sexta-feira, 6 de agosto de 2004

lou andréas-salomé















tinhas do teu lado a vida
(como disse rainer maria)
e querias ser outra deusa virgem,
completar o teu poema
unindo cinzas e terra
e devolver o amor aos filósofos

explica-me agora
(psicanalista da literatura)
o que dizem as minhas palavras
que não desvendo

quinta-feira, 5 de agosto de 2004

notte corta












partem comigo agora que os dias são maiores os contos tristes, os quadros inacabados e as cartas sem resposta. deixo para trás agora que os dias são maiores todas as palavras que só se dizem à noite. sei que é mais fácil agora que os dias são maiores iludir esse mundo onde acabam todas as viagens.

terça-feira, 3 de agosto de 2004

weltschmerzen












do alto deste dia vê-se escrito no passeio lá em baixo "anda com os pés na terra" e aqui é o céu que me suspende, me sustenta e me tem.
não fosse o homem o único animal que se engana com o futuro, que se alimenta de esperança e não tomava o divino do mesmo modo. e nós, os que saimos com holderlin todos os dias em busca de um novo caminho, umas vezes encontramos mestres e fazemos perguntas, outras vezes achamos respostas avulsas à beira de pergunta nenhuma.

segunda-feira, 2 de agosto de 2004

nada pode ser tão grave assim (versão j. k. rowling)



"a word of caution: dementors are vicious creatures. they will not distinguish between the one they hunt and the one who gets in there way. therefore i must warn each and every one of you to give them no reason to harm you. it's not in the nature of a dementor to be forgiving. but you know happiness can be found even in the darkest of times, when one only remembers to turn on the light."

dumbledore, harry potter and the prisoner of azkaban.

o(utro) mistério da estrada de sintra












na cerimónia, o padre citou dostoievski:"a beleza salvará o mundo".
pouco depois a noiva fugiu com o fotógrafo.

sexta-feira, 30 de julho de 2004

jo












jo shapcott leu rainer maria rilke, dissecou as janelas e depois as rosas, esses pequenos poemas de agradecimento do austríaco à lingua francesa. se rilke sugere que as suas rosas são uma visão masculina das mulheres, talvez as suas amantes, talvez a genitália delas, jo contrapõe a voz feminina. assim escreveu responsos a rilke, dizendo-lhe que estava errado. as rosas seriam para rilke canções, lamentos, gritos ou sussurros de mulheres. e no livro* que daí resultou apenas uma queixa da autora: falta a opinião de rilke, a sua cara de espanto.

art, not chance
nine artists' diaries
paul allen (editor)
calouste gulbenkian foundation, 2001.

*tender taxes
jo shapcott
faber and faber, 2001

les roses (x)












amie des heures où aucun être ne reste,
où tout se refuse au coeur amer;
consolatrice dont la présence atteste
tant de caresses qui flottent dans l'air,

si l'on renonce à vivre, si l'on renie
ce qui était et ce qui peut arriver,
pense-t-on jamais assez à l'insistante amie
qui à cotê de nous fait son oeuvre de fée.

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consoladora das horas em que todos se foram,
em que tudo foge do coração amargo,
a sua simples presença atesta que no ar
pairam todas as carícias.

quando perdemos o gosto de viver, ou renunciamos
à vida, ao que foi e ao que pode ainda ser,
alguma vez atentamos, como devíamos, na amiga
persistente que, a nosso lado, faz trabalhos de fada?


frutos e apontamentos
rainer maria rilke
tradução de maria gabriela llansol
relógio d'água, 1996.

quinta-feira, 29 de julho de 2004

um ano de espuma dos dias












uma enorme floresta submersa. o suave movimento das árvores é exagerado pelas páginas nelas penduradas num baile que se avista de longe. a luz é intensa aqui e estranhamente ausente ali ao lado. as palavras rasgam correntes que apenas se detectam pela difracção da luz que atravessa os caminhos. um coro de cavalos marinhos entoa canções da rive gauche. um enorme navio passa à superfície mas apenas se nota a agitação das águas que resulta da mão da sarah brincando com as ondas. e é assim que eu leio a espuma dos dias. parabéns por este, venha outro!

quarta-feira, 28 de julho de 2004

a gente furnandes












a meia duzia de metros da esplanada do café santa cruz, um homem visivelmente perturbado, visivelmente mental, perturba a ordem pública. as empregadas das lojas vizinhas vêm à porta e soltam risadas histéricas. o agente furnandes, josé furnandes, entra em acção. o homem grita-lhe a plenos pulmões a surdina de um pedido de ajuda. um desrespeito à autoridade está bem de ver. era evidente para o circo urbano em volta que bastava uma mão sobre o ombro e um pouco de atenção às súplicas do alienado. mas o agente furnandes resolve puxar do casse-tête e agredi-lo violentamente. a indignação do público de nada adiantou. chegaram prontamente os reforços da esquadra a cem a metros e conduziram o prevaricador à urgência do hospital. ainda tentaram atropelar as vaias e apupos. ainda tentaram soltar a energia que afinal não gastaram no euro 2004. ainda me pareceu ouvir uns gritos de guerra ensaiados para os holligans. o agente furnandes tem cara de quem ficou de fora do euro. não deve ter sido apurado. os reforços tinham cara de formação na academia de policía com eventuais pós-graduações em guerrilha urbana. perto deste espectáculo estavam observadores internacionais destacados para provarem umas cervejas lusas. levam uma triste fotografia digital da gente furnandes.

jim jarmusch












preto como o café e branco como os cigarros. não me interessa se jim tem amigos e os convidou para tirar proveito disso. eu tirei. não me interessa que a história não seja evidente. que o sarcasmo e a ironia possam cheirar a fumo. não me interessa se eles bebem o café com beatas dentro. não me interessa se há guião ou improviso. jarmusch faz um óptimo fim de tarde numa cidade cheia de esplanadas desinteressantes.

segunda-feira, 26 de julho de 2004

livros e gatos






















a ideia era reservar apenas uma divisão para mim. podia ser um quarto apenas mas seria o meu domínio. os livros só entrariam com visto. estariam de passagem. dormir com muitos livros em volta não faz bem à saúde, disseram-me em tempos. as restantes divisões da casa poderiam ser ocupadas com livros e gatos. contudo, livros e gatos não se dão bem com regras rígidas. invadem espaços impensáveis. não se pode gostar de surpresas e impôr uma ditadura. como proibir que o tot ou o castor durmam atrás dos livros de viagens? como decretar que larkin não possa ficar esquecido numa mala que não se usa há tanto tempo?
o poeta pina deve saber do que falo.

terça-feira, 20 de julho de 2004

hoje e sempre












acordavas cedo e colhias o melhor do campo para me brindares pela manhã. levavas-me depois pelos caminhos da tua infância e assim corriamos no tempo teu. só depois vinha a noite e o sabor dessas histórias em que tratávamos do milho e da memória.

segunda-feira, 19 de julho de 2004

amanhã












nunca foram minhas
as vésperas dos dias
em que não regressas

domingo, 18 de julho de 2004

l'aventure, la magie, la démesure et la folie












c'est toujours plus loin
toujours plus fou
toujours plus beau
c'est toujours étrange
comme un mélange de gaz et d'eau
c'est dans l'aventure et la magie mon beau
dans la démesure et la folie que tu trouveras eldorado


bernard lavilliers lido em
sarah adamopoulos, viver mata.
oficina do livro, 2001, pp94.

sexta-feira, 16 de julho de 2004

vol d'oiseaux












sempre te vi em movimento. observei-te quedo e imaginei o mundo visto desse vôo tão harmonioso. agora que finalmente encontro asas nas palavras, pareces-me imóvel num salão em silêncio. procura a menina que tem um pássaro no lugar do coração e vem daí para um pas de deux.

punto negro












sossega, as nuvens não estão fazendo nada.

quinta-feira, 15 de julho de 2004

white silk dream












sou um guerreiro no japão do século ix. chego todos os dias à aldeia, vazio de uma guerra de dois anos, e esperas-me em seda branca. recitas-me ono no komachi e é assim que subo até ti. mesmo quando não estás.

segunda-feira, 12 de julho de 2004

blog city












o vento na cara. a vertigem da velocidade. a alegria infantil da descoberta. as palavras como abismos. a noite alta e os early morning posts. escreve que eu espero. a todas as horas. qual sinal? vai devagar? não vi...

parabéns wandruska












domingo, 11 de julho de 2004

e. e. cummings por susanne abbuehl












somewhere i have never travelled, gladly beyond
any experience,your eyes have their silence:
in your most frail gesture are things which enclose me,
or which i cannot touch because they are too near

your slightest look will easily unclose me
though i have closed myself as fingers,
you open always petal by petal myself as Spring opens
(touching skilfully,mysteriously)her first rose

or if your wish be to close me, i and
my life will shut very beautifully ,suddenly,
as when the heart of this flower imagines
the snow carefully everywhere descending;
nothing which we are to perceive in this world equals
the power of your intense fragility:whose texture
compels me with the color of its countries,
rendering death and forever with each breathing

(i do not know what it is about you that closes
and opens;only something in me understands
the voice of your eyes is deeper than all roses)
nobody,not even the rain,has such small hands

e. e. cummings

april
susanne abbuehl
ecm records, 2001.

sábado, 10 de julho de 2004

poesía hoy












o jornalista/escritor/viajero manuel leguineche conta hoje no babelia uma preciosa história passada no deserto. escolheu por companhia o marinheiro de gibraltar de marguerite duras. como devia aliviar a carga, porque tinha dois mil quilómetros de deserto pela frente, decidiu ir arrancando as páginas lidas e assim espalhou duras pelas areias nesse percurso. naquele tempo leguineche era ignorante do espírito ecológico mas devoto da performance poética.

sexta-feira, 9 de julho de 2004

lhasa de sela ou o sonho de uma noite de verão












uma noite assim dá mil posts. ao fundo, uma cidade que espera a descida de uma santa. tropeçando no trânsito, outros peregrinos chegam a tempo de ver subir ao palco uma menina que não pousa os pés no chão. foi ela o little blackspot que viu nuvens batalhando, dançando ou simplesmente não fazendo nada. foi ela que explicou a viagem no colo de um pai filósofo que a sossega dizendo: não morremos aqui. foi ela que dançou, e dança ainda, com o bisavô pelas ruas de marselha. foi ela que nos cânticos se libertou e nos libertou. foi lhasa de sela que disse por uma noite: é poesia, senhores.

quinta-feira, 8 de julho de 2004

desmesuradamente












há uns dias, comentava anabela mota ribeiro um seu pensamento matinal sobre a desmesura dizendo que não a aprecia particularmente. admite, contudo, duas excepções: na arte e no amor. voltei várias vezes a esse pensamento intrigante e intrigado. na vida, sou desmesurado em momentos e terrenos que não estes. por outro lado, o amor é tantas coisas que posso achar-me desmesurado por amor a uma causa, pessoa, objecto ou ideia. da arte, principalmente da arte sem regras clássicas, quase me atrevo a dizer o mesmo. no limite, a desmesura pode ser estendida à fronteira da afirmação de estar vivo.

quarta-feira, 7 de julho de 2004

do código das cores






















perguntava o que sentias

perguntava o que sentias
e falavas em cores,

quanto gostavas de mim
e descrevias amarelos,
brilhantes ou mate,
consoante os dias
variando com as horas

nunca compreendi
a língua das tuas cores
até ao dia em que,
sem palavras,
achei vermelho
recitei verde
e pensei azul

sim,
azulo-te!

quinta-feira, 1 de julho de 2004

os jardins de tafetá












a uns tantos na cerca dos jardins juntaram-se quase todos os cortesãos às janelas deste palácio subitamente glamoroso. todos querem ver o desfile dos guerreiros. soltam-se orações, bençãos e desejos. um avatar que ainda não conhecemos ilude ou liberta o reino. enviado para matar e obrigar a renascer começou pelos jardins. apenas resistem os patriotas modernos nos jardins de tafetá.

quarta-feira, 30 de junho de 2004

lado B












ao desafio do som respondo sim. que difícil que é alinhar as músicas que sempre trouxe nos ouvidos. o equivalente a escolher 3 desejos perante a fada madrinha. obrigado pedro por acordares em mim o sentido e a paixão que partilhamos. lá estaremos do lado B, avessos ao que é fácil, do outro lado da noite e de todas as noites.

terça-feira, 29 de junho de 2004

sábado, 26 de junho de 2004

perfect world


















na nota de abertura de um livro, sian ede agradece aos jovens cientistas autores dos diários o facto de serem eloquentes, honestos e despretensiosos. daí resulta uma excelente imagem da ciência e da vida actual.
condensado assim, é o que procuro por estas paragens. neste e nos outros mundos aqui à direita.

science, not art: ten scientists' diaries,
editado por jon turney,
publicado pelo branch do reino unido da fundação calouste gulbenkian,
londres, 2003.

offshore












lá longe
por detrás das dunas
mudam-se reis e acabam amores

no mar alto
uma onda regressa
e uma terra em brasa
dá noticias do marear

sexta-feira, 25 de junho de 2004

para o mal












parabéns sofia, luís, andré bonirre e pc.

pelo bem que o vosso mal nos faz.

quinta-feira, 24 de junho de 2004

circadiano












um dia num edifício de salas com distintas leis naturais. à semelhança do cubo e do hipercubo, procuro a lógica para sair. perdido, volto a divisões que não distingo. em cada divisão deixo palavras e imagens. quando volto a elas, estão recados e silêncios para decifrar. num dia que se repete desigual.

quarta-feira, 23 de junho de 2004

abraçadosnós












festejar o santo de hoje com palavrasabraçadas. chamar a um movimentodança uma nova noite. pensar em lercontigo as páginas que nos esperavam no correio do fim da tarde. adormecer folheando os teus cabelos e guardar na memória um futurosemsaudades.

terça-feira, 22 de junho de 2004

posologia possível












salto de palavra em palavra na frase que nos separa.
tropeço nos ii, caio nos hh, descanso nos jj, gasto as últimas forças para subir os ll, quase desmaio nos uu, tomo cuidado com os vv e equilibro-me finalmente nos xx.
e tudo isso não chega. ainda sobra frase entre as nossas bocas e não nos beijamos.
escrevo a experiência e procuro saber o que aprendo.
muito pouco. quase nada mas, vou continuando a tomar o mundo em colheres pequenas.

segunda-feira, 21 de junho de 2004

a utopia de juno












juno doran acredita num mundo imaginado. reza para ver o casamento perfeito entre a tecnologia e a natureza ou, de outro modo, entre o homem-máquina e a floresta amazónica.
as utopias são assim. tudo o que desejar a mulher de zeus.
o verde percebo, mas porquê o cinzento?

domingo, 20 de junho de 2004

is it tomorrow yet?












saber como usar o tempo na arte. na vida tratamos mal o tempo em circunstâncias diversas. quando não sabemos esperar ou quando esperamos e não sabemos como dizia o poeta. viver com o tempo e sem tempo. agora que tudo é tão rápido. agora que sobra tanto tempo. anoto as vezes em que a falta de tempo não desculpa. anoto as vezes em que não demos tempo.

quinta-feira, 17 de junho de 2004

bloemschikken












somos plantados como tulipas que, de repente, arrancados como bolbos à terra, se demoram em caixas (protegidos).
tarda esse nosso outubro, tão distante, em que nos devolvemos num abraço telúrico.

quarta-feira, 16 de junho de 2004

capítulo seguinte






untitled (hand anatomy),
jean-michel basquiat, 1982.







tenho ao fundo dos braços
a memória de joseph walser
à espera ainda do afago
das margens das tuas palavras


segunda-feira, 14 de junho de 2004

blur












dizes-me meu amor: "vivemos cercados de eternidade e não temos tempo". e assim passamos ao lado de tudo guardando não mais que um efeito blur. o damásio diz que as imagens dos objectos e dos acontecimentos, e ainda as palavras ou as frases que os referem, nos ocupam quase toda a nossa memória. talvez tenha razão e, talvez avancem ainda pelos nossos sentimentos e emoções. mas não quardamos nada de muito nítido quando nos preparamos para adormecer.
a representação mais próxima desse túnel pré-narcótico encontrei-a no museu do chiado. captar a presença humana no efeito blur é a pretensão de gerhard richter.
o josé bragança de miranda sabe mais disso com certeza. sei que ele estará neste momento a usar o alemão para um programa de doutoramento.
e eu, que pouco mais sei do que das máquinas da minha fábrica, para aqui a falar de arte contemporânea...

domingo, 13 de junho de 2004

uma ilha deserta não é uma ilha deserta












o babelia de ontem publica uma crónica do argentino césar aira em volta da pergunta "que livro levaria para uma ilha deserta?". a resposta terá interesse para revelar essa metáfora que é o próprio leitor. ele sim, uma ilha deserta densamente povoada. aira mostra como qualquer fantasia de povoamento da ilha seria frustrada. não se pode levar um só livro, sob pena de detestá-lo por falta da companhia de uma estante cheia de livros. nem uma colecção de obras completas. uma biblioteca morreria por não poder crescer. não se reproduziria por falta de outras para se comparar ou namorar. a falta de livrarias ou de carteiro, deixando assinaturas e livros regularmente, mataria qualquer biblioteca de igual modo. e por fim faltaria sempre o mundo como observatório observado. faltaria o mundo para aprender e compreender e, diria eu, um mundo real para imaginar mais mundos.
afinal, a pergunta ajuda apenas a povoar, a estender essa ilha deserta até à nossa dimensão.
humana, a metáfora, como lhe chama aira.

sexta-feira, 11 de junho de 2004

do outro lado do rio












do outro lado do rio há um festival sem subsidio do icam que se rende a ettore scola e ao cinema húngaro, mostra o último andrzej wajda, o comandante de oliver stone e sonny de nicholas cage.
do outro lado do rio esteve o fruto da paixão de maarten treurniet, charlotte de ulrike von ribbeck e queijo e marmelada de branko djuric.
na praia, do outro lado do rio, esteve muita gente agitando bandeiras de todos os tipos e cores.

quinta-feira, 10 de junho de 2004

forecast












sei que um de nós percorre um labirinto que o outro nem sequer encontra. foi assim de todas as vezes. e, de todas as vezes nos encontrámos mais à frente. um de nós olha para trás para encontrar o caminho. outro de nós espera com a mesma serenidade de todas as esperas e, vamos alternando os dois personagens numa história que um nós sabe que acaba bem. por vezes, um nós desacredita e o outro mantém o sonho para que possamos acordar.

maria valupi












não conheço maria valupi e uma pesquisa no google não vale a pena. chegaram-me há uns anos alguns poemas seus num livro sem data das edições jornal do fundão. trata-se de uma antologia da poesia feminina portuguesa organizada por antónio salvado. no texto introdutório aos poemas lê-se:

maria valupi é uma poetisa original e injustiça seria não aparecer numa antologia de mulheres-poetas. há no universo poético desta autora um estranho apego à realidade concreta, à existência vivida e experimentada - apego que a coloca numa linha poética muito feminina que poderá ser determinada pelo acolhimento nem sempre sereno dos factos e pela sucessiva revelação dos mesmos factos, transformados em parcelas de um drama íntimo. (...) publicou: "dans le destin", livro de poemas em francês, 1958; "desprevenidas paisagens", 1959; "do disperso do dia", 1967; "amotinação dos poetas", 1967; "songes et témoins", poemas em francês, 1967.

dos nove poemas seus nesta antologia, já copiei "não, não me esperes". deixo agora "ponha-me deus":

ponha-me deus o mundo,
um mundo em qualquer
das mãos;
meus pés bailando sem chão
que, sujeita, não pedi,
não pedirei meu perdão.

and the winner is...













sexta-feira, 4 de junho de 2004

estes estranhos dias












chega zeus a sydney transportando a chama do olimpo.
abre isabel os olhos ao mundo.
ontem, em palavras breves, a parte de cima de uma rapariga anunciava-te isabel.
falou em antónio e ainda de helena, luísa e cecília.
todos aí do outro lado de nós que devoramos quilómetros e não chegamos.
nós afogados em vidinha e pela segunda vez no hemisfério errado.

quinta-feira, 3 de junho de 2004

não, não me esperes aí












não, não me esperes aí,
em nenhuma boca me posso demorar.

não, não me esperes aí,
nem mesmo nas sombras
das sombras da lua ou do luar
onde o meu rosto e o teu rosto
sombras são a querer singrar.

não, não murmures o meu nome
na tua boca viva,
como qualquer flor vermelha
que é logo nada amanhã.

dia claro chegará,
dia claro ou noite branda
em que te hei-de encontrar
e, então, te pedirei:

salva meus cabelos, minha fronte,
minhas mãos... e estes olhos que tanto amei.
salva a minha boca
onde havia tanta mágoa.

guarda-me como na semente se aperta
o que há-de ser algum dia,
talvez possa chegar flor,
talvez possa chegar tua.


maria valupi
desprevenidas paisagens, 1959.