(...) só é seguro que a pergunta, a procura, o poema reincidente, cristalizam numa grande massa translúcida, um bloco de quartzo. talvez seja tranquilizador quando olhado defronte, ali, no chão, do tamanho da casa: parece nascer ininterruptamente. a luz vem de dentro, funda e aguda luz terrestre. excretou-se de nós, a massa cristalina, fundimo-nos nela, carne da nossa carne, casa da nossa casa. e na hora do apocalipse biográfico, quando as águas envolverem a história, a vida, a obra da obra, veremos tudo: morremos daquilo, levados para o abismo pelo irrevocável peso extraído, um peso maior que os trabalhos e os dias. e quem sabe se não veremos então, através do cristal regular, limpidamente, a enfim aplacada confusão do mundo? isto é uma pergunta, agora. alimentamo-nos dela, também nos alimentamos dela. aquilo que fazemos, oh sim, é isso que nos faz e desfaz, a vida que fazemos, a nossa vida em pergunta telepática. morremos dela.
herberto helder: entrevista.
inimigo rumor (nº11), 2º semestre 2001.