logo no início do voo de regresso a lisboa tento recuperar, sem êxito, algum tempo de sono. quando atravessamos os extracto-cúmulos bávaros aparece de novo o sol e é dia outra vez. pergunta o passageiro do lado: ainda é dia em lisboa? respondo afirmativamente e explico que quando chegarmos já não será e ainda bem porque prefiro aterrar à noite. a conversa começa no fascínio da noite em lisboa, passa por vinho, fado, desviamo-nos de fátima mas, tropeçamos no futebol, continuamos com literatura e assim atingimos a altitude de cruzeiro. fico a saber que h. trabalha na embaixada de portugal em sarajevo. h. é bósnio e tem uma paixão por portugal que só vi em jorge de sena ou eduardo lourenço. fala do memorável espectáculo de maria joão e mário laginha em sarajevo. vem a portugal para convencer bernardo sassetti e cristina branco a irem a sarajevo. aproveita para gozar três dias de férias que ainda não experimentou este ano. o brilho nos olhos dele não vou esquecer tão cedo. quando o pessimismo recebe prémios, os olhos de h. são malditos. a meio da conversa cumprimentamo-nos e anunciamos os nomes. distraio-me naquele momento num tique que me revolta. devia concentrar toda a minha atenção quando alguém me diz o nome, mas não consigo. é uma maldição. a minha atenção à conversa volta quando ele menciona a palavra lipizzaner. tem uma égua lipizzaner. tenta explicar-me o fundamento genético para haver seis espécies de éguas lipizzaner e apenas uma de machos. perde-se na explicação e eu não valorizo isso. pergunta-me se gostaria de visitar lipizza. demoro-me a procurar coincidências. de repente, este h. parece-me hundertwasser enquanto jovem. quando aterramos na portela, trocamos contactos e promessas de notícias. talvez uma visita, um dia, quem sabe?
depois, partiu ao encontro da rapariga que o esperava com um vinho tinto especial que como ele tanto esperou para respirar o ar de lisboa.
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