quinta-feira, 18 de abril de 2013

e porque um poema não é a Isabela Rossellini*


foi quando estava a escurecer
e por baixo de mim
vi o telhado da minha casa,
vi as sombras pousando
sobre a paisagem da East Anglia,
vi a orla da ilha,
as vagas encalhando na areia
e no mar do Norte os bancos
imóveis à frente da sua esteira de espuma branca.

in A noite escura fez-se ao caminho
Do Natural, W. G. Sebald
Lisboa: 
Quetzal, 2012.


*in Porque falta meia hora antes de,
Vim Porque Me Pagavam, Golgona Anghel
Lisboa: Mariposa Azul, 2011.

sábado, 13 de abril de 2013

N.Y. anteontem


Incertas multidões em volta passam 
contemporâneas falam interpretam 
a duvidosa língua das imagens

O Teatro das Cidades, O Pianista (1984), Gastão Cruz.

sexta-feira, 12 de abril de 2013

Somos sonâmbulos. Luas vagabundas.


Um dia vi navegar os desejos do mundo.
Todos, no mesmo rumo – uma só frota.

Desde a montanha, Tomas Tranströmer, 1962.

sábado, 6 de abril de 2013

A Woman (For L.B.)

Aegean sea, Pillion, Hiroshi Sugimoto, 1990.

Exciting not by excitement only; subtler: 
'beautiful & unhappy''s not enough: 
a woman engrossed
 in delight or anguish or simply in passing
from point to point: stretched proudly
ready to twang or sing at pluck or stroke.
Northward: now her green eyes
 are looking, looking for a door
 to open in a wall where
 there's no door, none unless she makes it: 
an ice-wall to be broken by hand. Northward
 in fact and in fact: 
 now her green eyes spend their sea-depth & glitter
 remotely; she's gone, who stays so strangely. 
And we--we look at each other: 
 'Where should this music be?'

Denise Levertov

quinta-feira, 28 de março de 2013

sobre a terra

Alberto Carneiro: Arte Vida / Vida Arte - Revelações de energias e movimentos da matéria
Fundação de Serralves, Porto 2013.


A tua primavera 
E depois morrer

Primavera, Vinicius de Moraes.

quarta-feira, 27 de março de 2013

sobre o mar

Toyo Ito, Barcelona.

Beija o solo teu jucundo
O oceano, a rugir d'amor

Henrique Lopes de Mendonça, 1890.

terça-feira, 26 de março de 2013

why the sea is boiling hot


só me faltavas tu para me faltar tudo,
as palavras e o silêncio, sobretudo este.

in palavras não,
ainda não é o fim nem o princípio do mundo. calma é apenas um pouco tarde (1974),
manuel antónio pina.

terça-feira, 19 de março de 2013

E à Arte o Mundo Cria



Thomas Steffl (*1970), Stills from »Naked Nation«, 2009, 3 channel video installation, 
Pinakothek der Moderne, Munich.

Seguro Assento na coluna firme 
Dos versos em que fico, 
Nem temo o influxo inúmero futuro 
Dos tempos e do olvido; 
Que a mente, quando, fixa, em si contempla 
Os reflexos do mundo, 
Deles se plasma torna, e à arte o mundo 
Cria, que não a mente. 
Assim na placa o externo instante grava 
Seu ser, durando nela.

Odes, Ricardo Reis.

segunda-feira, 18 de março de 2013

lobos são meu nome e minha sombra*

Deeparture (video), Mircea Cantor, 2005.

(...)
Os tempos estão muito enganados.
O país procurava as palavras. Sem saber
procurava um verso, soluçando uns 
números, perdia-se, perdia a voz. 
E então chegou o tempo dos poetas. 

Diogo Vaz Pinto, "Lobos"
in Bastardo, Lisboa: Averno, 2012

* Paul Éluard

sábado, 9 de março de 2013

ab imo pectore

Cho Duck Hyun (Korea), A Memory of 20th Century, 1993-95.

O sonho que é, o mundo em fim pareça.

in Nunc est bibendum, Vicente Guedes.

quinta-feira, 7 de março de 2013

utopia

Kazimir Malevich 'Steps' (1931)

pensar o outro lado do rio

quinta-feira, 28 de fevereiro de 2013

anatomia

new blind aesthetics, conrad shawcross.

este é o lugar onde junho lentamente se transforma numa chuva de saudade.
a cegueira infantil substitui
o anoitecer.
um dente, tardio, inesperado
na boca de sderot.
o que é meu eu reuno e destruo
como o calor
nas asas de um ventilador.
lâminas pequenas de pássaros
na carne azul espancada do horizonte.
o que é obrigado a mudar não muda;
alpendre eterno. a mãe traz de volta o seu olhar. perdido
até estas árvores, este jardim.
o que a luz calma corrói é consertado aqui
com pregos duros, as ruas
estão imóveis. é noite. eles estão mortos
como a erva, como todos
o espesso pico de crescimento
do verão.
"se soubesses a complexidade agonizante do ar que me permite
a viagem
e o seu retorno"
eu sei, mas
não tanto por paixão, nem
para a eternidade. mais por
ignorância, a ignorância
da incapacidade de perdoar.
mesmo agora
quando sob um céu queimado
todos os que eu amei ainda o são
um grande e forte vento que percorre as montanhas está preso nestes pulmões.
lentamente
eu
respiro.


Shimon Adaf
Prémio Shapir 2012

quinta-feira, 21 de fevereiro de 2013

O sol é grande, caem co'a calma as aves

Katarzyna Kozyra, The Rite of Spring (1999-2002).

Tudo é seco e mudo; e, de mestura,
também mudando-m'eu fiz doutras cores:
e tudo o mais renova, isto é sem cura!

Sá de Miranda

segunda-feira, 18 de fevereiro de 2013

Self-Portrait in a Convex Mirror

“Leave your change behind, 
Leave your clothes, and go. It is time now.
It was time before too, but now it is really time.
You will never have enjoyed storms so much 
As on these hot sticky evenings that are more like August 
Than September. Stay. A fake wind wills you to go 
And out there on the stormy river witness buses bound for Connecticut, 
And tree-business, and all that we think about when we stop thinking.
The weather is perfect, the season unclear. Weep for your going 
But also expect to meet me in the near future, when I shall disclose 
New further adventures, and that you shall continue to think of me.”


in Thank You For Not Cooperating
John Ashbery (1983)

segunda-feira, 10 de dezembro de 2012

quinta-feira, 25 de outubro de 2012

silêncio

da série I am de Manal Al Dowayan, 2009.

As nossas palavras estão mortas
Como a consciência dos tiranos
Eles nunca se banharam na fonte da vida,
nunca conheceram as dores do parto ou as feridas,
o milagre de caminhar sobre pontas de lança.

Sonhamos com um mundo livre de cadeias
Erguendo-se das nossas penas paralisadas
Uma estação de rosas
vai florir nos nossos corações que morrem
Sonhamos com um novo milagre
nascido das nossas penas

Quando um poeta corajoso tem medo de morrer
O seu melhor poema é o silêncio!

Silêncio, Ghazi al-Gosaibi.




sábado, 20 de outubro de 2012

o escuro

mario pascual, sem título 2010, saatchi gallery.

Eu sou nós os dois. 
Ou melhor, nós os dois somos nós os dois, eu sou o terceiro. 
Sou eu quem está a falar de nós.

Em prosa, provavelmente: o escuro. 
Nenhuma palavra e nenhuma lembrança.
Manuel António Pina, Assírio & Alvim, 1999.

sexta-feira, 19 de outubro de 2012

the blind spot



Christian Andersson - The Blind Spot, 2003/2006 
spotlight, tripé, caixa de luz, plexiglass, pintura | 170 x 60 cm.


o fim é que está em nós.
O fim é que está abaixo da nossa pele,
se acumulando em espirais
por cada canto do nosso corpo.
Até que transborde...

João Paulo Cuenca

quarta-feira, 10 de outubro de 2012

baggio

unidisplay, carsten nicolai 2012, hangarbicocca, milão.

de todas as luzes da estrada 
a noite da lombardia é a mais brilhante.
m é o início das estações
daqui voltaremos a todos os lugares.

segunda-feira, 1 de outubro de 2012

day after

doris salcedo, tate modern, 2008.

a cidade é um território de histórias iguais