domingo, 31 de outubro de 2004

no see, no fear (artist's self portrait): hannu a leimu, 2002.












"tell me 5 things you're most afraid of (may be an anonymous answer). please reply, this is for a small art project."
juno doran, monolog 04.10.23.

a minha resposta:

1.
desencontrar-me no tempo.
como num beijo, falhar esse momento em que tudo pode e deve acontecer. saber que tudo é uma corrida do presente e não há maneira de voltar atrás ou projectar no futuro o que fazemos agora.

2.
desencontrar-me no espaço.
não quero "estar onde não estou" mas sei que posso estar no local errado e não me aperceber disso.

3.
desencontrar-me nas palavras.
detesto erros de comunicação mas sei que posso dizer o que não quero e entender o que o não foi dito.

4.
desencontrar-me nos afectos.
dar agora o que não dei pode servir de muito pouco (funciona também com o verbo receber).

5.
desencontrar-me da vontade.
tentar voltar ao lugar em mim de onde parto para explorar o mundo e não o reconhecer ou já não funcionar e enfim, perder-me dele.

ars amandi III












tápate,
tápate las metáforas, hace
un pequeño frío de pequeño invierno,
con un pequeño radiador, pequeño
tiempo para sentirmos juntos
menos solos
que solos habitualmente, menos sabios
para decir amor mío sin remordimientos
para creer haber sido elegidos
hace tiempo
en un mercado persa anunciado por profetas

sí, cubro también mis imágenes impacientes.

____________________________________________
manuel vázquez montalbán
una educación sentimental, 1963.

quarta-feira, 27 de outubro de 2004

em serralves: paula rego e ana sousa dias












"outras conversas" (a dois) de ana sousa dias com paula rego: aprendemos que o génio não é explicável nem talvez conversável e pode estar-se assim no mundo.

a infantilidade da pintora continua a fascinar-me. ana fala com a avó, em tom maternalista, sobre o dia-a-dia, sobre os sentimentos primários e é assim que consegue colocar as perguntas que nenhum entrevistador faz.

serralves devia estar aberto depois destas conversas.

domingo, 24 de outubro de 2004

dou-te os meus olhos












ontem: o caminho era espelhado, não reparei nas margens e nunca duvidei de cada curva sem te ver.

hoje: quando procuro aquela silhueta, tão ao fundo, tão imóvel, não sei se será um abraço, a ternura da fusão ou o desespero solitário que tolhe cada desejo.

sexta-feira, 22 de outubro de 2004

noite azul












hoje todos os sonhos serão jill bioskop.

segunda-feira, 18 de outubro de 2004

faq's












porque é que estiveste na escócia e só escreveste sobre charles rennie makintosh?
porque não reservaste com antecedência o hotel mas encomendaste livros sobre os poetas escoceses?
porquê os novos poetas?
porquê "dream state" de daniel o'rourke?
porque lês ainda antologias?
porque preferiste precisamente peter mccarey que é o único que não vive na escócia mas sim em geneve?
porque é que o peter fez um blog que não é um blog e escondeu o que escreve de tal modo que ninguém pode ler nem sequer o silabário?
já reparaste que faq quer dizer frequently asked questions e frequently answered questions?

domingo, 17 de outubro de 2004

hoy vuelvo a la frontera*












(torno por teimosia ao outono de todas as conversas)

desenho palavras crepusculares que não acredito tenha ouvido alguma vez. a minha agenda, prima afastada e snob de moleskynes, não guarda rabiscos, antes filtra estúpida e friamente as emoções em caracteres normalizados. de tal modo que ao olhar para estas palavras assim alinhadas me parece torpe o fingimento do lcd.
pensei em tempos que apenas a escrita nos poderia salvar do silêncio. escrever e ler. precisamente nesta ordem, porque se nos atrevermos ao contrário caimos na mão dos escritores que nos couberam quantas vezes pelo acaso. ainda agora, quando seguia baudelaire e mallarmé me achei prisioneiro de corbière. e é o maldito que dita quase tudo o que vem depois. pelas páginas fora e até pelos sonhos. esta noite sonhei que estava travestido como tristan corbière numa fotografia que vi não sei onde.
e se não lermos? e se formos, agora e sempre, uma furiosa máquina de escrever, diabólica e obsessiva, que tão somente debita caracteres à procura da combinação mágica que nos devolve a paz dos primeiros passos depois da fronteira?

*la frontera, lhasa de sela, 2003.

sábado, 16 de outubro de 2004

petit mort pour rire












va vite, léger peigneur de comètes!
les herbes au vent seront tes cheveux;
de ton oeil béant jailliront les feux
follets, prisonniers dans les pauvres têtes...

les fleurs de tombeau qu'on nomme amourettes
foisonneront plein ton rire terreux...
et les myosotis, ces fleurs d'oubliettes...

ne fais pas le lourd : cercueils de poètes
pour les croque-morts sont de simples jeux,
boîtes à violon qui sonnent le creux...
ils te croiront mort - les bourgeois sont bêtes -
va vite, légers peigneur de comètes!

tristan corbière

terça-feira, 12 de outubro de 2004

rychlik rozvoje












houve um dia
(como o de hoje)
em que não pretendemos nada.

houve um dia,
(como o de hoje)
em que parámos o comboio e saímos,
procurámos água fresca e tratámos do jardim.

e foi nesse momento
(o que éramos quando foi?)
que reparámos no silêncio,
na brutal ausência dos juvenis,
nos animais que não viajam nesta carruagem,
nas histórias apressadas dos intervalos
no cenário vazio à nossa frente
na história parada sem guião
na tangente que o deserto nos faz

e não sabemos porque parámos
nem quando foi absolutamente imperioso parar.

sexta-feira, 8 de outubro de 2004

e se agora fossemos elementares









fossemos quarks e
teria sonhado sermos um hadrão.
mas o tempo passa,
aumenta a distância,
perdemos gluões e
diluimo-nos na nossa espécie.
diz-me,
acreditas na liberdade assimptótica?

terça-feira, 5 de outubro de 2004

mischa maisky na gulbenkian















este ano vi santa cecilia render-se a maisky. agora o grande auditorio da gulbenkian tem dois dias para o fazer.

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leonard bernstein: sinfonia nº 1, jeremiah;
ernst bloch: schelomo, rapsódia hebraica para violoncelo e orquestra;
max bruch: kol nidrei, para violoncelo e orquestra. op.47;
leonard bernstein: sinfonia nº 2, age of anxiety.

orquestra gulbenkian, lawrence foster (maestro),
cynthia jansen (meio-soprano),
mischa maisky (violoncelo),
nami ejiri (piano)

quinta, 7 Out 2004, 21:00
sexta, 8 Out 2004, 19:00

escada












não cedas à tentação. não escolhi esta foto para me falares do zé mário branco ou do camané. esta não é a escada da vida (a escada sem corrimão). quero que repares nos degraus e na luz. ou naquele espaço tão mais interessante onde apenas se podem ver sombras ou penumbras ou, se preferires, o anúncio dos degraus. e esta é a reflexão que te deixo para o dia de hoje e que seja um bom dia, paulo.

quinta-feira, 30 de setembro de 2004

sad sad sisters












as duas tardes de outono
desamparadas de dias de setembro

o livro aberto e estas páginas
o monólogo e o silêncio

(não me avisaste para ter cuidado
com o kaddish e com o kertész)

todas as capas sem quadros de hopper
as horas vazias sempre e só elas aos pares

todas as razões tristes
e as emoções que nos inclinam


(sisters, acrílico sobre tela, nevin hirik, 2000)

terça-feira, 28 de setembro de 2004

sympathy














"the heart is the seat of a faculty, sympathy, that allows us to share at times the being of another. sympathy has everything to do with the subject and little to do with the object, the "another", as we see at once when we think of the object not as a bat ("can I share the being of a bat?") but as another human being. there are people who have the capacity to imagine themselves as someone else, there are people who have no such capacity (when the lack is extreme, we call them psycopaths), and there are people who have the capacity but choose not to exercise it."

(p79)

domingo, 26 de setembro de 2004

o matrix da minha rua












entre o sapateiro e a retrosaria, tenho a certeza, está uma senhora de muita idade à janela que diz adeus às pessoas tristes. vão dizer-te que não, as lojas estão lado a lado. apenas tens de passar muito muito muito devagar. e ter atenção, é essencial. eu sei que hoje não precisas, mas um dia já sabes. muito muito muito devagar, não esqueças, e verás a senhora. depois, o teu dia vai ser diferente.

quinta-feira, 23 de setembro de 2004

dos gigantes e dos anões












nos tempos em que lia as aventuras de gulliver preferia-o na terra dos gigantes. a imagem do herói atado pelos liliputianos era enternecedora para as meninas. contudo, os gigantes eram mais fortes, chegavam mais depressa e viam mundos mais distantes. depois a vida pregou-me uma partida e fascinei-me pela minha fábrica de micromáquinas. ou seja, apesar de preferir conscientemente o contrário, continuo a não saber porquê, como rosa montero, mas os anões acabam sempre por aparecer nas minhas histórias.

quarta-feira, 22 de setembro de 2004












chega a meio da noite o anúncio do outono: nas janelas que ontem sorriam chove copiosamente e o miúdo finta sozinho num quarto escuro o ladrão das brincadeiras de amanhã. escrevo num papagaio que ninguém nos roubará a alegria de sonhar e solto-o do meu terraço.

ouve bem benjamin, este papagaio não se assusta com as tempestades!

domingo, 19 de setembro de 2004

vem ver como o mundo se reinventou enquanto tu dormias












ao meio da noite ela escreve no escuro sobre as grades em que se transformou o ar que respiramos, ele acena do outro lado do estúdio e atravessa a noite com a música e a voz como só a magia da rádio o faz. eu saio do último turno da fábrica e dou a volta a paris guiado por um flâneur.

amanhã só pode ser um dia diferente.

os dias de little venice












sinceramente, eu queria avisar que ainda estava vivo mas, como aconteceu ao wakefield de hawthorne, o tempo foi passando. vivi durante uns tempos numa barcaça em little venice que me fez recordar a holanda. fui bem tratado pela sophia e pelo seu marido nathan. passava os dias em leituras gozando uma atmosfera de cuidado para que nada me interrompesse. algumas noites saía para uma ou outra festa nas barcaças vizinhas. chegámos a visitar em camden town um grupo de amigos que pararam no tempo e sairam do mundo. dessa vez, ainda pensei não voltar ao canal mas não me agradava assim tanto ficar nos anos setenta. como dizem por aí, quem se recorda desses anos é porque não os viveu.

um dia repeti para mim as palavras de wakefield (ora eu não sou tolo!) e voltei.

tomei o caminho do regent's canal até primrose hill e sentei-me nos degraus do 23 da fitzroy road. passados uns minutos toquei a campainha. atendeu-me um mulher aparentando uns quarenta anos, muito alta e de longos cabelos ruivos que me reconheceu de imediato como estrangeiro e, tomando-me como turista, apressou-se a dizer que não havia nada exposto nem eram permitidas visitas. sosseguei-a dizendo que não procurava sylvia plath ou w.b. yeats e que apenas gostava de ver o rosto de alguém que habitasse aquelas salas. surpreendida pelo argumento inesperado, fechou-me a porta na cara. regressei então a casa, confiante que ninguém saberia pelo meu rosto onde morei nestes últimos tempos.

sábado, 18 de setembro de 2004

luc tuymans












o atellier é talvez um sexto andar com vista sobre antuérpia. luc tuymans demora-se à janela tentando encontrar justificação para o facto de uma cidade tão pequena ter tanta importância. como se não acreditasse nos seus argumentos, confirma enquanto comenta. afasta-se depois e prepara uma paleta enorme para pintar um retrato de mickey mouse. toda a sala está preenchida com retratos e figuras humanas.

não acaba os corpos nem as conversas do holocausto. talvez porque voltaram sempre, em todas as refeições, na casa dos pais. continuarão sempre.

ao contrário de picasso, acha que interessa perceber o modo como se constrói a obra. tem no seu olhar a incerteza da coreografia da pintura e procura como falta fazer.

foi esse esgar que guardei. muitas vezes me esqueço dos caminhos por ter o olhar preso no horizonte.

luc tuymans
tate modern, londres,
até 26 de setembro.

quinta-feira, 16 de setembro de 2004

um chá na willow tea room de buchanan street












aqui os corpos cansados não vão para casa.
partilha-se um chá antes das cinco (o pedido deve ser feito antes das quatro e meia).
o chá será o feminino do fim da tarde. a agenda do dia foi preenchida no masculino. uns pubs algures os escondem mas os salões de chá sáo locais de exibição no feminino. os sacos das compras como santo e senha.

a obra de charles rennie mackintosh é feminina. margaret macdonald, a senhora mackintosh, quase fica para trás. mas é ela a geisha de charles. são dela os desenhos com as simetrias. é dela a dualidade da obra de mackintosh. foi por ela, porventura, que tentaram classificar como art nouveaux a obra do marido. a glasgow school of art, a house for an art lover e as willow tea rooms fazem hoje, passado um século, justiça à memória do artista-arquitecto. talvez amanhã, ao fim da tarde, se faça justiça a margaret.

quarta-feira, 15 de setembro de 2004

fui visitar gustav metzger e estou de volta












olho constantemente para trás. mesmo quando venho a esta janela procuro a paisagem de todas as outras janelas por onde espreitei. tento saber o que guardei do que vi. algumas vezes (talvez em fotografias) encontro detalhes que então são importantes mas que naqueles momentos não vi ou simplesmente esqueci. outras vezes, descubro que continuo a lembrar insignificâncias que carrego como lixo. de algum modo, devem ser importantes e por isso aqui estão agora comigo. mesmo quando por qualquer partida estranha elas parecem desaparecer. vejo-as como gustav metzger vê o seu lixo. deve ser destruido ou destruir-se mas o seu lugar agora é aqui.

regresso












um dia
(que seja amanhã)
cruzaremos o peito
num abraço tão forte
como o papel-bíblia
com o anúncio da tua partida.

um dia
(que seja amanhã)
vais mostrar na tua mão
o esporo diáfano
que semeará as palavras
neste silêncio

um dia
(que seja amanhã)
vai ser para sempre
o teu olhar
meu como nunca o vi

sexta-feira, 27 de agosto de 2004

és como a força da ternura de um homem que inclina uma parede para que uma mulher descanse












"para que duas pessoas nunca se toquem -- ficando assim próximas do desejo e das partes internas do amor -- a pressa é hábil, lenta e hábil. sou eu que se confia ao tempo destas imagens que me são violentamente nítidas e à incisão das ideias que nunca me trocam de planos ou fazem viver fora da vida. planeio assim uma trajectória de entrada do meu núcleo no teu:
belíssimos temporais de inverno que nos infundem numa serenidade autista e uma paz tensa e enraizada que nunca vamos ter de explanar.
ser-me-á sempre possível respirar tão fundo a ponto de cair para trás, ter o dom de parar os olhos em ti e rasgá-los com uma voz que te seja indistinta.
irei contigo a todos os lugares e não pertencerei a sítio nenhum.
quero que saibas da minha necessidade universal de perder o ar pois só estancada saberei nadar pelas paredes fora. já viste as árvores geladas de inverno? impassíveis cortinas ___ e eu.
poderei dizer mais ainda?

na minha boca rebenta a espuma assimetricamente anterior a tudo isto."

dia por ama
ana calhau e eduardo prado coelho
texto editora, 2004.

quinta-feira, 26 de agosto de 2004

hummm...












o silêncio é literatura, não existe. só na ambiguidade da literatura seria possível ler/ter tanto do silêncio e brincar com o silêncio ou confundir palavras que não existem. dizer segredos como se fossem silêncio. o eco é o que sobra no silêncio e apenas existem ecos. já tudo foi dito. apenas escolhemos as paredes para construirmos os nossos silêncios. eu escolhi as minhas paredes: os nossos olhos. quero saber de que ecos se constrói o nosso silêncio.

quarta-feira, 25 de agosto de 2004

cinquenta













o luís carmelo faz hoje 50 anos e oferece no miniscente outras tantas ficcionalidades. a fotografia de rudolf koppitz, paul nadar, andré kertész, alexandre rodtchenko, bill brandt, brassai, jacques-henri lartigue e muitos outros na companhia dos textos a que nos habituou:

Um corpo é um porto de finalidades. Onde colocá-lo e como descobri-las?

obrigado e parabéns luís!

terça-feira, 24 de agosto de 2004

à mesa do café do aeroporto, digamos, com mendes de carvalho












lembrei-me neste verão de mendes de carvalho* e da sua poesia satírica, em especial do poema "sentado à mesa do café do aeroporto". também eu, sentado, percorri o mundo inteiro. fiz viagens diárias a madrid para ler no el país as preciosas crónicas de javier sampedro (goethe e as flores, crick e a consciência, os genes da coragem, etc). demorava-me mais ao sábado porque o babelia não faz férias em agosto como o mil folhas. levado por amelie nothomb, passei algumas horas no aeroporto da cosmética do inimigo e aí procurei o meu textor texel. visitei ainda a praga de kafka, s. petersburgo de dostoievski, a viena de freud, os pirinéus de walter benjamin, a lisboa de manuel de freitas, a atenas das cigarras e tantos outros lugares, sentado confortavelmente à mesa do meu aeroporto.

*mafalda, procura-me o livrinho de capa rígida laranja, please.

segunda-feira, 23 de agosto de 2004

el día siguiente


















sobre la carga de los días persistentes
en el lugar en que debía estar una sombra
en espera del antiguo roce entre los peces y la sal

desde aquí es posible escuchar
la respiración de la lluvia

(observa el movimiento de las aguas
cuáles son las sombras que originó tu paso.
cuál es ese sueño que no recuerdas.
cuál es tu tristeza. Cuáles son las formas de
tu tristeza.
tu llanto. cuáles son los colores de tu llanto).

la noche es la invención de la paciencia
y esta noche todo sucede por última vez

el viento no respeta la forma de los árboles
las raíces pierden el sentido de sus años
la música se desvía hacia la orilla del océano
y tú vuelves a ofrecer
tus cicatrices al viento

ven, el invierno conoce la duración de tu viaje
ven, esta noche es el día siguiente

deja que los dioses calmen tu dolor
sólo ellos pueden hacerlo
yo sólo miro por la ventana
y espero el final de nuestro último abrazo.


alejandro zambra
bahía inútil : (poemas 1996-1998)
santiago de chile : ediciones stratis,
1998 - 64 p.

sábado, 21 de agosto de 2004

vida digital












pouco mais tenho que a bagagem digital no fundo escuro de um servidor escondido num sítio que não conheço. possuo assim um endereço privado em condomínio fechado mas tão acessível como os telefones do matrix. aí guardo as tuas fotos, a cópia fiel das tuas cartas e as horas precisas em que nasceram as emoções. tenho ainda as coordenadas exactas em que mudaram os ventos, marquei as marés ou segui as correntes que me afastaram de ti. sei quando olhei as estrelas ou preferi os desenhos das cartas astronómicas. contudo, não me separo do frasco do teu perfume remoto sem cópia de segurança.

quarta-feira, 18 de agosto de 2004

abaixo de cão












a cidade não está vazia. estamos cá todos os invisíveis sobre quem escrevia ana paula inácio. os que vivemos nos shoppings, os que varremos as ruas e os gerontos que encolhem os ombros. apenas os cães se animam por aqui. porque será?

agosto último












sussuras nessa praia,
as palavras primeiras da última despedida
e não se esperará mais o amor
numa praia à beira chuva

terça-feira, 10 de agosto de 2004

urbi estivalia












a cidade perdeu as casas vazias
de familias vazias

as praças colaram as portas
da frente não responde ninguém

a torre foi levada em bolsas nikon
e vai voltar em setembro
com relógio digital

o mondego abusou das margens
na primeira inundação pacífica
da história da meteorologia social
e agora a outra margem acena de longe

a meia duzia que não saiu
passeia na única rua
em turnos de quatro horas
para receber algum turista perdido

sexta-feira, 6 de agosto de 2004

lou andréas-salomé















tinhas do teu lado a vida
(como disse rainer maria)
e querias ser outra deusa virgem,
completar o teu poema
unindo cinzas e terra
e devolver o amor aos filósofos

explica-me agora
(psicanalista da literatura)
o que dizem as minhas palavras
que não desvendo

quinta-feira, 5 de agosto de 2004

notte corta












partem comigo agora que os dias são maiores os contos tristes, os quadros inacabados e as cartas sem resposta. deixo para trás agora que os dias são maiores todas as palavras que só se dizem à noite. sei que é mais fácil agora que os dias são maiores iludir esse mundo onde acabam todas as viagens.

terça-feira, 3 de agosto de 2004

weltschmerzen












do alto deste dia vê-se escrito no passeio lá em baixo "anda com os pés na terra" e aqui é o céu que me suspende, me sustenta e me tem.
não fosse o homem o único animal que se engana com o futuro, que se alimenta de esperança e não tomava o divino do mesmo modo. e nós, os que saimos com holderlin todos os dias em busca de um novo caminho, umas vezes encontramos mestres e fazemos perguntas, outras vezes achamos respostas avulsas à beira de pergunta nenhuma.

segunda-feira, 2 de agosto de 2004

nada pode ser tão grave assim (versão j. k. rowling)



"a word of caution: dementors are vicious creatures. they will not distinguish between the one they hunt and the one who gets in there way. therefore i must warn each and every one of you to give them no reason to harm you. it's not in the nature of a dementor to be forgiving. but you know happiness can be found even in the darkest of times, when one only remembers to turn on the light."

dumbledore, harry potter and the prisoner of azkaban.

o(utro) mistério da estrada de sintra












na cerimónia, o padre citou dostoievski:"a beleza salvará o mundo".
pouco depois a noiva fugiu com o fotógrafo.

sexta-feira, 30 de julho de 2004

jo












jo shapcott leu rainer maria rilke, dissecou as janelas e depois as rosas, esses pequenos poemas de agradecimento do austríaco à lingua francesa. se rilke sugere que as suas rosas são uma visão masculina das mulheres, talvez as suas amantes, talvez a genitália delas, jo contrapõe a voz feminina. assim escreveu responsos a rilke, dizendo-lhe que estava errado. as rosas seriam para rilke canções, lamentos, gritos ou sussurros de mulheres. e no livro* que daí resultou apenas uma queixa da autora: falta a opinião de rilke, a sua cara de espanto.

art, not chance
nine artists' diaries
paul allen (editor)
calouste gulbenkian foundation, 2001.

*tender taxes
jo shapcott
faber and faber, 2001

les roses (x)












amie des heures où aucun être ne reste,
où tout se refuse au coeur amer;
consolatrice dont la présence atteste
tant de caresses qui flottent dans l'air,

si l'on renonce à vivre, si l'on renie
ce qui était et ce qui peut arriver,
pense-t-on jamais assez à l'insistante amie
qui à cotê de nous fait son oeuvre de fée.

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consoladora das horas em que todos se foram,
em que tudo foge do coração amargo,
a sua simples presença atesta que no ar
pairam todas as carícias.

quando perdemos o gosto de viver, ou renunciamos
à vida, ao que foi e ao que pode ainda ser,
alguma vez atentamos, como devíamos, na amiga
persistente que, a nosso lado, faz trabalhos de fada?


frutos e apontamentos
rainer maria rilke
tradução de maria gabriela llansol
relógio d'água, 1996.

quinta-feira, 29 de julho de 2004

um ano de espuma dos dias












uma enorme floresta submersa. o suave movimento das árvores é exagerado pelas páginas nelas penduradas num baile que se avista de longe. a luz é intensa aqui e estranhamente ausente ali ao lado. as palavras rasgam correntes que apenas se detectam pela difracção da luz que atravessa os caminhos. um coro de cavalos marinhos entoa canções da rive gauche. um enorme navio passa à superfície mas apenas se nota a agitação das águas que resulta da mão da sarah brincando com as ondas. e é assim que eu leio a espuma dos dias. parabéns por este, venha outro!

quarta-feira, 28 de julho de 2004

a gente furnandes












a meia duzia de metros da esplanada do café santa cruz, um homem visivelmente perturbado, visivelmente mental, perturba a ordem pública. as empregadas das lojas vizinhas vêm à porta e soltam risadas histéricas. o agente furnandes, josé furnandes, entra em acção. o homem grita-lhe a plenos pulmões a surdina de um pedido de ajuda. um desrespeito à autoridade está bem de ver. era evidente para o circo urbano em volta que bastava uma mão sobre o ombro e um pouco de atenção às súplicas do alienado. mas o agente furnandes resolve puxar do casse-tête e agredi-lo violentamente. a indignação do público de nada adiantou. chegaram prontamente os reforços da esquadra a cem a metros e conduziram o prevaricador à urgência do hospital. ainda tentaram atropelar as vaias e apupos. ainda tentaram soltar a energia que afinal não gastaram no euro 2004. ainda me pareceu ouvir uns gritos de guerra ensaiados para os holligans. o agente furnandes tem cara de quem ficou de fora do euro. não deve ter sido apurado. os reforços tinham cara de formação na academia de policía com eventuais pós-graduações em guerrilha urbana. perto deste espectáculo estavam observadores internacionais destacados para provarem umas cervejas lusas. levam uma triste fotografia digital da gente furnandes.

jim jarmusch












preto como o café e branco como os cigarros. não me interessa se jim tem amigos e os convidou para tirar proveito disso. eu tirei. não me interessa que a história não seja evidente. que o sarcasmo e a ironia possam cheirar a fumo. não me interessa se eles bebem o café com beatas dentro. não me interessa se há guião ou improviso. jarmusch faz um óptimo fim de tarde numa cidade cheia de esplanadas desinteressantes.

segunda-feira, 26 de julho de 2004

livros e gatos






















a ideia era reservar apenas uma divisão para mim. podia ser um quarto apenas mas seria o meu domínio. os livros só entrariam com visto. estariam de passagem. dormir com muitos livros em volta não faz bem à saúde, disseram-me em tempos. as restantes divisões da casa poderiam ser ocupadas com livros e gatos. contudo, livros e gatos não se dão bem com regras rígidas. invadem espaços impensáveis. não se pode gostar de surpresas e impôr uma ditadura. como proibir que o tot ou o castor durmam atrás dos livros de viagens? como decretar que larkin não possa ficar esquecido numa mala que não se usa há tanto tempo?
o poeta pina deve saber do que falo.

terça-feira, 20 de julho de 2004

hoje e sempre












acordavas cedo e colhias o melhor do campo para me brindares pela manhã. levavas-me depois pelos caminhos da tua infância e assim corriamos no tempo teu. só depois vinha a noite e o sabor dessas histórias em que tratávamos do milho e da memória.

segunda-feira, 19 de julho de 2004

amanhã












nunca foram minhas
as vésperas dos dias
em que não regressas