quinta-feira, 18 de junho de 2015

Memória de Amor IV (Directas)


Não tínhamos nenhuma pressa. 
A paixão defendia-nos do tempo.
Voltávamos, eternos, para casa.

António Barahona, Pássaro-Lyra
Lisboa: Averno, 2015.

segunda-feira, 8 de junho de 2015

É belo de mais para morrer*

Catarina Domingues, Preto no Branco #3.

O que é belo de mais para morrer, não morre. Sobre ele, ela, isso, a morte não tem poder. E quando chega, só lhe reforça o sentido e o fulgor. O que é belo de mais para morrer conhece a morte, e sabe que ela não pode atingi-lo. A beleza é um antídoto para a morte. Traz em si mesma o seu destino, que é a escolha da sua verdade.

João Barrento, Como um hiato na respiração - Diário do Dia Seguinte, Lisboa: Averno, 2015

*Maria Gabriela Llansol, Caderno 1.62, p.62.

domingo, 31 de maio de 2015

Fico Aguardando Telegramas


fico aguardando telegramas, os azuis 
recados. 
os poderes da manhã já pouco duram. 
à superfície o som move na boca 

um pouco sopro. 
não julgues que me importam as roldanas 
do tempo no teu corpo 

são certos os abismos de cartão 
e falsa a neve que nos cobre os passos. 
de graça a terra nos dispõe na foto 
e a idade inventa nomes que a dissipem 

descobre-me impacientes os recados 
o envelope da urgência o intervalo 



António Franco Alexandre, in A pequena face, 1983.

quinta-feira, 21 de maio de 2015

Outra Coisa

Untitled, Mario Cesariny, 2004.

Apresentar-te aos deuses e deixar-te
entre sombra de pedra e golpe de asa
exaltar-te perder-te desconfiar-te
seguir-te de helicóptero até casa

dizer-te que te amo amo amo
que por ti passo raias e fronteiras
que não me chamo mário que me chamo
uma coisa que tens nas algibeiras

lançar a bomba onde vens no retrato
de dez anos de anjinho nacional
e nove de colégio terceiro acto

pôr-te na posição sexual
tirar-te todo o bem e todo o mal
esquecer-me de ti como do gato

in Poemas de Londres (1971), Mario Cesariny.

sexta-feira, 8 de maio de 2015

A Memória é um Silêncio que Espera

Ana Hatherly, o mar que se quebra (1998).
Centro de Arte Moderna, Fundação Calouste Gulbenkian.

O património do silêncio. Os livros acumulam-se pela casa. Cobrem as paredes, enchem as prateleiras dos armários. Aguardam-nos calados com suas páginas apertadas onde o pó e a humidade se infiltram. Disciplinados, exibem apenas o seu dorso curvo coberto de pele, ou então magro, estreito, de papel. A memória é um silêncio que espera, uma provação da paciência. 

Tisanas, Ana Hatherly

sábado, 2 de maio de 2015

esta espécie de coração

Ekaterina Panikanova

Ler, reflectir, relacionar conceitos, contemplar a obra, o outro e a nós mesmos... Os livros estão para nós como a cidade, as multidões e o mundo estão para o flâneur. Dão-nos novos fôlegos, entusiasmo, vida. Mas como defendemos que os livros sejam verdadeiramente livres, queremos partilhar com os outros "esta espécie de coração".

Manuel António Pina

sexta-feira, 17 de abril de 2015

terça-feira, 14 de abril de 2015

I carry your heart with me

Sarah Moon for Lanvin, Winter 2008. Issue #5.

I carry your heart with me(i carry it in
my heart)i am never without it(anywhere
i go you go,my dear; and whatever is done
by only me is your doing,my darling)
i fear
no fate(for you are my fate,my sweet)i want
no world(for beautiful you are my world,my true)
and it's you are whatever a moon has always meant
and whatever a sun will always sing is you

here is the deepest secret nobody knows
(here is the root of the root and the bud of the bud
and the sky of the sky of a tree called life;which grows
higher than the soul can hope or mind can hide)
and this is the wonder that's keeping the stars apart

i carry your heart(i carry it in my heart)

I carry your heart with me, e. e. cummings, 1952.

terça-feira, 7 de abril de 2015

Leitura

The Dead Tree Gives No Shelter, Betra Fraval.

Quando por fim as árvores 
se tornam luminosas; e ardem 
por dentro pressentindo; 
folha a folha; as chamas 
ávidas de frio: 
nimbos e cúmulos coroam 
a tarde, o horizonte, 
com a sua auréola incandescente 
de gás sobre os rebanhos. 

Assim se movem 
as nuvens comovidas 
no anoitecer 
dos grandes textos clássicos. 

Perdem mais densidade; 
ascendem na pálida aleluia 
de que fulgor ainda? 
e são agora 
cumes de colinas rarefeitas 
policopiando à pressa 
a demora das outras 
feita de peso e sombra. 

Carlos de Oliveira, Pastoral, 1977.

segunda-feira, 1 de dezembro de 2014

Ao volante do Chevrolet pela estrada de Sintra*

Convento da Santa Cruz (Convento dos Capuchos), Sintra 2014.

*Álvaro de Campos

quarta-feira, 15 de outubro de 2014

NÃO: Não quero nada.

Untitled, Ray Metzker, 1969.

E enquanto tarda o Abismo e o Silêncio quero estar sozinho!

Lisbon Revisited, Álvaro de Campos, 1923.

terça-feira, 2 de setembro de 2014

imagens


Aoi Yamaguchi

Ferida está a face dos livros pela luz.
O mundo é já sem rima.
Os versos sucedem-se sem ordem.
As ruínas são ameaçadas
pelo som de quem as devolve
somente como imagens
dentro de imagens.

depois da música, luis quintais, 2013.


domingo, 24 de agosto de 2014

procura

Domestic gathering, Blue Sky Days, Thomas van Houtryve.


deixar-te
igual às palavras que nos encontraram,
antes de nós.

tirar-te 
apenas, a teu pedido, sempre que seja 
noite, o medo do escuro.

sábado, 19 de julho de 2014

if i love you

Black Beauty, Lutz Bacher, Institute of Contemporary Art, London 2013.

if i love you
(thickness means
worlds inhabited by roamingly
stern bright faeries

if you love
me) distance is mind carefully
luminous with innumerable gnomes
Of complete dream

if we love each (shyly)
other, what clouds do or silently
flowers resembles beauty
less than our breathing

e.e. cummings

quarta-feira, 16 de julho de 2014

A thousand times good night!

1000 Times Good Night, Erik Poppe, 2013.

JULIET
Tomorrow I’ll send the messenger.

ROMEO
My soul depends on it

JULIET
A thousand times good night!

JULIET exits.

Romeo and Juliet, Act 2, Scene 2, William Shakespeare, 1597.

segunda-feira, 14 de julho de 2014

El Desierto

Desert,Vija Celmins, 1975. Tate Collection.

He venido al desierto pa' reirme de tu amor
Que el desierto es más tierno y la espina besa mejor

He venido a este centro de la nada pa' gritar
Que tú nunca mereciste lo que tanto quise dar

He venido yo corriendo, olvidándome de ti
Dame un beso pajarillo, no te asustes colibrí

He venido encendida al desierto pa' quemar
Porque el alma prende fuego cuando deja de amar

El Desierto, la Llorona, Lhasa de Sela, 1997.

domingo, 13 de julho de 2014

Tercer Movimiento (affettuoso)




Persona, Ingmar Bergman, 1966.

Para hacer el amor
debe evitarse un sol muy fuerte sobre los ojos de la muchacha,
tampoco es buena la sombra si el lomo del amante se achicharra
para hacer el amor.
Los pastos húmedos son mejores que los pastos amarillos
pero la arena gruesa es mejor todavia.
Ni junto a las colinas porque el suelo es rocoso ni cerca de las aguas.
Poco reino es la cama para este buen amor.
Limpios los cuerpos han de ser como una gran pradera: 
que ningún valle o monte quede oculto y los amantes podrán holgarse 
en todos sus caminos. 
La oscuridad no guarda el buen amor.
El cielo debe ser azul y amable, limpio redondo como un techo
y entonces la muchacha no verá el Dedo de Dios. Los cuerpos discretos 
pero nunca en reposo, 
los pulmones abiertos,
las frases cortas. 
Es dificil hacer el amor pero se aprende.

Agua que no hay que beber, Antonio Cisneros, 1996.

sexta-feira, 11 de julho de 2014

Nós

Buzios, Brazil, Elliott Erwitt, 1990.

Nada procuro
senão o sítio

onde atrasar o poema
e aquela sombra sem culpa

de quem leva ao coração
toda a luz que a mão espalha.

Os Desconhecidos, José Carlos Soares
Lisboa: Averno, 2012.

terça-feira, 8 de julho de 2014

esquece, não é nada

Saudades, Mella Shaw, 2013.

vi-te hoje, devagar, e reparei 
que o tempo passou 
depressa.
estar velho, afinal, é assim. tinha acontecido
 com tanta gente.
não me lembrava já que também haverias de envelhecer.
esperava-te imóvel 
naquele dia em que nos despedimos
num passeio, 
afastando, perfumados, 
os nossos braços dos contentores do lixo. 
trocando mensagens que tropeçavam no facto 
de serem as últimas. afinal, 
eram recados sobre qualquer coisa 
veloz.
esqueci-me lentamente deles e também de ti. é estranho 
como os dias podem ser diferentes. como as pessoas 
podem ser igualmente pessoas. sem nunca terem sido 
tão nada.

segunda-feira, 7 de julho de 2014

Domingo


‘Soldier playing with dead lizard’ Daniel Barroca, 2008. 8 channel installation.

Mesmo sendo Domingo o pior dia do mundo, já se sabe. Não será por acaso que a televisão passa comédias românticas. Deve certamente tratar-se de uma tentativa de nos pôr a chorar como desgraçados, ou a rir como patetas.

As gaivotas piavam longe. A atmosfera mais ou menos carregada de fim de Verão lá permitia que o som passasse pelos seus intervalos. E tudo parecia infinito daquela varanda.

Afinal, de súbito, o rapaz lembrou-se que tinha de aspirar a casa. As gaivotas calaram-se e o dia escondeu-se. A música parou. A doença da morte, de M. Duras, tinha vencido. A tristeza fez o favor de conduzir o automóvel.

A insustentável leveza do ser, Isabel Nogueira.
Lisboa, Artefacto, 2014.