses momentos falta-me a literatura portátil e faço disparates. sinto que aceitava qualquer proposta que me prometesse um canto sossegado e os clássicos gregos para ler em paz. e é tão perigoso tudo isso...

o amor mais bonito












ela dele presa e ele dela cativo. a quinta do pombal num bosque de loureiros, agora com golf e spa, aqui tão perto. o diogo lopes pacheco a quem só faltava um amor. e tu poeta maior que nesse verão de 73 nos destes tantas alegrias das margens da consolação. fazes-nos falta.

sexta-feira, 16 de abril de 2004

arqueologia












descubro na minha memória os momentos em que esperavas num quarto cheio de folhas amarrotadas com planos de filmes por realizar.
agora, outro brilho, o dos teus olhos, deve estar espalhado pelo universo em forma de ruído microondas, arrefecendo e ficando mais longe, ao contrário do que acreditam os astrofísicos...

rituelen












foi uma desatenção que nos levou pelo canal maior e assim nos fez passar ao lado de utrech. quando retomámos os canais mais estreitos, e mais interessantes, encontrámos um casal interessantíssimo. ele lia rituelen de nooteboom, decerto a primeira edição de 1980, e ela qual personagem de vermeer distraía o jardim e o canal. os seus suspiros não afectavam a leitura dele. o silêncio dele não perturbava a festa dela.

fashion weekend
















- onde vamos celebrar o trigésimo aniversário?
- não sei bem o que me apetece...
- talvez paris?
- não, é muito cartier bresson.
- como assim?
- vá lá, evolui.

quinta-feira, 15 de abril de 2004

caminhos do cinema português


Agostinho da Silva - Um Pensamento Vivo de João Rodrigo Mattos,
Preto e Branco de José Carlos de Oliveira,
A Favor da Claridade de Teresa Villaverde,
O Fascínio de José Fonseca e Costa,
A Passagem da Noite de Luís Filipe Rocha,
Daqui P’rá Alegria de Jeanne Waltz,
Um Filme Falado de Manoel de Oliveira,
Nós de Cláudia Tomaz,
Vai e Vem de João César Monteiro,
I’ll See You in my Dreams de Miguel Angél Vivas,
Os Imortais de António-Pedro Vasconcelos,
Ana Hatherly - A Mão Inteligente de Luís Alves de Matos

e muitos outros no tagv, 17 a 24 de abril.

avatares do diabo (do mal o menos)











que o pedro mexia não ligue ao mal no seu dicionário do diabo ainda vá, agora que não inclua arundhati roy, condoleeza rice e halle berry no seu painel é indecente.

projecções









recuso uma teoria que afirma que nas nossas críticas apontamos o nosso lado mais escuro nas outras pessoas. como explicar que o desprezo pela estupidez, pela boçalidade ou pela nacional "chica-espertice" pode ter origem no melhor que temos e não no seu contrário?

terça-feira, 13 de abril de 2004

testamento












quando eu me for embora, meu amor
quero que digas:
"bom dia, bom dia meu amor!"

quero que fiques só numa sala e digas:
"vem ver como o mundo se reinventou"

que não vás à janela dizer adeus,
apenas sussurres no escuro:
"enquanto tu domias...

enquanto tu dormias..."

alter anima












depois de ti. depois da praia. depois de anima mundi de maria do rosário pedreira. outro sim.

segunda-feira, 12 de abril de 2004

mistério da fé












sei como se faz uma casa mas não sei como se lê um livro nem como se partilha. sei que nesta páscoa não pensaste no capelão de louis neuville. sei que camus não faz parte desta época. e a minha era a tua casa quando nos lembraste. eu sei que sim.

quarta-feira, 7 de abril de 2004

calíope












quero que me leves, calíope. que não me deixes escrever. que possa apenas ver no teu rosto a serenidade de marmaro, a luz de kouramades ou as cores de gastouri. quero saber pelos teus olhos das palavras dos outros. e que as possa guardar ao lado dos teus beijos.

do sonhar












"andarão os homens e não se mexerão; falarão com quem não está presente; ouvirão quem não fala."

leonardo da vinci, códice atlântico, p362.
biblioteca ambrosiana, milão.