terça-feira, 22 de março de 2005

criar mundos












criar como tolkien uma terra média ou fazer como carrol um país das maravilhas, pode ser um passatempo interessante. as manas sara e teresa costa desenharam um site sobre construção de mundos, uma actividade complexa que envolve, entre outros, os domínios da literatura, ciência, antropologia, linguística, mitologia e história. além das ferramentas de ajuda, apresentam ainda as suas preferências fantásticas em termos de livros, filmes, bd e manga e anima em geral. um site a visitar para partir para uma aventura viciante.

Today Has Been OK












Friends tell me it's spring
My window show the same
Without you here the seasons pass me by
I know you were not new
That loved like me and you
All the same I miss you
Today has been ok
Today has been ok

The preacher lost his son
He's known by all in town
He found him with another son of God
Feeding on the prayer
Nevermind what God said
But love had lost its cause
And I thought today had been ok
Today has been ok
Today has been ok

Wind has burned your skin
The lovely air so thin
The salty water's underneath your feet
No one's gone in vain
Here is where you'll stay
'Cause life has been insane but
Today has been ok
Today has been ok
Today has been ok
Today has been ok
________________________________________
Today has been ok, Emiliana Torrini.
Fisherman's Woman, Rough Trade, 2005.

quarta-feira, 16 de março de 2005

angelu - ággelos












hoje de manhã, a caminho da fábrica, a camioneta que seguia à minha frente sacudiu uns ramos de amendoeira à beira da estrada e choveram muitas pétalas que encheram o meu pára-brisas. senti o sinal como mathilde naquele longo domingo. soube depois que era um anjo que se despedia e não mais vivi no dia de hoje.

terça-feira, 15 de março de 2005

contemplação carinhosa de agustina












só me aconteceu uma vez, em colónia, apresentar-me luso à senhora mauff e ouvir em espanto "agustina bessa luís!". desse tempo apenas ficou a angústia do "luís".

sexta-feira, 11 de março de 2005

a noite vista daqui






















escolher um lado da noite
e chamar-lhe a nossa casa.

mefistofeles do avesso












jantei na auerbach's kellar de leipzig, a adega onde goethe escreveu o fausto. de nada valeram os pedidos a mefistofeles para me manter sempre velho, ao contrario do que fez a fausto. respondeu-me sempre com banalidades: isso sao pedidos que nao lembram ao diabo!

quarta-feira, 9 de março de 2005

einmal praha












aguardo na bahnhof zoologischer garten de berlin o comboio para leipzig. sei em que mundo estou quando vejo chegar na gleis 5 o ICE para praga e resisto a cometer uma loucura. nao vou. sinto nestes momentos que tenho a estatura da chiclete esmagada e negra. como pessoa responsavel que nao sou, contento-me com o kafka de soderberg em dvd que trago na bagagem. vou descobrir mais logo que alguem o riscou e nada mais sobra a nao ser a critica do chefe de kafka que nao conhece a sua vida dupla. na minha religiao divertida acredito que um deus que faz snowboard anda a enviar-me recados.

segunda-feira, 7 de março de 2005

este post é para te dizer e diz












eu sei que os recados não são apreciados pelos leitores desprevenidos que não gostam de códices mas este é um recado urgente:

todos os que me conhecem sabem, se eu não subo ao pessegueiro morro.

a força do invisível é o que faz com que os dias continuem a ser dias e quando subo à árvore, sinto o sangue correr-me de modo diferente, ouço correr numa calma que me deixa feliz. falo de coisas que são fáceis de entender mas difíceis de explicar mas eu também não quero explicar coisa nenhuma.

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além as estrelas são a nossa casa, abel neves.

sim meu amor, este recado é para ti.

sexta-feira, 4 de março de 2005

et quand bien même












(...)
et quand bien même
tu m'aimerais encore
je me passerai aussi bien
de ton désaccord
c'est le même dilemme
entre l'âme et le corps
comme un arrière-goût de never more Lautréamont Les Chants de Maldoror
tu n'aimes pas moi j'adore
_______________________
arabesque, jane birkin.

aqui












"confundir as ideias e nunca as disciplinar" dizia eco sobre os bons títulos. foi assim que tracei este caminho. um amigo desequilibrou-me para a frente e tropecei nas primeiras palavras mas tinha borges do meu lado: "um mundo imaginado é muito mais interessante". naquele tempo tinha visitas assíduas de hundertwasser e da minha avó. agora não sei de ninguém. fiquei fechado numa sala em silêncio. continuei a sentir as palavras de borges. vivia rodeado de eternidade e não tinha tempo para nada. agora sou o dono do tempo e do silêncio. sei exactamente o que posso fazer com cada segundo e tenho um milénio vazio pela frente.

terça-feira, 1 de março de 2005

c:\windows\home












agora que a lua diminui, vais entrar pelo terraço e atravessar as vidraças sem as abrires. sei-te a inundar de luz e risos os lençóis que sobram deste livro. hoje foste a sheherazade de sassetti nas palavras de manuel de freitas. foi lindo mas não era o axioma frágil do teu corpo.

sexta-feira, 25 de fevereiro de 2005

arts












nunca serei o náufrago
que não resgatas do porto.

quinta-feira, 24 de fevereiro de 2005

oblíquo infinito















o desamor com o medo
a verdade com o desejo
o tempo com a virtude
não confundas o amor com a noite
que é um caminho para rasgar

o que tens pela frente
diante de cada noite
é um dia inteiro para erguer
na gratidão e na procura
o que se estende a partir
daquele abraço

sarah adamopoulos
(colaboração para um mundo imaginado)

terça-feira, 22 de fevereiro de 2005

vinte












tenho em caixas separadas
vinte prendas que me deste

guardo o meu tesouro
de vidro o pó saboreado
ao contrário de sisífo
cada pedaço
a cada momento

segunda-feira, 21 de fevereiro de 2005

robert frank no macba*












cinquenta anos depois robert aparece num filme com a expressão que fotografou em londres em 1951. naquele dia não sabia que fazia um auto-retrato. foi nesse ano que nasceu pablo, o filho, e começaram a desaparecer os amigos e os lugares. robert escreveria depois, a sangue, "sick of goodbies". e não mais disse a palavra sarnosa. alimenta-se da criatividade obsessiva da companheira que todos os dias o surpreende. talvez sejam os gritos dela que o guiam na sua cegueira. depois das fotografias. depois dos filmes.

arguments, robert frank;
9 de fevereiro a 8 de maio
museu de arte contemporânea de barcelona
(depois da tate de londres).

sábado, 19 de fevereiro de 2005

erato















she forgets. she tries to forget. for the moment. for the duration of these moments.

dictee, theresa hak kyung cha.
university of california press, 2001.

quinta-feira, 17 de fevereiro de 2005

theresa hak kyung cha












She waits inside the pause. Inside her. Now. This very moment. Now. She takes rapidly the air, in gulfs, in preparation for the distances to come. The pause ends.

o sonho da audiência, fundació antoni tàpies. barcelona.

volto já...

nouvelle vague (aquelas noites)























esta noite é terça-feira por causa dele. estou no princípio dos anos 80 (eu cheguei tarde para tanta coisa!) e vejo o segundo e último canal. a homilia das terças-feiras. no meu quarto-república ora estou sózinho ora rodeado de uma multidão que abandona a sé velha em procissão. naquela altura a américa era muito mais do outro lado

quarta-feira, 16 de fevereiro de 2005

devendra












era assim que eu queria as palavras agora. a cobrirem todos os pedaços de papel precioso. como se faz nas prisões. as mortalhas são tesouros e sobram sempre palavras. mas sabes, são dias maus estes. lá fora a rua está cheia de ruído e parece que ninguém ouve devendra banhart. ninguém repara em coisas tão simples como besouros.

segunda-feira, 14 de fevereiro de 2005

namoro












na dança das palavras, nas músicas sujeitas, predicadas e dedicadas. cada vez que tocar-te é tão memória. cada vez que um cheiro é quase teu. cada vez que te encontro e te perco nas ruas de cesariny.

terça-feira, 8 de fevereiro de 2005

i melt with you*












moving forward using all my breath
making love to you was never second best
i saw the world thrashing all around your face
never really knowing it was always mesh and lace

i’ll stop the world and melt with you
you’ve seen the difference and it’s getting better all the time
there’s nothing you and I won’t do
i’ll stop the world and melt with you

dream of better lives the kind which never hate
dropped in the state of imaginary grace
i made a pilgrimage to save this humans race
yes I did
what I’m comprehending a race that long gone bye

i’ll stop the world and melt with you
you’ve seen the difference and it’s getting better all the time
there’s nothing you and I won’t do
i’ll stop the world and melt with you

the future’s open wide
i’ll stop the world and melt with you
you’ve seen the difference and it’s getting better all the time
there’s nothing you and I won’t do
i’ll stop the world and melt with you, yeah
i’ll stop the world and melt with you
i’ll stop the world and melt with you, yeah, yeah

_________________________________
*modern english por nouvelle vague

active passive













aquele de mim que quer outro mundo deu um passo em frente. o outro de mim tinha resmungado mas acompanha-o agora radiante. e não é assim com tantas coisas na vida?

segunda-feira, 7 de fevereiro de 2005

MMM












acreditei no velho sábio no cimo da montanha. percebi depois que era feminina a silhueta que se virou. procuro hoje a felicidade na forma de um casal de crianças que brincam no cimo de um farol, no fio que une duas pessoas, no seio de uma mulher ou no coração amado que bate na mão que acenou ao inimigo no bingo crépuscule. está tudo no filme de jean-pierre jeunet. americano demais para ser francês em cannes. é preciso esquecer amélie e jeunet para ver este filme como ele merece. e não é assim com tantas coisas na vida?

sexta-feira, 4 de fevereiro de 2005

quarta-feira, 2 de fevereiro de 2005

evidência e glamour na literatura e na arte contemporânea ou vice-versa












ela sabe que eu sou um dilettante e tenta surpreender-me trazendo debaixo do braço adorno, kant ou benjamin em vez da vogue. são essas as evidências que procuro e que docemente me enganarão. desde as primeiras linhas de kundera que assumi que não posso dispensar a dose diária recomendada do meu próprio kitsch.

(da leitura cruzada da crónica de onésimo teotónio almeida no último número da revista ler do círculo de leitores com o terceiro livro da colecção de arte contemporânea público/serralves editado com o glamour de isabel carlos)

segunda-feira, 31 de janeiro de 2005

tattoo












todas as noites encho de imagens tuas as almofadas para te ter nos meus sonhos. todas as noites te peço as palavras que dizem tudo e acordo sem me lembrar se as ouvi. por isso peço-te que esta noite seja diferente. escreve-as no meu corpo e eu as usarei como uma tatuagem.

quinta-feira, 27 de janeiro de 2005

A todos los judíos del mundo, mis amigos, mis hermanos












Estos poetas infernales,
Dante, Blake, Rimbaud
que hablen más bajo...
que toquen más bajo...
¡Que se callen!
Hoy
cualquier habitante de la tierra
sabe mucho más del infierno
que esos tres poetas juntos.
Ya sé que Dante toca muy bien el violín...
¡Oh, el gran virtuoso!
Pero que no pretenda ahora
con sus tercetos maravillosos
y sus endecasílabos perfectos
asustar a ese niño judío
que está ahí, desgajado de sus padres...
Y solo.
¡Solo!
aguardando su turno
en los hornos crematorios de Auschwitz.
Dante... tú bajaste a los infiernos
con Virgilio de la mano
(Virgilio, «gran cicerone»)
y aquello vuestro de la Divina Comedia
fue una aventura divertida
de música y turismo.
Esto es otra cosa... otra cosa...
¿Cómo te explicaré?
¡Si no tienes imaginación!
Tú... no tienes imaginación,
Acuérdate que en tu «Infierno»
no hay un niño siquiera...
Y ese que ves ahí...
está solo
¡Solo! Sin cicerone...
esperando que se abran las puertas de un infierno que tú, ¡pobre florentino!,
no pudiste siquiera imaginar.
Esto es otra cosa... ¿cómo te diré?
¡Mira! Éste es un lugar donde no se puede tocar el violín.
Aquí se rompen las cuerdas de todos los violines del mundo.
¿Me habéis entendido poetas infernales?
Virgilio, Dante, Blake, Rimbaud...
¡Hablad más bajo!
¡Tocad más bajo! ¡Chist!
¡¡Callaos!!
Yo también soy un gran violinista...
y he tocado en el infierno muchas veces...
Pero ahora, aquí...
rompo mi violín... y me callo.

León Felipe

terça-feira, 25 de janeiro de 2005

closer












eu conheci aquele olhar. ainda hoje ouço o seu nome tantas vezes repetido ao polícia que não acreditava no passaporte. também ele se insinuou. separava-nos o comprimento de uma carruagem do ice. eu viajava de leipzig a munique por nuremberga. era uma sexta feira e o comboio ia verdadeiramente esgotado. aquele era o olhar de quem vai anunciar uma despedida e uma verdade. por esta ordem assim. ela saíu em jena e voltou esta semana. a esse momento.

sexta-feira, 21 de janeiro de 2005












ela
traz-me no coração e na boca
mas pensa em mim como se eu existisse

quinta-feira, 20 de janeiro de 2005

MIRANDA v. ARIZONA, 384 U.S. 436 (1966)












a última vez que entrou no quarto dela notou o ar grave e sério que contrastava com o desejo dele. ao primeiro gesto do ritual de aproximação preliminar ela disse-lhe:

- tens o direito de permanecer em silêncio. o que quer que digas pode ser usado contra ti. tens o direito de evocares quem quiseres e de manteres essa pessoa no teu pensamento enquanto aqui estás. sem aconselhamento provavelmente não podes começar nada por agora. podes exercer a qualquer momento estes direitos e não responder a qualquer questão ou fazer qualquer declaração.

ele evadiu-se na primeira oportunidade.

terça-feira, 18 de janeiro de 2005

a conversa possível












- sinto que falamos linguas diferentes. não me percebes e provavelmente eu não te percebo a ti.
- queres ver o meu frigorífico?

segunda-feira, 17 de janeiro de 2005

this is not a post












eu sei que é difícil perceber alguns textos. algumas vezes faço de propósito. eu sei que recorro à ambiguidade. levo um tempo enorme para arranjar a fórmula que me parece mais conseguida na procura de todas as interpretações possíveis (e não escrevo na garagem). esta imagem é outra coisa. o que queria dizer está tudo aqui.

agenda












hoje, lá mais para a noite, emir kusturica vem a lisboa com a no smoking band para tocar "la vie est un miracle". emir apresenta assim a sua banda:

the NO SMOKING band will tell an entirely different song from that of the Yugoslav national football team, for these are soloists who are at their best when they play as a group, generating a refreshingly original kind of music that is entirely their own.

eu não vou poder estar presente porque tenho de fazer o turno da noite na fábrica mas desejo aos que lá vão (at e tantos outros) um excelente concerto.

nota importante: quando gritarem pelo rapaz digam "kusturitza". um brilharete em servo-croata que me ensinou um amigo poliglota.

domingo, 16 de janeiro de 2005

revelação















na tina da câmara obscura
a face do sábio
(até agora sentado de costas
no cimo da montanha)
surpresa e certeza
uma mulher (um espelho
de lou andreas-salomé)

sexta-feira, 14 de janeiro de 2005

jazzion: south froggies (featuring allan)














- quem me dera saber quem és e o que queres dizer.
- hoje digo-te tudo se o perguntares com um saxofone.

c. k. williams: dizem que a américa precisava de um poeta assim












The World

Splendid that I'd revel even more in the butterflies harvesting pollen
from the lavender in my father-in-law's garden in Normandy
when I bring to mind Francis Ponge's poem where he transfigures them
to levitating matches, and the flowers they dip into to unwashed cups;
it doesn't work with lavender, but still, so lovely, matches, cups,
and lovely, too, to be here in the fragrant summer sunlight reading.

Just now an essay in Le Monde, on Fragonard, his oval oil sketch
of a mother opening the bodice of her rosily blushing daughter
to demonstrate to a young artist that the girl would be suitable as a "model";
the snide quotation marks insinuate she might be other than she seems,
but to me she seems entirely enchanting, even without her top
and with the painter's cane casually lifting her skirt from her ankle.

Fragonard needs so little for his plot; the girl's disarranged underslips
a few quick swirls, the mother's compliant mouth a blur, her eyes
two dots of black, yet you can see how crucial this transaction is to her,
how accommodating she'd be in working through potential complications.
In the shadows behind, a smear of fabric spills from a drawer,
a symbol surely, though when one starts thinking symbol, what isn't?

Each sprig of lavender lifting jauntily as its sated butterfly departs,
Catherine beneath the beech tree with her father and sisters, me watching,
everything and everyone might stand for something else, be something else.
Though in truth I can't imagine what; reality has put itself so solidly before me
there's little need for mystery. . . Except for us, for how we take the world
to us, and make it more, more than we are, more even than itself.

(the world, the singing, c. k. williams,
farrar, straus and giroux, new york, 2003)

quarta-feira, 12 de janeiro de 2005

S












lettera del silenzio e dei serpenti, del loro sangue secco
al sole, della serenità sapiente, del sussurro con cui si chiede di
tacere
.

il catalogo della gioia, antonella anedda,
donzelli, 2003.

domingo, 9 de janeiro de 2005

kafka por james coleman












eu vi kafka descendo a serpa pinto de braço dado com coleman. aquele sussurrava a este: tiramos fotografias para esquecermos o que fotografamos. coleman, que não sabe guardar um segredo, encheu uma parede do museu do chiado com a luz e a voz da confidência.

kafka por pedro mexia












eu vi kafka em campo de ourique de braço dado com mexia. aquele sussurrava a este: tiramos fotografias para esquecermos o que fotografamos. mexia, que não sabe guardar um segredo, encheu uma página da sua vida oculta com o blow up: tenho fotografias que provam/ que nunca exististe.