segunda-feira, 17 de janeiro de 2005

agenda












hoje, lá mais para a noite, emir kusturica vem a lisboa com a no smoking band para tocar "la vie est un miracle". emir apresenta assim a sua banda:

the NO SMOKING band will tell an entirely different song from that of the Yugoslav national football team, for these are soloists who are at their best when they play as a group, generating a refreshingly original kind of music that is entirely their own.

eu não vou poder estar presente porque tenho de fazer o turno da noite na fábrica mas desejo aos que lá vão (at e tantos outros) um excelente concerto.

nota importante: quando gritarem pelo rapaz digam "kusturitza". um brilharete em servo-croata que me ensinou um amigo poliglota.

domingo, 16 de janeiro de 2005

revelação















na tina da câmara obscura
a face do sábio
(até agora sentado de costas
no cimo da montanha)
surpresa e certeza
uma mulher (um espelho
de lou andreas-salomé)

sexta-feira, 14 de janeiro de 2005

jazzion: south froggies (featuring allan)














- quem me dera saber quem és e o que queres dizer.
- hoje digo-te tudo se o perguntares com um saxofone.

c. k. williams: dizem que a américa precisava de um poeta assim












The World

Splendid that I'd revel even more in the butterflies harvesting pollen
from the lavender in my father-in-law's garden in Normandy
when I bring to mind Francis Ponge's poem where he transfigures them
to levitating matches, and the flowers they dip into to unwashed cups;
it doesn't work with lavender, but still, so lovely, matches, cups,
and lovely, too, to be here in the fragrant summer sunlight reading.

Just now an essay in Le Monde, on Fragonard, his oval oil sketch
of a mother opening the bodice of her rosily blushing daughter
to demonstrate to a young artist that the girl would be suitable as a "model";
the snide quotation marks insinuate she might be other than she seems,
but to me she seems entirely enchanting, even without her top
and with the painter's cane casually lifting her skirt from her ankle.

Fragonard needs so little for his plot; the girl's disarranged underslips
a few quick swirls, the mother's compliant mouth a blur, her eyes
two dots of black, yet you can see how crucial this transaction is to her,
how accommodating she'd be in working through potential complications.
In the shadows behind, a smear of fabric spills from a drawer,
a symbol surely, though when one starts thinking symbol, what isn't?

Each sprig of lavender lifting jauntily as its sated butterfly departs,
Catherine beneath the beech tree with her father and sisters, me watching,
everything and everyone might stand for something else, be something else.
Though in truth I can't imagine what; reality has put itself so solidly before me
there's little need for mystery. . . Except for us, for how we take the world
to us, and make it more, more than we are, more even than itself.

(the world, the singing, c. k. williams,
farrar, straus and giroux, new york, 2003)

quarta-feira, 12 de janeiro de 2005

S












lettera del silenzio e dei serpenti, del loro sangue secco
al sole, della serenità sapiente, del sussurro con cui si chiede di
tacere
.

il catalogo della gioia, antonella anedda,
donzelli, 2003.

domingo, 9 de janeiro de 2005

kafka por james coleman












eu vi kafka descendo a serpa pinto de braço dado com coleman. aquele sussurrava a este: tiramos fotografias para esquecermos o que fotografamos. coleman, que não sabe guardar um segredo, encheu uma parede do museu do chiado com a luz e a voz da confidência.

kafka por pedro mexia












eu vi kafka em campo de ourique de braço dado com mexia. aquele sussurrava a este: tiramos fotografias para esquecermos o que fotografamos. mexia, que não sabe guardar um segredo, encheu uma página da sua vida oculta com o blow up: tenho fotografias que provam/ que nunca exististe.

kafka por ruy belo












eu vi kafka no monte abraão de braço dado com ruy belo. aquele sussurrava a este: tiramos fotografias para esquecermos o que fotografamos. belo, que não sabia guardar um segredo, encheu de daguerreotipos os versos do elogio de maria teresa no transporte no tempo: são retratos diferentes de quem foste um breve instante/ e nele floriste e apenas não murchaste/ por haveres ficado um pouco mais em tais fotografias.

sábado, 8 de janeiro de 2005

nada do que posso me alucina*













rendo-me numa linha
à inevitabilidade do que é natural e
não insisto:
nada do que posso me alucina*

acordo todos os dias,
apesar de tudo,
sabendo do dia anterior que
nada que eu quero me suprime*

*jura secreta, zélia duncan.

é urgente: roberto bolaño












é urgente procurar 2666 o livro póstumo de roberto bolaño (anagrama, 2004) composto por cinco novelas e um ensaio de um escritor praticamente desconhecido entre nós. a unica obra publicada em portugal é "nocturno chileno" de 2000 (gótica, 2003). cento e cinquenta páginas lidas numa febre.

quinta-feira, 6 de janeiro de 2005

um buraco na sombra












a tua pedra negra regressa à minha mão fechada
e ilumina como um sol a minha noite em claro
virás por uma palavra?


talismã, carlos alberto machado.
assírio & alvim, 2004.


a ana teixeira que amavelmente enviou traduções da poesia de antonella anedda, criou agora um "refúgio para sobrevoar o esquecimento". está a fazer uma colectânea de poetas da blogoesfera e escolheu palavras minhas ilustradas por enki bilal. obrigado ana pela estima que é mútua.

quarta-feira, 5 de janeiro de 2005

storm












(to ingrid sthare)

i am drawing words with my finger in your window
searching for the silence that drains away with the water after the storm

sábado, 1 de janeiro de 2005

o mesmo mar de amos oz












imperdoável acabar o ano e não ter dado conta de amos oz*. obrigado eduardo, pela correcção. qual de nós poderia ter escrito:

albert de noite
a sombra dela na varanda, sombra lenta,
uma sombra que me vai abandonando.
em casa não se está bem. lá fora
está escuro. à noite o quarto
é mais baixo.


e sim tens razão, estas são as palavras:

agora levanta-te e vai procurar,
levanta-te com ligeireza e calma e vai procurar o que perdeste.


*o mesmo mar, amos oz, asa, 2004.

terça-feira, 28 de dezembro de 2004

her heart is a christmas tree












prenda de Natal para o Paulo*

riso-de-mar

Cobres os pulsos de algas
e de espuma para que nas histórias
de meninos e de búzios
os risos se façam de mar.

Sandra Costa

a sandra criou a tradição de oferecer pelo natal poemas em troca de uma palavra que serve de mote. este ano escolhi riso-de-mar, o título de um seu poema do livro sob a luz do mar, editado em 2002 pela campo das letras. assim recebi outro poema riso-de-mar tão especial.

obrigado sandra.

domingo, 26 de dezembro de 2004

my head wanna be a christmas tree












não falo da luz, da fantasia ou do lugar dos sonhos dessa hora que para uns é noite e para outros manhã. falo dessa esperança que uma parte do mundo carrega e que não sobrevive aos últimos segundos antes da revelação das ofertas. uma estrela como desejo. sob várias formas. que dependam de mim.

quinta-feira, 23 de dezembro de 2004

ontem o mar












na noite à beira-memória-de-ti olhei o espelho gelado da geografia dos desencontros. a magia dos lugares e das mãos onde não estivemos faz desiguais as faces da lua que perseguimos. tinha poemas num livro fechado na mão cheia de areia que só podias ler por amor mineral.

segunda-feira, 20 de dezembro de 2004

escritura












julgou encontrar no silêncio
a resposta emocional inteligente
até ouvir finalmente
as palavras escritas em cracóvia

recomeçou a escrever devagar
confiante nas sagradas escrituras:
porque
digan lo que digan,
la escritura puede salvar al hombre.
hasta en lo imposible.

quinta-feira, 16 de dezembro de 2004

e se eu for um shandy?












li num livrinho* que se pode definir um shandy como um indivíduo com elevado grau de loucura cuja obra cabe facilmente numa maleta e que funciona como uma "máquina solteira" ou se comporta como tal. adicionalmente, pode ter espírito inovador, sexualidade extrema, ausência de grandes propósitos, nomadismo infatigável, tensa convivência com a figura do duplo, simpatia pela negritude e o culto da arte da insolência. ando a pensar na hipótese de eu ser um shandy. vou procurar ajuda especializada.

*história abreviada da literatura portátil, enrique vila-matas,
assírio & alvim, 1997.

recuerdo lola












na cidade de lola ainda se chega a pé a todo lado. há tempo para ir devagar e descobrir o que está muito longe das "nove casas, duas ruas" da aldeia de manuel da fonseca. as pessoas lembram o adormecer e esquecem o que sonharam. acima de tudo, nunca perguntam o que é a felicidade. também lá o céu é mais baixo e são apenas razões acústicas que me fazem apreciar de modo diferente a terra de lola.

quarta-feira, 15 de dezembro de 2004

a terra prometida












encontrei A. abrindo a caixa de correio no preciso momento em que eu o fazia. sorrimos pela coincidência de recebermos o mesmo livro: jerusalém de gonçalo m. tavares. orgulhoso da sua leitura, A. exibia o livro como quem atesta a sua fidelidade acolitando dominicalmente o padre joão. perguntei a medo se tinha lido outros livros do mesmo autor. perante a negativa, adiantei um "tenha cuidado, o homem não é certo e talvez não seja a leitura que espera para preparar a excursão dos leigos". agora que penso nisso arrependo-me mas não posso emendar. deixei contudo um pequeno bilhete pouco anónimo na caixa de correio de A.:

esta sexta-feira à noite, vai ouvir-se poesia de/com gonçalo m. tavares na livraria o navio de espelhos em aveiro.

será que vai aparecer? irei eu na excursão à terra santa?

sábado, 11 de dezembro de 2004

vinte e três e vinte e quatro de outubro de 2004












eu lembro-me da semana sem fim
das folhas rasgadas da agenda
de poemas prontos para consumo

e nunca a palavra "desfolhar" entrou
rasgando tanto os dias

dizia assim:

NÃO VOLTAREMOS a pressentir o mar
nem sequer lembraremos o turvo sal das bocas
sobre o rosto gémeo da máscara que nos esconde

louco pássaro de cinza sulcando o ar rarefeito
e a escuma luminosa dos meteoros que cegam
os frementes alicerces de cidade insone

não nos reflectiremos mais nos gestos desgastos
nem na demência da língua donde irrompe a alba
e nómadas continuaremos para lá do sangue
flutuantes no escuro sonho
os corpos incendiados um no outro
consomem-se formando insuspeitas constelações
vagarosamente
através dos séculos regressaremos
intactos ao nada essencial

al berto, o medo.

terça-feira, 7 de dezembro de 2004

turner prize 2004












o anúncio foi feito ontem pelo channel 4. à falta de cabo, a nossa enviada especial estava lá. the winner was... jeremy deller, o homem que filmou a batalha dos mineiros de orgreave, o texas de bush em memory bucket e que citou lenine (isto anda tudo ligado...). para trás ficaram ben langlands e nikki bell, que pisaram o risco ao filmarem e recriarem virtualmente a casa que bin laden ocupou no afeganistão. estes e os outros nomeados na shortlist de 2004 (kutlug ataman e yinka shonibare) podem ainda ser vistos na tate britain até 23 de dezembro.

quinta-feira, 2 de dezembro de 2004

In una stessa terra










Agora é só a chuva que abençoa o caminho
e na água agitada uma luz redentora quase nos guia.

Será curta a distância até ao fulgor.
Do forno onde se prepara a comida elevam-se
densas nuvens,
tudo pouco diferente da vida de sempre:
uma diferença no gesto que coloca os pratos para a ceia
uma luz na fenda da parede
entreaberta para terras de paz.

Fogo de cidra a orlar os campos.
Assim veremos os rostos dos ausentes
as iniciais dos nomes arrasados pelos lapíli
nenhuma dor senão o movimento das mãos
a afastar o fumo

e noite após noite: uma fissura.

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Ora è solo pioggia che benedice la strada
e nell'acqua che trema quasi una luce redenta da seguire.

Sarà una piccola distanza dal fulgore.
Dal forno dove il cibo si innalza
alle nuvole brune
tutto appena diverso dalla vita di sempre:
uno scarto nel gesto che depone i piatti per la sera
una luce nella crepa del muro
schiusa verso terre di pace.

Fuoco di cedro lungo i bordi del campo.
Così vedremo i volti degli assenti
le iniziali dei nomi travolte dai lapilli
nessun dolore ma il moto delle mani
che allontanano il fumo

e notte tra la notte: una fessura.

______________________________________________________________________
Antonella Anedda, de Notti di pace occidentale, Donzelli, Roma, 1999.
Tradução de Ana Teixeira (recebida por e-mail),
baseada no original e na versão em castelhano de Emílio Coco.

quarta-feira, 1 de dezembro de 2004

terça-feira, 30 de novembro de 2004

my wild love












my wild love went ridin'
she rode all the day
she wrote to the devil
and asked him to pay
the devil was wiser
it's time to repent
he asked her to give back
the money she spent

my wild love went ridin'
she rode to the sea
she gathered together
some shells for her head
she rode and she rode on
she rode for a while
then stopped for an evenin'
and lay her head down

she rode on to christmas
she rode to the farm
she rode to japan
and we entered a town
by this time the river
had changed one degree
she asked for the people
to let her go free

my wild love is crazy
she screams like a bird
she moans like a cat
when she wants to be heard
my wild love went ridin'
she rode for an hour
she rode and she rested
and then she rode on
ride, c'mon

(jim morrisson - my wild love: waiting for the sun, 1968)

segunda-feira, 29 de novembro de 2004

zurique












ontem não te disse, meu caro amigo, mas estiveste pouco tempo em zurique. não deu sequer para te aperceberes que a cidade é de robert walser para sempre. a tua rapariga do norte, que elegeu o fado alexandrino como livro da sua vida, usou a frase que vila-matas repetiu: escrever que não se pode escrever também é escrever. deve estar em grafittis por todo o lado, enfeitada com as letras rw entrelaçadas, como só eles sabem fazer. assim, não procures em mim a educação sentimental. lê walser e faz como ele. despede-te agora, escreve outras coisas e, acima de tudo, não fiques sozinho neste natal.

ai paloma












na azáfama das compras de natal quase ninguém notou que o parque mondego se transformou no val d'ayas, a torre da universidade se ergueu sobre o monte rosa e de repente era aqui o valle d'aosta. corria o verão de 1943, rosetta apaixonou-se por augusto enquanto benito caía. o grand hotel brusson e a juventude acabavam. os jogos de ténis enchiam os dias. por aqui nem decadência, nem guerra nem desporto.

ai paloma,
rosetta loy
editora replicação, 2004.

terça-feira, 23 de novembro de 2004

vida operária












na minha fábrica não aceitam os meus relatórios porque não cumprem as normas. não é a primeira vez que acontece. dizem que não posso escrever como e. e. cummings, o texto deve ser sempre "justificado", não sabem porque não acabo as frases, as imagens que escolho não são de máquinas nem de registos delas e, além do mais, querem "estatística". na semana passada pediram-me que preparasse uma comunicação para os engenheiros. ficaram irritados porque apresentei um loop de 7 minutos e 30 segundos que ocupou exactamente a hora que me destinaram e abandonei a sala depois de carregar na tecla play. disseram-me que me deixasse de modernices que eles não eram arquitectos. eu respondi que não era moderno mas sim contemporâneo (muito contemporâneo). que a galp gostava e desfilava a voyager 3.0 para exibir loops. acrescentei que a bilbao industrial tem uma fábrica só para mostrar estes relatórios, assim em vídeo desfocado, sem personagens, sem história e com sons indecifráveis. acusam-me de não colaborar na implementação das normas iso nove mil e tal e assim nunca vamos ter a certificação. já pensei despedir-me mas gosto da minha janela na sala das máquinas. pressinto o pc pelos corredores do piso de baixo, sei que na fábrica em frente está o bonirre, o castor e a margarete. que ao lado pode estar o luís. não vejo a sofia mas acho que deve estar mais abaixo, perto do bruno, dos calceteiros, dos incertos de heisenberg, do innersmile e do ricardo. gosto de os saber por perto. todos devem estar a fazer os seus relatórios também. não sei como serão. espero que apareçam um dia para uma jornada de formação.

agora tenho de ficar por aqui. estão a chegar os inspectores.

segunda-feira, 22 de novembro de 2004

chá de tília












procura a que dobrou no peito o olhar do lobo
e pergunta-lhe o que fez daquela tarde
em que percorreu de sandálias brancas
o jardim chuvoso
brindando as copas
num baptismo de chá de tília.

diz-lhe que encontrei ainda agora
num grande livro grande de ruy belo
a página onde só se lê uma palavra
primavera

sábado, 20 de novembro de 2004

cracóvia num momento












já tomou o mal pelo bem e não sabe o que fazer para voltar ao doce engano. vê agora o outro lado das coisas: o mal, as sombras e a morte. já não acredita que a poesia pode salvar o mundo. partiu milosz e talvez tenha levado a alegria.


a propósito da entrevista de wislawa szymborska a josé comas, hoje no babelia.

quinta-feira, 18 de novembro de 2004

a poesia da memória e do desejo












foi catarina quem disse hoje de manhã, tentando acordar docemente o passado e mimando o futuro:

os genes são a memória.
o desejo é o que fazemos deles.

Música*












Não são nobres as coisas que nomeio na poesia:
permanecem sob o palato, atentas, apenas conscientes
do calor ignorante da língua.
Se escutassem, ouviam o movimento, a onda de um eco
que repete letras vermelhas, destinos, e um turbilhão de vozes
perdidas -- como sempre -- em tudo o que é escuro e vazio.
Por isso digo outra vez: árvores -- de facto -- plátanos
atraídos para a água e suportados por pedras à volta.
É isto que é difícil: Cantar suavemente o milagre
do peso na luz, da sombra
que se cruza com o tempo e se espalha sobre o odor dos prados.

Tudo é corpo onde a alma chega atrasada
mas o outono resplandece a um canto
e as palavras juntam-se com o ritmo prescrito:
amontoadas, entrecortadas, iniciadas, ao longo dos séculos.
E não é de música que falam, mas do estrondo dum relâmpago,
do granizo que golpeia contra as paredes.

*antonella anedda em tradução de ana teixeira
(recebida por e-mail)

terça-feira, 16 de novembro de 2004

ff












eu nunca fui à figueira da foz. nunca deixei, na areia ou no picadeiro, rotinas que se parecessem com as de frederico lourenço. não reconheço na minha mãe de s. julião aquilo que ele refere como "coisas da figueira" no seu amor que não acaba. de cada vez que pensaram que estive na esplanada ou na praia do relógio, eu estava em saint-tropez, saint-malo ou brighton. foi nessas praias que deixei as mãos cravadas na areia. lembro-me até de umas férias que passei com stefan zweig numa metamorfose mais embriagada ainda mas nunca fui à figueira.

sexta-feira, 12 de novembro de 2004

There’s a method in my madness*












Na Grécia, o mensageiro que chegava com a notícia, por vezes, não sobrevivia. Cheguei, assim, de repente. Estavas luminosa e disponível. Riste-te e não desferiste o golpe de punhal. Era, decerto, boa a notícia.

Aqui vai a última lista, que não quiseste ouvir:

1. There’s a double room in B., waiting for us on the xxth. Will you come?
2. How shall we contact each other from now on?
3. As nuvens negras já passaram, já só resta a dúvida metódica?
4. Ska vi knulla som hund mitt i natten?
5. Is this a new start? Shall we take it slowly?
6. Ainda bombeia mais rápido, esse músculo, quando me descobres no meio da multidão – ou nem por isso?
7. Were you really happy to see me?
8. Aviso-te que vou aparecer no teu aniversário. Preferes uma surpresa anunciada?
9. Are you positive?
10. Não tenhas medo. Só se vive uma vez.


* texto e foto recebidos por mail com pedido de publicação anónima.

o bosão de higgs












ele perguntou-lhe o que havia de concreto naquela relação.
ela disse-lhe que procurasse o bosão de higgs, a particula responsável pela materialização da energia que sentiam. contou-lhe ainda que acreditava que esse bosão existia e que era essa, afinal, a dimensão religiosa do par que formavam, espantoso talvez, porque abençoado pela partícula de deus.

segunda-feira, 8 de novembro de 2004

violentamente feliz












esperei sempre que emir kusturica voltasse ao registo de underground. violento nas críticas à comunidade internacional e ao nacional pacovismo mafioso e doce no sonho de uma terra tão rica como os seus filmes a mostram. em "a vida é um milagre" o ambiente é de guerra, de novo, e o caos, também sentimental, transforma-se num happy end como se quer de uma visão ácida mas sonhadora. a expressão de bjork foi usada há umas semanas atrás por pedro rosa mendes para classificar emir kusturica e os seus filmes. talvez se possa traduzir em três fotogramas apenas: o primeiro em que se prepara uma partida de xadrez entre o carteiro e luka, o engenheiro ferroviário; o segundo quando luka contempla o seu modelo da linha ferroviária de mokra gora à escala e o terceiro em que luka e sabaha se aproximam do amor durante a noite. em todos os momentos há bombardeamentos lá fora mas a vida continua.

os filmes e a vida de kusturica são assim como a música da sua "no smoking band".

quarta-feira, 3 de novembro de 2004

se a janela se fechasse eu diria: "voltem para casa e acendam a luz!"












obrigado ana, antónio, cristina, lídia, luís, marta, paulo e zazie, e também a vocês repórter lírico, henri michaux e bartleby (onde quer que estejam).

obrigado pelo estímulo do vosso exemplo.