quinta-feira, 17 de fevereiro de 2005

nouvelle vague (aquelas noites)























esta noite é terça-feira por causa dele. estou no princípio dos anos 80 (eu cheguei tarde para tanta coisa!) e vejo o segundo e último canal. a homilia das terças-feiras. no meu quarto-república ora estou sózinho ora rodeado de uma multidão que abandona a sé velha em procissão. naquela altura a américa era muito mais do outro lado

quarta-feira, 16 de fevereiro de 2005

devendra












era assim que eu queria as palavras agora. a cobrirem todos os pedaços de papel precioso. como se faz nas prisões. as mortalhas são tesouros e sobram sempre palavras. mas sabes, são dias maus estes. lá fora a rua está cheia de ruído e parece que ninguém ouve devendra banhart. ninguém repara em coisas tão simples como besouros.

segunda-feira, 14 de fevereiro de 2005

namoro












na dança das palavras, nas músicas sujeitas, predicadas e dedicadas. cada vez que tocar-te é tão memória. cada vez que um cheiro é quase teu. cada vez que te encontro e te perco nas ruas de cesariny.

terça-feira, 8 de fevereiro de 2005

i melt with you*












moving forward using all my breath
making love to you was never second best
i saw the world thrashing all around your face
never really knowing it was always mesh and lace

i’ll stop the world and melt with you
you’ve seen the difference and it’s getting better all the time
there’s nothing you and I won’t do
i’ll stop the world and melt with you

dream of better lives the kind which never hate
dropped in the state of imaginary grace
i made a pilgrimage to save this humans race
yes I did
what I’m comprehending a race that long gone bye

i’ll stop the world and melt with you
you’ve seen the difference and it’s getting better all the time
there’s nothing you and I won’t do
i’ll stop the world and melt with you

the future’s open wide
i’ll stop the world and melt with you
you’ve seen the difference and it’s getting better all the time
there’s nothing you and I won’t do
i’ll stop the world and melt with you, yeah
i’ll stop the world and melt with you
i’ll stop the world and melt with you, yeah, yeah

_________________________________
*modern english por nouvelle vague

active passive













aquele de mim que quer outro mundo deu um passo em frente. o outro de mim tinha resmungado mas acompanha-o agora radiante. e não é assim com tantas coisas na vida?

segunda-feira, 7 de fevereiro de 2005

MMM












acreditei no velho sábio no cimo da montanha. percebi depois que era feminina a silhueta que se virou. procuro hoje a felicidade na forma de um casal de crianças que brincam no cimo de um farol, no fio que une duas pessoas, no seio de uma mulher ou no coração amado que bate na mão que acenou ao inimigo no bingo crépuscule. está tudo no filme de jean-pierre jeunet. americano demais para ser francês em cannes. é preciso esquecer amélie e jeunet para ver este filme como ele merece. e não é assim com tantas coisas na vida?

sexta-feira, 4 de fevereiro de 2005

quarta-feira, 2 de fevereiro de 2005

evidência e glamour na literatura e na arte contemporânea ou vice-versa












ela sabe que eu sou um dilettante e tenta surpreender-me trazendo debaixo do braço adorno, kant ou benjamin em vez da vogue. são essas as evidências que procuro e que docemente me enganarão. desde as primeiras linhas de kundera que assumi que não posso dispensar a dose diária recomendada do meu próprio kitsch.

(da leitura cruzada da crónica de onésimo teotónio almeida no último número da revista ler do círculo de leitores com o terceiro livro da colecção de arte contemporânea público/serralves editado com o glamour de isabel carlos)

segunda-feira, 31 de janeiro de 2005

tattoo












todas as noites encho de imagens tuas as almofadas para te ter nos meus sonhos. todas as noites te peço as palavras que dizem tudo e acordo sem me lembrar se as ouvi. por isso peço-te que esta noite seja diferente. escreve-as no meu corpo e eu as usarei como uma tatuagem.

quinta-feira, 27 de janeiro de 2005

A todos los judíos del mundo, mis amigos, mis hermanos












Estos poetas infernales,
Dante, Blake, Rimbaud
que hablen más bajo...
que toquen más bajo...
¡Que se callen!
Hoy
cualquier habitante de la tierra
sabe mucho más del infierno
que esos tres poetas juntos.
Ya sé que Dante toca muy bien el violín...
¡Oh, el gran virtuoso!
Pero que no pretenda ahora
con sus tercetos maravillosos
y sus endecasílabos perfectos
asustar a ese niño judío
que está ahí, desgajado de sus padres...
Y solo.
¡Solo!
aguardando su turno
en los hornos crematorios de Auschwitz.
Dante... tú bajaste a los infiernos
con Virgilio de la mano
(Virgilio, «gran cicerone»)
y aquello vuestro de la Divina Comedia
fue una aventura divertida
de música y turismo.
Esto es otra cosa... otra cosa...
¿Cómo te explicaré?
¡Si no tienes imaginación!
Tú... no tienes imaginación,
Acuérdate que en tu «Infierno»
no hay un niño siquiera...
Y ese que ves ahí...
está solo
¡Solo! Sin cicerone...
esperando que se abran las puertas de un infierno que tú, ¡pobre florentino!,
no pudiste siquiera imaginar.
Esto es otra cosa... ¿cómo te diré?
¡Mira! Éste es un lugar donde no se puede tocar el violín.
Aquí se rompen las cuerdas de todos los violines del mundo.
¿Me habéis entendido poetas infernales?
Virgilio, Dante, Blake, Rimbaud...
¡Hablad más bajo!
¡Tocad más bajo! ¡Chist!
¡¡Callaos!!
Yo también soy un gran violinista...
y he tocado en el infierno muchas veces...
Pero ahora, aquí...
rompo mi violín... y me callo.

León Felipe

terça-feira, 25 de janeiro de 2005

closer












eu conheci aquele olhar. ainda hoje ouço o seu nome tantas vezes repetido ao polícia que não acreditava no passaporte. também ele se insinuou. separava-nos o comprimento de uma carruagem do ice. eu viajava de leipzig a munique por nuremberga. era uma sexta feira e o comboio ia verdadeiramente esgotado. aquele era o olhar de quem vai anunciar uma despedida e uma verdade. por esta ordem assim. ela saíu em jena e voltou esta semana. a esse momento.

sexta-feira, 21 de janeiro de 2005












ela
traz-me no coração e na boca
mas pensa em mim como se eu existisse

quinta-feira, 20 de janeiro de 2005

MIRANDA v. ARIZONA, 384 U.S. 436 (1966)












a última vez que entrou no quarto dela notou o ar grave e sério que contrastava com o desejo dele. ao primeiro gesto do ritual de aproximação preliminar ela disse-lhe:

- tens o direito de permanecer em silêncio. o que quer que digas pode ser usado contra ti. tens o direito de evocares quem quiseres e de manteres essa pessoa no teu pensamento enquanto aqui estás. sem aconselhamento provavelmente não podes começar nada por agora. podes exercer a qualquer momento estes direitos e não responder a qualquer questão ou fazer qualquer declaração.

ele evadiu-se na primeira oportunidade.

terça-feira, 18 de janeiro de 2005

a conversa possível












- sinto que falamos linguas diferentes. não me percebes e provavelmente eu não te percebo a ti.
- queres ver o meu frigorífico?

segunda-feira, 17 de janeiro de 2005

this is not a post












eu sei que é difícil perceber alguns textos. algumas vezes faço de propósito. eu sei que recorro à ambiguidade. levo um tempo enorme para arranjar a fórmula que me parece mais conseguida na procura de todas as interpretações possíveis (e não escrevo na garagem). esta imagem é outra coisa. o que queria dizer está tudo aqui.

agenda












hoje, lá mais para a noite, emir kusturica vem a lisboa com a no smoking band para tocar "la vie est un miracle". emir apresenta assim a sua banda:

the NO SMOKING band will tell an entirely different song from that of the Yugoslav national football team, for these are soloists who are at their best when they play as a group, generating a refreshingly original kind of music that is entirely their own.

eu não vou poder estar presente porque tenho de fazer o turno da noite na fábrica mas desejo aos que lá vão (at e tantos outros) um excelente concerto.

nota importante: quando gritarem pelo rapaz digam "kusturitza". um brilharete em servo-croata que me ensinou um amigo poliglota.

domingo, 16 de janeiro de 2005

revelação















na tina da câmara obscura
a face do sábio
(até agora sentado de costas
no cimo da montanha)
surpresa e certeza
uma mulher (um espelho
de lou andreas-salomé)

sexta-feira, 14 de janeiro de 2005

jazzion: south froggies (featuring allan)














- quem me dera saber quem és e o que queres dizer.
- hoje digo-te tudo se o perguntares com um saxofone.

c. k. williams: dizem que a américa precisava de um poeta assim












The World

Splendid that I'd revel even more in the butterflies harvesting pollen
from the lavender in my father-in-law's garden in Normandy
when I bring to mind Francis Ponge's poem where he transfigures them
to levitating matches, and the flowers they dip into to unwashed cups;
it doesn't work with lavender, but still, so lovely, matches, cups,
and lovely, too, to be here in the fragrant summer sunlight reading.

Just now an essay in Le Monde, on Fragonard, his oval oil sketch
of a mother opening the bodice of her rosily blushing daughter
to demonstrate to a young artist that the girl would be suitable as a "model";
the snide quotation marks insinuate she might be other than she seems,
but to me she seems entirely enchanting, even without her top
and with the painter's cane casually lifting her skirt from her ankle.

Fragonard needs so little for his plot; the girl's disarranged underslips
a few quick swirls, the mother's compliant mouth a blur, her eyes
two dots of black, yet you can see how crucial this transaction is to her,
how accommodating she'd be in working through potential complications.
In the shadows behind, a smear of fabric spills from a drawer,
a symbol surely, though when one starts thinking symbol, what isn't?

Each sprig of lavender lifting jauntily as its sated butterfly departs,
Catherine beneath the beech tree with her father and sisters, me watching,
everything and everyone might stand for something else, be something else.
Though in truth I can't imagine what; reality has put itself so solidly before me
there's little need for mystery. . . Except for us, for how we take the world
to us, and make it more, more than we are, more even than itself.

(the world, the singing, c. k. williams,
farrar, straus and giroux, new york, 2003)

quarta-feira, 12 de janeiro de 2005

S












lettera del silenzio e dei serpenti, del loro sangue secco
al sole, della serenità sapiente, del sussurro con cui si chiede di
tacere
.

il catalogo della gioia, antonella anedda,
donzelli, 2003.

domingo, 9 de janeiro de 2005

kafka por james coleman












eu vi kafka descendo a serpa pinto de braço dado com coleman. aquele sussurrava a este: tiramos fotografias para esquecermos o que fotografamos. coleman, que não sabe guardar um segredo, encheu uma parede do museu do chiado com a luz e a voz da confidência.

kafka por pedro mexia












eu vi kafka em campo de ourique de braço dado com mexia. aquele sussurrava a este: tiramos fotografias para esquecermos o que fotografamos. mexia, que não sabe guardar um segredo, encheu uma página da sua vida oculta com o blow up: tenho fotografias que provam/ que nunca exististe.

kafka por ruy belo












eu vi kafka no monte abraão de braço dado com ruy belo. aquele sussurrava a este: tiramos fotografias para esquecermos o que fotografamos. belo, que não sabia guardar um segredo, encheu de daguerreotipos os versos do elogio de maria teresa no transporte no tempo: são retratos diferentes de quem foste um breve instante/ e nele floriste e apenas não murchaste/ por haveres ficado um pouco mais em tais fotografias.

sábado, 8 de janeiro de 2005

nada do que posso me alucina*













rendo-me numa linha
à inevitabilidade do que é natural e
não insisto:
nada do que posso me alucina*

acordo todos os dias,
apesar de tudo,
sabendo do dia anterior que
nada que eu quero me suprime*

*jura secreta, zélia duncan.

é urgente: roberto bolaño












é urgente procurar 2666 o livro póstumo de roberto bolaño (anagrama, 2004) composto por cinco novelas e um ensaio de um escritor praticamente desconhecido entre nós. a unica obra publicada em portugal é "nocturno chileno" de 2000 (gótica, 2003). cento e cinquenta páginas lidas numa febre.

quinta-feira, 6 de janeiro de 2005

um buraco na sombra












a tua pedra negra regressa à minha mão fechada
e ilumina como um sol a minha noite em claro
virás por uma palavra?


talismã, carlos alberto machado.
assírio & alvim, 2004.


a ana teixeira que amavelmente enviou traduções da poesia de antonella anedda, criou agora um "refúgio para sobrevoar o esquecimento". está a fazer uma colectânea de poetas da blogoesfera e escolheu palavras minhas ilustradas por enki bilal. obrigado ana pela estima que é mútua.

quarta-feira, 5 de janeiro de 2005

storm












(to ingrid sthare)

i am drawing words with my finger in your window
searching for the silence that drains away with the water after the storm

sábado, 1 de janeiro de 2005

o mesmo mar de amos oz












imperdoável acabar o ano e não ter dado conta de amos oz*. obrigado eduardo, pela correcção. qual de nós poderia ter escrito:

albert de noite
a sombra dela na varanda, sombra lenta,
uma sombra que me vai abandonando.
em casa não se está bem. lá fora
está escuro. à noite o quarto
é mais baixo.


e sim tens razão, estas são as palavras:

agora levanta-te e vai procurar,
levanta-te com ligeireza e calma e vai procurar o que perdeste.


*o mesmo mar, amos oz, asa, 2004.

terça-feira, 28 de dezembro de 2004

her heart is a christmas tree












prenda de Natal para o Paulo*

riso-de-mar

Cobres os pulsos de algas
e de espuma para que nas histórias
de meninos e de búzios
os risos se façam de mar.

Sandra Costa

a sandra criou a tradição de oferecer pelo natal poemas em troca de uma palavra que serve de mote. este ano escolhi riso-de-mar, o título de um seu poema do livro sob a luz do mar, editado em 2002 pela campo das letras. assim recebi outro poema riso-de-mar tão especial.

obrigado sandra.

domingo, 26 de dezembro de 2004

my head wanna be a christmas tree












não falo da luz, da fantasia ou do lugar dos sonhos dessa hora que para uns é noite e para outros manhã. falo dessa esperança que uma parte do mundo carrega e que não sobrevive aos últimos segundos antes da revelação das ofertas. uma estrela como desejo. sob várias formas. que dependam de mim.

quinta-feira, 23 de dezembro de 2004

ontem o mar












na noite à beira-memória-de-ti olhei o espelho gelado da geografia dos desencontros. a magia dos lugares e das mãos onde não estivemos faz desiguais as faces da lua que perseguimos. tinha poemas num livro fechado na mão cheia de areia que só podias ler por amor mineral.

segunda-feira, 20 de dezembro de 2004

escritura












julgou encontrar no silêncio
a resposta emocional inteligente
até ouvir finalmente
as palavras escritas em cracóvia

recomeçou a escrever devagar
confiante nas sagradas escrituras:
porque
digan lo que digan,
la escritura puede salvar al hombre.
hasta en lo imposible.

quinta-feira, 16 de dezembro de 2004

e se eu for um shandy?












li num livrinho* que se pode definir um shandy como um indivíduo com elevado grau de loucura cuja obra cabe facilmente numa maleta e que funciona como uma "máquina solteira" ou se comporta como tal. adicionalmente, pode ter espírito inovador, sexualidade extrema, ausência de grandes propósitos, nomadismo infatigável, tensa convivência com a figura do duplo, simpatia pela negritude e o culto da arte da insolência. ando a pensar na hipótese de eu ser um shandy. vou procurar ajuda especializada.

*história abreviada da literatura portátil, enrique vila-matas,
assírio & alvim, 1997.

recuerdo lola












na cidade de lola ainda se chega a pé a todo lado. há tempo para ir devagar e descobrir o que está muito longe das "nove casas, duas ruas" da aldeia de manuel da fonseca. as pessoas lembram o adormecer e esquecem o que sonharam. acima de tudo, nunca perguntam o que é a felicidade. também lá o céu é mais baixo e são apenas razões acústicas que me fazem apreciar de modo diferente a terra de lola.

quarta-feira, 15 de dezembro de 2004

a terra prometida












encontrei A. abrindo a caixa de correio no preciso momento em que eu o fazia. sorrimos pela coincidência de recebermos o mesmo livro: jerusalém de gonçalo m. tavares. orgulhoso da sua leitura, A. exibia o livro como quem atesta a sua fidelidade acolitando dominicalmente o padre joão. perguntei a medo se tinha lido outros livros do mesmo autor. perante a negativa, adiantei um "tenha cuidado, o homem não é certo e talvez não seja a leitura que espera para preparar a excursão dos leigos". agora que penso nisso arrependo-me mas não posso emendar. deixei contudo um pequeno bilhete pouco anónimo na caixa de correio de A.:

esta sexta-feira à noite, vai ouvir-se poesia de/com gonçalo m. tavares na livraria o navio de espelhos em aveiro.

será que vai aparecer? irei eu na excursão à terra santa?

sábado, 11 de dezembro de 2004

vinte e três e vinte e quatro de outubro de 2004












eu lembro-me da semana sem fim
das folhas rasgadas da agenda
de poemas prontos para consumo

e nunca a palavra "desfolhar" entrou
rasgando tanto os dias

dizia assim:

NÃO VOLTAREMOS a pressentir o mar
nem sequer lembraremos o turvo sal das bocas
sobre o rosto gémeo da máscara que nos esconde

louco pássaro de cinza sulcando o ar rarefeito
e a escuma luminosa dos meteoros que cegam
os frementes alicerces de cidade insone

não nos reflectiremos mais nos gestos desgastos
nem na demência da língua donde irrompe a alba
e nómadas continuaremos para lá do sangue
flutuantes no escuro sonho
os corpos incendiados um no outro
consomem-se formando insuspeitas constelações
vagarosamente
através dos séculos regressaremos
intactos ao nada essencial

al berto, o medo.

terça-feira, 7 de dezembro de 2004

turner prize 2004












o anúncio foi feito ontem pelo channel 4. à falta de cabo, a nossa enviada especial estava lá. the winner was... jeremy deller, o homem que filmou a batalha dos mineiros de orgreave, o texas de bush em memory bucket e que citou lenine (isto anda tudo ligado...). para trás ficaram ben langlands e nikki bell, que pisaram o risco ao filmarem e recriarem virtualmente a casa que bin laden ocupou no afeganistão. estes e os outros nomeados na shortlist de 2004 (kutlug ataman e yinka shonibare) podem ainda ser vistos na tate britain até 23 de dezembro.

quinta-feira, 2 de dezembro de 2004

In una stessa terra










Agora é só a chuva que abençoa o caminho
e na água agitada uma luz redentora quase nos guia.

Será curta a distância até ao fulgor.
Do forno onde se prepara a comida elevam-se
densas nuvens,
tudo pouco diferente da vida de sempre:
uma diferença no gesto que coloca os pratos para a ceia
uma luz na fenda da parede
entreaberta para terras de paz.

Fogo de cidra a orlar os campos.
Assim veremos os rostos dos ausentes
as iniciais dos nomes arrasados pelos lapíli
nenhuma dor senão o movimento das mãos
a afastar o fumo

e noite após noite: uma fissura.

---------------------------------------------------------

Ora è solo pioggia che benedice la strada
e nell'acqua che trema quasi una luce redenta da seguire.

Sarà una piccola distanza dal fulgore.
Dal forno dove il cibo si innalza
alle nuvole brune
tutto appena diverso dalla vita di sempre:
uno scarto nel gesto che depone i piatti per la sera
una luce nella crepa del muro
schiusa verso terre di pace.

Fuoco di cedro lungo i bordi del campo.
Così vedremo i volti degli assenti
le iniziali dei nomi travolte dai lapilli
nessun dolore ma il moto delle mani
che allontanano il fumo

e notte tra la notte: una fessura.

______________________________________________________________________
Antonella Anedda, de Notti di pace occidentale, Donzelli, Roma, 1999.
Tradução de Ana Teixeira (recebida por e-mail),
baseada no original e na versão em castelhano de Emílio Coco.

quarta-feira, 1 de dezembro de 2004

terça-feira, 30 de novembro de 2004

my wild love












my wild love went ridin'
she rode all the day
she wrote to the devil
and asked him to pay
the devil was wiser
it's time to repent
he asked her to give back
the money she spent

my wild love went ridin'
she rode to the sea
she gathered together
some shells for her head
she rode and she rode on
she rode for a while
then stopped for an evenin'
and lay her head down

she rode on to christmas
she rode to the farm
she rode to japan
and we entered a town
by this time the river
had changed one degree
she asked for the people
to let her go free

my wild love is crazy
she screams like a bird
she moans like a cat
when she wants to be heard
my wild love went ridin'
she rode for an hour
she rode and she rested
and then she rode on
ride, c'mon

(jim morrisson - my wild love: waiting for the sun, 1968)

segunda-feira, 29 de novembro de 2004

zurique












ontem não te disse, meu caro amigo, mas estiveste pouco tempo em zurique. não deu sequer para te aperceberes que a cidade é de robert walser para sempre. a tua rapariga do norte, que elegeu o fado alexandrino como livro da sua vida, usou a frase que vila-matas repetiu: escrever que não se pode escrever também é escrever. deve estar em grafittis por todo o lado, enfeitada com as letras rw entrelaçadas, como só eles sabem fazer. assim, não procures em mim a educação sentimental. lê walser e faz como ele. despede-te agora, escreve outras coisas e, acima de tudo, não fiques sozinho neste natal.