terça-feira, 7 de dezembro de 2004

turner prize 2004












o anúncio foi feito ontem pelo channel 4. à falta de cabo, a nossa enviada especial estava lá. the winner was... jeremy deller, o homem que filmou a batalha dos mineiros de orgreave, o texas de bush em memory bucket e que citou lenine (isto anda tudo ligado...). para trás ficaram ben langlands e nikki bell, que pisaram o risco ao filmarem e recriarem virtualmente a casa que bin laden ocupou no afeganistão. estes e os outros nomeados na shortlist de 2004 (kutlug ataman e yinka shonibare) podem ainda ser vistos na tate britain até 23 de dezembro.

quinta-feira, 2 de dezembro de 2004

In una stessa terra










Agora é só a chuva que abençoa o caminho
e na água agitada uma luz redentora quase nos guia.

Será curta a distância até ao fulgor.
Do forno onde se prepara a comida elevam-se
densas nuvens,
tudo pouco diferente da vida de sempre:
uma diferença no gesto que coloca os pratos para a ceia
uma luz na fenda da parede
entreaberta para terras de paz.

Fogo de cidra a orlar os campos.
Assim veremos os rostos dos ausentes
as iniciais dos nomes arrasados pelos lapíli
nenhuma dor senão o movimento das mãos
a afastar o fumo

e noite após noite: uma fissura.

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Ora è solo pioggia che benedice la strada
e nell'acqua che trema quasi una luce redenta da seguire.

Sarà una piccola distanza dal fulgore.
Dal forno dove il cibo si innalza
alle nuvole brune
tutto appena diverso dalla vita di sempre:
uno scarto nel gesto che depone i piatti per la sera
una luce nella crepa del muro
schiusa verso terre di pace.

Fuoco di cedro lungo i bordi del campo.
Così vedremo i volti degli assenti
le iniziali dei nomi travolte dai lapilli
nessun dolore ma il moto delle mani
che allontanano il fumo

e notte tra la notte: una fessura.

______________________________________________________________________
Antonella Anedda, de Notti di pace occidentale, Donzelli, Roma, 1999.
Tradução de Ana Teixeira (recebida por e-mail),
baseada no original e na versão em castelhano de Emílio Coco.

quarta-feira, 1 de dezembro de 2004

terça-feira, 30 de novembro de 2004

my wild love












my wild love went ridin'
she rode all the day
she wrote to the devil
and asked him to pay
the devil was wiser
it's time to repent
he asked her to give back
the money she spent

my wild love went ridin'
she rode to the sea
she gathered together
some shells for her head
she rode and she rode on
she rode for a while
then stopped for an evenin'
and lay her head down

she rode on to christmas
she rode to the farm
she rode to japan
and we entered a town
by this time the river
had changed one degree
she asked for the people
to let her go free

my wild love is crazy
she screams like a bird
she moans like a cat
when she wants to be heard
my wild love went ridin'
she rode for an hour
she rode and she rested
and then she rode on
ride, c'mon

(jim morrisson - my wild love: waiting for the sun, 1968)

segunda-feira, 29 de novembro de 2004

zurique












ontem não te disse, meu caro amigo, mas estiveste pouco tempo em zurique. não deu sequer para te aperceberes que a cidade é de robert walser para sempre. a tua rapariga do norte, que elegeu o fado alexandrino como livro da sua vida, usou a frase que vila-matas repetiu: escrever que não se pode escrever também é escrever. deve estar em grafittis por todo o lado, enfeitada com as letras rw entrelaçadas, como só eles sabem fazer. assim, não procures em mim a educação sentimental. lê walser e faz como ele. despede-te agora, escreve outras coisas e, acima de tudo, não fiques sozinho neste natal.

ai paloma












na azáfama das compras de natal quase ninguém notou que o parque mondego se transformou no val d'ayas, a torre da universidade se ergueu sobre o monte rosa e de repente era aqui o valle d'aosta. corria o verão de 1943, rosetta apaixonou-se por augusto enquanto benito caía. o grand hotel brusson e a juventude acabavam. os jogos de ténis enchiam os dias. por aqui nem decadência, nem guerra nem desporto.

ai paloma,
rosetta loy
editora replicação, 2004.

terça-feira, 23 de novembro de 2004

vida operária












na minha fábrica não aceitam os meus relatórios porque não cumprem as normas. não é a primeira vez que acontece. dizem que não posso escrever como e. e. cummings, o texto deve ser sempre "justificado", não sabem porque não acabo as frases, as imagens que escolho não são de máquinas nem de registos delas e, além do mais, querem "estatística". na semana passada pediram-me que preparasse uma comunicação para os engenheiros. ficaram irritados porque apresentei um loop de 7 minutos e 30 segundos que ocupou exactamente a hora que me destinaram e abandonei a sala depois de carregar na tecla play. disseram-me que me deixasse de modernices que eles não eram arquitectos. eu respondi que não era moderno mas sim contemporâneo (muito contemporâneo). que a galp gostava e desfilava a voyager 3.0 para exibir loops. acrescentei que a bilbao industrial tem uma fábrica só para mostrar estes relatórios, assim em vídeo desfocado, sem personagens, sem história e com sons indecifráveis. acusam-me de não colaborar na implementação das normas iso nove mil e tal e assim nunca vamos ter a certificação. já pensei despedir-me mas gosto da minha janela na sala das máquinas. pressinto o pc pelos corredores do piso de baixo, sei que na fábrica em frente está o bonirre, o castor e a margarete. que ao lado pode estar o luís. não vejo a sofia mas acho que deve estar mais abaixo, perto do bruno, dos calceteiros, dos incertos de heisenberg, do innersmile e do ricardo. gosto de os saber por perto. todos devem estar a fazer os seus relatórios também. não sei como serão. espero que apareçam um dia para uma jornada de formação.

agora tenho de ficar por aqui. estão a chegar os inspectores.

segunda-feira, 22 de novembro de 2004

chá de tília












procura a que dobrou no peito o olhar do lobo
e pergunta-lhe o que fez daquela tarde
em que percorreu de sandálias brancas
o jardim chuvoso
brindando as copas
num baptismo de chá de tília.

diz-lhe que encontrei ainda agora
num grande livro grande de ruy belo
a página onde só se lê uma palavra
primavera

sábado, 20 de novembro de 2004

cracóvia num momento












já tomou o mal pelo bem e não sabe o que fazer para voltar ao doce engano. vê agora o outro lado das coisas: o mal, as sombras e a morte. já não acredita que a poesia pode salvar o mundo. partiu milosz e talvez tenha levado a alegria.


a propósito da entrevista de wislawa szymborska a josé comas, hoje no babelia.

quinta-feira, 18 de novembro de 2004

a poesia da memória e do desejo












foi catarina quem disse hoje de manhã, tentando acordar docemente o passado e mimando o futuro:

os genes são a memória.
o desejo é o que fazemos deles.

Música*












Não são nobres as coisas que nomeio na poesia:
permanecem sob o palato, atentas, apenas conscientes
do calor ignorante da língua.
Se escutassem, ouviam o movimento, a onda de um eco
que repete letras vermelhas, destinos, e um turbilhão de vozes
perdidas -- como sempre -- em tudo o que é escuro e vazio.
Por isso digo outra vez: árvores -- de facto -- plátanos
atraídos para a água e suportados por pedras à volta.
É isto que é difícil: Cantar suavemente o milagre
do peso na luz, da sombra
que se cruza com o tempo e se espalha sobre o odor dos prados.

Tudo é corpo onde a alma chega atrasada
mas o outono resplandece a um canto
e as palavras juntam-se com o ritmo prescrito:
amontoadas, entrecortadas, iniciadas, ao longo dos séculos.
E não é de música que falam, mas do estrondo dum relâmpago,
do granizo que golpeia contra as paredes.

*antonella anedda em tradução de ana teixeira
(recebida por e-mail)

terça-feira, 16 de novembro de 2004

ff












eu nunca fui à figueira da foz. nunca deixei, na areia ou no picadeiro, rotinas que se parecessem com as de frederico lourenço. não reconheço na minha mãe de s. julião aquilo que ele refere como "coisas da figueira" no seu amor que não acaba. de cada vez que pensaram que estive na esplanada ou na praia do relógio, eu estava em saint-tropez, saint-malo ou brighton. foi nessas praias que deixei as mãos cravadas na areia. lembro-me até de umas férias que passei com stefan zweig numa metamorfose mais embriagada ainda mas nunca fui à figueira.

sexta-feira, 12 de novembro de 2004

There’s a method in my madness*












Na Grécia, o mensageiro que chegava com a notícia, por vezes, não sobrevivia. Cheguei, assim, de repente. Estavas luminosa e disponível. Riste-te e não desferiste o golpe de punhal. Era, decerto, boa a notícia.

Aqui vai a última lista, que não quiseste ouvir:

1. There’s a double room in B., waiting for us on the xxth. Will you come?
2. How shall we contact each other from now on?
3. As nuvens negras já passaram, já só resta a dúvida metódica?
4. Ska vi knulla som hund mitt i natten?
5. Is this a new start? Shall we take it slowly?
6. Ainda bombeia mais rápido, esse músculo, quando me descobres no meio da multidão – ou nem por isso?
7. Were you really happy to see me?
8. Aviso-te que vou aparecer no teu aniversário. Preferes uma surpresa anunciada?
9. Are you positive?
10. Não tenhas medo. Só se vive uma vez.


* texto e foto recebidos por mail com pedido de publicação anónima.

o bosão de higgs












ele perguntou-lhe o que havia de concreto naquela relação.
ela disse-lhe que procurasse o bosão de higgs, a particula responsável pela materialização da energia que sentiam. contou-lhe ainda que acreditava que esse bosão existia e que era essa, afinal, a dimensão religiosa do par que formavam, espantoso talvez, porque abençoado pela partícula de deus.

segunda-feira, 8 de novembro de 2004

violentamente feliz












esperei sempre que emir kusturica voltasse ao registo de underground. violento nas críticas à comunidade internacional e ao nacional pacovismo mafioso e doce no sonho de uma terra tão rica como os seus filmes a mostram. em "a vida é um milagre" o ambiente é de guerra, de novo, e o caos, também sentimental, transforma-se num happy end como se quer de uma visão ácida mas sonhadora. a expressão de bjork foi usada há umas semanas atrás por pedro rosa mendes para classificar emir kusturica e os seus filmes. talvez se possa traduzir em três fotogramas apenas: o primeiro em que se prepara uma partida de xadrez entre o carteiro e luka, o engenheiro ferroviário; o segundo quando luka contempla o seu modelo da linha ferroviária de mokra gora à escala e o terceiro em que luka e sabaha se aproximam do amor durante a noite. em todos os momentos há bombardeamentos lá fora mas a vida continua.

os filmes e a vida de kusturica são assim como a música da sua "no smoking band".

quarta-feira, 3 de novembro de 2004

se a janela se fechasse eu diria: "voltem para casa e acendam a luz!"












obrigado ana, antónio, cristina, lídia, luís, marta, paulo e zazie, e também a vocês repórter lírico, henri michaux e bartleby (onde quer que estejam).

obrigado pelo estímulo do vosso exemplo.

segunda-feira, 1 de novembro de 2004

eram












o princípio era simples: o que tens de urgente para me dizer?
depois foi um espectáculo de sete peças de teatro no maria matos e acabou no sábado passado. era urgente que continuasse.

os textos foram soberbamente escritos por uma equipa que não é deste mundo. continuo com um problema com o pedro mexia mas isso é outra coisa.

as notas:
1. quando alguém diz algo de urgente raramente é ouvido.
2. urgência e tempo: grito e fuga.
3. o sexo é urgente o amor talvez não.
4. é urgente livrarmo-nos de algumas memórias ou adquirimos outras.
5. há pessoas que ainda levam sentimentos sobre algo que morreu ao serviço de urgência. talvez para reanimação ou para terem uma certidão de óbito.
6. há quem pense que tudo o que diz (ou escreve) é urgente. (talvez não devesse escrever isto, ainda).

domingo, 31 de outubro de 2004

no see, no fear (artist's self portrait): hannu a leimu, 2002.












"tell me 5 things you're most afraid of (may be an anonymous answer). please reply, this is for a small art project."
juno doran, monolog 04.10.23.

a minha resposta:

1.
desencontrar-me no tempo.
como num beijo, falhar esse momento em que tudo pode e deve acontecer. saber que tudo é uma corrida do presente e não há maneira de voltar atrás ou projectar no futuro o que fazemos agora.

2.
desencontrar-me no espaço.
não quero "estar onde não estou" mas sei que posso estar no local errado e não me aperceber disso.

3.
desencontrar-me nas palavras.
detesto erros de comunicação mas sei que posso dizer o que não quero e entender o que o não foi dito.

4.
desencontrar-me nos afectos.
dar agora o que não dei pode servir de muito pouco (funciona também com o verbo receber).

5.
desencontrar-me da vontade.
tentar voltar ao lugar em mim de onde parto para explorar o mundo e não o reconhecer ou já não funcionar e enfim, perder-me dele.

ars amandi III












tápate,
tápate las metáforas, hace
un pequeño frío de pequeño invierno,
con un pequeño radiador, pequeño
tiempo para sentirmos juntos
menos solos
que solos habitualmente, menos sabios
para decir amor mío sin remordimientos
para creer haber sido elegidos
hace tiempo
en un mercado persa anunciado por profetas

sí, cubro también mis imágenes impacientes.

____________________________________________
manuel vázquez montalbán
una educación sentimental, 1963.

quarta-feira, 27 de outubro de 2004

em serralves: paula rego e ana sousa dias












"outras conversas" (a dois) de ana sousa dias com paula rego: aprendemos que o génio não é explicável nem talvez conversável e pode estar-se assim no mundo.

a infantilidade da pintora continua a fascinar-me. ana fala com a avó, em tom maternalista, sobre o dia-a-dia, sobre os sentimentos primários e é assim que consegue colocar as perguntas que nenhum entrevistador faz.

serralves devia estar aberto depois destas conversas.

domingo, 24 de outubro de 2004

dou-te os meus olhos












ontem: o caminho era espelhado, não reparei nas margens e nunca duvidei de cada curva sem te ver.

hoje: quando procuro aquela silhueta, tão ao fundo, tão imóvel, não sei se será um abraço, a ternura da fusão ou o desespero solitário que tolhe cada desejo.

sexta-feira, 22 de outubro de 2004

noite azul












hoje todos os sonhos serão jill bioskop.

segunda-feira, 18 de outubro de 2004

faq's












porque é que estiveste na escócia e só escreveste sobre charles rennie makintosh?
porque não reservaste com antecedência o hotel mas encomendaste livros sobre os poetas escoceses?
porquê os novos poetas?
porquê "dream state" de daniel o'rourke?
porque lês ainda antologias?
porque preferiste precisamente peter mccarey que é o único que não vive na escócia mas sim em geneve?
porque é que o peter fez um blog que não é um blog e escondeu o que escreve de tal modo que ninguém pode ler nem sequer o silabário?
já reparaste que faq quer dizer frequently asked questions e frequently answered questions?

domingo, 17 de outubro de 2004

hoy vuelvo a la frontera*












(torno por teimosia ao outono de todas as conversas)

desenho palavras crepusculares que não acredito tenha ouvido alguma vez. a minha agenda, prima afastada e snob de moleskynes, não guarda rabiscos, antes filtra estúpida e friamente as emoções em caracteres normalizados. de tal modo que ao olhar para estas palavras assim alinhadas me parece torpe o fingimento do lcd.
pensei em tempos que apenas a escrita nos poderia salvar do silêncio. escrever e ler. precisamente nesta ordem, porque se nos atrevermos ao contrário caimos na mão dos escritores que nos couberam quantas vezes pelo acaso. ainda agora, quando seguia baudelaire e mallarmé me achei prisioneiro de corbière. e é o maldito que dita quase tudo o que vem depois. pelas páginas fora e até pelos sonhos. esta noite sonhei que estava travestido como tristan corbière numa fotografia que vi não sei onde.
e se não lermos? e se formos, agora e sempre, uma furiosa máquina de escrever, diabólica e obsessiva, que tão somente debita caracteres à procura da combinação mágica que nos devolve a paz dos primeiros passos depois da fronteira?

*la frontera, lhasa de sela, 2003.

sábado, 16 de outubro de 2004

petit mort pour rire












va vite, léger peigneur de comètes!
les herbes au vent seront tes cheveux;
de ton oeil béant jailliront les feux
follets, prisonniers dans les pauvres têtes...

les fleurs de tombeau qu'on nomme amourettes
foisonneront plein ton rire terreux...
et les myosotis, ces fleurs d'oubliettes...

ne fais pas le lourd : cercueils de poètes
pour les croque-morts sont de simples jeux,
boîtes à violon qui sonnent le creux...
ils te croiront mort - les bourgeois sont bêtes -
va vite, légers peigneur de comètes!

tristan corbière

terça-feira, 12 de outubro de 2004

rychlik rozvoje












houve um dia
(como o de hoje)
em que não pretendemos nada.

houve um dia,
(como o de hoje)
em que parámos o comboio e saímos,
procurámos água fresca e tratámos do jardim.

e foi nesse momento
(o que éramos quando foi?)
que reparámos no silêncio,
na brutal ausência dos juvenis,
nos animais que não viajam nesta carruagem,
nas histórias apressadas dos intervalos
no cenário vazio à nossa frente
na história parada sem guião
na tangente que o deserto nos faz

e não sabemos porque parámos
nem quando foi absolutamente imperioso parar.

sexta-feira, 8 de outubro de 2004

e se agora fossemos elementares









fossemos quarks e
teria sonhado sermos um hadrão.
mas o tempo passa,
aumenta a distância,
perdemos gluões e
diluimo-nos na nossa espécie.
diz-me,
acreditas na liberdade assimptótica?

terça-feira, 5 de outubro de 2004

mischa maisky na gulbenkian















este ano vi santa cecilia render-se a maisky. agora o grande auditorio da gulbenkian tem dois dias para o fazer.

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leonard bernstein: sinfonia nº 1, jeremiah;
ernst bloch: schelomo, rapsódia hebraica para violoncelo e orquestra;
max bruch: kol nidrei, para violoncelo e orquestra. op.47;
leonard bernstein: sinfonia nº 2, age of anxiety.

orquestra gulbenkian, lawrence foster (maestro),
cynthia jansen (meio-soprano),
mischa maisky (violoncelo),
nami ejiri (piano)

quinta, 7 Out 2004, 21:00
sexta, 8 Out 2004, 19:00

escada












não cedas à tentação. não escolhi esta foto para me falares do zé mário branco ou do camané. esta não é a escada da vida (a escada sem corrimão). quero que repares nos degraus e na luz. ou naquele espaço tão mais interessante onde apenas se podem ver sombras ou penumbras ou, se preferires, o anúncio dos degraus. e esta é a reflexão que te deixo para o dia de hoje e que seja um bom dia, paulo.

quinta-feira, 30 de setembro de 2004

sad sad sisters












as duas tardes de outono
desamparadas de dias de setembro

o livro aberto e estas páginas
o monólogo e o silêncio

(não me avisaste para ter cuidado
com o kaddish e com o kertész)

todas as capas sem quadros de hopper
as horas vazias sempre e só elas aos pares

todas as razões tristes
e as emoções que nos inclinam


(sisters, acrílico sobre tela, nevin hirik, 2000)

terça-feira, 28 de setembro de 2004

sympathy














"the heart is the seat of a faculty, sympathy, that allows us to share at times the being of another. sympathy has everything to do with the subject and little to do with the object, the "another", as we see at once when we think of the object not as a bat ("can I share the being of a bat?") but as another human being. there are people who have the capacity to imagine themselves as someone else, there are people who have no such capacity (when the lack is extreme, we call them psycopaths), and there are people who have the capacity but choose not to exercise it."

(p79)

domingo, 26 de setembro de 2004

o matrix da minha rua












entre o sapateiro e a retrosaria, tenho a certeza, está uma senhora de muita idade à janela que diz adeus às pessoas tristes. vão dizer-te que não, as lojas estão lado a lado. apenas tens de passar muito muito muito devagar. e ter atenção, é essencial. eu sei que hoje não precisas, mas um dia já sabes. muito muito muito devagar, não esqueças, e verás a senhora. depois, o teu dia vai ser diferente.

quinta-feira, 23 de setembro de 2004

dos gigantes e dos anões












nos tempos em que lia as aventuras de gulliver preferia-o na terra dos gigantes. a imagem do herói atado pelos liliputianos era enternecedora para as meninas. contudo, os gigantes eram mais fortes, chegavam mais depressa e viam mundos mais distantes. depois a vida pregou-me uma partida e fascinei-me pela minha fábrica de micromáquinas. ou seja, apesar de preferir conscientemente o contrário, continuo a não saber porquê, como rosa montero, mas os anões acabam sempre por aparecer nas minhas histórias.

quarta-feira, 22 de setembro de 2004












chega a meio da noite o anúncio do outono: nas janelas que ontem sorriam chove copiosamente e o miúdo finta sozinho num quarto escuro o ladrão das brincadeiras de amanhã. escrevo num papagaio que ninguém nos roubará a alegria de sonhar e solto-o do meu terraço.

ouve bem benjamin, este papagaio não se assusta com as tempestades!

domingo, 19 de setembro de 2004

vem ver como o mundo se reinventou enquanto tu dormias












ao meio da noite ela escreve no escuro sobre as grades em que se transformou o ar que respiramos, ele acena do outro lado do estúdio e atravessa a noite com a música e a voz como só a magia da rádio o faz. eu saio do último turno da fábrica e dou a volta a paris guiado por um flâneur.

amanhã só pode ser um dia diferente.

os dias de little venice












sinceramente, eu queria avisar que ainda estava vivo mas, como aconteceu ao wakefield de hawthorne, o tempo foi passando. vivi durante uns tempos numa barcaça em little venice que me fez recordar a holanda. fui bem tratado pela sophia e pelo seu marido nathan. passava os dias em leituras gozando uma atmosfera de cuidado para que nada me interrompesse. algumas noites saía para uma ou outra festa nas barcaças vizinhas. chegámos a visitar em camden town um grupo de amigos que pararam no tempo e sairam do mundo. dessa vez, ainda pensei não voltar ao canal mas não me agradava assim tanto ficar nos anos setenta. como dizem por aí, quem se recorda desses anos é porque não os viveu.

um dia repeti para mim as palavras de wakefield (ora eu não sou tolo!) e voltei.

tomei o caminho do regent's canal até primrose hill e sentei-me nos degraus do 23 da fitzroy road. passados uns minutos toquei a campainha. atendeu-me um mulher aparentando uns quarenta anos, muito alta e de longos cabelos ruivos que me reconheceu de imediato como estrangeiro e, tomando-me como turista, apressou-se a dizer que não havia nada exposto nem eram permitidas visitas. sosseguei-a dizendo que não procurava sylvia plath ou w.b. yeats e que apenas gostava de ver o rosto de alguém que habitasse aquelas salas. surpreendida pelo argumento inesperado, fechou-me a porta na cara. regressei então a casa, confiante que ninguém saberia pelo meu rosto onde morei nestes últimos tempos.

sábado, 18 de setembro de 2004

luc tuymans












o atellier é talvez um sexto andar com vista sobre antuérpia. luc tuymans demora-se à janela tentando encontrar justificação para o facto de uma cidade tão pequena ter tanta importância. como se não acreditasse nos seus argumentos, confirma enquanto comenta. afasta-se depois e prepara uma paleta enorme para pintar um retrato de mickey mouse. toda a sala está preenchida com retratos e figuras humanas.

não acaba os corpos nem as conversas do holocausto. talvez porque voltaram sempre, em todas as refeições, na casa dos pais. continuarão sempre.

ao contrário de picasso, acha que interessa perceber o modo como se constrói a obra. tem no seu olhar a incerteza da coreografia da pintura e procura como falta fazer.

foi esse esgar que guardei. muitas vezes me esqueço dos caminhos por ter o olhar preso no horizonte.

luc tuymans
tate modern, londres,
até 26 de setembro.

quinta-feira, 16 de setembro de 2004

um chá na willow tea room de buchanan street












aqui os corpos cansados não vão para casa.
partilha-se um chá antes das cinco (o pedido deve ser feito antes das quatro e meia).
o chá será o feminino do fim da tarde. a agenda do dia foi preenchida no masculino. uns pubs algures os escondem mas os salões de chá sáo locais de exibição no feminino. os sacos das compras como santo e senha.

a obra de charles rennie mackintosh é feminina. margaret macdonald, a senhora mackintosh, quase fica para trás. mas é ela a geisha de charles. são dela os desenhos com as simetrias. é dela a dualidade da obra de mackintosh. foi por ela, porventura, que tentaram classificar como art nouveaux a obra do marido. a glasgow school of art, a house for an art lover e as willow tea rooms fazem hoje, passado um século, justiça à memória do artista-arquitecto. talvez amanhã, ao fim da tarde, se faça justiça a margaret.