domingo, 18 de outubro de 2015

cd

Carla Diakov, Abril 2015.

queria sondar o excêntrico intocável através do sangue da fulaninha
queria procriar e queria trucidar com a pressa do passo
lembra?
andávamos
sem a nós nos encontrar

ai meu amor que não chega
ai a melancolia no fundo do prato, anjo

aquieta essa boca
amanhã alguém morre no samba

Carla Diakov
Amanhã Alguém Morre no Samba, Douda Correria, 2015.

terça-feira, 4 de agosto de 2015

cantar

Herberto Helder. Paris, 1958.
Lourdes Castro. Todos os livros, 
Curadoria: Paulo Pires do Vale. 
Museu Gulbenkian 2015.

quarta-feira, 29 de julho de 2015

exílio

'Blackbird' (Celaeno), Michael Davidson, 2013.

Um dia de primavera no fim do mundo.
No fim do mundo, de novo o dia passa.
O melro chora, como se fossem as suas lágrimas
Que molham os ramos cimeiros das árvores.

Chuva Na Primavera E Outros Poemas, Li Shang-Yin
Assírio & Alvim, 2001.

terça-feira, 14 de julho de 2015

devagar, ausente


Tentas, de longe, dizer que estás aqui.
Com peso triste caminha na rua o Outono.
O meu coração debruça-se à janela
a ver pessoas e carros, e as folhas caíndo.

Mastigo esta solidão
como quando era pequeno e jantava
diante dos pais zangados:
devagar, ausente.

Fernando Assis Pacheco

segunda-feira, 13 de julho de 2015

Ítaca

Ítaca, oil and acrylic on canvas, 50x60 cm, Katsutomi Horiki, 2001-2006.

Quando abalares, de ida para Ítaca,
Faz votos por que seja longa a viagem,
Cheia de aventuras, cheia de experiências.
E quanto aos Lestrigões, quanto aos Ciclopes,
O irado Poséidon, não os temas,
Disso não verás nunca no caminho,
Se o teu pensar guardares alto, e uma nobre
Emoção tocar tua mente e corpo.
E nem os Lestrigões, nem os Ciclopes,
Nem o fero Poséidon hás­‑de ver,
Se dentro d'alma não os transportares,
Se não tos puser a alma à tua frente.

Faz votos por que seja longa a viagem.
As manhãs de verão que sejam muitas
Em que o prazer te invada e a alegria
Ao entrares em portos nunca vistos;
Hás­‑de parar nas lojas dos fenícios
Para mercar os mais belos artigos:
Ébano, corais, âmbar, madrepérolas,
E sensuais perfumes de todas as sortes,
E quanto houver de aromas deleitosos;
Vai a muitas cidades do Egipto
Aprender e aprender com os doutores.

Ítaca guarda sempre em tua mente.
Hás­‑de lá chegar, é o teu destino.
Mas a viagem, não a apresses nunca.
Melhor será que muitos anos dure
E que já velho aportes à tua ilha
Rico do que ganhaste no caminho
Não esperando de Ítaca riquezas.

Ítaca te deu essa bela viagem.
Sem ela não te punhas a caminho.
Não tem, porém, mais nada que te dar.

E se a fores achar pobre, não te enganou.
Tão sábio te tornaste, tão experiente,
Que percebes enfim que significam Ítacas.

Konstantínos Kaváfis

quinta-feira, 9 de julho de 2015

Ítaca

Marcella Tambuscio

Quando as luzes da noite se reflectirem imóveis nas águas verdes de Brindisi
Deixarás o cais confuso onde se agitam palavras passos remos e guindastes
A alegria estará em ti acesa como um fruto
Irás à proa entre os negrumes da noite
Sem nenhum vento sem nenhuma brisa só um sussurrar de búzio no silêncio

Mas pelo súbito balanço pressentirás os cabos
Quando o barco rolar na escuridão fechada
Estarás perdida no interior da noite no respirar do mar
Porque esta é a vigília de um segundo nascimento

O sol rente ao mar te acordará no intenso azul
Subirás devagar como os ressuscitados
Terás recuperado o teu selo a tua sabedoria inicial
Emergirás confirmada e reunida
Espantada e jovem como as estátuas arcaicas
Com os gestos enrolados ainda nas dobras do teu manto

Sophia de Mello Breyner Andresen
in Geografia, 1967.

terça-feira, 30 de junho de 2015

Heteroscedasticidade


Stefanus Rademeyer. Point Line Field, 2010.

quarta-feira, 24 de junho de 2015

II

Wind. Lauren Semivan. 2012
.
há apenas uma cortina de vento onde as palavras
nunca se moldaram

Maria Sousa, Mulher Ilustrada, Coimbra: «Do Lado Esquerdo», Janeiro de 2013.

quinta-feira, 18 de junho de 2015

Memória de Amor IV (Directas)


Não tínhamos nenhuma pressa. 
A paixão defendia-nos do tempo.
Voltávamos, eternos, para casa.

António Barahona, Pássaro-Lyra
Lisboa: Averno, 2015.

segunda-feira, 8 de junho de 2015

É belo de mais para morrer*

Catarina Domingues, Preto no Branco #3.

O que é belo de mais para morrer, não morre. Sobre ele, ela, isso, a morte não tem poder. E quando chega, só lhe reforça o sentido e o fulgor. O que é belo de mais para morrer conhece a morte, e sabe que ela não pode atingi-lo. A beleza é um antídoto para a morte. Traz em si mesma o seu destino, que é a escolha da sua verdade.

João Barrento, Como um hiato na respiração - Diário do Dia Seguinte, Lisboa: Averno, 2015

*Maria Gabriela Llansol, Caderno 1.62, p.62.

domingo, 31 de maio de 2015

Fico Aguardando Telegramas


fico aguardando telegramas, os azuis 
recados. 
os poderes da manhã já pouco duram. 
à superfície o som move na boca 

um pouco sopro. 
não julgues que me importam as roldanas 
do tempo no teu corpo 

são certos os abismos de cartão 
e falsa a neve que nos cobre os passos. 
de graça a terra nos dispõe na foto 
e a idade inventa nomes que a dissipem 

descobre-me impacientes os recados 
o envelope da urgência o intervalo 



António Franco Alexandre, in A pequena face, 1983.

quinta-feira, 21 de maio de 2015

Outra Coisa

Untitled, Mario Cesariny, 2004.

Apresentar-te aos deuses e deixar-te
entre sombra de pedra e golpe de asa
exaltar-te perder-te desconfiar-te
seguir-te de helicóptero até casa

dizer-te que te amo amo amo
que por ti passo raias e fronteiras
que não me chamo mário que me chamo
uma coisa que tens nas algibeiras

lançar a bomba onde vens no retrato
de dez anos de anjinho nacional
e nove de colégio terceiro acto

pôr-te na posição sexual
tirar-te todo o bem e todo o mal
esquecer-me de ti como do gato

in Poemas de Londres (1971), Mario Cesariny.

sexta-feira, 8 de maio de 2015

A Memória é um Silêncio que Espera

Ana Hatherly, o mar que se quebra (1998).
Centro de Arte Moderna, Fundação Calouste Gulbenkian.

O património do silêncio. Os livros acumulam-se pela casa. Cobrem as paredes, enchem as prateleiras dos armários. Aguardam-nos calados com suas páginas apertadas onde o pó e a humidade se infiltram. Disciplinados, exibem apenas o seu dorso curvo coberto de pele, ou então magro, estreito, de papel. A memória é um silêncio que espera, uma provação da paciência. 

Tisanas, Ana Hatherly

sábado, 2 de maio de 2015

esta espécie de coração

Ekaterina Panikanova

Ler, reflectir, relacionar conceitos, contemplar a obra, o outro e a nós mesmos... Os livros estão para nós como a cidade, as multidões e o mundo estão para o flâneur. Dão-nos novos fôlegos, entusiasmo, vida. Mas como defendemos que os livros sejam verdadeiramente livres, queremos partilhar com os outros "esta espécie de coração".

Manuel António Pina

sexta-feira, 17 de abril de 2015

terça-feira, 14 de abril de 2015

I carry your heart with me

Sarah Moon for Lanvin, Winter 2008. Issue #5.

I carry your heart with me(i carry it in
my heart)i am never without it(anywhere
i go you go,my dear; and whatever is done
by only me is your doing,my darling)
i fear
no fate(for you are my fate,my sweet)i want
no world(for beautiful you are my world,my true)
and it's you are whatever a moon has always meant
and whatever a sun will always sing is you

here is the deepest secret nobody knows
(here is the root of the root and the bud of the bud
and the sky of the sky of a tree called life;which grows
higher than the soul can hope or mind can hide)
and this is the wonder that's keeping the stars apart

i carry your heart(i carry it in my heart)

I carry your heart with me, e. e. cummings, 1952.

terça-feira, 7 de abril de 2015

Leitura

The Dead Tree Gives No Shelter, Betra Fraval.

Quando por fim as árvores 
se tornam luminosas; e ardem 
por dentro pressentindo; 
folha a folha; as chamas 
ávidas de frio: 
nimbos e cúmulos coroam 
a tarde, o horizonte, 
com a sua auréola incandescente 
de gás sobre os rebanhos. 

Assim se movem 
as nuvens comovidas 
no anoitecer 
dos grandes textos clássicos. 

Perdem mais densidade; 
ascendem na pálida aleluia 
de que fulgor ainda? 
e são agora 
cumes de colinas rarefeitas 
policopiando à pressa 
a demora das outras 
feita de peso e sombra. 

Carlos de Oliveira, Pastoral, 1977.

segunda-feira, 1 de dezembro de 2014

Ao volante do Chevrolet pela estrada de Sintra*

Convento da Santa Cruz (Convento dos Capuchos), Sintra 2014.

*Álvaro de Campos

quarta-feira, 15 de outubro de 2014

NÃO: Não quero nada.

Untitled, Ray Metzker, 1969.

E enquanto tarda o Abismo e o Silêncio quero estar sozinho!

Lisbon Revisited, Álvaro de Campos, 1923.

terça-feira, 2 de setembro de 2014

imagens


Aoi Yamaguchi

Ferida está a face dos livros pela luz.
O mundo é já sem rima.
Os versos sucedem-se sem ordem.
As ruínas são ameaçadas
pelo som de quem as devolve
somente como imagens
dentro de imagens.

depois da música, luis quintais, 2013.


domingo, 24 de agosto de 2014

procura

Domestic gathering, Blue Sky Days, Thomas van Houtryve.


deixar-te
igual às palavras que nos encontraram,
antes de nós.

tirar-te 
apenas, a teu pedido, sempre que seja 
noite, o medo do escuro.

sábado, 19 de julho de 2014

if i love you

Black Beauty, Lutz Bacher, Institute of Contemporary Art, London 2013.

if i love you
(thickness means
worlds inhabited by roamingly
stern bright faeries

if you love
me) distance is mind carefully
luminous with innumerable gnomes
Of complete dream

if we love each (shyly)
other, what clouds do or silently
flowers resembles beauty
less than our breathing

e.e. cummings

quarta-feira, 16 de julho de 2014

A thousand times good night!

1000 Times Good Night, Erik Poppe, 2013.

JULIET
Tomorrow I’ll send the messenger.

ROMEO
My soul depends on it

JULIET
A thousand times good night!

JULIET exits.

Romeo and Juliet, Act 2, Scene 2, William Shakespeare, 1597.

segunda-feira, 14 de julho de 2014

El Desierto

Desert,Vija Celmins, 1975. Tate Collection.

He venido al desierto pa' reirme de tu amor
Que el desierto es más tierno y la espina besa mejor

He venido a este centro de la nada pa' gritar
Que tú nunca mereciste lo que tanto quise dar

He venido yo corriendo, olvidándome de ti
Dame un beso pajarillo, no te asustes colibrí

He venido encendida al desierto pa' quemar
Porque el alma prende fuego cuando deja de amar

El Desierto, la Llorona, Lhasa de Sela, 1997.

domingo, 13 de julho de 2014

Tercer Movimiento (affettuoso)




Persona, Ingmar Bergman, 1966.

Para hacer el amor
debe evitarse un sol muy fuerte sobre los ojos de la muchacha,
tampoco es buena la sombra si el lomo del amante se achicharra
para hacer el amor.
Los pastos húmedos son mejores que los pastos amarillos
pero la arena gruesa es mejor todavia.
Ni junto a las colinas porque el suelo es rocoso ni cerca de las aguas.
Poco reino es la cama para este buen amor.
Limpios los cuerpos han de ser como una gran pradera: 
que ningún valle o monte quede oculto y los amantes podrán holgarse 
en todos sus caminos. 
La oscuridad no guarda el buen amor.
El cielo debe ser azul y amable, limpio redondo como un techo
y entonces la muchacha no verá el Dedo de Dios. Los cuerpos discretos 
pero nunca en reposo, 
los pulmones abiertos,
las frases cortas. 
Es dificil hacer el amor pero se aprende.

Agua que no hay que beber, Antonio Cisneros, 1996.

sexta-feira, 11 de julho de 2014

Nós

Buzios, Brazil, Elliott Erwitt, 1990.

Nada procuro
senão o sítio

onde atrasar o poema
e aquela sombra sem culpa

de quem leva ao coração
toda a luz que a mão espalha.

Os Desconhecidos, José Carlos Soares
Lisboa: Averno, 2012.

terça-feira, 8 de julho de 2014

esquece, não é nada

Saudades, Mella Shaw, 2013.

vi-te hoje, devagar, e reparei 
que o tempo passou 
depressa.
estar velho, afinal, é assim. tinha acontecido
 com tanta gente.
não me lembrava já que também haverias de envelhecer.
esperava-te imóvel 
naquele dia em que nos despedimos
num passeio, 
afastando, perfumados, 
os nossos braços dos contentores do lixo. 
trocando mensagens que tropeçavam no facto 
de serem as últimas. afinal, 
eram recados sobre qualquer coisa 
veloz.
esqueci-me lentamente deles e também de ti. é estranho 
como os dias podem ser diferentes. como as pessoas 
podem ser igualmente pessoas. sem nunca terem sido 
tão nada.

segunda-feira, 7 de julho de 2014

Domingo


‘Soldier playing with dead lizard’ Daniel Barroca, 2008. 8 channel installation.

Mesmo sendo Domingo o pior dia do mundo, já se sabe. Não será por acaso que a televisão passa comédias românticas. Deve certamente tratar-se de uma tentativa de nos pôr a chorar como desgraçados, ou a rir como patetas.

As gaivotas piavam longe. A atmosfera mais ou menos carregada de fim de Verão lá permitia que o som passasse pelos seus intervalos. E tudo parecia infinito daquela varanda.

Afinal, de súbito, o rapaz lembrou-se que tinha de aspirar a casa. As gaivotas calaram-se e o dia escondeu-se. A música parou. A doença da morte, de M. Duras, tinha vencido. A tristeza fez o favor de conduzir o automóvel.

A insustentável leveza do ser, Isabel Nogueira.
Lisboa, Artefacto, 2014.

quarta-feira, 2 de julho de 2014

lanterna surda

I Died in a Good Mood, Sophie Calle, 2013.


Os ausentes sopram e a noite é densa. A noite tem a cor
das pálpebras do morto.
Toda a noite faço a noite. Toda a noite escrevo. Palavra
a palavra eu escrevo a noite.

Alejandra Pizarnik
versões de Maria Sousa, Coimbra, Do lado esquerdo, 2014.

domingo, 29 de junho de 2014

sementes

Domain XXXIV, Antony Gormley, 2003.

Este é o meu corpo. Esta é a minha mente.
Conhecem-se desde a infância e cumpriram pena juntos.

Do futuro nada sei. Apenas que vem aí.

Sementes, Segunda Voz, Vitor Nogueira, 2014.

sábado, 28 de junho de 2014

Silence

Zambezi River Sunrise 3, Carl Rittenhouse, 2011.

Today the river slinks like oil,
Hardly a current in its mud
As autumn leaves crawl on its face.

I left them in their blinding talk
To meet adopted path and sky,
And bend the grass for light and space.

Here I can hold the air with birds,
Still, solitary in their flight
Without men's calculated race.

Now only sun and water rule
Unchallenged over silent pain:
And the burst cry of a grey swan.

Lotte Kramer

quinta-feira, 26 de junho de 2014

Lírios

Lilacs and champagne, Akila Fields, Portland 2014.

Um dia deixarei para sempre o casaco no cabide da entrada
outras mãos que não as minhas haverá para o recolher
outros olhos pelos meus lhe hão-de fitar depois a ausência.
Depois, nem isso.
Há um momento em que se estende a toalha sobre a mesa dos mortos
como se tivesse sido sempre a mesa dos vivos. Esse dia virá.
Tudo então estará certo e limpo como o esquecimento.
Ou quase assim.

Dispo agora toda esta roupa e escrevo
- sem frio nem perda nem desastre -
a partir desse dia que virá, esse dia depois de mim:

lírios crescem no acaso da relva
uma leve poeira se acrescenta no ar que não respiro.

Matéria, Rosa Maria Martelo, Averno 2014.

segunda-feira, 23 de junho de 2014

Remember

s/ título, Tal Shochat, 2007.

Lembro, em primeiro plano,
tua estatura de planta
e recomeço a esculpir-te
em miolo de pão, pétala a pétala.

Remember, Maçãs de espelho, António Barahona
Língua Morta, Lisboa 2012.

sexta-feira, 20 de junho de 2014

pedro

Hans Peter Feldmann 2 Contemporary Art Exhibition Displaying 100,000 $1 bills at Guggenheim Museum
100,000 $1 bills, Hans-Peter Feldmann, Guggenheim Museum NY, 2010.

A identidade é um equívoco 
para camuflar o coração.

Identidade, in Duplo Império, Pedro Mexia, 1999.

quarta-feira, 18 de junho de 2014

Desmembramento de um semicírculo


Certo que nos dedicamos
a místicas peregrinações.
Exercitamos a respiração,
lutamos brigas orientais,
praticamos uma e sete vezes
a tradução do poema chileno.
Mas no fundo sabemos
que o que importa mesmo
é roçar a superfície negra
da pele do peito do anjo
que está vivo
que não dorme.

Matilde Campilho

segunda-feira, 16 de junho de 2014

E por vezes

Fog at sea, Fabio Keiner.

E por vezes as noites duram meses
E por vezes os meses oceanos
E por vezes os braços que apertamos
nunca mais são os mesmos. E por vezes

encontramos de nós em poucos meses
o que a noite nos fez em muitos anos
E por vezes fingimos que lembramos
E por vezes lembramos que por vezes

ao tomarmos o gosto aos oceanos
só o sarro das noites não dos meses
lá no fundo dos copos encontramos

E por vezes sorrimos ou choramos
E por vezes por vezes ah por vezes
num segundo se evolam tantos anos.

E por vezes, Matura Idade
David Mourão Ferreira, 1973.

domingo, 1 de junho de 2014

istanbul

Carmen Kass & Audrey Marnay, Hussein Chalayan, NY,1998.

Ao partir, ficam-me coisas por acabar,
ao partir.
Salvei a gazela da mão do caçador
mas continuou desmaiada, sem recuperar os sentidos.
Colhi a laranja do ramo,
Mas não consegui tirar-lhe a casca.
Reuni-me com as estrelas,
mas não as consegui contar.
Tirei a água do poço
mas não pude servi-la nos copos.
Coloquei as rosas na bandeja,
mas não pude esculpir as taças de pedra.
Não saciei os meus amores.
Ao partir, ficam-me coisas por acabar,
ao partir.

Nazim Hikmet, 1959.

terça-feira, 27 de maio de 2014

Era a Memória Ardente a Inclinar-se

PdM, M 2014.

Era a memória ardente a inclinar-se 
à giesta do tempo por frescura 
mas o que em seu espelho se figura 
vê que está só e a mesma dor foi dar-se 

noite e dia e silente de amargura 
uma saudade em febre o viu queimar-se 
até vir por um "sim" a consolar-se 
e do perdão mudo hino lhe assegura 

levando imagens e sinais de vez 
O olhar liberto penetrou no assento 
do alto luto onde da palidez 

dos invernos se erguia outro rebento 
de cálices que embalam as sementes 
dando ao nome louvado descendentes. 

Walter Benjamin, in "Sonetos" 
Tradução de Vasco Graça Moura

sexta-feira, 23 de maio de 2014

(quase) em casa, amor

Home, Miler Lagos, New York, 2011.

Regresso devagar ao teu 
sorriso como quem volta a casa. Faço de conta que 
não é nada comigo. Distraído percorro 
o caminho familiar da saudade, 
pequeninas coisas me prendem, 
uma tarde num café, um livro. Devagar 
te amo e às vezes depressa, 
meu amor, e às vezes faço coisas que não devo, 
regresso devagar a tua casa, 
compro um livro, entro no 
amor como em casa. 

Amor como em casa, Manuel António Pina

quarta-feira, 7 de maio de 2014

The burial of the dead

Gary Hill, Withershins, ICA, Philadelphia.

April is the cruellest month, breeding 
Lilacs out of the dead land, mixing 
Memory and desire, stirring 
Dull roots with spring rain. 
Winter kept us warm, covering 
Earth in forgetful snow, feeding 
A little life with dried tubers. 
Summer surprised us, coming over the Starnbergersee 
With a shower of rain; we stopped in the colonnade, 
And went on in sunlight, into the Hofgarten, 
And drank coffee, and talked for an hour. 
Bin gar keine Russin, stamm’ aus Litauen, echt deutsch. 
And when we were children, staying at the archduke’s, 
My cousin’s, he took me out on a sled, 
And I was frightened. He said, Marie, 
Marie, hold on tight. And down we went. 
In the mountains, there you feel free. 
I read, much of the night, and go south in the winter.

The Waste Land, T. S. Elliot, 1922.



segunda-feira, 28 de abril de 2014

che questo romanzo abbia inizio

La grande bellezza, Paolo Sorrentino, 2013.

Voyager, c’est bien utile, ça fait travailler l’imagination. Tout le reste n’est que déception et fatigues. Notre voyage à nous est entièrement imaginaire. Voilà sa force.
Il va de la vie à la mort. Hommes, bêtes, villes et choses, tout est imaginé. C’est un roman, rien qu’une histoire fictive. Littré le dit, qui ne se trompe jamais.
Et puis d’abord tout le monde peut en faire autant. Il suffit de fermer les yeux.
C’est de l’autre côté de la vie.


Voyage au bout de la nuit, Louis-Ferdinand Céline, 1932.

domingo, 20 de abril de 2014

la société est illisible

Liu Bolin, Camouflage, 2008

Il y a désormais, réellement, 
des gens dont la condition est invisible

Pierre Rosanvallon

quinta-feira, 17 de abril de 2014

On the Beach



On the Beach, Stanley Kramer, 1959.
On the Beach, Museum of Contemporary Art of San Diego, 2014.

'Cause the world is turnin',
I don't want to
see it turn away.

On the Beach, Neil Young, 1974.

segunda-feira, 31 de março de 2014

Cava

Brian Dettmer, 2005.

Livros que suportam tudo, até a estante.
O gozo da poesia como uma faca
afiando os dedos.
Uma mão que segura pelas pontas
a possibilidade de alguns gestos.
Folhas que num tempo adiantado
impõem silêncio e outra vez
a vénia, a veia, a cova.

Cava, Marta Chaves
Telhados de Vidro nº18, Lisboa, Averno 2013.


segunda-feira, 17 de março de 2014

Trapped



Lyonel Feininger, 1940-1950.

don't undress my love
you might find a mannequin:
don't undress the mannequin 
you might find
my love. 
she's long ago
forgotten me. 
she's trying on a new
hat 
and looks more the 
coquette
than ever.

she is a
child
and a mannequin
and death. 
I can't hate 
that. 
she didn't do
anything 
unusual. 
I only wanted her
to.

Charles Bukowski

terça-feira, 11 de março de 2014

Come rain or come shine

Robert Heinecken. Are You Rea #1. 1964–68

No fundo, é isto: espera-se.
Escrevemos incuravelmente
a história dessa espera, mas
nunca se chega ao fim da rua
mais escura do passado,
nem se despe por completo o luto,
sempre outros os mortos, sempre igual a si
a morte.

Inês Dias, Em caso de tempestade este jardim será encerrado,
Lisboa: Tea For One, 2011.

quarta-feira, 26 de fevereiro de 2014

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Prabhakar Pachpute, 31ª Bienal de São Paulo, 2014.

sábado, 22 de fevereiro de 2014

The Grail



Swimming Pool, Leandro Erlich.

Here are your waters and your watering place. 
Drink and be whole again beyond confusion.

Directive, Robert Frost.

quinta-feira, 6 de fevereiro de 2014

um monte de terra

Erdhüegel. Lois Weinberger, 1994-2010.

um dia, abandonei um livro num banco do jardim botânico.
ninguém o leu.
hoje, pousei um lenço num monte de terra.