"Le cose piú vere sono quelle che ho inventato" (F. Fellini)
o professor pio de abreu escreverá decerto no seu livro "como tornar-se um doente mental" algo sobre esta sensação que corresponde à frase de fellini. acabei por não ler o livro, leram-me em voz alta alguns fragmentos e acabei por nunca o escolher na prateleira. eu subscreveria as palavras do mestre de oito e meio. citar alguém não é isso mesmo?
para quem quer regressar às aulas, aconselha-se este ano a universidade de mestre bongo, onde se entra de preferência com zero a tudo, se promove o ensino à distância (quanto mais longe melhor) e onde se cultiva o direito à preguiça.
A Rádio Universidade de Coimbra orgulha-se de apresentar, pela primeira vez em Portugal e em data única, dois dos nomes mais representativos do movimento designado por nova música francesa: Françoiz Breut e Bastien Lallemant. Quinta-feira, dia 13 de Outubro, no Teatro Académico de Gil Vicente, uma noite muito especial comemora a nova grelha da RUC. Inseridos na linha musical de Jeanne Cherhal, Vincent Delerm ou Thomas Fersen, Breut e Lallemant integram o prestigiado catálogo da editora Tôt ou Tard que este ano comemora 10 anos de actividade.
Françoiz Breut lançou em 2005 "Une Saison Volée", o seu terceiro álbum de originais (o primeiro na etiqueta Tôt ou Tard), bastante aclamado pela crítica especializada. A artista já colaborou com nomes tão variados como Yann Tiersen ou Joey Burns (Calexico). Na primeira parte desta noite dedicada à chanson française, actua Bastien Lallemant, uma recente revelação que dá a conhecer o seu segundo e reconhecido trabalho "Les Érotiques".
Uma oportunidade única para ouvir também o tema de Lhasa "La confession", um dueto de Breut e Lallemant que integra a edição comemorativa dos 10 anos da Tôt ou Tard.
Numa só noite, dois concertos a não perder. Para recordar mais tarde ou mais cedo.
a sarah adamopoulos tem um pais dentro dela. escreve livros que podiam ser cancoes, fotografias, filmes, quadros ou instalacoes. a partir de hoje esta disponivel o seu ultimo olhar sobre o portugal contemporaneo. a ler.
fado menor - sarah adamopoulos. oficina do livro, 2005.
tenho vertigens nos ultimos dias de verao, nos primeiros versos de isadore ducasse, nos ultimos olhares para o cais, nos primeiros minutos de cada manha, na espera pelo manto fresco dos dias por vir, ao tocar as paginas por ler que guardei nos poucos bolsos que tinha numa tarde tao quente no cimo daquela mata que ja nao e. tinha vertigens quando gravei cigarras e sms, as fotos do bonirre e as noites em que nao escrevi nada porque tinha as maos, os bracos, os olhos e todo o peito presos numa ideia de mim que nunca serei.
Self-Portrait with Smiling-Aid, Gottfried Helnwein - 1972.
devo escrever regularmente algumas linhas para me lembrar a mim próprio que me faz muito bem pensar que a auto-ajuda como sinal deste tempo me irrita cada vez mais.
não vou à praia, vivo de noite, apenas sou visto num edifício que frequento cuidadosamente depois da meia-noite onde somente um e sempre o mesmo segurança esboça um cumprimento, igual a um espasmo fraco e cinzento como as paredes abandonadas à tranquilidade estival. recebo curiosas mensagens no atendedor de preocupação familiar e amiga. a mais estranha de todas recebi-a de um amigo, que sempre viveu protegido pela noite e pelas palavras. "não te estás a preparar para repetir a história do avelino arredondo?"
*accroche da lancôme para o lançamento do perfume poême em 1998. dois versos do poema "je t'aime" de paul éluard cantado no final dos anos 60 por yves montand.
enquanto tento reunir notas para a redacção do livro de um outro mundo imaginado, polux retorce-se no sofá. cita vila-matas* que cita "o doce clima de lesbos" de elena villena:
este relato obriga a sua autora a aceitar a regra da tauromaquia, que, como se sabe, persegue um objectivo essencial: além de a obrigar a pôr-se seriamente em perigo, a não se desfazer de qualquer modo do seu adversário (o seu êxito dependerá de um bom domínio da técnica), a regra impede que o combate seja uma simples carnificina; tão exigente como a de um ritual, oferece um aspecto táctico (preparar o leitor para receber uma estocada mortal, embora sem o fatigar mais que o necessário durante o combate) e um aspecto estético, também contido muito especialmente no termo da lide: fechar o livro será para o leitor como fechar a lousa que cobrirá a sua tumba.
- não polux, a este livro não se pode aplicar a regra. é outra coisa. ele franze o sobrolho ao ler-me os lábios. - cansa-me essa tua mania de pensares o tempo todo em escrever coisas diferentes. escreve igual aos outros, à tua maneira, e arruma de vez esse livro.
* a assassina ilustrada, enrique vila-matas campo das letras, 2005.
polux, o meu gato surdo, propõe-me que reinventemos o mundo enquanto todos dormem. eu que acreditei sempre na clarividência do silêncio não estou em condições de o contrariar. começa assim a grande noite de um mundo imaginado.
olho e vejo, em cima da secretária, uma maçã não sei se é o modo como olho para ela, assimétrica e real, mas parece-me em tudo igual às que pousavam na mesa das professoras primárias, as meninas de vestido de chita
no outro dia vi tribeca depois uma avenida com número hoje volto a ver pomares beira alta beira alta
digo-te se perguntares passo este verão em viagem à volta de uma maçã
olive branch, bird's nest - jo self 2002. _______________________________________________
na semana passada visitei a juno doran em deptford. encontrei-lhe o olhar sobre o país distante que já tinha visto nas palavras de maria de sousa, agostinho da silva e jorge de sena. a ela a distância aumenta a ternura poética. despediu-se com um pedido para "beijar as oliveiras em portugal". sorri e dei mais atenção às oliveiras. este fim de semana, quando atravessava o alentejo, cumpri o pedido. na próxima visita levo-lhe o pires cabral.
descobri michael ondaatje numa loja de livros a duas libras, assim mesmo, em greenwich. não me lembro do nome, se tinha, mas não fica a mais de vinte metros do que sobra do cutty sark em doca seca. não caberia, decerto, nas livrarias do mal. o que importa é trazer os livros para a rua e procurar a trafalgar tavern de lord nelson ao lado do real colégio naval ou subir o parque em direcção ao observatório e escolher um tronco forte para descobrir que a poesia de ondaatje salva um dia. ninguém mais sabe, para lá do paciente inglês, onde fica o humor e a inteligência de ondaatje. quase como um segredo página a página. se tiverem sorte podem ouvir uma outra no smoking band sem kusturica em equilibrio na fina linha do meridiano que atravessa uma tarde de domingo inesquecível.
If I were a cinnamon peeler I would ride your bed and leave the yellow bark dust on your pillow.
Your breasts and shoulders would reek you could never walk through markets without the profession of my fingers floating over you. The blind would stumble certain of whom they approached though you might bathe under the rain gutters, monsoon.
Here on the upper thigh at this smooth pasture neighbour to your hair or the crease that cuts your back. This ankle. You will be known among strangers as the cinnamon peeler's wife.
I could hardly glance at you before marriage never touch you - your keen nosed mother, your rough brothers. I buried my hands in saffron, disguised them over smoking tar, helped the honey gatherers...
When we swam once I touched you in the water and our bodies remained free, you could hold me and be blind of smell. You climbed the bank and said
this is how you touch other women the grass cutter's wife, the lime burner's daughter. And you searched your arms for the missing perfume
and knew
what good is it to be the lime burner's daughter left with no trace as if not spoken to in the act of love as if wounded without the pleasure of a scar.
You touched your belly to my hands in the dry air and said I am the cinnamon peeler's wife. Smell me.
____________________________________ The Cinnamon Peller, Collected Poems Michael Ondaatje Picador, 1989.
se vieres, vem num filme de godard. abraça-me com a alegria do olhar de capra, o magnum. sussurra-me um segredo que eu não ouça com o barulho do vapor na estação, mas imagine as palavras pelo teu perfume. que eu te imagine como queira. e vem de comboio. não me digas de onde que vou pensar umas vezes em montparnasse e noutras em baiona ou biarritz e, mais que tudo, não pares de chegar.
a madrugada desponta e mais um dia se prepara para o calor e o silêncio. no mar o vento da madrugada encrespa-se e desliza. eu estou aqui ou ali, ou algures. no meu começo. ___________________________________________ east coker, quatro quartetos - t. s. eliot.
vejo melhor nos dias maiores, como se fosse au ralenti, o que se passa em todos os outros. és tu a primeira imagem do acordar e tremendo o que fazes da luz. ao meio dia consigo sorrir como se fosse eu próprio o sol. passa o tempo e tudo retorna. em todos os fins de tarde te perco, entre a ti e a tua sombra. todas as noites te encontro, depois do escuro e antes das palavras.
mundo interj. 1. Palavra usada para mandar alguém embora. 2. Palavra usada para mandar um jovem que já atingiu a maioridade ganhar a vida, tornar-se independente. ________________________________________________________________________________ * Dicionário de Mirandês-Português - Amadeu Ferreira e José Pedro Cardona Ferreira.
red screen, lincoln seligman. ____________________
pintaram a parede da frente hoje de manhã. não sabemos de que côr. estamos dobrados como fetos e alguém recita o livro do frio. quase que não ouvimos as palavras que passam por cima dos músculos contraidos. bafejamos, dois ou três, quando se ouve "cheguei, enfim; este não é o meu lugar, mas cheguei". um de nós acenou, ainda. não fui eu. lá fora deve estar um cartaz que anuncia "fresco".
quase não nos movemos. saímos uma vez por dia: ontem à tarde, hoje de manhã cedo. quase não vemos rostos apenas se ouvem murmúrios.
as mensagens que escrevemos as mortalhas de cigarros a letra miuda o espaço que deixamos o fim das linhas o fim dos textos sempre à espera a cela do lado
de acordo com a "academy of achievment" são seis os princípios que conduzem ao sucesso: paixão, visão, preparação, coragem, perseverança e integridade.
1. total music volume in my computer: quase 20 gb.
2. the last cd i bought: em simultâneo: arild andersen group - electra; keith jarrett - radiance e yann tiersen - les retrouvailles.
3. song playing right now: yamore: salif keita e cesária evora.
4. five songs i listen to a lot lately, or that mean a lot to me: dança das cabeças - egberto gismonti my song - jan garbarek koln concert - keith jarrett i remember clifford - stan getz / kenny barron raga sindhi bhairavi - ravi shankar (mean a lot!)
four people to whom I'm passing the baton: pedro, sarah, juno e lbs.