segunda-feira, 12 de setembro de 2005

o regresso às aulas


para quem quer regressar às aulas, aconselha-se este ano a universidade de mestre bongo, onde se entra de preferência com zero a tudo, se promove o ensino à distância (quanto mais longe melhor) e onde se cultiva o direito à preguiça.

domingo, 11 de setembro de 2005

intermezzo (ouvindo brad mehldau)


||||ao||||domingo|||,ébano||||e|||||marfim|||||vigiam-me||||a||||saudade.||||

prelúdio



numa sala vazia,
a arquitectura do silêncio.

os primeiros passos
depois da porta
entraram e saíram
da caixa do piano
como se eu viesse ter comigo

se hoje fosse domingo
e me encontrasse
a minha oração seria
steinway

sábado, 10 de setembro de 2005

agenda: françoiz breut & bastien lallemant



A Rádio Universidade de Coimbra orgulha-se de apresentar, pela primeira vez em Portugal e em data única, dois dos nomes mais representativos do movimento designado por nova música francesa: Françoiz Breut e Bastien Lallemant. Quinta-feira, dia 13 de Outubro, no Teatro Académico de Gil Vicente, uma noite muito especial comemora a nova grelha da RUC.
Inseridos na linha musical de Jeanne Cherhal, Vincent Delerm ou Thomas Fersen, Breut e Lallemant integram o prestigiado catálogo da editora Tôt ou Tard que este ano comemora 10 anos de actividade.

Françoiz Breut lançou em 2005 "Une Saison Volée", o seu terceiro álbum de originais (o primeiro na etiqueta Tôt ou Tard), bastante aclamado pela crítica especializada. A artista já colaborou com nomes tão variados como Yann Tiersen ou Joey Burns (Calexico). Na primeira parte desta noite dedicada à chanson française, actua Bastien Lallemant, uma recente revelação que dá a conhecer o seu segundo e reconhecido trabalho "Les Érotiques".

Uma oportunidade única para ouvir também o tema de Lhasa "La confession", um dueto de Breut e Lallemant que integra a edição comemorativa dos 10 anos da Tôt ou Tard.

Numa só noite, dois concertos a não perder. Para recordar mais tarde ou mais cedo.

segunda-feira, 5 de setembro de 2005

sarah adamopoulos



a sarah adamopoulos tem um pais dentro dela. escreve livros que podiam ser cancoes, fotografias, filmes, quadros ou instalacoes. a partir de hoje esta disponivel o seu ultimo olhar sobre o portugal contemporaneo. a ler.

fado menor - sarah adamopoulos.
oficina do livro, 2005.

domingo, 4 de setembro de 2005

vertigens












tenho vertigens nos ultimos dias de verao, nos primeiros versos de isadore ducasse, nos ultimos olhares para o cais, nos primeiros minutos de cada manha, na espera pelo manto fresco dos dias por vir, ao tocar as paginas por ler que guardei nos poucos bolsos que tinha numa tarde tao quente no cimo daquela mata que ja nao e. tinha vertigens quando gravei cigarras e sms, as fotos do bonirre e as noites em que nao escrevi nada porque tinha as maos, os bracos, os olhos e todo o peito presos numa ideia de mim que nunca serei.

domingo, 28 de agosto de 2005

traduzir-se












Uma parte de mim
é todo mundo:
outra parte é ninguém:
fundo sem fundo.

uma parte de mim
é multidão:
outra parte estranheza
e solidão.

Uma parte de mim
pesa, pondera:
outra parte
delira.

Uma parte de mim
é permanente:
outra parte
se sabe de repente.

Uma parte de mim
é só vertigem:
outra parte,
linguagem.

Traduzir-se uma parte
na outra parte
- que é uma questão
de vida ou morte -
será arte?

Ferreira Gullar

sexta-feira, 26 de agosto de 2005

auto-ajuda















Self-Portrait with Smiling-Aid,
Gottfried Helnwein - 1972.

devo escrever regularmente algumas linhas
para me lembrar a mim próprio
que me faz muito bem pensar que a auto-ajuda
como sinal deste tempo
me irrita cada vez mais.

terça-feira, 23 de agosto de 2005

holidays












não vou à praia, vivo de noite, apenas sou visto num edifício que frequento cuidadosamente depois da meia-noite onde somente um e sempre o mesmo segurança esboça um cumprimento, igual a um espasmo fraco e cinzento como as paredes abandonadas à tranquilidade estival. recebo curiosas mensagens no atendedor de preocupação familiar e amiga. a mais estranha de todas recebi-a de um amigo, que sempre viveu protegido pela noite e pelas palavras. "não te estás a preparar para repetir a história do avelino arredondo?"

sexta-feira, 19 de agosto de 2005

fotoblog


mercado das especiarias, istambul - 2005.

alcaravia, caril, cardamomo, chá,
cerefólio, caril, cravoária, chá,
curcuma, caril, gengibre, chá,
noz-moscada, caril, paprica, chá,
pimenta (verde, preta ou branca),
caril, zimbro e chá!

terça-feira, 16 de agosto de 2005

intervalo para poesia












Tu es le grand soleil
qui me monte à la tête*


*accroche da lancôme para o lançamento do perfume poême em 1998.
dois versos do poema "je t'aime" de paul éluard cantado no final dos anos 60 por yves montand.

sábado, 6 de agosto de 2005

5:47












quase seis na torre de são paulo
e arde ainda tudo o que sabemos e nunca seremos
numa babel que podia ter sido aqui

quinta-feira, 4 de agosto de 2005

most wanted












do livro de herman melville, a realização de jonathan parker (2001).

quarta-feira, 3 de agosto de 2005

noite taurina












enquanto tento reunir notas para a redacção do livro de um outro mundo imaginado, polux retorce-se no sofá. cita vila-matas* que cita "o doce clima de lesbos" de elena villena:

este relato obriga a sua autora a aceitar a regra da tauromaquia, que, como se sabe, persegue um objectivo essencial: além de a obrigar a pôr-se seriamente em perigo, a não se desfazer de qualquer modo do seu adversário (o seu êxito dependerá de um bom domínio da técnica), a regra impede que o combate seja uma simples carnificina; tão exigente como a de um ritual, oferece um aspecto táctico (preparar o leitor para receber uma estocada mortal, embora sem o fatigar mais que o necessário durante o combate) e um aspecto estético, também contido muito especialmente no termo da lide: fechar o livro será para o leitor como fechar a lousa que cobrirá a sua tumba.

- não polux, a este livro não se pode aplicar a regra. é outra coisa.
ele franze o sobrolho ao ler-me os lábios.
- cansa-me essa tua mania de pensares o tempo todo em escrever coisas diferentes. escreve igual aos outros, à tua maneira, e arruma de vez esse livro.

* a assassina ilustrada, enrique vila-matas
campo das letras, 2005.

segunda-feira, 1 de agosto de 2005

noite












polux, o meu gato surdo, propõe-me que reinventemos o mundo enquanto todos dormem. eu que acreditei sempre na clarividência do silêncio não estou em condições de o contrariar. começa assim a grande noite de um mundo imaginado.

domingo, 31 de julho de 2005

a formosa pintura do mundo












primeiros dias de férias.
primeiro plano: a formosa pintura do mundo, frederico lourenço (cotovia, 2005).

quinta-feira, 28 de julho de 2005

quarta-feira, 27 de julho de 2005

n.y.c. - beira alta












olho e vejo,
em cima da secretária, uma maçã
não sei se é o modo como olho para ela,
assimétrica e real,
mas parece-me em tudo igual
às que pousavam na mesa das professoras
primárias, as meninas de vestido de chita

no outro dia vi tribeca
depois uma avenida com número
hoje volto a ver pomares
beira alta beira alta

digo-te se perguntares
passo este verão em viagem
à volta de uma maçã

beijar oliveiras












olive branch, bird's nest - jo self 2002.
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na semana passada visitei a juno doran em deptford. encontrei-lhe o olhar sobre o país distante que já tinha visto nas palavras de maria de sousa, agostinho da silva e jorge de sena. a ela a distância aumenta a ternura poética. despediu-se com um pedido para "beijar as oliveiras em portugal". sorri e dei mais atenção às oliveiras. este fim de semana, quando atravessava o alentejo, cumpri o pedido. na próxima visita levo-lhe o pires cabral.

quarta-feira, 20 de julho de 2005

ondaatje diz












descobri michael ondaatje numa loja de livros a duas libras, assim mesmo, em greenwich. não me lembro do nome, se tinha, mas não fica a mais de vinte metros do que sobra do cutty sark em doca seca. não caberia, decerto, nas livrarias do mal. o que importa é trazer os livros para a rua e procurar a trafalgar tavern de lord nelson ao lado do real colégio naval ou subir o parque em direcção ao observatório e escolher um tronco forte para descobrir que a poesia de ondaatje salva um dia. ninguém mais sabe, para lá do paciente inglês, onde fica o humor e a inteligência de ondaatje. quase como um segredo página a página. se tiverem sorte podem ouvir uma outra no smoking band sem kusturica em equilibrio na fina linha do meridiano que atravessa uma tarde de domingo inesquecível.

the cinnamon peeler


















If I were a cinnamon peeler
I would ride your bed
and leave the yellow bark dust
on your pillow.

Your breasts and shoulders would reek
you could never walk through markets
without the profession of my fingers
floating over you. The blind would
stumble certain of whom they approached
though you might bathe
under the rain gutters, monsoon.

Here on the upper thigh
at this smooth pasture
neighbour to your hair
or the crease
that cuts your back. This ankle.
You will be known among strangers
as the cinnamon peeler's wife.

I could hardly glance at you
before marriage
never touch you
- your keen nosed mother, your rough brothers.
I buried my hands
in saffron, disguised them
over smoking tar,
helped the honey gatherers...

When we swam once
I touched you in the water
and our bodies remained free,
you could hold me and be blind of smell.
You climbed the bank and said

this is how you touch other women
the grass cutter's wife, the lime burner's daughter.
And you searched your arms
for the missing perfume

and knew

what good is it
to be the lime burner's daughter
left with no trace
as if not spoken to in the act of love
as if wounded without the pleasure of a scar.

You touched
your belly to my hands
in the dry air and said
I am the cinnamon
peeler's wife. Smell me.

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The Cinnamon Peller, Collected Poems
Michael Ondaatje
Picador, 1989.

um e o mesmo dia













pintura de stephen finer,
cortesia da art space gallery de londres


um dia
vão querer saber
da história do meu corpo
e vai faltar aquela minha outra mão
que ficou no pátio
da rua da sofia.

terça-feira, 12 de julho de 2005

praia (privada)












o cesariny deve ter
na recolha de pascoaes
um aforismo para isto
que somos agora.

segunda-feira, 11 de julho de 2005

David Cruz e Andreia Barão


















Na (excelente) companhia de Boris Vian, Georges Brassens e Serge Gainsbourg, Léo Ferré, Renaud, entre outros.

Hoje no TAGV, 22h.

terça-feira, 5 de julho de 2005

sud-express 8:35
















se vieres, vem num filme de godard. abraça-me com a alegria do olhar de capra, o magnum. sussurra-me um segredo que eu não ouça com o barulho do vapor na estação, mas imagine as palavras pelo teu perfume. que eu te imagine como queira. e vem de comboio. não me digas de onde que vou pensar umas vezes em montparnasse e noutras em baiona ou biarritz e, mais que tudo, não pares de chegar.

segunda-feira, 4 de julho de 2005

o meu começo












a madrugada desponta e mais um dia
se prepara para o calor e o silêncio. no mar o vento da madrugada
encrespa-se e desliza. eu estou aqui
ou ali, ou algures. no meu começo.
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east coker, quatro quartetos - t. s. eliot.

quarta-feira, 29 de junho de 2005

Peter McCarey












double-click on this
and nothing happens.

23.11.95

segunda-feira, 27 de junho de 2005

dois anos de a natureza do mal












parabéns!
a vocês que mudaram o meu mundo todos os dias nestes dois anos:
luís, sofia, bonirre, pc, jammes (leia-se jáme) e bartleby.

obrigado.

unravel












vejo melhor nos dias maiores, como se fosse au ralenti, o que se passa em todos os outros. és tu a primeira imagem do acordar e tremendo o que fazes da luz. ao meio dia consigo sorrir como se fosse eu próprio o sol. passa o tempo e tudo retorna. em todos os fins de tarde te perco, entre a ti e a tua sombra. todas as noites te encontro, depois do escuro e antes das palavras.

sábado, 25 de junho de 2005

dicionário*












mundo interj. 1. Palavra usada para mandar alguém embora. 2. Palavra usada para mandar um jovem que já atingiu a maioridade ganhar a vida, tornar-se independente.
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* Dicionário de Mirandês-Português - Amadeu Ferreira e José Pedro Cardona Ferreira.

quinta-feira, 23 de junho de 2005

o biombo de gamoneda












red screen, lincoln seligman.
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pintaram a parede da frente hoje de manhã. não sabemos de que côr. estamos dobrados como fetos e alguém recita o livro do frio. quase que não ouvimos as palavras que passam por cima dos músculos contraidos. bafejamos, dois ou três, quando se ouve "cheguei, enfim; este não é o meu lugar, mas cheguei". um de nós acenou, ainda. não fui eu. lá fora deve estar um cartaz que anuncia "fresco".

sábado, 18 de junho de 2005

esta cela e a do lado












quase não nos movemos.
saímos uma vez por dia:
ontem à tarde,
hoje de manhã cedo.
quase não vemos rostos
apenas se ouvem murmúrios.

as mensagens que escrevemos
as mortalhas de cigarros
a letra miuda
o espaço que deixamos
o fim das linhas
o fim dos textos
sempre à espera
a cela do lado

ao lado.

quarta-feira, 15 de junho de 2005

noite noite noite noite noite noite












estamos aqui fechados para sempre!

a noite de todas as manhãs












que tempo faz neste verbo
quando os olhos sem as palavras
guardam em silêncio
o inverno de junho?

podemos nós cair no céu
assim, manchados de tinta permanente
na camisa e nos dentes?

segunda-feira, 13 de junho de 2005

xviii













Impetuoso, o teu corpo é como um rio
onde o meu se perde.
Se escuto, só oiço o teu rumor.
De mim, nem o sinal mais breve.

Imagem dos gestos que tracei,
irrompe puro e completo.
Por isso, rio foi o nome que lhe dei.
E nele o céu fica mais perto.

__________________
eugénio de andrade

sexta-feira, 10 de junho de 2005

as asas de um desejo












quero voar!

de acordo com a "academy of achievment" são seis os princípios que conduzem ao sucesso: paixão, visão, preparação, coragem, perseverança e integridade.

o imenso: quero voar!

quinta-feira, 9 de junho de 2005

ao desafio do vidro azul












1. total music volume in my computer:
quase 20 gb.

2. the last cd i bought:
em simultâneo: arild andersen group - electra; keith jarrett - radiance e yann tiersen - les retrouvailles.

3. song playing right now:
yamore: salif keita e cesária evora.

4. five songs i listen to a lot lately, or that mean a lot to me:
dança das cabeças - egberto gismonti
my song - jan garbarek
koln concert - keith jarrett
i remember clifford - stan getz / kenny barron
raga sindhi bhairavi - ravi shankar
(mean a lot!)

four people to whom I'm passing the baton:
pedro, sarah, juno e lbs.

quarta-feira, 8 de junho de 2005

fahrenheit 99












no verão em que este blog nasceu, ardia como agora todo o país e passávamos as noites quentes à espera dos primeiros posts. não houve silly season. passámos a relatar as nossas vidas em tempo real. nunca a solidão teve tanta gente. este verão vou estar à espera. abro hoje oficialmente a época de verão do blog. o que vos arde?

agenda












logo à noite no tagv, a ante-estreia (? - depois do lançamento a 26 de maio) do filme "adriana" de margarida gil com a presença da própria. pelas 21 horas a realizadora dará uma entrevista na ruc (sunset boulevard). o argumento foi escrito por margarida gil e maria velho da costa. lá estaremos.

terça-feira, 7 de junho de 2005

de rimbaud a biolay












volto do chão, do inferno, do dever cumprido, da realidade. salvou-me de rimbaud, enquanto dançava, o teu beijo e a música de benjamin biolay que ainda dançamos.

terça-feira, 24 de maio de 2005

le marathon des mots












Chaque printemps, désormais, sera fait à Toulouse d'émotions et de surprises. Cette grande capitale des mots n'a pas fini de nous étonner.
___________________________
du 26 au 29 mai 2005.

quinta-feira, 19 de maio de 2005

bibliofilia












a cavalo de ferro editou este mês "biblioteca" o livro com que zoran zivkovic ganhou o world fantasy award de 2003. facto extraordinário para um não anglófono, partilhado apenas com borges, calvino e süskind. "biblioteca" é um conjunto de seis contos fantásticos sobre escritores que descobrem sites com os livros que irão publicar (biblioteca virtual), o homem que vê nascer na sua caixa de correio a literatura universal completa (biblioteca particular), o leitor que visita um arquivo dos diários de todas as pessoas que já viveram (biblioteca noturna), e mais sobre o inferno (biblioteca infernal), o livro que tem em si todos os outros (biblioteca mínima) e ainda a história de um livro de bolso no meio de encadernações de luxo (biblioteca requintada). zivkovic lembra outros escritores que fantasiam sobre gostar de livros e agrada aos leitores que sabem que uma biblioteca é um lugar mágico. um livro de culto a fazer jus ao mote da editora que usa o poema "no thanks" de e. e. cummings como regra de estilo.

terça-feira, 17 de maio de 2005

natureza morta












eu era esse braço estendido numa prova de contacto e ela mostrava-me os olhos, quase completamente brancos, de um modo que não sabia nunca se era ela o espanto ou se esperava ao meu lado a surpresa assídua e pontual do fim das tardes. ouvíamos o mesmo vinil de peter frampton durante horas e os dias novos apanhavam-me sempre com o braço estendido ainda.

e nada, nem mesmo a chuva, tinha mãos tão pequenas.

segunda-feira, 16 de maio de 2005

o último namur












La rose
Et le promeneur fatigué sont là
Qui écoutent le merle
Et les solitudes noires du pré.
L'un et l'autre sont assis
Au bord de l'herbe, au bord de la pensée,
Tout au bord du vide.
L'un et l'autre,
Comme autant de cristaux et de cendres
Qui se souviendraient encore de l'étoile jaune.
L'un et l'autre regardent le monde
Et cette douleur
Cachée dans la bouche des hommes.
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Les ennuagements du coeur, Yves Namur.
Ed. Lettres Vives, 2004.