sexta-feira, 28 de abril de 2006

a máquina do arcanjo



não me lembro de nenhum autor do qual tenha lido sete livros, além de frederico lourenço. não incluo as traduções de homero cuja leitura está suspensa. nem kundera numa febre dos anos oitenta me conseguiu tamanha fidelidade. não sei explicar porquê. nada a dizer desta máquina última a não ser que é preciso ler lourenço: pode um desejo imenso, o curso das estrelas, à beira do mundo, amar não acaba, grécia revisitada, a formosa pintura do mundo e a máquina do arcanjo.

terça-feira, 25 de abril de 2006

o fim das tardes ou o desvio para o vermelho





redshift, sue simon.

e pensar que a poesia do afastamento ao fim da tardes, meu amor, foi descrito por christian doppler num texto sobre estrelas duplas com o titulo "ber das farbige licht der doppelsterne"...

terça-feira, 18 de abril de 2006

um outro instante




a minha vida começou bem antes de vir ao mundo,
e imagino que prosseguirá sem mim por muito tempo.


pratt, uma outra alma completa, uma outra ordem única.
como barry goldensohn.

sábado, 15 de abril de 2006

chwila



por obscuros motivos,
em circunstâncias desconhecidas,
o ser ideal deixou de ser suficiente a si próprio.

mas poderia durar e durar sem fim,
talhado das trevas, forjado da claridade
nos seus jardins sonolentos sobre o mundo.

por que diabo começou a procurar aventuras
na má companhia da matéria?

de que lhe serviram imitadores
falidos, malfadados,
sem perspectivas de eternidade?

a sabedoria coxa
com um espinho cravado no calcanhar?
a harmonia dilacerada pelas
águas revoltas?
a beleza
com os seus nada atraentes intestinos?
e o bem -
para quê a sua sombra
se antes não a tinha?

deve ter havido algum motivo,
por mais fútil que pareça,
mas isso não será revelado nem pela verdade nua,
ocupada em remexer
no vestuário terreno.

e ainda, meu platão, todos estes poetas horríveis,
aparas varridas pelo vento de debaixo das estátuas,
resíduos do grande silêncio nas alturas...
________________________________________
platão ou o porquê
instante - wislawa szymborska
trad. elzbieta milewska e sérgio neves
relógio d'água, janeiro 2006.

quinta-feira, 13 de abril de 2006

a natureza do mail


fica deserta a minha fábrica, a estação dos correios, a mercearia fina do bairro operário e a oficina-escola. mantém-se a protecção civil e os serviços mínimos no país incompleto. no palco do gmail fenece o segundo acto. as mensagens que sempre tiveram resposta aguardam em silêncio-quaresma. até o santo spam parece reconhecer o calendário religioso. escrevo no canto cego do sistema de informação da minha fábrica. estou longe da biblioteca. troquei os turnos com a menina que precisava de ir à terra esperar a visita. alguém estará em festa, pá. aguardo ansiosamente pelo 25 de abril.

quarta-feira, 12 de abril de 2006

magma 01



"... neste mundo feito de mundos que nunca chegam a sê-lo, sobrevivem seres colados à ilusão de que é possível com as palavras imobilizar o mundo - ou tão só a parte dele que cabe num amontoado de palavras, ordenadas num fio de tempo. é isto que somos - seres investidos da crença de que cada palavra, cada texto consegue ter a força e o tempo necessários para neles habitarmos com o conforto mínimo de um mundo reconhecível por uma comunidade. somos seres que por um tempo mais ou menos prolongado habitamos a mesma metáfora de um mundo reconhecível, parado no tempo, ou melhor, em progressão lenta, medida por unidades mínimas de tempo que inventamos à justa medida dos nossos desencontros sucessivos com a morte."

sobre mundos (extracto), carlos alberto machado.
magma 01, dezembro de 2005.


(a revista magma é uma revista semestral dirigida por sara santos e propriedade da câmara municipal das lajes do pico - açores. os números 0 e 1 foram coordenados por carlos alberto machado.

a magma tem um preço de venda ao público de €8. a quem o solicitar , pode ser enviada à cobrança, sem custos acrescidos (excepção dos países não europeus). o pagamento pode ser efectuado por cheque, endossado ao município das lajes do pico. mais informações: revista.magma@municipio.lajes-do-pico.pt ou aqui.

lista dos participantes: abel neves, albano martins, alberto pimenta, ana francisco, ana hatherly, antónio cabrita, antónio godinho, carlos alberto machado, fernando guerreiro, fernando silva, helder moura pereira, inês lourenço, joão almeida, jorge fazenda lourenço, jorge gomes miranda, judite jorge, marie-amélie robilliard, mário cabral, nuno moura, rui sousa, sílvia pinto ferreira, tiago de faria e urbano bettencourt.)

segunda-feira, 3 de abril de 2006

a desordem dos dias


gibb's entropy, sue simon - 2005.

o tempo, essa adaga de que borges falava, e que eu ouvi num tango de piazzolla cantado por caetano, constroi sempre um mundo com sentido. ainda que para trás fique uma história cruel ou num futuro próximo se anuncie o caos.

quarta-feira, 29 de março de 2006

a noite ou darwin agora


nunca considerei os coleccionadores. os únicos objectos que acumulo desordenamente são livros, discos e papéis diversos. olhá-los no seu conjunto seria ter uma ideia de mim próprio que não quero nem tomo como verdadeira. eu sou essencialmente as páginas de uma noite que se dobra rendida sobre um corpo que não responde mais. já deixei para trás uma biblioteca que poderia ser uma colecção. na minha presunção, espero que esteja viva ou acorde um dia em alguém que a ressuscite. ainda hoje largo quase tudo o que se acumula para lá da memória volátil. a minha vida recente está escrita numa caderno perdido no caminho ferróviário que liga zurique a berna. fosse eu um observador atento e não voltaria a abrir as páginas dos dias passados desse registo.
olhar e esquecer, não classificar, para poder voltar como se fosse a primeira vez.

quarta-feira, 22 de março de 2006

saída da fábrica


na minha fábrica não saimos à lumiére ou à aurélio da paz dos reis. o pessoal operário não se parece em nada com o da fábrica confiança. cada vez mais saímos à kippenberger.

terça-feira, 14 de março de 2006

the day after


todos os dias seriam suportáveis se fossem como a sexta-feira passada. eu fechado num hotel de uma ilha inverosímil que teima em falar português. o jornal que em castelhano se esquece de lisboa. o televisor em branco que espera friamente que eu escolha um canal. e nada, nem as obras que preparam os edifícios para as inaugurações, nos faz lembrar a noite que começa agora.

segunda-feira, 13 de março de 2006

pele fria


" coma bem, trabalhe muito, veja-se ao espelho, para se lembrar de quem é, fale em voz alta, para não perder o hábito da palavra, e ocupe o espírito com propósitos simples. mais nada."

conselho do senegalês sow ao oficial atmosférico

sexta-feira, 10 de março de 2006

tomada de posse ou o que piñol faz de um leitor



"1 de março - 16 de março
demasiado ocupado a lutar pela vida para escrever. e tudo quanto podia ser escrito não merece ser recordado."

a pele fria, albert sánchez piñol.
teorema, janeiro 2006, pp 107.

quinta-feira, 9 de março de 2006

heisenberg ou a noite outra vez


ouvi num documentário que no início do cinema quem fazia a montagem das películas eram as mulheres. porque se tratava de um trabalho parecido com tricot. talvez o avatar encontrasse aqui uma metáfora para a vida. uma certa vida.

e tu, o que me fazes meu amor?

quarta-feira, 8 de março de 2006

je suis un piéton, rien de plus


aprecio os momentos em que sou uma vontade portátil e a liberdade me devolve a mim mesmo.

terça-feira, 7 de março de 2006

tombe la neige


abraça-me a neve que recebeu walser. erro nos passos de rilke, zweig, cossery, roth e genet. por momentos, sou um habitante de não-lugares, uma presença fugitiva, um ser aleatório. apenas escrevo os reencontros. também eu apenas queria chegar ao inverno que agora se esvai. "tu ne viendras pas ce soir".

a beethoven strasse é um bosque deserto.

quinta-feira, 2 de março de 2006

cv2














estamos instalados numa pensao da seefeld strasse.
o rapaz da recepcao nunca ouviu falar de cabaret voltaire.
pergunta-nos se temos a certeza de ser em zurique.
antes disso fizera uma careta por querermos ir a um "cabaret" a horas em que santana lopes ainda dorme.
no interior prepara-se a "shoppingnation", o "showcase radical chic".
o rapaz vladimiro ilidio aponta com rigor os locais que precisam de mais luz.
"as gambiarras das vanguardas de hoje sao os farois de nao sei que" diz ele.
obviamente assistimos ao primeiro manifesto registei eu na sebenta.
no momento em que passamos pelo cafe no primeiro andar servem-se chas e bolinhos.
ouvimos tres discursos. so entendi um (em alto alemao). os outros pareciam mais interessantes.
nao me sai da cabeca o miudo da pensao.
vai levar com o catalogo dada do centro pompidou na cabeca.

chupetas!!!

segunda-feira, 27 de fevereiro de 2006

cv


a segunda visita de estudo do curso da universidade de mr. bongo, onde entrei apropriadamente com zero a tudo, vai ser ao número um da spiegelgasse de zurich, a casa do movimento dada.

o cabaret voltaire, que podia ser também o blog de hugo ball, emmy hennings, hans arp, tristan tzara e marcel janco, vai ser tema do trabalho ocioso de final de semestre.

por estes dias, no mundo imaginado, dá-se lugar ao manifesto provocativo, ao protesto, à performance absurda e ao canto esotérico. passarão por aqui lenin, appollinaire, kandinsky, modigliani, picasso, oppenheimer e rimbaud, entre outros.

nota importante: os alunos da universidade de mr bongo não beneficiam de bolsas governamentais ou comunitárias (e.g. sócrates-erasmus).

nota mais importante: at e stillforty, não se preocupem com as matrículas e propinas, não há nada disso na umb, os vossos nomes constam da lista da visita de estudo.

informação aconselhada:
le magazine littéraire nº 446, octobre 2005
digital dada library, original dada-era publications
radio dada, ruc.

quarta-feira, 22 de fevereiro de 2006

bloggers de um mundo imaginado


num momento em que se fazem livros aproveitando os blogs, imagino os blogs do avesso.

a imitação dos dias
o blog de josé gomes ferreira

(continua)

bloggers de um mundo imaginado



diário remendado
o blog de luiz pacheco

newton ou a noite agora


a esta hora
apenas a mão esquerda
somente o ébano

(a sala vazia)
das palavras
de um qualquer século com xis

a vertigem exacta
a vertigem constante

quinta-feira, 16 de fevereiro de 2006

this way out


na minha fábrica, quando me distraio em frente às máquinas, sou sobressaltado pelos gestos abruptos dos primos daqueles assistentes do "kafka" de steven sodenberg. é a mais irritante forma de sair de mim mesmo.

quinta-feira, 9 de fevereiro de 2006

a graça reticente (mania 1)


numa entrevista a herberto helder publicada na inimigo rumor*, o autor de folhetos refere que escrevemos um poema devido à suspeita de que enquanto o escrevemos algo vai acontecer, uma coisa formidável, algo que nos transformará, que transformará tudo. explica depois que normalmente não acontece nada mas ficamos diante do anúncio suspenso e ameaçador de uma graça reticente, num dom reticente. a mania que te trago hoje calamity, é essa: teimo na contemplação dessa força nova e profunda.

*inimigo rumor nº11, 2º semestre 2001. pp 190.

segunda-feira, 6 de fevereiro de 2006

vivamente desaconselhado: o bom senso


retrato de Karl Kraus, por oskar kokoschka - 1925.

tentei durante certo tempo levar uma vida vulgar. mas senti rapidamente, no corpo e no espírito, as tristes consequências disso. e decidi, antes que fosse tarde demais encetar uma vida insensata. olho agora o mundo com este mesmo olhar velado que nos permite, não só passar por cima das misérias terrenas, mas a que devo também uma visão exagerada dos possíveis prazeres da vida.(...)

elogio dum modo de vida às avessas, karl kraus - 1908.
revista pravda #4, fenda edições.
coimbra, 1986.

sábado, 4 de fevereiro de 2006

1bsk



sou dos blogs que citarem hoje 1bsk.

(entrevista alargada a alexandre andrade. hoje no mil folhas - jornal público).

quinta-feira, 2 de fevereiro de 2006

agenda


brad mehldau trio, casa da música, porto.
sábado, 11 de fevereiro pelas 22 horas.

Arrojado e inovador na sua interpretação musical, este jovem músico de 35 anos foi convidado a participar nas bandas sonoras de «Meia-noite do Jardim do Bem e do Mal», de Clint Eastwood, «De Olhos Bem Fechados», de Stanley Kubrick e «Million Dollar Hotel» de Wim Wenders. Além destas colaborações, compôs a banda sonora original para o filme francês «Ma Femme est une Actrice».

terça-feira, 31 de janeiro de 2006

periférica: célia doran


The girl who was swallowed by her own shadow
Célia Doran 2005, Oil on canvas 150 x 100 cms.

na próxima e última periférica (edição nº14, inverno de 2006):

a pintora portuguesa que em julho me mostrou este quadro "in progress" e que enviou dos mary ann gardens um beijo para as oliveiras em portugal.

segunda-feira, 23 de janeiro de 2006

o medo


o medo
do destino que diminui
o que é pequeno

o medo do que se desconhece
em alguém
de que se conhece tanto

o medo de partir,
de ousar
ou de mostrar
outro caminho

ontem
o medo.

o medo
de ontem.

quinta-feira, 12 de janeiro de 2006

the burden of her memories


the burden of memories, ray caesar.

penso-me como mudança, em cada momento renasço e com facilidade apago todo o céu e desenho outras estrelas. esquecer tudo o que ouvi, vi ou pensei ajuda-me a olhar no instante seguinte cada situação como desconhecida. treinei durante anos o entusiasmo das descobertas. ela, a rapariga da janela que discreta me espreita, guarda na memória todos os meus gestos e discursos. como eu gosto dela assim contemplativa e como detesto o peso do passado com que ela me castiga.

sábado, 7 de janeiro de 2006

haja o que houver (um sublinhado)


"the past beats inside me like a second heart".

the sea, john banville.
picador, 2005.

quarta-feira, 4 de janeiro de 2006

haja o que houver (adenda)



"a ruminante paciência que há na espera"

a um deus surdo
variações em sousa, fernando assis pacheco.
angelus novus - cotovia, 2004.

era este verso que ontem não consegui citar de memória.

terça-feira, 3 de janeiro de 2006

haja o que houver



passaram por mim os amanheceres perdidos e as tardes tristes e durante anos eu chorava quando ouvia os versos de "haja o que houver" na voz de teresa salgueiro. a comoção das esperas eternas, a poesia de um cais que não se larga. coreografei mesmo a sinfonia sensorial que acompanhava a frase em que eu dizia "olha para mim, esperei por ti". repeti depois a fórmula a múltiplas situações: cada vez que acenava um adeus, escrevia uma mensagem mais ou menos instantânea ou pensava no amor adiado. veio depois o tempo em que ouvia em loop catatónico os mesmos versos até saturar o último receptor nervoso. ensinou-me a lígia, há uns anos na terapia comportamental, que vem nesse momento a serenidade absoluta e a sensação de que nada se passou afinal. "vem serenidade, és minha" eram os versos que eu repetia na auto-medicação em ambulatório. passei depois a evitar os madredeus, como fizera antes para os eagle, o peter frampton ou mozart. tudo pertence ao passado e não se pode viver, voltar ou esperar o avesso do tempo. "haja o que houver".

segunda-feira, 2 de janeiro de 2006

la muerte y los sombreros



nada se compara à escrita sobre o amor e a morte. rosa montero demonstrou-o este fim de semana no el país semanal (la muerte y los sombreros). a ler.


foto: fuzilamentos de comunistas em llerena.

começar de novo


a rute do lugar da incerteza e de um pássaro no lugar do coração está de volta com nenhuma palavra nos salva.
escolheu versos de casimiro de brito, o prémio europa de poesia 2005, num modo de dizer:

dizê-lo porém não sei de outro modo que não seja
cantar, cantar e arranhar
a velha cicatriz


o livro das quedas, casimiro de brito.
roma editora, 2005.

terça-feira, 20 de dezembro de 2005

movimentos no escuro - josé miguel silva


Um ser humano é um combinado de egoísmo,
sofrimento e necessidade. Não comove ninguém.
Uma pedra não comove ninguém. A beleza
é um acidente banal e pressupõe a morte;
muitas vezes se rodeia de sandice, e se nos fala,
chega a ser assustador. A inteligência, refrescante
como um duche, sabe bem, no Estio; mas agora,
que é Inverno toda a vida, que lugar atribuir
à inteligência? O de criada de servir nos aposentos
da ganância. Não comove, é evidente, ninguém.
A bondade, sim, comove. Mas é tão débil
e tão rara que ninguém a ouve. Não é fácil,
assim, encontrar algo que possamos amar. Eu
tenho procurado, eu juro que não sei o que fazer:
tudo me parece, até a música, produto de uma falha.
Vou por essas ruas ao acaso e não acerto a conhecer
quem me convença que bem outra poderia ser
a vida. Tudo se mostra sob espelhos deformantes,
tudo arde numa estranha aceitação. Francamente,
não consigo perceber. E gostava tanto, mas tanto,
que alguém me demonstrasse que não tenho razão.
____________________________________________
morangos silvestres - ingmar bergman (1957)
movimentos no escuro, josé miguel silva.
relógio d'água, novembro 2005.

este livro de poemas de josé miguel silva, fala sobre o escuro, quase sempre de cinema. a excepção é uma noite que motiva um poema com o título "bayern de munique 1 x f. c. porto 2 - artur jorge (1987)". em 2005 o melhor veio no fim.

domingo, 18 de dezembro de 2005

ao sol com eliot



que está fazer o fim de novembro
com o alvoroço da primavera(?)

east coker
quatro quartetos, t. s. eliot.

quarta-feira, 14 de dezembro de 2005

is that all there is? then let's keep dancing...



caminharam pela west 51st street de braço dado, numa noite branca de dezembro. entraram no clube e ela sussurrou palavras ternas e roucas em alemão. quando dançavam, ele cometeu o erro fatal do desfasamento num meio tom de uma qualquer música brasileira. ela vingou-se um tempo depois e usou o humor no momento em que ele suspirava. a voz dela continuou em falsetes inesperados. ele sentou-se ao piano e não mais se levantou. quando a noite terminou e ela dançava sozinha na sala, ele perguntou "porque não me levas a sério?". ela olhou-o nos olhos e já não viu o brilho dos passeios em manhattan. respondeu apenas: "is that all there is? then let's keep dancing...".


a despropósito do espectáculo de vera mantero (voz) e nuno vieira de almeida (piano) no pequeno auditório do centro cultural vila flôr em guimarães. sexta-feira, dia 16 pelas 22 horas.

sexta-feira, 2 de dezembro de 2005

outra folha ainda


é no outono que verdadeiramente me morres como as árvores. guardo-te então dentro dos livros como se tentasse esconder um estação inteira no meio das folhas para esquecer.

terça-feira, 29 de novembro de 2005

agenda


Exposição de fotografia "Invólucro"
Trabalhos realizados no Curso de Fotografia Criativa
orientado por Javier Diaz.

Da realidade escondida à realidade construída, passando pelas incertezas da percepção e das coisas e dos seus significados, os autores focalizaram a sua atenção em diferentes abordagens sobre o tema "o invisível no visível".

Inauguração no Sábado, dia 3 de Dezembro.
19 horas no Quebra Club no Parque Verde do Mondego;
23 horas no Quebra-Costas à Sé Velha, Coimbra.

sexta-feira, 25 de novembro de 2005

1000 asas


se olhares bem para mim
sou hoje um edifício em obras
com uma fotografia na fachada
para distrair do barulho das obras

(quase um ano sem sontag)

terça-feira, 22 de novembro de 2005

schiele outra vez


no mesmo outono volto a schiele, talvez porque "os corpos têm a sua própria luz que gastam na vida: ardem, não são iluminados." era ele que assim dizia quando falava dos seus quadros. "a imagem deve dar luz por ela própria". esta citação abre o fantástico livro de vasco gato: a prisão e paixão de egon schiele (&etc, 2005). deixo aqui o "Laboratório":


E o amor? Fala-me do amor. Não percebo, não percebo o que cabe em seis letras, o que cabe em quatro. E se isso possui a sua vertigem mortal, é belo como as grandes falésias escarpadas. Se eu me lançar. Se eu beijar em plena queda. Se eu ludibriar o voo dos anjos cegos e subitamente apresentar a levitação como um talento desesperado. Se eu devorar o meu próprio grito e os seus mil ecos e ficar apenas balbuciando diante do deserto.

Mas não me falaste do amor. Dois músculos obedecendo a dois nervos. A forma como dois amputados caminham abraçados. Não, espera, não o digas assim. Não há assim, há a imagem e o sangue da imagem e a vida enfeitiçada da imagem subindo pelos braços como uma serpente. Claro que a cabeça estoura. Não há outra forma de o dizer.

Exemplos:
dezembro é uma piscina turva;
a noite são quatro mulheres de cabelos soldados;
o mérito é um veneno e a culpa é um veneno e o consentimento é um veneno.

Ou ainda:
é o meu quarto e nele perderás as mãos.

sexta-feira, 18 de novembro de 2005

weekend


friday
restate my assumptions
the writer writes for himself
not for you

saturday
restate my assumptions
a song is not a song
until it's listened to

__________________________________
divine comedy
note to self - regeneration, 2001.

tradução:
sexta-feira é assim, amanhã é no coliseu do porto para ouver sigur rós.

quarta-feira, 16 de novembro de 2005

tpc: a poesia



"a poesia salva-nos dos sonhos maus"

diogo francisco, 9 anos.
escola 39, coimbra.

terça-feira, 8 de novembro de 2005

s/ título


(s/ título - vitor pomar, 1983)

se eu escrevesse contra a memória, pina
não escrevia amsterdão, silêncio, bimhuis

se eu parasse, de repente, de encontrar as letras sarnosas, cam
esgrimia no ar um grito, demente e bêbedo, e parava de abrir rimbaud

se eu caísse numa página tão branca, walser
sangraria quente e espalharia com os dedos
todos os nomes que me erguem neste inferno

domingo, 6 de novembro de 2005

ppr: letras maiores




abusei das palavras escritas na sombra sobre minúsculas mortalhas de cigarros. resta-me agora ler as letras maiores e esse é o primeiro critério nos dias que correm. espero assim com ansiedade cada novo volume da colecção 'outras histórias' da teorema. em outubro chegou mais um sebald e como não sei quando chegará o próximo leio mais devagar, como aliás ele merece. demorei-me longamente num jantar com uma entrada de espargos verdes, folhas jovens de espinafres marinadas, brocolos em manteiga e batatas novas cozidas em água aromatizada com menta. mais tempo ainda por entre uma horta selvagem duma casa que lembra uma outra na charente com uma fachada copiada de versailles. num gesto que não me recordo de fazer com outros livros corro a procurar a assinatura do senhor das últimas páginas. desta vez não veio. passo então algum tempo nas montanhas. coloco no leitor de cd's o 'alina' de arvo pärt. é mais fácil respirar assim e ler neste compasso. era assim devagar que andava o tempo quando eu era emigrante. volto atrás várias vezes e repito a leitura do primeiro conto. sinto que cuido deste livro com se de um ppr se tratasse.

sábado, 5 de novembro de 2005