segunda-feira, 28 de agosto de 2006

Visões do Mundo



Vista de Delft, Jan Vermeer, 1659-1660
Óleo sobre tela, 98,5 × 117,5 cm.
________________________________________

Rua do Loreto. Todas as visões do mundo são parciais.
Como uma invenção de Vermeer
as traseiras de um edifício antigo
podem ser os limites da minha moldura.

Nada há de exaustivo
no olhar humano. A chaminé de tijolo tinge o céu
de um vermelho débil
que ele nunca teve.

Um universo de vozes,
infectos cheiros de cozinhas adjacentes, ruídos
que quebram o alheamento que sobre as fechadas
se perpetua.

Em baixo, uma varanda onde nunca está ninguém.
Nada sei da ausência que a varanda desvenda.
Do lado esquerdo, o parapeito alto confere-me a certeza
de que os meus domínios foram encontrados.

Neste perímetro de luz
procuro a consistência dos sentidos.
O território com que se abastece uma paixão descritiva,
o lastro da imaginação.
________________________________________

A Imprecisa Melancolia, Luís Quintais.
Teorema, 1995.

(Ler João Luís Barreto Guimarães no Poesia & LDA, aqui.)

recomenda-se



o mmcafé do teatro maria matos
19:30 de cada domingo: jazz ao vivo.

wish list



num verão em que as livrarias foram inundadas por romances históricos, um género que começo a detestar, planeei ler uma pilha de titulos que ficaram à espera das férias. saíu tudo ao contrário, ou seja, li o que menos esperava: pedro mexia, alain de botton, pierre cabanne, boris vian, antónio munoz molina, georg trakl, poesia neerlandesa, etc.

o mais fascinante, e viciante foi, sem dúvida alain de botton (obrigado eduardo!) com textos dispersos pela arquitectura (the architecture of happiness), viagens (the art of travel) e até a filosofia como ajuda (the consolations of philosophy e how proust can change your life).

chega agora pelo babelia (el país) mais um desejo. não sei para quando a leitura.

the philosophers' secret fire: a history of the imagination
patrick harpur,
ivan r. dee, 2003.

garrel, garrel et ... hesme



"la solitude qu’il y a dans le coeur de chaque homme, c’est incroyable."

quinta-feira, 24 de agosto de 2006

aus-rähmung


robert gober, sem título, 1990.
(hirshhorn museum and sculpture garden)


morte ou renovação estética:
nunca me enquadrarei nas rentrées como fronteiras.

sábado, 19 de agosto de 2006

eagerness



susan sontag por peter hujar, 1975.
(colecção permanente do metropolitan museum of art de nova york)

"do stuff. be clenched, curious. not waiting for inspiration’s shove or society’s kiss on your forehead. pay attention. it’s all about paying attention. attention is vitality. it connects you with others. it makes you eager. stay eager."

aos alunos do vassar college (ny).

sábado, 5 de agosto de 2006

tula


um verão como antónio gosta.

romance & cigarettes, john turturro (2005).

quarta-feira, 26 de julho de 2006

guerra


after lebanon, teguh ostenrik
1981, mixed media on paper, 65 x 50 cm.

Provisoriamente não cantaremos o amor,
que se refugiou mais abaixo dos subterrâneos.
Cantaremos o medo, que esteriliza os abraços,
não cantaremos o ódio, porque este não existe,
existe apenas o medo, nosso pai e nosso companheiro,
o medo grande dos sertões, dos mares, dos desertos,
o medo dos soldados, o medo das mães, o medo das igrejas,
cantaremos o medo dos ditadores, o medo dos democratas,
cantaremos o medo da morte e o medo de depois da morte,
depois morreremos de medo
e sobre nossos túmulos nascerão flores amarelas e medrosas.

Congresso Internacional do Medo
Carlos Drummond de Andrade

a minha fábrica hopperesca


automat, edward hopper (1927).
óleo sobre tela, 67,5 x 86,4 cm.


o sector este da nave central ficou deserto. o pessoal do quadro, à falta de acções de formação e de reuniões no exterior em comissão de serviço, debandou legando ao centro de emprego a manutenção das máquinas. é agora, que os espaços se esvaziam, que sobressai o encanto das pessoas temporariamente abandonadas ou funcionalmente desajustadas. alain de botton lia nos quadros de hopper sobre restaurantes de beira de estrada, estações de serviço e aeroportos, o fascínio dos lugares tristes e da solidão temporária. assim é agora a minha sala das turbinas: hopperesca.

quinta-feira, 20 de julho de 2006

a cole porter



pinakothek der modern
munique, 2005.

sexta-feira, 14 de julho de 2006

vigeland




das pedras
da cidade de o. queria a força do silêncio
daquele fim de tarde de domingo.
passado o rei de espanha,
passado o teu ensaio.
passadas as más memórias
das cidades do norte. apenas
ser mais aquele velho
que não precisa de palavras.

quarta-feira, 12 de julho de 2006

desenlace



tudo se detém nos pátios onde estás
algures, a norte, ouve-se o rumor das cem
navalhas de prata.
modula-se de estranhos violinos a música que
deixaste à entrada dos rios.
cais tremendamente pelas escarpas.

entretanto, já esqueceste as maçãs da minha
árvore destruída.
pela estrada de damasco, continuas só,
sem olhar para trás.

_____________________________________
quatro luas, josé agostinho baptista.
assírio & alvim, 2006.

segunda-feira, 10 de julho de 2006

ML x2



dois números do "le magazine littéraire" a não perder:

abril 2006 - o mito marguerite duras
várias perspectivas da escritora/realizadora, entre as quais a de enrique vila-matas que escreve sobre a sua senhoria na altura em que este vivia dos artigos para a "fotogramas" e era figurante em filmes da saga james bond.

julho-agosto 2006 - le désir
de platão a gilles deleuze, uma visão sobre o que move o mundo ou como dizia andré breton, "le désir, seul ressort du monde, le désir, seule rigueur que l'homme ait à connaître".

sexta-feira, 30 de junho de 2006

da relatividade


abro a janela, ligo a turbina silenciosa e recebo no peito, em 17 rigorosos segundos, todo o mundo de que preciso por hoje. depois, fecho a janela e os olhos e espero mais um dia para que tudo à minha volta pouse de novo. nos últimos dias, o chão tomou outras cores, mas é assim o mundo.

quinta-feira, 8 de junho de 2006

a (outra) marcha dos imperadores


rumamos a norte. o encontro na cidade sem noite foi preparado com todo o cuidado. a fidelidade que votamos nao nos faz esquecer a rapariga que se apaixonou pelo amor, a fotografa de fogo e marcia, a poetisa assidua. estao sempre comigo, como o ovo do imperador. carlos, volto na terca com o TPC pronto. pontual, claro. chega-se sempre mais depressa ao sul.

quinta-feira, 18 de maio de 2006

avatar: hoje



E se eu fosse cego?
Narrativas silenciadas da deficiência
Bruno Sena Martins
Edições Afrontamento, 2006.

Coimbra, 18 de Maio, 18:30, Foyer do TAGV
Apresentação com:
Boaventura Sousa Santos
José Guerra (ex-presidente da ACAPO)

Lisboa, 9 de Junho, 18:30, Fnac do Chiado
Apresentação com:
Gonçalo M. Tavares
Humberto Santos (presidente da APD)

quarta-feira, 17 de maio de 2006

message in a bottle


sucessão de dias
sem praia nem primavera

se eu abrir envelopes
raramente encontro mensagens

fosse sexta-feira
e pensaria em etilico

a morte e as cartas que não chegam
dizia sophia ao jorge

ou qualquer coisa assim
entre o vazio e as palavras
como o eco dentro de uma garrafa
que não abro

fosse sexta-feira

sexta-feira, 28 de abril de 2006

a máquina do arcanjo



não me lembro de nenhum autor do qual tenha lido sete livros, além de frederico lourenço. não incluo as traduções de homero cuja leitura está suspensa. nem kundera numa febre dos anos oitenta me conseguiu tamanha fidelidade. não sei explicar porquê. nada a dizer desta máquina última a não ser que é preciso ler lourenço: pode um desejo imenso, o curso das estrelas, à beira do mundo, amar não acaba, grécia revisitada, a formosa pintura do mundo e a máquina do arcanjo.

terça-feira, 25 de abril de 2006

o fim das tardes ou o desvio para o vermelho





redshift, sue simon.

e pensar que a poesia do afastamento ao fim da tardes, meu amor, foi descrito por christian doppler num texto sobre estrelas duplas com o titulo "ber das farbige licht der doppelsterne"...

terça-feira, 18 de abril de 2006

um outro instante




a minha vida começou bem antes de vir ao mundo,
e imagino que prosseguirá sem mim por muito tempo.


pratt, uma outra alma completa, uma outra ordem única.
como barry goldensohn.

sábado, 15 de abril de 2006

chwila



por obscuros motivos,
em circunstâncias desconhecidas,
o ser ideal deixou de ser suficiente a si próprio.

mas poderia durar e durar sem fim,
talhado das trevas, forjado da claridade
nos seus jardins sonolentos sobre o mundo.

por que diabo começou a procurar aventuras
na má companhia da matéria?

de que lhe serviram imitadores
falidos, malfadados,
sem perspectivas de eternidade?

a sabedoria coxa
com um espinho cravado no calcanhar?
a harmonia dilacerada pelas
águas revoltas?
a beleza
com os seus nada atraentes intestinos?
e o bem -
para quê a sua sombra
se antes não a tinha?

deve ter havido algum motivo,
por mais fútil que pareça,
mas isso não será revelado nem pela verdade nua,
ocupada em remexer
no vestuário terreno.

e ainda, meu platão, todos estes poetas horríveis,
aparas varridas pelo vento de debaixo das estátuas,
resíduos do grande silêncio nas alturas...
________________________________________
platão ou o porquê
instante - wislawa szymborska
trad. elzbieta milewska e sérgio neves
relógio d'água, janeiro 2006.

quinta-feira, 13 de abril de 2006

a natureza do mail


fica deserta a minha fábrica, a estação dos correios, a mercearia fina do bairro operário e a oficina-escola. mantém-se a protecção civil e os serviços mínimos no país incompleto. no palco do gmail fenece o segundo acto. as mensagens que sempre tiveram resposta aguardam em silêncio-quaresma. até o santo spam parece reconhecer o calendário religioso. escrevo no canto cego do sistema de informação da minha fábrica. estou longe da biblioteca. troquei os turnos com a menina que precisava de ir à terra esperar a visita. alguém estará em festa, pá. aguardo ansiosamente pelo 25 de abril.

quarta-feira, 12 de abril de 2006

magma 01



"... neste mundo feito de mundos que nunca chegam a sê-lo, sobrevivem seres colados à ilusão de que é possível com as palavras imobilizar o mundo - ou tão só a parte dele que cabe num amontoado de palavras, ordenadas num fio de tempo. é isto que somos - seres investidos da crença de que cada palavra, cada texto consegue ter a força e o tempo necessários para neles habitarmos com o conforto mínimo de um mundo reconhecível por uma comunidade. somos seres que por um tempo mais ou menos prolongado habitamos a mesma metáfora de um mundo reconhecível, parado no tempo, ou melhor, em progressão lenta, medida por unidades mínimas de tempo que inventamos à justa medida dos nossos desencontros sucessivos com a morte."

sobre mundos (extracto), carlos alberto machado.
magma 01, dezembro de 2005.


(a revista magma é uma revista semestral dirigida por sara santos e propriedade da câmara municipal das lajes do pico - açores. os números 0 e 1 foram coordenados por carlos alberto machado.

a magma tem um preço de venda ao público de €8. a quem o solicitar , pode ser enviada à cobrança, sem custos acrescidos (excepção dos países não europeus). o pagamento pode ser efectuado por cheque, endossado ao município das lajes do pico. mais informações: revista.magma@municipio.lajes-do-pico.pt ou aqui.

lista dos participantes: abel neves, albano martins, alberto pimenta, ana francisco, ana hatherly, antónio cabrita, antónio godinho, carlos alberto machado, fernando guerreiro, fernando silva, helder moura pereira, inês lourenço, joão almeida, jorge fazenda lourenço, jorge gomes miranda, judite jorge, marie-amélie robilliard, mário cabral, nuno moura, rui sousa, sílvia pinto ferreira, tiago de faria e urbano bettencourt.)

segunda-feira, 3 de abril de 2006

a desordem dos dias


gibb's entropy, sue simon - 2005.

o tempo, essa adaga de que borges falava, e que eu ouvi num tango de piazzolla cantado por caetano, constroi sempre um mundo com sentido. ainda que para trás fique uma história cruel ou num futuro próximo se anuncie o caos.

quarta-feira, 29 de março de 2006

a noite ou darwin agora


nunca considerei os coleccionadores. os únicos objectos que acumulo desordenamente são livros, discos e papéis diversos. olhá-los no seu conjunto seria ter uma ideia de mim próprio que não quero nem tomo como verdadeira. eu sou essencialmente as páginas de uma noite que se dobra rendida sobre um corpo que não responde mais. já deixei para trás uma biblioteca que poderia ser uma colecção. na minha presunção, espero que esteja viva ou acorde um dia em alguém que a ressuscite. ainda hoje largo quase tudo o que se acumula para lá da memória volátil. a minha vida recente está escrita numa caderno perdido no caminho ferróviário que liga zurique a berna. fosse eu um observador atento e não voltaria a abrir as páginas dos dias passados desse registo.
olhar e esquecer, não classificar, para poder voltar como se fosse a primeira vez.

quarta-feira, 22 de março de 2006

saída da fábrica


na minha fábrica não saimos à lumiére ou à aurélio da paz dos reis. o pessoal operário não se parece em nada com o da fábrica confiança. cada vez mais saímos à kippenberger.

terça-feira, 14 de março de 2006

the day after


todos os dias seriam suportáveis se fossem como a sexta-feira passada. eu fechado num hotel de uma ilha inverosímil que teima em falar português. o jornal que em castelhano se esquece de lisboa. o televisor em branco que espera friamente que eu escolha um canal. e nada, nem as obras que preparam os edifícios para as inaugurações, nos faz lembrar a noite que começa agora.

segunda-feira, 13 de março de 2006

pele fria


" coma bem, trabalhe muito, veja-se ao espelho, para se lembrar de quem é, fale em voz alta, para não perder o hábito da palavra, e ocupe o espírito com propósitos simples. mais nada."

conselho do senegalês sow ao oficial atmosférico

sexta-feira, 10 de março de 2006

tomada de posse ou o que piñol faz de um leitor



"1 de março - 16 de março
demasiado ocupado a lutar pela vida para escrever. e tudo quanto podia ser escrito não merece ser recordado."

a pele fria, albert sánchez piñol.
teorema, janeiro 2006, pp 107.

quinta-feira, 9 de março de 2006

heisenberg ou a noite outra vez


ouvi num documentário que no início do cinema quem fazia a montagem das películas eram as mulheres. porque se tratava de um trabalho parecido com tricot. talvez o avatar encontrasse aqui uma metáfora para a vida. uma certa vida.

e tu, o que me fazes meu amor?

quarta-feira, 8 de março de 2006

je suis un piéton, rien de plus


aprecio os momentos em que sou uma vontade portátil e a liberdade me devolve a mim mesmo.

terça-feira, 7 de março de 2006

tombe la neige


abraça-me a neve que recebeu walser. erro nos passos de rilke, zweig, cossery, roth e genet. por momentos, sou um habitante de não-lugares, uma presença fugitiva, um ser aleatório. apenas escrevo os reencontros. também eu apenas queria chegar ao inverno que agora se esvai. "tu ne viendras pas ce soir".

a beethoven strasse é um bosque deserto.

quinta-feira, 2 de março de 2006

cv2














estamos instalados numa pensao da seefeld strasse.
o rapaz da recepcao nunca ouviu falar de cabaret voltaire.
pergunta-nos se temos a certeza de ser em zurique.
antes disso fizera uma careta por querermos ir a um "cabaret" a horas em que santana lopes ainda dorme.
no interior prepara-se a "shoppingnation", o "showcase radical chic".
o rapaz vladimiro ilidio aponta com rigor os locais que precisam de mais luz.
"as gambiarras das vanguardas de hoje sao os farois de nao sei que" diz ele.
obviamente assistimos ao primeiro manifesto registei eu na sebenta.
no momento em que passamos pelo cafe no primeiro andar servem-se chas e bolinhos.
ouvimos tres discursos. so entendi um (em alto alemao). os outros pareciam mais interessantes.
nao me sai da cabeca o miudo da pensao.
vai levar com o catalogo dada do centro pompidou na cabeca.

chupetas!!!

segunda-feira, 27 de fevereiro de 2006

cv


a segunda visita de estudo do curso da universidade de mr. bongo, onde entrei apropriadamente com zero a tudo, vai ser ao número um da spiegelgasse de zurich, a casa do movimento dada.

o cabaret voltaire, que podia ser também o blog de hugo ball, emmy hennings, hans arp, tristan tzara e marcel janco, vai ser tema do trabalho ocioso de final de semestre.

por estes dias, no mundo imaginado, dá-se lugar ao manifesto provocativo, ao protesto, à performance absurda e ao canto esotérico. passarão por aqui lenin, appollinaire, kandinsky, modigliani, picasso, oppenheimer e rimbaud, entre outros.

nota importante: os alunos da universidade de mr bongo não beneficiam de bolsas governamentais ou comunitárias (e.g. sócrates-erasmus).

nota mais importante: at e stillforty, não se preocupem com as matrículas e propinas, não há nada disso na umb, os vossos nomes constam da lista da visita de estudo.

informação aconselhada:
le magazine littéraire nº 446, octobre 2005
digital dada library, original dada-era publications
radio dada, ruc.

quarta-feira, 22 de fevereiro de 2006

bloggers de um mundo imaginado


num momento em que se fazem livros aproveitando os blogs, imagino os blogs do avesso.

a imitação dos dias
o blog de josé gomes ferreira

(continua)

bloggers de um mundo imaginado



diário remendado
o blog de luiz pacheco

newton ou a noite agora


a esta hora
apenas a mão esquerda
somente o ébano

(a sala vazia)
das palavras
de um qualquer século com xis

a vertigem exacta
a vertigem constante

quinta-feira, 16 de fevereiro de 2006

this way out


na minha fábrica, quando me distraio em frente às máquinas, sou sobressaltado pelos gestos abruptos dos primos daqueles assistentes do "kafka" de steven sodenberg. é a mais irritante forma de sair de mim mesmo.

quinta-feira, 9 de fevereiro de 2006

a graça reticente (mania 1)


numa entrevista a herberto helder publicada na inimigo rumor*, o autor de folhetos refere que escrevemos um poema devido à suspeita de que enquanto o escrevemos algo vai acontecer, uma coisa formidável, algo que nos transformará, que transformará tudo. explica depois que normalmente não acontece nada mas ficamos diante do anúncio suspenso e ameaçador de uma graça reticente, num dom reticente. a mania que te trago hoje calamity, é essa: teimo na contemplação dessa força nova e profunda.

*inimigo rumor nº11, 2º semestre 2001. pp 190.

segunda-feira, 6 de fevereiro de 2006

vivamente desaconselhado: o bom senso


retrato de Karl Kraus, por oskar kokoschka - 1925.

tentei durante certo tempo levar uma vida vulgar. mas senti rapidamente, no corpo e no espírito, as tristes consequências disso. e decidi, antes que fosse tarde demais encetar uma vida insensata. olho agora o mundo com este mesmo olhar velado que nos permite, não só passar por cima das misérias terrenas, mas a que devo também uma visão exagerada dos possíveis prazeres da vida.(...)

elogio dum modo de vida às avessas, karl kraus - 1908.
revista pravda #4, fenda edições.
coimbra, 1986.

sábado, 4 de fevereiro de 2006

1bsk



sou dos blogs que citarem hoje 1bsk.

(entrevista alargada a alexandre andrade. hoje no mil folhas - jornal público).

quinta-feira, 2 de fevereiro de 2006

agenda


brad mehldau trio, casa da música, porto.
sábado, 11 de fevereiro pelas 22 horas.

Arrojado e inovador na sua interpretação musical, este jovem músico de 35 anos foi convidado a participar nas bandas sonoras de «Meia-noite do Jardim do Bem e do Mal», de Clint Eastwood, «De Olhos Bem Fechados», de Stanley Kubrick e «Million Dollar Hotel» de Wim Wenders. Além destas colaborações, compôs a banda sonora original para o filme francês «Ma Femme est une Actrice».

terça-feira, 31 de janeiro de 2006

periférica: célia doran


The girl who was swallowed by her own shadow
Célia Doran 2005, Oil on canvas 150 x 100 cms.

na próxima e última periférica (edição nº14, inverno de 2006):

a pintora portuguesa que em julho me mostrou este quadro "in progress" e que enviou dos mary ann gardens um beijo para as oliveiras em portugal.

segunda-feira, 23 de janeiro de 2006

o medo


o medo
do destino que diminui
o que é pequeno

o medo do que se desconhece
em alguém
de que se conhece tanto

o medo de partir,
de ousar
ou de mostrar
outro caminho

ontem
o medo.

o medo
de ontem.

quinta-feira, 12 de janeiro de 2006

the burden of her memories


the burden of memories, ray caesar.

penso-me como mudança, em cada momento renasço e com facilidade apago todo o céu e desenho outras estrelas. esquecer tudo o que ouvi, vi ou pensei ajuda-me a olhar no instante seguinte cada situação como desconhecida. treinei durante anos o entusiasmo das descobertas. ela, a rapariga da janela que discreta me espreita, guarda na memória todos os meus gestos e discursos. como eu gosto dela assim contemplativa e como detesto o peso do passado com que ela me castiga.