quarta-feira, 27 de julho de 2005

beijar oliveiras












olive branch, bird's nest - jo self 2002.
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na semana passada visitei a juno doran em deptford. encontrei-lhe o olhar sobre o país distante que já tinha visto nas palavras de maria de sousa, agostinho da silva e jorge de sena. a ela a distância aumenta a ternura poética. despediu-se com um pedido para "beijar as oliveiras em portugal". sorri e dei mais atenção às oliveiras. este fim de semana, quando atravessava o alentejo, cumpri o pedido. na próxima visita levo-lhe o pires cabral.

quarta-feira, 20 de julho de 2005

ondaatje diz












descobri michael ondaatje numa loja de livros a duas libras, assim mesmo, em greenwich. não me lembro do nome, se tinha, mas não fica a mais de vinte metros do que sobra do cutty sark em doca seca. não caberia, decerto, nas livrarias do mal. o que importa é trazer os livros para a rua e procurar a trafalgar tavern de lord nelson ao lado do real colégio naval ou subir o parque em direcção ao observatório e escolher um tronco forte para descobrir que a poesia de ondaatje salva um dia. ninguém mais sabe, para lá do paciente inglês, onde fica o humor e a inteligência de ondaatje. quase como um segredo página a página. se tiverem sorte podem ouvir uma outra no smoking band sem kusturica em equilibrio na fina linha do meridiano que atravessa uma tarde de domingo inesquecível.

the cinnamon peeler


















If I were a cinnamon peeler
I would ride your bed
and leave the yellow bark dust
on your pillow.

Your breasts and shoulders would reek
you could never walk through markets
without the profession of my fingers
floating over you. The blind would
stumble certain of whom they approached
though you might bathe
under the rain gutters, monsoon.

Here on the upper thigh
at this smooth pasture
neighbour to your hair
or the crease
that cuts your back. This ankle.
You will be known among strangers
as the cinnamon peeler's wife.

I could hardly glance at you
before marriage
never touch you
- your keen nosed mother, your rough brothers.
I buried my hands
in saffron, disguised them
over smoking tar,
helped the honey gatherers...

When we swam once
I touched you in the water
and our bodies remained free,
you could hold me and be blind of smell.
You climbed the bank and said

this is how you touch other women
the grass cutter's wife, the lime burner's daughter.
And you searched your arms
for the missing perfume

and knew

what good is it
to be the lime burner's daughter
left with no trace
as if not spoken to in the act of love
as if wounded without the pleasure of a scar.

You touched
your belly to my hands
in the dry air and said
I am the cinnamon
peeler's wife. Smell me.

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The Cinnamon Peller, Collected Poems
Michael Ondaatje
Picador, 1989.

um e o mesmo dia













pintura de stephen finer,
cortesia da art space gallery de londres


um dia
vão querer saber
da história do meu corpo
e vai faltar aquela minha outra mão
que ficou no pátio
da rua da sofia.

terça-feira, 12 de julho de 2005

praia (privada)












o cesariny deve ter
na recolha de pascoaes
um aforismo para isto
que somos agora.

segunda-feira, 11 de julho de 2005

David Cruz e Andreia Barão


















Na (excelente) companhia de Boris Vian, Georges Brassens e Serge Gainsbourg, Léo Ferré, Renaud, entre outros.

Hoje no TAGV, 22h.

terça-feira, 5 de julho de 2005

sud-express 8:35
















se vieres, vem num filme de godard. abraça-me com a alegria do olhar de capra, o magnum. sussurra-me um segredo que eu não ouça com o barulho do vapor na estação, mas imagine as palavras pelo teu perfume. que eu te imagine como queira. e vem de comboio. não me digas de onde que vou pensar umas vezes em montparnasse e noutras em baiona ou biarritz e, mais que tudo, não pares de chegar.

segunda-feira, 4 de julho de 2005

o meu começo












a madrugada desponta e mais um dia
se prepara para o calor e o silêncio. no mar o vento da madrugada
encrespa-se e desliza. eu estou aqui
ou ali, ou algures. no meu começo.
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east coker, quatro quartetos - t. s. eliot.

quarta-feira, 29 de junho de 2005

Peter McCarey












double-click on this
and nothing happens.

23.11.95

segunda-feira, 27 de junho de 2005

dois anos de a natureza do mal












parabéns!
a vocês que mudaram o meu mundo todos os dias nestes dois anos:
luís, sofia, bonirre, pc, jammes (leia-se jáme) e bartleby.

obrigado.

unravel












vejo melhor nos dias maiores, como se fosse au ralenti, o que se passa em todos os outros. és tu a primeira imagem do acordar e tremendo o que fazes da luz. ao meio dia consigo sorrir como se fosse eu próprio o sol. passa o tempo e tudo retorna. em todos os fins de tarde te perco, entre a ti e a tua sombra. todas as noites te encontro, depois do escuro e antes das palavras.

sábado, 25 de junho de 2005

dicionário*












mundo interj. 1. Palavra usada para mandar alguém embora. 2. Palavra usada para mandar um jovem que já atingiu a maioridade ganhar a vida, tornar-se independente.
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* Dicionário de Mirandês-Português - Amadeu Ferreira e José Pedro Cardona Ferreira.

quinta-feira, 23 de junho de 2005

o biombo de gamoneda












red screen, lincoln seligman.
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pintaram a parede da frente hoje de manhã. não sabemos de que côr. estamos dobrados como fetos e alguém recita o livro do frio. quase que não ouvimos as palavras que passam por cima dos músculos contraidos. bafejamos, dois ou três, quando se ouve "cheguei, enfim; este não é o meu lugar, mas cheguei". um de nós acenou, ainda. não fui eu. lá fora deve estar um cartaz que anuncia "fresco".

sábado, 18 de junho de 2005

esta cela e a do lado












quase não nos movemos.
saímos uma vez por dia:
ontem à tarde,
hoje de manhã cedo.
quase não vemos rostos
apenas se ouvem murmúrios.

as mensagens que escrevemos
as mortalhas de cigarros
a letra miuda
o espaço que deixamos
o fim das linhas
o fim dos textos
sempre à espera
a cela do lado

ao lado.

quarta-feira, 15 de junho de 2005

noite noite noite noite noite noite












estamos aqui fechados para sempre!

a noite de todas as manhãs












que tempo faz neste verbo
quando os olhos sem as palavras
guardam em silêncio
o inverno de junho?

podemos nós cair no céu
assim, manchados de tinta permanente
na camisa e nos dentes?

segunda-feira, 13 de junho de 2005

xviii













Impetuoso, o teu corpo é como um rio
onde o meu se perde.
Se escuto, só oiço o teu rumor.
De mim, nem o sinal mais breve.

Imagem dos gestos que tracei,
irrompe puro e completo.
Por isso, rio foi o nome que lhe dei.
E nele o céu fica mais perto.

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eugénio de andrade

sexta-feira, 10 de junho de 2005

as asas de um desejo












quero voar!

de acordo com a "academy of achievment" são seis os princípios que conduzem ao sucesso: paixão, visão, preparação, coragem, perseverança e integridade.

o imenso: quero voar!

quinta-feira, 9 de junho de 2005

ao desafio do vidro azul












1. total music volume in my computer:
quase 20 gb.

2. the last cd i bought:
em simultâneo: arild andersen group - electra; keith jarrett - radiance e yann tiersen - les retrouvailles.

3. song playing right now:
yamore: salif keita e cesária evora.

4. five songs i listen to a lot lately, or that mean a lot to me:
dança das cabeças - egberto gismonti
my song - jan garbarek
koln concert - keith jarrett
i remember clifford - stan getz / kenny barron
raga sindhi bhairavi - ravi shankar
(mean a lot!)

four people to whom I'm passing the baton:
pedro, sarah, juno e lbs.

quarta-feira, 8 de junho de 2005

fahrenheit 99












no verão em que este blog nasceu, ardia como agora todo o país e passávamos as noites quentes à espera dos primeiros posts. não houve silly season. passámos a relatar as nossas vidas em tempo real. nunca a solidão teve tanta gente. este verão vou estar à espera. abro hoje oficialmente a época de verão do blog. o que vos arde?

agenda












logo à noite no tagv, a ante-estreia (? - depois do lançamento a 26 de maio) do filme "adriana" de margarida gil com a presença da própria. pelas 21 horas a realizadora dará uma entrevista na ruc (sunset boulevard). o argumento foi escrito por margarida gil e maria velho da costa. lá estaremos.

terça-feira, 7 de junho de 2005

de rimbaud a biolay












volto do chão, do inferno, do dever cumprido, da realidade. salvou-me de rimbaud, enquanto dançava, o teu beijo e a música de benjamin biolay que ainda dançamos.

terça-feira, 24 de maio de 2005

le marathon des mots












Chaque printemps, désormais, sera fait à Toulouse d'émotions et de surprises. Cette grande capitale des mots n'a pas fini de nous étonner.
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du 26 au 29 mai 2005.

quinta-feira, 19 de maio de 2005

bibliofilia












a cavalo de ferro editou este mês "biblioteca" o livro com que zoran zivkovic ganhou o world fantasy award de 2003. facto extraordinário para um não anglófono, partilhado apenas com borges, calvino e süskind. "biblioteca" é um conjunto de seis contos fantásticos sobre escritores que descobrem sites com os livros que irão publicar (biblioteca virtual), o homem que vê nascer na sua caixa de correio a literatura universal completa (biblioteca particular), o leitor que visita um arquivo dos diários de todas as pessoas que já viveram (biblioteca noturna), e mais sobre o inferno (biblioteca infernal), o livro que tem em si todos os outros (biblioteca mínima) e ainda a história de um livro de bolso no meio de encadernações de luxo (biblioteca requintada). zivkovic lembra outros escritores que fantasiam sobre gostar de livros e agrada aos leitores que sabem que uma biblioteca é um lugar mágico. um livro de culto a fazer jus ao mote da editora que usa o poema "no thanks" de e. e. cummings como regra de estilo.

terça-feira, 17 de maio de 2005

natureza morta












eu era esse braço estendido numa prova de contacto e ela mostrava-me os olhos, quase completamente brancos, de um modo que não sabia nunca se era ela o espanto ou se esperava ao meu lado a surpresa assídua e pontual do fim das tardes. ouvíamos o mesmo vinil de peter frampton durante horas e os dias novos apanhavam-me sempre com o braço estendido ainda.

e nada, nem mesmo a chuva, tinha mãos tão pequenas.

segunda-feira, 16 de maio de 2005

o último namur












La rose
Et le promeneur fatigué sont là
Qui écoutent le merle
Et les solitudes noires du pré.
L'un et l'autre sont assis
Au bord de l'herbe, au bord de la pensée,
Tout au bord du vide.
L'un et l'autre,
Comme autant de cristaux et de cendres
Qui se souviendraient encore de l'étoile jaune.
L'un et l'autre regardent le monde
Et cette douleur
Cachée dans la bouche des hommes.
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Les ennuagements du coeur, Yves Namur.
Ed. Lettres Vives, 2004.

sexta-feira, 13 de maio de 2005

us












They made a statue of us,
and put it on a mountain top.
Now tourists come and stare at us,
blow bubbles with their gum,
take photographs have fun,
have fun.

They'll name a city after us,
and later say it's all our fault.
Then they'll give us a talkin' to,
then they'll give us a talkin' to,
'cuz they've got years of experience.

We're living in a den of theives,
rummaging for answers in the pages.
We're living in a den of theives,
and it's contagious, and it's contagious,
and it's contagious, and it's contagious.

We wear our scarves just like a knoose,
but not 'cuz we want eternal sleep.
And though our parts are slightly used,
new ones are slave labor you can keep.
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soviet kitsh, regina spektor.

segunda-feira, 9 de maio de 2005

agenda












andreas scholl, o maior contratenor de todos os tempos, vem finalmente a portugal. depois de anunciado para o porto 2001 e cancelado, apresenta-se na casa da música no porto a 28 deste mês. definitivamente a não perder.

domingo, 8 de maio de 2005

queima












sete da manhã
o calendário a arder

no meio do nevoeiro,
até a velha torre
lembra um abraço.

terça-feira, 3 de maio de 2005

rêve















passaram vários anos sem conseguir lembrar-me dos sonhos, o que por si só é revelador. tudo tem um significado quando se tenta interpretar o sonho. por essas noites dormia agitado, evitava a companhia, farto das queixas na manhã seguinte. conheci depois mireille. lembro-me perfeitamente de nos apresentarem e do manto branco de alheamento que se seguiu a revelar-me que vinha de limoges. não recordo nada do que me disse depois. mergulhei numa sala sem mobília, tranquila e branca, onde apenas se podiam ver labirintos de peças de porcelana pelo chão. sonhei desde esse dia com mireille ou a sua sala e as minhas noites foram bailados delicados na última curva de um gomil.

segunda-feira, 2 de maio de 2005

türkiye cumhuriyeti












eu queria levantar-me às cinco e meia da manhã e ouvir o primeiro chamamento. pedia para acordar num filme de nuri bilge ceylan com argumento duras. parar o dia na hora amarela. acima de tudo, parar o dia na hora amarela. a marguerite que se danasse mais o seu autoritarismo guionista.

domingo, 1 de maio de 2005

submissão






















eu vi o neto de van gogh
no chá de maçã e no simit
vi o borges do avatar
e repeti de sting
o teu verso preferido
if you love somebody, set them free

sexta-feira, 29 de abril de 2005

paul auster: em memória de mim mesmo












Tão-somente ter cessado.

Como se eu pudesse começar
onde cessou a minha voz, eu mesmo
o som de uma palavra

que não consigo articular.

Tanto silêncio
para trazer à vida
nesta carne apreensiva, o ribombar
do tambor das palavras
na interioridade, tantas palavras

perdidas na amplitude do meu mundo
interior, e assim ter sabido
que apesar de mim
eu estou aqui.

Como se fosse isto o mundo.
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poemas escolhidos, quasi, 2002.

quinta-feira, 28 de abril de 2005

burka












baudelaire dizia no spleen de paris qualquer coisa como:
o pior dos males é o que é feito por estupidez.

sexta-feira, 15 de abril de 2005

renascimento











de certo modo, a mais duradoura paixão da minha vida chama-se leonardo. como acontece em grande parte das paixões, o ciúme mancha, mais tarde ou mais cedo, um sentimento que se queria imaculado. aconteceu-me depois da publicação do livro do senhor brown. recusei-me, obviamente, a ler o livro, usando primeiro a desculpa da letra pequena na versão de bolso em inglês e depois a legitimidade do meu preconceito pela ilustre companhia de não-leitores. mas hoje, na data do seu aniversário e cansado de ser estúpido, reconciliei-me com leonardo. foi a abertura do site do google que o provou: permiti-me um sorriso de ternura, genuíno. diz duchenne e damásio que uma alegria verdadeira provoca essa espontaneidade solicitando dois músculos, o grande zigomático e o orbicular palpebral inferior, sendo este usado apenas de forma involuntária. é a alma que fala e, sendo assim, não faz sentido tentar contrariar. volta leonardo, perdoa-me.

quinta-feira, 14 de abril de 2005

agenda












"Paul Auster, cujo romance mais recente, A Noite do Oráculo, foi há pouco publicado entre nós, vem a Lisboa por ocasião da saída, em nova tradução, do seu romance (de 1990) A Música do Acaso. É uma oportunidade única para ouvir falar de si e dos seus livros, de o escutar em algumas leituras, de decifrar talvez o mistério desse caderno azul de fabrico português que o escritor Sidney Orr (protagonista de A Noite do Oráculo) compra ao chinês M.R. Chang na papelaria Paper Palace de Nova Iorque... Um encontro a não perder, com um dos maiores romancistas contemporâneos."

Conversas
Culturgest, Sala 2
29 de Abril
21h30
Entrada Gratuita: levantamento de senha de acesso, 30 minutos antes do início da sessão, no limite dos lugares disponíveis.

terça-feira, 12 de abril de 2005

a letra imensa












(kafka, robert natkin, 2004)

para ela basta a letra k para ganhar a sua atenção. contei-lhe há dias a história de benjamin kantarovich, o "ratinho" tio-avô de moacyr scliar. a mim brilharam-me os olhos com as suas ideias de revolucionar a alfaiataria fazendo paletós com a manga esquerda mais curta facilitando o uso do relógio de pulso. ela apenas perguntava quando aparecia kafka na história, sem sequer prestar atenção aos detalhes do golpe de 64. no principio do ano escrevi-lhe um post em código misturando james coleman, pedro mexia e ruy belo com o seu kafka. arrisquei-o numa derradeira tentativa de ter um convite seu para jantar. ela não o leu sequer. em março desesperei em berlim por não entrar no comboio para praga. não queria ir sozinho. sabia que lhe podia dar um dia a minha primeira visita à cidade de k na sua companhia. valeria um desflorar. ela não o entenderá. ainda me guardo para ela mas não sei se serei feliz com a sua letra imensa.

segunda-feira, 11 de abril de 2005

who would you like to see on the turner prize shortlist this year?











i would like to nominate the following artist for the turner prize 2005:
juno doran
deadline for nominations: 11 may 2005

sábado, 9 de abril de 2005

parte-se-me o corpo












o corpo sussura, sim, ao princípio o corpo sussura mas no final grita.

o noise pop de são francisco de 2004, confirmado na zambujeira-do-mar/sudoeste de 2005: devendra banhart a 5 de agosto.

sexta-feira, 8 de abril de 2005

canção do dia de hoje












chegou hoje a tradução de frederico lourenço da ilíada de homero. conforme prometido, li em voz alta a introdução e os primeiros versos. a versão original era cantada para ajudar a decorar tão longa história mas perdeu-se a música há muito tempo. mesmo assim, o vizinho de cima tentou acompanhar com o saxofone o que resultou numa versão a meio caminho entre o acid-jazz e o chill-out. a vizinha do lado sorriu da sua varanda quando ouviu o primeiro verso: canta, ó deusa, a cólera de aquiles, o pelida.

noite alta, ainda ecoam no condomínio os versos da ilíada. a insónia faz-me contar significados possíveis para o facto da primeira palavra da ilíada na versão grega ser "cólera". repito a fórmula que usei nas noites brancas para os lusíadas que terminam com a palavra "inveja".

hoje não me apetece contar carneiros depois de ver a fátima lopes na sic notícias.