quinta-feira, 24 de junho de 2004

circadiano












um dia num edifício de salas com distintas leis naturais. à semelhança do cubo e do hipercubo, procuro a lógica para sair. perdido, volto a divisões que não distingo. em cada divisão deixo palavras e imagens. quando volto a elas, estão recados e silêncios para decifrar. num dia que se repete desigual.

quarta-feira, 23 de junho de 2004

abraçadosnós












festejar o santo de hoje com palavrasabraçadas. chamar a um movimentodança uma nova noite. pensar em lercontigo as páginas que nos esperavam no correio do fim da tarde. adormecer folheando os teus cabelos e guardar na memória um futurosemsaudades.

terça-feira, 22 de junho de 2004

posologia possível












salto de palavra em palavra na frase que nos separa.
tropeço nos ii, caio nos hh, descanso nos jj, gasto as últimas forças para subir os ll, quase desmaio nos uu, tomo cuidado com os vv e equilibro-me finalmente nos xx.
e tudo isso não chega. ainda sobra frase entre as nossas bocas e não nos beijamos.
escrevo a experiência e procuro saber o que aprendo.
muito pouco. quase nada mas, vou continuando a tomar o mundo em colheres pequenas.

segunda-feira, 21 de junho de 2004

a utopia de juno












juno doran acredita num mundo imaginado. reza para ver o casamento perfeito entre a tecnologia e a natureza ou, de outro modo, entre o homem-máquina e a floresta amazónica.
as utopias são assim. tudo o que desejar a mulher de zeus.
o verde percebo, mas porquê o cinzento?

domingo, 20 de junho de 2004

is it tomorrow yet?












saber como usar o tempo na arte. na vida tratamos mal o tempo em circunstâncias diversas. quando não sabemos esperar ou quando esperamos e não sabemos como dizia o poeta. viver com o tempo e sem tempo. agora que tudo é tão rápido. agora que sobra tanto tempo. anoto as vezes em que a falta de tempo não desculpa. anoto as vezes em que não demos tempo.

quinta-feira, 17 de junho de 2004

bloemschikken












somos plantados como tulipas que, de repente, arrancados como bolbos à terra, se demoram em caixas (protegidos).
tarda esse nosso outubro, tão distante, em que nos devolvemos num abraço telúrico.

quarta-feira, 16 de junho de 2004

capítulo seguinte






untitled (hand anatomy),
jean-michel basquiat, 1982.







tenho ao fundo dos braços
a memória de joseph walser
à espera ainda do afago
das margens das tuas palavras


segunda-feira, 14 de junho de 2004

blur












dizes-me meu amor: "vivemos cercados de eternidade e não temos tempo". e assim passamos ao lado de tudo guardando não mais que um efeito blur. o damásio diz que as imagens dos objectos e dos acontecimentos, e ainda as palavras ou as frases que os referem, nos ocupam quase toda a nossa memória. talvez tenha razão e, talvez avancem ainda pelos nossos sentimentos e emoções. mas não quardamos nada de muito nítido quando nos preparamos para adormecer.
a representação mais próxima desse túnel pré-narcótico encontrei-a no museu do chiado. captar a presença humana no efeito blur é a pretensão de gerhard richter.
o josé bragança de miranda sabe mais disso com certeza. sei que ele estará neste momento a usar o alemão para um programa de doutoramento.
e eu, que pouco mais sei do que das máquinas da minha fábrica, para aqui a falar de arte contemporânea...

domingo, 13 de junho de 2004

uma ilha deserta não é uma ilha deserta












o babelia de ontem publica uma crónica do argentino césar aira em volta da pergunta "que livro levaria para uma ilha deserta?". a resposta terá interesse para revelar essa metáfora que é o próprio leitor. ele sim, uma ilha deserta densamente povoada. aira mostra como qualquer fantasia de povoamento da ilha seria frustrada. não se pode levar um só livro, sob pena de detestá-lo por falta da companhia de uma estante cheia de livros. nem uma colecção de obras completas. uma biblioteca morreria por não poder crescer. não se reproduziria por falta de outras para se comparar ou namorar. a falta de livrarias ou de carteiro, deixando assinaturas e livros regularmente, mataria qualquer biblioteca de igual modo. e por fim faltaria sempre o mundo como observatório observado. faltaria o mundo para aprender e compreender e, diria eu, um mundo real para imaginar mais mundos.
afinal, a pergunta ajuda apenas a povoar, a estender essa ilha deserta até à nossa dimensão.
humana, a metáfora, como lhe chama aira.

sexta-feira, 11 de junho de 2004

do outro lado do rio












do outro lado do rio há um festival sem subsidio do icam que se rende a ettore scola e ao cinema húngaro, mostra o último andrzej wajda, o comandante de oliver stone e sonny de nicholas cage.
do outro lado do rio esteve o fruto da paixão de maarten treurniet, charlotte de ulrike von ribbeck e queijo e marmelada de branko djuric.
na praia, do outro lado do rio, esteve muita gente agitando bandeiras de todos os tipos e cores.

quinta-feira, 10 de junho de 2004

forecast












sei que um de nós percorre um labirinto que o outro nem sequer encontra. foi assim de todas as vezes. e, de todas as vezes nos encontrámos mais à frente. um de nós olha para trás para encontrar o caminho. outro de nós espera com a mesma serenidade de todas as esperas e, vamos alternando os dois personagens numa história que um nós sabe que acaba bem. por vezes, um nós desacredita e o outro mantém o sonho para que possamos acordar.

maria valupi












não conheço maria valupi e uma pesquisa no google não vale a pena. chegaram-me há uns anos alguns poemas seus num livro sem data das edições jornal do fundão. trata-se de uma antologia da poesia feminina portuguesa organizada por antónio salvado. no texto introdutório aos poemas lê-se:

maria valupi é uma poetisa original e injustiça seria não aparecer numa antologia de mulheres-poetas. há no universo poético desta autora um estranho apego à realidade concreta, à existência vivida e experimentada - apego que a coloca numa linha poética muito feminina que poderá ser determinada pelo acolhimento nem sempre sereno dos factos e pela sucessiva revelação dos mesmos factos, transformados em parcelas de um drama íntimo. (...) publicou: "dans le destin", livro de poemas em francês, 1958; "desprevenidas paisagens", 1959; "do disperso do dia", 1967; "amotinação dos poetas", 1967; "songes et témoins", poemas em francês, 1967.

dos nove poemas seus nesta antologia, já copiei "não, não me esperes". deixo agora "ponha-me deus":

ponha-me deus o mundo,
um mundo em qualquer
das mãos;
meus pés bailando sem chão
que, sujeita, não pedi,
não pedirei meu perdão.

and the winner is...













sexta-feira, 4 de junho de 2004

estes estranhos dias












chega zeus a sydney transportando a chama do olimpo.
abre isabel os olhos ao mundo.
ontem, em palavras breves, a parte de cima de uma rapariga anunciava-te isabel.
falou em antónio e ainda de helena, luísa e cecília.
todos aí do outro lado de nós que devoramos quilómetros e não chegamos.
nós afogados em vidinha e pela segunda vez no hemisfério errado.

quinta-feira, 3 de junho de 2004

não, não me esperes aí












não, não me esperes aí,
em nenhuma boca me posso demorar.

não, não me esperes aí,
nem mesmo nas sombras
das sombras da lua ou do luar
onde o meu rosto e o teu rosto
sombras são a querer singrar.

não, não murmures o meu nome
na tua boca viva,
como qualquer flor vermelha
que é logo nada amanhã.

dia claro chegará,
dia claro ou noite branda
em que te hei-de encontrar
e, então, te pedirei:

salva meus cabelos, minha fronte,
minhas mãos... e estes olhos que tanto amei.
salva a minha boca
onde havia tanta mágoa.

guarda-me como na semente se aperta
o que há-de ser algum dia,
talvez possa chegar flor,
talvez possa chegar tua.


maria valupi
desprevenidas paisagens, 1959.

quarta-feira, 2 de junho de 2004

corpus insanus












os seus movimentos denunciam-na a todo o momento. a traição do corpo é difícil de compreender. a expressão corporal não lhe permite a invisibilidade nos instantes em que os super-heróis são verdadeiramente invejáveis. talvez a fluoxetina lhe resolvesse o problema mas, ela era claramente da outra margem. as moçoilas preferem sempre o hipericão.

terça-feira, 1 de junho de 2004

if you dare












desafia-nos agora
que nos desatas no mundo
atreve-nos agora

não digas depois que não fomos
não insinues mais tarde
que era tarde

ouvimos todas as queixas
mas não deixámos de dizer
atreve-te

agora

criancices












maria de sousa comentou o livro "um mundo imaginado" de june goodfield, em que se relata a vida de uma cientista (ana brito, ou seja, a própria maria de sousa), testemunhando a experiência extraordinária de imaginar um mundo que se veio a provar real.

provavelmente, as crianças sonham mundos que não parecem reais. algures ao meio da vida perdem a vontade de os provar verdadeiros. é pena. eu tento não me esquecer disso. entretanto, hoje celebramos esse estado de graça que é ser potencialmente tudo. e só isso já é tanto.

bom dia, crianças!

domingo, 30 de maio de 2004

helena de lisboa












isabel apresentou em 1998 uma retrospectiva de helena almeida (entrada azul) na casa da américa em madrid. este ano foi a vez do the drawing center de nova york ver os "inhabited drawings" de helena. agora, isabel prepara-se para mostrar helena almeida na art gallery de new south wales a propósito da biennale de sydney 2004. entretanto, para quem não vai à austrália, sobra uma exposição da artista no ccb até 18 de julho com o título "pés no chão, cabeça no céu".

sexta-feira, 28 de maio de 2004

reconstruir o mundo












hoje queria ler um livro que pudesse não ser um livro
sozinho numa sala que pudesse ser lado nenhum.

nadir












olhos nos olhos perguntei-lhe o que vinha depois. falou-me de sonhos e de preces. refugiou-se no seu mundo mantendo uma confortável distância de segurança. repeti a pergunta e seguiu-se o embaraço previsivel. abandonei a sala e comentei para mim:
- é aqui o nadir?

segunda-feira, 24 de maio de 2004

helena de teichio


helena nasceu em teichio, uma vila de montanha isolada na região roumeli no coração da grécia. aí aprendeu a música do vento, da chuva nos telhados, das quedas de água. aprendeu o canto dos rouxinóis e o silêncio da neve. em dias de festa, encantava-se com o eco das flautas e dos clarinetes nas montanhas vizinhas. depois a família mudou-se para atenas e helena descobriu os automóveis, a electricidade, a rádio e o cinema. por um acaso, a nova casa ficava ao lado de um cinema de ar livre e que ela via da janela do seu quarto.
no cinema (mais que isso, num cinema debaixo do céu) e no piano helena descobria aos oito anos as paixões da sua vida.

em 1967 a junta expulsou-a da grécia e helena viveu em paris até 1974. de volta a casa, helena ouviu places de jan garbarek em 1977. vinte e um anos depois o norueguês toca com helena a valsa de beekeeper para o filme de theo angelopoulos.


eleni karaindrou, music for films.
ecm,1991.

domingo, 23 de maio de 2004

hoje não estou nem para leo vast












não. hoje não escrevo nada. tenho sono. muito sono. talvez escreva amanhã sobre o dia de hoje e sobre a leitura em são martinho do porto: a máquina de joseph walser. e sobre a prateleira onde guardei este meu primeiro gonçalo m. tavares. sobre a companhia de wakefield de hawthorne e bartleby de melville. mas hoje não. hoje não escrevo. amanhã conversamos.

quinta-feira, 20 de maio de 2004

piano












há muito que perdi o interesse pela profundidade. de rodin e moore não queria mais do que o equivalente ao chiaroscuro. não me interessa essa terceira dimensão que não reune nada que verdadeiramente necessite. viveria agradavelmente nas páginas de um livro ou mesmo num quadro. sonho ainda em viver dentro de uma melodia, que dimensão terá? permanece a dúvida: em que páginas, em que tela ou em que sons?

da razão e da emoção












do outro lado do mundo isabel anda numa roda viva. a curadora da biennale de sydney 2004 prepara a abertura para 4 de junho. aparecem os primeiros anúncios. o subversivo lim tzay chuen, convidado a participar no evento, arranja uma dor de cabeça para isabel. a sua proposta: fazer um concurso com o público para preencher a artspace gallery 1. os concorrentes terão de comprar o maior número de catálogos da exposição, devem rasgar a página com o ensaio introdutório de isabel e apresentarem-se no dia 5 de junho depois das 10 horas da manhã com as páginas rasgadas. o vencedor será anunciado pelas 9 da noite e terá direito a: ocupar o referido espaço, 4000 dólares australianos e uma estadia de 4 noites num hotel de sydney. o que o vencedor fará com o dinheiro e com o espaço é com ele (vencedor). toda a gente pode concorrer.
após negociações, que se imaginam emotivas, isabel deu razão a lim. faça-se. venha um desconhecido completo para a biennale.

a outra senhora












seja para que lado fôr que me vire, lá está ela: a velha senhora. os novos castigam-se com coisas velhas. porque sim. nada viram mas sentem. eles que não sabem sequer definir com rigor a dita. não tenho dúvidas. estamos definitivamente no tempo da outra senhora.

quarta-feira, 19 de maio de 2004

um homem menos um homem














tenho perseguido um homem
de quem fujo
na próxima esquina
confundo-me com o exército vlassov.

segunda-feira, 17 de maio de 2004

mr lowercase













agora os ouvidos dos meus ouvidos acordam e
agora os olhos dos meus olhos estão abertos


verso de e.e.cummings
(now the ears of my ears awake and
now the eyes of my eyes are opened)

never ending dream













nós a lermos os livrinhos das edições 2 luas de paulinho assunção. eu a ouvir as 12 luas de garbarek no ccb (14.05.2004). todos no lux a ouvirem yen sung (15.05.2004). nosotros chorando no teatro villamarta em jerez de la frontera com a voz de chavela vargas (22.05.2004). eu a maldizer os concertos de keith jarrett no palau de la musica para o forum de barcelona 2004 (21.06.2004 e 13.07.2004).

sexta-feira, 14 de maio de 2004

nesta última tarde em que respiro*












pudesse num adeus ir o mundo todo
e dir-te-ia que foi roubada a palavra seguinte
ágrafa como a beira das nossas noites
e presa para sempre
como o poema que não ousámos sequer escrever

*verso de antónio franco alexandre

garbarek no ccb












ouvi pela primeira vez o sax tenor de jan garbarek numa républica da alta de coimbra. depois corri durante muito tempo à adelina da novalmedina em busca dos ecm importados. tornou-se um vício e a família julgava-me sem remédio.

ouvi tudo o que pude:

sart, triptycon, witchi-tai-to, dansere, dis, places, mágico, afterland, folksongs, eventyr, wayfarer, it's ok to listen to the gray voice, all those born with wings, legend of the seven dreams, i took up the runes, ragas and sagas, twelve moons, madar, officium, visible world, rites, belonging, solstice, arbour zena, my song, sol do meio dia, nude ants, personal mountains, making music, rosensfole, music for films ou caris mere.

a solo ou com keith jarrett, gismonti, jon christensen, bobo stenson, palle danielsson, ralph towner, jack dejohnette, eberhard weber, charlie haden, john abercrombie, nana vasconcelos, bill frisell, michael dipasqua, manu katché, ustad fateh ali khan, ustad nazim ali khan, zakir hussan ou agnes buen garnas.

coleccionei rodelas pretas e depois cd's. li os melhores livros ao som de garbarek. fiquei em silêncio noites inteiras ouvindo garbarek.

garbarek, daqui a pouco no ccb.

quinta-feira, 13 de maio de 2004

cirílico












não compreendo o teu olhar. compreendo o postigo no meio da rua, reconheço o lada de vários filmes mas, não compreendo o teu olhar.

a terra sobretudo











quem como nós na curva de céus vários pressentiu
(em céus de boca e ares)
que os elementos, de si, nunca se encontram diz:

a água não amaina; o fogo nas queimadas,
nas lajes do lar
não nos sacia; o ar não cria
a vibração das folhas - esta é a nudez;

na terra, sobretudo sente-se: as suas casas, as traves
que as sustêm, desfalecem.
quem as habita parado, quem como nós vivo
diz: a fome é hostil,
o homem movimenta-se impaciente,
o seu desejo ocupa a sua vida.

in vértice nº 286, fiama hasse pais brandão.

enquanto não escrevi, o que escrevi eu?












escrever é tentar saber o que escreveríamos se escrevêssemos

marguerite duras

quarta-feira, 5 de maio de 2004

f...










alizon gray, enamel on canvas.

permaneci imóvel
lendo as tuas palavras,
repetindo as histórias,
reconhecendo as cores,
os aromas e o desperdício
das manhãs em que podem acabar os sonhos.

respondi depois,
tarde como sempre...

terça-feira, 4 de maio de 2004

feitoria mágica












senhor feitor,
trago-lhe notícia
da magia
do dia-a-dia
por esta feitoria,
do crescente transformar do pensar em experimentar,
deste quotidiano passar
de seu reino de sonhar
a seus palácios de concreto,
como à ciência compete
criar
criando,
fazer
fazendo,
construir
constuindo,
amar
amando,
no mais ousado plantar de gerúndios
plas ilhas da cidade,
por homens e mulheres com asas,
transformando-a assim
em lugar não só de estar, mas de ser,
não mais só de desejar, mas de ter,
feitoria
da enebriante magia
de podermos ser
humanos sendo,
fazer fazendo,
amar amando,
aprender aprendendo,
responder perguntando,
como à ciência compete.

a hora e a circunstância, maria de sousa.
(poemas com cadenzas de agostinho da silva)
gradiva, 1988.

segunda-feira, 3 de maio de 2004

sete












sete são as casas em que contámos as labaredas. sete vezes ardemos nas páginas de sete poetas sete. sete são as voltas e os dias em que te procuro sem tempo. sete são os mares que nos levaram e nos trouxeram. sete são as praias se tu quiseres...

cam*















quando desapareceu o último porto de abrigo
refugiei-me no lugar comum da tristeza
a fechar feridas antigas a perdoar traições
talvez um dia possa tentar tudo de novo
com o despudor de todos os recomeços.

in a realidade inclinada, carlos alberto machado.
averno, 2003.

*não foi abril porque faltaram as tuas palavras,
maio não começa sem ti.

56














aquilo que era indispensável
já não é --
preferível a chuva
por detrás do espelho
dentro do poema.

giánnis ritsos, 1978.

domingo, 2 de maio de 2004

morremos dela












(...) só é seguro que a pergunta, a procura, o poema reincidente, cristalizam numa grande massa translúcida, um bloco de quartzo. talvez seja tranquilizador quando olhado defronte, ali, no chão, do tamanho da casa: parece nascer ininterruptamente. a luz vem de dentro, funda e aguda luz terrestre. excretou-se de nós, a massa cristalina, fundimo-nos nela, carne da nossa carne, casa da nossa casa. e na hora do apocalipse biográfico, quando as águas envolverem a história, a vida, a obra da obra, veremos tudo: morremos daquilo, levados para o abismo pelo irrevocável peso extraído, um peso maior que os trabalhos e os dias. e quem sabe se não veremos então, através do cristal regular, limpidamente, a enfim aplacada confusão do mundo? isto é uma pergunta, agora. alimentamo-nos dela, também nos alimentamos dela. aquilo que fazemos, oh sim, é isso que nos faz e desfaz, a vida que fazemos, a nossa vida em pergunta telepática. morremos dela.

herberto helder: entrevista.
inimigo rumor (nº11), 2º semestre 2001.

ainda













ainda as tuas mãos, ainda o teu carinho, ainda as palavras, ainda o mesmo de sempre. duas vezes, como sempre.

sexta-feira, 30 de abril de 2004

o lugar das palavras












subiremos, sacerdotisa, as escadas do teu templo.

convento












vi da janela da minha fábrica a chegada dos homens sérios ao convento. recordei as tuas palavras antigas, para sempre na memória do anfiteatro. desta vez eram homens e os homens não choram e tu, provavelmente, não estavas lá.

o síndrome de stendhal


















do Gr. syndromé, concurso. s. f., tontura, pânico, paranóia ou loucura causada pelo facto de ver certas obras artísticas ou objectos históricos ou ainda por tentar ver várias relíquias num curto espaço de tempo. na toscânia chamam síndrome de stendhal pelo facto do escritor do século XIX ter escrito acerca da desorientação de certos turistas quando se viram pela primeira vez à frente das obras do renascimento italiano. de facto, em 1817, o jovem marie-henri beyle (stendhal), visitou florença e rapidamente se sentiu fascinado com a riqueza artística e histórica da cidade. cento e sessenta anos depois, a dra graziella magherini, chefe de psiquiatria do hospital de santa maria nuova em florença, confirma o estado de loucura moderada de alguns turistas que pode durar vários dias. idênticas observações são relatadas em jerusalém, onde o peso da cidade santa resulta na vertigem, tontura ou amnésia temporária.

quase todos nos sentimos esmagados de quando em quando. apenas diferimos nos estímulos.